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Belirsiz Alacak Davası ve Kısmi Davada İhtiyati Haciz

O dever kantiano não fica apenas no que se refere a nós para com os outros, mas também a nós mesmos, o que acaba por suscitar várias críticas de Schopenhauer. A crítica em relação aos deveres sobre nós próprios sucede exatamente sem rodeios, tal qual como foi feita

para com o dever do “tu deves” de forma geral. Dito de outro modo, eu tenho de ter uma

ordem que dite o que devo fazer a minha pessoa. Mas ora, de onde viria essa ordem a não ser de mim mesmo? Por acaso existe uma voz oculta a me dizer isso? Aquilo que se ordena a si é realmente uma ordem?

Para Schopenhauer existem dois tipos de deveres em relação a nós próprios: deveres de direito ou deveres de amor (2001, p. 31). No que se refere aos deveres de direito em relação a nós, ele nos explica que é impossível, porque são autoevidentes. Não faríamos algo contra nós mesmos, pois aquilo que fazemos conosco é sempre aquilo que queremos, ou seja, ninguém cometeria uma injustiça consigo mesmo por vontade própria. Já sobre os deveres de

amor em relação a nós mesmos, ele explica, que a moral chegou tarde demais. Segundo

Schopenhauer, o amor próprio já é por demais evidente, o que impossibilita uma obrigação do próprio amor a si. Ele cita uma passagem do Novo Testamento como pressuposto: Amarás o

teu próximo como a ti mesmo19 (Mateus 22, 39). O amor a si mesmo é sempre tomado como

uma máxima. Desse modo, vejamos o que Schopenhauer diz em relação ao amor que temos em relação a nós mesmos:

O amor que cada um nutre por si mesmo é tomado previamente como máxima e a

condição de qualquer outro e não é complementado, de nenhum modo, pelo “ama a ti mesmo como a teu próximo”, pelo que cada um sentiria que seria obrigado a muito pouco. Este também seria o único dever em que uma “opus superrogationis”

[uma obra que ultrapassa a exigência] estaria em pauta. O próprio Kant diz nos

Princípios metafísicos para a doutrina da virtude: “O que cada um inevitavelmente

quer não pertence ao conceito de dever.” (SCHOPENHAUER, 2001, p. 31)

Schopenhauer afirma que o próprio Kant, no Princípios metafísicos para a doutrina

da virtude, corrobora com esse pensamento ao escrever: “O que cada um inevitavelmente quer não pertence ao conceito de dever” (KANT apud SCHOPENHAUER, 2001, p. 31). O

amor de si é em si mesmo maior, natural, desafetado, caso que não seria necessário um dever para conosco em relação ao amor de si mesmo. Na verdade, na visão de nosso autor, em nenhum dos dois casos citados é necessário um dever, pois a busca pela satisfação pessoal não

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é algo induzido, mas voluntário. O homem é tragado pelo egoísmo como uma força natural e não necessita de deveres para consigo, pois não poderia ir contra sua própria natureza egoísta.

Schopenhauer nos fala ainda sobre a questão do suicídio em relação ao dever. Segundo ele, o que se apresenta em relação a nós como um dever é, antes, “um arrazoamento

contra o suicídio” (2001, p. 32), que estaria preso a preconceitos e extraído de razões das mais

superficiais.

Para ele, o homem por ter racionalidade e abstrações se diferencia do animal, já que este é limitado ao presente e ao sofrimento corporal. O homem, por sua vez, além do sofrimento corporal, possui também o sofrimento abstrato por via do intelecto, sofrimento espiritual, podendo sofrer pela antecipação de coisas futuras ou lembranças de coisas passadas, como também da própria vida em seu presente. É importante lembrar, ainda, que para Schopenhauer o mundo é dor e sofrimento advindos da Vontade como essência única e manifestada nos seus variados graus de objetivação, a qual tem o homem como a forma mais completa e acabada de todas. A própria natureza concedeu ao homem a possibilidade de

compensação do sofrimento do mundo por meio do suicídio, pois não cabe a ele “a

prerrogativa de viver não como um animal, enquanto possa, mas também enquanto queira” (SCHOPENHAUER, 2001, p. 32).

Mediante as várias situações de sofrimento que o homem passa na vida, não seria nenhum absurdo em um momento extremo que ele tentasse pôr fim ao seu sofrimento e aliviar-se de todas as suas dores, cometendo o suicídio. Schopenhauer parece concordar com o direito que o homem tem sobre o suicídio, ainda mais que por destino final encontraremos a morte. Apesar de o ato de suicidar-se apresentar-se como solução mediante as dores e sofrimentos da vida, ele seria apenas algo particular, individual, mas não condição para a negação da Vontade como coisa em si do mundo. A Vontade metafísica do mundo quer viver nos seus variados graus de objetivação, tal qual o próprio suicida quer a vida, apenas está insatisfeito com ela, e assim acredita que pela supressão do fenômeno individual possa negar a Vontade e acabar com todas as dores. Porém a morte já é uma trajetória da Vontade, pois de todas as dores e sofrimentos que temos no mundo, é certo e evidente que o pior de todos ainda está para chegar: a morte. Assim, tirar a própria vida com a morte do corpo é algo nulo que para nada serve, já que a morte é o último estágio da afirmação da Vontade e, dessa forma, tudo que o suicida faz é senão aceitá-la.

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Schopenhauer vê que os motivos éticos que levam o homem a desistir da prerrogativa de tirar sua própria vida são demonstrados normalmente por argumentos usuais, superficiais e sofísticos20. Vejamos:

O sofrimento se aproxima e, enquanto tal, abre-lhe a possibilidade de negação da Vontade, porém ele a rejeita ao destruir o fenômeno da Vontade, o corpo, de tal forma que a Vontade permanece inquebrável. – Eis por que todas as éticas, tanto filosóficas quanto religiosas, condenam o suicídio, embora elas mesmas nada possam fornecer senão argumentos sofísticos. (SCHOPENHAUER, 2005, p. 505)

Os argumentos apresentados por alguns filósofos, como também pelas religiões monoteístas semíticas, são tidos como superficiais para demonstrar o dever de não cometer o suicídio. Na visão de nosso filósofo, apenas David Hume apresentou uma profunda refutação em seu Ensaio sobre o suicídio21 (1776). O próprio Kant, segundo nosso autor, nem merece

resposta para os argumentos utilizados para combater o suicídio, os quais ele chama de mesquinharias (2001, p. 32). Schopenhauer ainda diz, ironicamente, sobre os argumentos

apresentados: “temos de rir quando pensamos que tais reflexões teriam de arrancar o punhal das mãos de Catão, de Cleópatra, de Cócio Nerva ou de Arria de Paetos” (2001, p. 32). Para

Schopenhauer, o suicídio não aparece como um dever para com a vida, mas como algo sem sentido, inútil, que apenas se expressa no fenômeno, pois a eliminação de um indivíduo perante as dores da vida não mudaria em nada os rumos da espécie, seria, tão somente, mais uma demonstração do seu egoísmo, pois, toda ela ainda permaneceria a sofrer. Desse modo, Schopenhauer não vê uma eficácia nas leis religiosas, nem de um fundamento formal da moral, como pretendia Kant, que pudesse fazer suspender o suicídio para alguém determinado a dar cabo da própria vida.

A dor e o sofrimento continuariam a existir mesmo que cada fenômeno individual procurasse a morte como solução. A Vontade, ao objetivar-se, entra em uma luta consigo mesma, ora enquanto fenômeno, ora enquanto coisa em si. Porém, a morte do corpo enquanto fenômeno não representa nada para a Vontade metafisica do mundo, pois ela permanece intacta. Em último caso não haveria a necessidade de um dever moral para aquele que busca a morte com o suicídio, já que seria um tanto ridículo um dever que pudesse amedrontar alguém

20 O que Schopenhauer questiona é a formalidade do fundamento moral sobre o suicídio.

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Para saber mais consultar: SCHOPENHAUER, Arthur. Sobre a ética. Org. e Trad. Flamarion C. Ramos. São Paulo: Hedra, 2012, p 168-169.

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que busca a própria morte. O suicídio, na pior das hipóteses, seria apenas uma injustiça consigo mesmo.

Outro fato sobre a questão dos deveres para conosco é o que Schopenhauer chama de regras de prudência, que não seria necessariamente uma regra moral, mas apenas maneiras como poderíamos viver melhor. Ele cita três casos de proibições de luxuria contra a natureza: o onanismo, a pederastia e a bestealidade. Para ele, dos três casos citados de transgressão sexual, apenas a pederastia cabe à ética. No caso do onanismo, ele diz que se trata mais de uma questão de vício da infância a uma questão de ética e, desse modo, cabe à medicina e não a ética se importar com tais casos. No caso da bestialidade ela seria uma questão de degradação da natureza humana, uma transgressão contra espécie e em abstrato, porém, não contra os seres humanos individuais. Dessa forma, apenas a pederastia teria uma posição ética aceitável, já que seria uma injustiça a sedução de jovens sem experiência a fim de uma corrupção física e moral.

Schopenhauer nega qualquer possibilidade de aceitar deveres para conosco – que não seria muito bem um dever – já que aquilo que faço para mim mesmo é sempre uma aceitação própria e nunca um dever. Schopenhauer enxerga em Kant, em relação aos deveres, uma tentativa de eudemonismo, uma forma de fazer a vida mais feliz compensada pelo dever. Existe, portanto, uma implícita reciprocidade na forma do juízo moral no Imperativo kantiano, não que signifique interesse, mas reciprocidade oculta em seu fundamento moral.

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