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B- Beyaz Belge

Vimos no capítulo anterior que a contribuição de sociólogos e antropólogos aos estudos das festas evidencia o caráter imprescindível dessas manifestações, seja para o homem enquanto um ser diferenciado e específico que ritualiza e celebra momentos da vida, seja para as culturas que necessitam pontuar intervalos na vida cotidiana para as demonstrações públicas de coesão, ruptura e identidade coletiva.

Agora, neste capítulo, vamos abordar a contribuição dos historiadores, situando o debate no contexto da conformação festiva do Brasil. Destacamos que o prisma analítico das festas em seu eixo cronológico e geográfico nos permite entender a duração e a transformação dos significados das manifestações festivas e, o que é mais importante para este estudo, evidenciar que é no encontro temporal entre as velhas e as novas gerações que a transmissão da cultura se processa.

Muitas manifestações presentes em nossa sociedade hoje têm origem no período colonial, quando europeus e africanos que para cá vieram trouxeram na bagagem elementos culturais e festivos, que ao longo do tempo foram sendo incorporados, adaptados e reinterpretados pela população local. Dentro deste contexto, Minas Gerais se destaca e torna- se um bom exemplo da realização de festas, principalmente no apogeu da era mineradora, quando o barroco inspirava a suntuosidade social e os festejos coloniais exprimiam a riqueza das pessoas de posse e dos nobres que viviam na região. Neste tempo a realização de festas simbolizava, muitas vezes, o poder dos endinheirados e agentes do governo português, reafirmando o poder do Estado em uma sociedade que, apesar de marcada pela desigualdade, exibia e esbanjava a riqueza de alguns por ocasião das festas:

O que durante séculos foi uma constante ganhou nova magnitude na América portuguesa quando a descoberta do ouro em Minas representou um novo momento do processo colonizador, correspondendo à plenitude do regime de festividades barrocas nos principais centros urbanos de então (JANCSÓ & KANTOR apud PEREZ, 2008, p. 3).

A festa, neste período, era importante na medida em que estruturava a sociedade, reafirmava e consolidava os instrumentos do mando, e mostrava, ao mesmo tempo, o lugar social subordinado daqueles que não faziam parte dele. Desta maneira, reforçavam a

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hierarquia e exaltavam posições sociais, na exibição de luxo e opulência que somente as festas coloniais podiam exprimir: “sob a batuta do Estado Moderno, essas festividades passam a ser a expressão de uma cultura dirigida, conservadora e, no caso do Brasil colônia, urbana” (PRIORE, 2000, p. 15). As famílias e os grupos sociais podiam assim reafirmar “nas festas públicas seu lugar na cidade e na sociedade política” brasileira (PRIORE apud PEREZ, 2008, p. 3).

A presença nessas festas da população carente da sociedade funcionava também, para o rei, como instrumento de domínio, de modo a alegrar os explorados por um breve momento, para que pudesse mantê-los sobre seu controle o resto do ano. Como forma de preservar o sistema absolutista vigente, a festa barroca funcionava “como prática de poder”, pois:

não só deixava o cotidiano em suspenso como tornava mais suportável o trabalho e as penalidades impostas aos que se submetiam ao Estado metropolitano. Espelho das formas modernas de governo, ela era um meio de fixação política e manifestação do poder crescente do Estado português (PRIORE, 2000, p. 15).

No entanto, se para os ricos e poderosos a festa era usada para controlar a população e dizer a todos o lugar social ocupado por cada um no Brasil colônia, por outro lado ela era feita da mistura de corpos de negros, brancos e índios, que viam nela não somente uma fuga da rotina, mas também uma forma de se expressarem através da dança, da música e da fé que eram constituintes de uma identidade popular. A festa colonial mostrava-se, desta forma, sincrética, sendo tênue a separação entre o popular e o erudito. A presença do povo se fazia ao lado de nobres e militares, em uma mistura de sons e estilos, que apesar de afirmar as discrepâncias entre o “populacho” e os donos do poder, mostrava, ao mesmo tempo, o crescimento de um país que há muito já havia nascido miscigenado.

De acordo com Laura de Mello e Souza, nas minas setecentistas as “festas sempre se faziam anunciar”, sendo suas representações motivadas tanto pela religião quanto pelo Estado, já que nessa época, governo e religião ainda não constituíam instâncias claramente separadas (SOUZA, 2001, p. 186/187). Segundo a autora:

As festas religiosas de 1733 e 1748 celebram a sociedade mineira no seu momento de apogeu, priorizando-o e apontando para o inicio da derrocada aurífera. Quando a crise prenunciava tempos de tensão social mais intensa, a festa celebrava o congraçamento e a harmonia, pondo na rua, ombro a ombro (as diversas classes) sociais. Por outro lado a festa sugeria que aquela era a

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ordem não apenas por vontade dos homens, mas também por desígnio divino (SOUZA, 2001, p. 194).

Outra característica importante das festas coloniais, herdadas pela nossa sociedade atual, é a necessidade do exagero, que Brandão já havia nos anunciado: festa é a exarcebação do nosso dia a dia. Para o autor, as nossas festas guardam essa semelhança com o período colonial, em que nas mais variadas celebrações “os mesmos comportamentos e as mesmas relações entre as pessoas são exagerados”: “o que se come sempre come-se agora, muito mais (...); o que se bebe bebe-se muito mais e em nome de alguma coisa que mereça o gasto e a ressaca (...); o que se fala, canta e dança é enunciado por mais tempo e com bastante mais prazer e fervor” nos dias de festa (Brandão, 1989:10). Esta necessidade exagerada da festa era explicitada também pela sua freqüência. O excesso era, portanto, característico de um país que a tudo celebrava:

De Jean de Lery a Saint-Hilaire duas coisas sempre espantaram a todos os viajantes europeus não-ibéricos que por algum tempo vieram conviver conosco a aventura do Brasil. Primeira: havia sempre festas, o tempo todo, por toda parte e por todos os motivos. Segunda: ao contrário do que começou a ocorrer na Europa após a Reforma Protestante e a Contra- Reforma, as cerimônias religiosas da igreja no Brasil eram desbragadamente festivas e misturavam tudo e todos, de uma maneira impensável na França ou na América do Norte (BRANDÃO, 1989, p. 14).

Não por menos ficavam as festas realizadas pelos “desclassificados” das minas, negros escravos e forros, que pela intervenção das irmandades e confrarias, realizavam cerimônias pomposas e fartas, num espetáculo de praça digno dos palácios europeus. 9 Segundo Mary Del Priore era por ocasião das festas que estas entidades podiam mostrar “toda sua força vital” através da exibição de luzes e fogos, indumentárias e carros alegóricos, músicos e dançarinos que faziam da celebração de sua religiosidade um verdadeiro “carnaval de fé” (PRIORE, 2002, p. 42). Em um misto de crença e profanação, estas festas serviam ao mesmo tempo para demonstrar “o imenso prestígio social (...) das autoridades religiosas” e divertir a sociedade colonial através das “serenatas”, “cavalhadas e touradas”. A autora enfatiza ainda que esses mesmos festejos possuíam, sobretudo, importante papel social:

9 Segu do Ma Del P io e, as o f a ias o B asil ol ia s o o igi ias da t adiç o edieval o o as confrarias portuguesas (...). As irmandades brasileiras distinguiam-se (segundo a autora) por dar maior importância às categorias raciais e sociais, não se organizando em torno de afinidades profissionais (irmandade de sapatei os, o f a ia de a pi tei os, et o o e Po tugal . E países o o o B asil o de vigo ou o sistema escravista e a hierarquização em função de raças, predominaram as confrarias étnicas (Priore, 2002, p. 38).

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o dia de festa revelava (...) o quanto o cativeiro dos escravos africanos era desumano. Para esses homens e mulheres, era o dia de interrupção do trabalho forçado, o dia de presságio de libertação. (...) Para os escravos, a festa era uma vitória contra a escravidão, pois lhes permitia aliviar-se do cativeiro, reencontrar laços étnicos e tribais, tecer redes de solidariedade (PRIORE, 2002, p. 44/45).

As festas coloniais anunciavam os homens. Quanto mais alegorias e enfeites nas ruas e casas, mais abastadas e dignas eram consideradas as pessoas. Havia muito brilho e esplendor por onde se passava nos dias festivos. As pessoas vestiam suas melhores roupas, enfeitavam suas janelas, acendiam velas e luminárias e comemoravam a festa do divino, o aniversário do rei ou a colheita abastada. Tudo se fazia pela festa. Religiosa ou profana, ela era também uma forma de os grupos desfavorecidos se expressarem através de suas danças, raças e cores. Sua realização simbolizava ainda a redenção dos dias de trabalho, a forma de contenção governamental, a saciedade pelo exagero.

Atualmente, elas “se renovam como espaços típicos de lazer, preservando sua natureza diversional e ao mesmo tempo permanecendo hibridamente fincadas nas suas raízes populares” (MELO, 2002, p. 1).

Hoje, como ontem e anteontem, o povo se diverte a seu modo, motivando e modificando seus folguedos, mas aguardando, invariavelmente, o prestígio da tradição, a evocação dos seus heróis e dos grandes feitos, mesclando as crenças religiosas com o espírito cívico, aglutinando os vários elementos folclóricos com a realidade e produzindo esse quadro imenso, irregular e variado da sua diversão, na qual mescla a ternura, a hilaridade, a bravura (ALMEIDA apud MELO, 2002, p. 1).