4. BULGULAR
5.3. ÖNERİLER
Se tomado na perspectiva biológica, o conceito de raça esconde algo não proclamado: a relação de poder e de dominação (MUNANGA, 2003). Entende-se que a definição de raça como um conceito biológico — ou pelo menos como uma noção sobre diferenças biológicas, objetivas (fenótipos), entre seres humanos — esconde tanto o caráter racialista das distinções de cor, quanto o seu caráter construído, social e cultural. Propõem-se duas observações a partir da perspectiva de Munanga (2003): discordamos quando generaliza que o conceito de raça seja “cientificamente inoperante”. Consideramos que o autor identifica Ciência e Biologia. O conceito de raça é atuante, isto é, opera no âmbito das Ciências Humanas e Sociais ao associar atributos raciais às pessoas e grupos humanos. É nesse aspecto que destacamos a citação do autor (a segunda observação):
Assim, os indivíduos da raça “branca” foram decretados coletivamente superiores aos da raça “negra” e “amarela”, em função de suas características físicas hereditárias, tais como a cor clara da pele, o formato do crânio (dolicocefalia), a forma dos lábios, do nariz, do queixo etc. que segundo pensavam, os tornam mais bonitos, mais inteligentes, mais honestos, mais inventivos etc. e consequentemente mais aptos para dirigir e dominar as outras raças, principalmente a negra mais escura de todas e consequentemente considerada como a mais estúpida, mais emocional, menos honesta, menos inteligente e, portanto a mais sujeita à escravidão e a todas as formas de dominação (MUNANGA, 2003, p. 5).
Cabe esclarecer que o termo raça é utilizado com frequência nas relações sociais brasileiras, para informar como determinadas características físicas, como cor de pele, tipo de cabelo, entre outras, influenciam, interferem e até mesmo determinam o destino e o lugar social dos sujeitos no interior da sociedade brasileira.
Contudo, o termo raça, foi ressignificado pelo Movimento Negro que, em várias situações, o utiliza com um sentido político e de valorização do legado deixado pelos
africanos, ou seja, o conceito de raça ao ser usado com conotação política permite, por exemplo, aos negros valorizar a característica e romper com as teorias raciais que foram formuladas no século XIX e até hoje permeiam o imaginário popular. “A discussão sobre raça no Brasil e nos mais variados contextos não se faz no isolamento. Antes se articulam às questões históricas, sociais, culturais, políticas e econômicas mais amplas” (GOMES, 2012, p. 729).
Participando dessa discussão sobre raça, Guimarães (2005) descreve que o conceito de raça é evidente em alguns países. “Nos Estados Unidos, por exemplo, as raças são tão óbvias que os sociólogos não se sentem, em geral, obrigados a defini-las conceitualmente” (GUIMARÃES, 2005, p. 19). Quando se fala em raça nos Estados Unidos (EUA), tal informação isso faz imediatamente sentido para as pessoas: não se pode viver nos EUA sem ter uma raça, mesmo que se tenha que inventar uma denominação. “Todos os grupos étnicos viram raça nos Estados Unidos, porque raça é um conceito nativo classificatório, central para a sociedade americana” (GUIMARÃES, 2003, p. 96).
Conforme observou Guimarães (2005), tanto a extrema transparência das raças quanto a sua invisibilidade se fundamentam na contemporaneidade de uma mesma concepção realista8 da ciência e de mesma atitude de repulsa, ao menos discursiva, ao racismo.
A tese de Guimarães (2005, p. 20) é de que “é possível construir um conceito de raça propriamente sociológico que prescinda de qualquer fundamentação natural, objetiva ou biológica”. O autor sublinha que somente uma definição nominalista de raça é capaz de evitar o paradoxo de empregar-se de modo crítico (científico), uma noção cuja principal razão de existir é justificar uma ordem acrítica (ideológica). No entanto a definição nominalista encontrou forte reação ao incorporar na lei e no processo legal a ideia de que existem raças cujas relações entre si, numa situação de desigualdade, precisam ser reguladas.
O debate conceitual em torno de raças e de relações raciais acirrou-se a tal ponto que o próprio campo foi posto em dúvida pelos seus integrantes. Por um lado, o assunto não mereceria um lugar especial numa teoria geral para a sociedade. Por outro,
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Realismo é a teoria segundo a qual os conceitos científicos reproduzem entidades realmente existentes numa suposta realidade concreta, exterior e objetiva, seja aos valores, seja à observação do cientista. Ao contrário, nominalismo é uma doutrina segundo a qual os conceitos têm existência apenas enquanto tais, ainda que se refiram a fenômenos e fatos reais (GUIMARÃES, 2005, p. 19).
existiriam três condições gerais que fundamentariam toda e qualquer hierarquia social, inclusive aquela em que parece justificado empregar o conceito sociológico de raça.
A primeira seria uma desigualdade estrutural entre grupos humanos convivendo num mesmo Estado; a segunda seria uma ideologia ou teoria que justifica tais desigualdades e, por fim, essas formas de desigualdades seriam justificadas em termos do pretenso caráter natural da ordem social (GUMARÃES, 2005). O autor frisa que tais situações não se aplicam tão somente no campo das relações raciais, mas sim a todos os campos da hierarquização social: gênero, raça, idade e classe.
Outra reflexão de Guimarães (2005) em defesa da utilização do conceito de raça é a necessidade de demonstrar o caráter específico de um subconjunto de práticas e crenças discriminatórias. Além disso, é de suma importância reconstruir de modo crítico as noções dessa mesma ideologia para aqueles que sofrem ou sofreram os efeitos do racismo. “Raça” é um conceito que não corresponde a nenhuma realidade natural. Trata- se, ao contrário, de um conceito que denota tão somente uma forma de classificação social, baseada numa atitude negativa frente a certos grupos sociais (GUIMARÃES, 2005, p. 11). Para esse autor, a palavra raça tem, pelo menos, dois sentidos analíticos: um reivindicado pela biologia genética e outro pela sociologia.
Contudo, para esta pesquisa utilizamos o conceito de raça na perspectiva do NEGRI que considera o conceito de raça como uma construção social com pouca ou nenhuma base biológica, mas que ganha sentido ao ser utilizado para orientar e compreender classificações sociais hierarquizadas. Portanto, o sentido atribuído ao termo raça não é aquele da biologia, sentido desacreditado em meio acadêmico, mas que permanece vivo no senso comum para classificar hierarquicamente segmentos sociais (ROSEMBERG, 2006).
O conceito analítico de raça como construção social é fundamental para a compreensão das desigualdades sociais, estruturais e simbólicas observadas na sociedade em geral. Dessa maneira, o uso do conceito de raça no âmbito das ciências humanas e sociais ajuda a atribuir realidade social a certas discriminações e, por conseguinte, a lutar contra elas (GUIMARÃES, 2003).
Tais conceitos de raça aqui apresentados, permitem sustentar um olhar analítico e político para o campo de estudos das relações raciais, no intuito de descrever e interpretar a operação do racismo estrutural e simbólico na produção e sustentação de desigualdades sociais brasileiras, bem como refletir sobre estratégias para sua superação, nosso próximo tópico.