2. KURAMSAL ÇERÇEVE
2.5. BENLİK ALGISI
Alguns autores16 consideraram que o termo ideologia apareceu, pela primeira vez, em 1801, na obra “Eléments d`Idéologie”, do filósofo Destutt de Tracy.
Destutt de Tracy, juntamente com Cabanis, De Gerando e Volney, segundo Althusser (2003) e Chauí (2006), pretendia elaborar uma ciência da gênese das idéias.
Konder (2002) indicou que o raciocínio de Destutt de Tracy resumir-se-ia no fato de que as pessoas agem de acordo com os seus conhecimentos, que são organizados a partir de suas idéias. Desta maneira, ao atingir os elementos
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sensoriais que constituíam as idéias (em sua base), teriam a possibilidade de entendimento e da criação de um ambiente melhor para viver.
É nessa medida que Destutt de Tracy (apud Chauí, 2006) elaborou uma teoria sobre as faculdades sensíveis que, para ele, seriam responsáveis por todas as nossas idéias: vontade, razão, percepção e memória.
Para Destutt de Tracy, de acordo com Löwy (1995), a ideologia consistia no estudo científico das idéias, enquanto que estas seriam o resultado da interação entre os organismos vivos e o meio ambiente.
Chauí (2006) assinalou que Destutt fazia parte de um grupo de pensadores, conhecidos como ideólogos franceses. Eles eram antiteológicos, antimetafísicos e antimonárquicos. Foram partidários de Napoleão Bonaparte e apoiaram o golpe do 18 Brumário17, pois acreditavam que ele daria continuidade aos ideais da Revolução Francesa. Logo se decepcionaram com Napoleão Bonaparte, vendo nele o restaurador da monarquia, que tanto criticavam.
Diversos autores concordam que o termo ideologia assumiu um sentido negativo, em decorrência de uma declaração feita por Napoleão Bonaparte, como se lê abaixo:
Todas as desgraças que afligem a nossa bela França devem ser
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Em 10 de novembro de 1799, Napoleão assumiu o governo da França, por meio de um golpe de Estado – o golpe do 18 Brumário. Este golpe teve início no dia 09 de novembro, que representava o 18º. dia do “Mês das Brumas”, no calendário instituído pela revolução. Por esta razão, ficou conhecido como o golpe do 18 Brumário. Napoleão Bonaparte retornou à França em 1799, após ter abandonado as tropas que estavam sobre o seu comando, numa campanha militar contra os ingleses, no Egito. Naquele momento, a França enfrentava ameaças internas (levantes populares) e externas (ataque de países). Uma parte da alta burguesia buscava estabelecer um governo forte, estável e via, em Napoleão, um líder capaz de concretizar seus projetos. Ele desfrutava também de prestígio junto à população, em decorrência de suas vitórias militares. Com o golpe, o Diretório (responsável pelo Poder Executivo) foi substituído por três cônsules, que elaboraram uma nova constituição, pela qual Napoleão assumiu o posto de primeiro cônsul. Subindo ao poder após o golpe do 18 Brumário, Napoleão governou a França de 1799 a 1814, quando foi deposto e obrigado a exilar-se. Retornou ao governo durante os “100 dias”, de março a junho de 1815, sendo então definitivamente deposto.
atribuídas à ideologia, essa tenebrosa metafísica que, buscando com sutilezas as causas primeiras, quer fundar sobre suas bases a legislação dos povos, em vez de adaptar as leis do conhecimento do coração humano e às lições de história. (CHAUÍ, p. 24).
Os jornais e revistas da época, de acordo com Löwy (1995), veiculavam o sentido negativo atribuído, por Napoleão, aos ideólogos e à ideologia. Desta maneira, esclareceu que esta teria sido a razão de Marx e Engels, em “A ideologia alemã” terem retomado o sentido napoleônico do termo.
Para Bottomore (2001), duas vertentes do pensamento filosófico crítico influenciaram o conceito de ideologia de Marx e Engels - a crítica desenvolvida pelo materialismo francês e por Feuerbach e a crítica da epistemologia tradicional e a revalorização da atividade do sujeito, realizada tanto pela filosofia alemã da consciência, quanto por Hegel.
O autor afirma que o conceito de ideologia de Marx e Engels, desde seu início, apresentava uma conotação negativa e crítica, uma vez que procurava mostrar a relação entre formas “invertidas” de consciência e a existência material dos homens. Ressalta ainda a importância de se acompanhar o conceito de ideologia dentro do contexto das diversas fases intelectuais de Marx e das releituras feitas por autores como Althusser, Lênin, Gramsci, entre outros.
Althusser (2003), ao expor seu projeto de elaboração de uma teoria da ideologia, estabeleceu a distinção entre as ideologias particulares e a ideologia em geral. As ideologias particulares exprimiriam posições de classe (política, jurídica, religiosa, moral) e teriam uma história – cuja determinação se dava pela luta de classes. A ideologia em geral, por sua vez, não tinha história. Para o autor, este fato não deveria ser interpretado em um sentido negativo, como se a história estivesse fora dela. Na verdade, entendia que isso conferia um sentido positivo, uma vez que
a estrutura e o funcionamento da ideologia permaneciam imutáveis em toda história, fazendo dela uma realidade omni – histórica. Dito de outro modo, ela seria eterna, onipresente.
A teoria da ideologia de Althusser repousa sobre duas teses. A primeira é que “a ideologia representa a relação imaginária dos indivíduos com suas condições reais de existência”. Para elucidar tal tese, disse que as ideologias (jurídica, política, moral) eram comumente tidas como “concepções de mundo”, no sentido de que eram imaginárias e não correspondiam à realidade. Ressaltou, porém, que ao admitirmos que estas se referiam à realidade, já que tinham significado para algumas pessoas, bastaria interpretar tais concepções para encontrar, sob a sua representação imaginária do mundo, a própria realidade do mundo. A ideologia passaria a ser, portanto, uma dialética entre ilusão e alusão.
O autor refere que não era o sistema de relações reais que governam a existência dos homens que estava representado na ideologia, mas a relação imaginária deles com as relações reais sob as quais vivem.
A segunda tese é a de que “A ideologia tem uma existência material”. Isso significa que as idéias de um sujeito só podem ter existência em seus atos, que estão inseridos em práticas. Essas, por sua vez, são reguladas por rituais materiais, nos quais essas práticas mesmas se inserem. De acordo com Althusser (2003), estes rituais são definidos, em última instância, por um aparelho ideológico18
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Althusser considerou que o aparelho de Estado compreendia o aparelho repressivo do Estado e os aparelhos ideológicos de Estado. O aparelho repressivo do Estado funcionaria predominantemente através da ideologia e secundariamente pela ideologia. Teria o papel de assegurar as condições políticas de reprodução das relações de produção. Contribuiria para se reproduzir e garantir, a partir da repressão, as condições políticas do exercício dos aparelhos ideológicos de Estado. Os aparelhos ideológicos de Estado funcionariam predominantemente pela ideologia e secundariamente pela repressão, fosse esta dissimulada, atenuada ou simbólica.
(mesmo que numa pequena parte deste – por exemplo: uma missa, um enterro, uma reunião de partido político, etc.).
Com relação ao funcionamento da ideologia, Althusser (2003) diz que este poderia ser localizado em um jogo de dupla constituição: a categoria de sujeito seria constitutiva de toda ideologia, mas ao mesmo tempo não seria – haja vista que toda ideologia tem por função “constituir” indivíduos concretos em sujeitos.
O efeito característico de toda ideologia seria o de impor evidências, ou seja, tornar as coisas evidentes para o sujeito, sem parecer fazê-lo. Conforme o autor pontuou:
Como todas as evidências, inclusive as que fazem com que uma palavra designe uma coisa, ou possua um significado (portanto inclusive as evidências da “transparência” da linguagem), a evidência de que vocês e eu somos sujeitos – e até aí que não há problema – é um efeito ideológico, o efeito ideológico elementar (p. 94).
Quando o sujeito reconhece algo como evidente, cumpre-se uma das funções da ideologia, denominada de reconhecimento ideológico.
Ao discorrer sobre os rituais de reconhecimento ideológico, que nos garantem que somos sujeitos (concretos, individuais, insubstituíveis), Althusser (2003) exemplificou, dizendo que, ao encontrarmos um conhecido na rua, demonstramos que o reconhecemos (e que reconhecemos que ele nos reconheceu), apertando-lhe a mão. Nessa medida, indicou que podemos ter consciência de nossa prática de reconhecimento ideológico, mas não temos o conhecimento do mecanismo deste reconhecimento.
A ideologia age de modo a “recrutar sujeitos dentre os indivíduos” ou “transformar os indivíduos em sujeitos”, a partir da interpelação. Quando alguém diz “ei, você aí” e o outro sujeito se volta, reconhece que a interpelação era para ele e
neste movimento físico, torna-se sujeito. Partindo do pressuposto que este dois fatos ocorrem sem sucessão alguma, ressaltou que a existência da ideologia e a interpelação são uma única e mesma coisa.
Uma vez que a ideologia é eterna, os indivíduos foram sempre / já interpelados e são, portanto, sempre / já sujeitos.