O importante nesta análise é identificar as intraindústrias consideradas chaves para a economia brasileira, ou seja, setores que apresentam índices maiores que a unidade e a evolução dos mesmos no período em análise138. Diante disso, observa-se pela Tabela 9 que as principais atividades que podem ser considerados importantes, em 1995, para a estrutura produtiva brasileira em termos de efeitos para frente são: Serrarias e fabricação de artigos de madeira e mobiliário, fabricação de elementos químicos não-petroquímicos, fabricação de produtos farmacêuticos e de perfumarias, indústria de transformação de material plástico e indústria diversas.
Tabela 9: Índice de encadeamentos para frente da indústria no período 1995 a 2009 (forward linkage)
Atividade 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 Máquinas e tratores 0,68 0,63 0,61 0,62 0,60 0,59 0,58 0,57 0,58 0,58 0,57 0,59 0,58 0,60 0,57 Aparelhos e equip. de material elétrico 0,73 0,66 0,59 0,54 0,53 0,49 0,43 0,44 0,42 0,43 0,41 0,39 0,38 0,35 0,35 Aparelhos e equip. de material eletrônico 0,20 0,21 0,19 0,18 0,19 0,15 0,11 0,12 0,11 0,11 0,13 0,12 0,11 0,10 0,09 Automóveis, caminhões e ônibus 0,86 0,84 0,81 0,75 0,66 0,70 0,73 0,82 0,90 0,97 1,04 1,04 0,96 0,95 1,01 Outros veículos, peças e acessórios 0,49 0,47 0,47 0,45 0,46 0,47 0,45 0,45 0,49 0,51 0,47 0,45 0,45 0,45 0,42 Serrarias, artigos de madeira e mobiliário 1,19 1,15 1,13 1,09 1,16 1,27 1,14 1,14 1,20 1,20 1,11 1,06 1,06 1,03 0,99 Indústria de papel e gráfica 0,25 0,24 0,23 0,22 0,25 0,25 0,24 0,22 0,27 0,29 0,28 0,28 0,26 0,24 0,25 Indústria da borracha 0,81 0,81 0,82 0,81 0,85 0,87 0,80 0,86 0,94 0,97 0,91 0,80 0,80 1,04 0,80 Elementos químicos não-petroquímicos 2,57 2,43 2,49 2,46 2,85 3,10 3,28 3,20 3,54 3,63 3,49 3,48 3,36 3,18 2,87 Refino de petróleo e indústria petroquímica 0,70 0,72 0,69 0,68 0,76 0,77 0,77 0,69 0,75 0,86 0,76 0,73 0,70 0,72 0,73 Produtos químicos diversos 0,33 0,34 0,35 0,35 0,35 0,35 0,24 0,24 0,24 0,25 0,20 0,20 0,19 0,17 0,16 Produtos farmacêuticos e de perfumaria 1,01 1,08 1,07 1,02 0,98 1,03 0,93 0,88 0,99 0,97 0,99 0,93 0,90 0,88 0,89 Indústria de material plástico 1,32 1,33 1,32 1,29 1,37 1,29 1,32 1,40 1,38 1,37 1,27 1,24 1,17 1,14 1,11 Indústria têxtil 0,08 0,07 0,07 0,06 0,06 0,06 0,04 0,04 0,03 0,03 0,04 0,03 0,03 0,03 0,03 Artigos do vestuário e acessórios 0,45 0,45 0,45 0,45 0,44 0,41 0,42 0,43 0,42 0,40 0,39 0,37 0,36 0,37 0,30 Calçados e artigos de couro e peles 0,20 0,21 0,20 0,23 0,22 0,24 0,23 0,25 0,23 0,23 0,22 0,28 0,30 0,29 0,29 Indústria do café 0,08 0,08 0,08 0,08 0,08 0,27 0,29 0,32 0,32 0,31 0,32 0,30 0,31 0,31 0,28 Benef. de produtos de origem vegetal 0,37 0,35 0,35 0,34 0,37 0,39 0,43 0,39 0,39 0,40 0,42 0,43 0,42 0,42 0,35 Abate e preparação de carnes 0,30 0,31 0,31 0,30 0,30 0,33 0,34 0,31 0,29 0,30 0,29 0,29 0,31 0,31 0,31 Resfriamento e preparação do leite e laticínios 0,46 0,47 0,48 0,47 0,46 0,54 0,51 0,52 0,49 0,46 0,53 0,55 0,40 0,38 0,48 Indústria do açúcar 0,52 0,61 0,61 0,48 0,48 0,55 0,53 0,49 0,60 0,70 0,69 0,68 0,72 0,83 0,83 Fab/ref. de óleos veg/gorduras para alimentação 0,42 0,43 0,42 0,42 0,43 0,29 0,29 0,27 0,28 0,28 0,31 0,31 0,31 0,31 0,31 Outras indústrias alimentares e de bebidas 0,11 0,11 0,11 0,11 0,12 0,13 0,12 0,12 0,13 0,13 0,12 0,11 0,10 0,11 0,12 Indústrias diversas 1,62 1,69 1,71 1,96 2,02 1,94 2,13 2,20 2,04 2,17 2,09 2,08 1,99 1,88 1,86
Fonte: Elaboração própria a partir de Guilhoto & Sesso Filho (2010).
138 Para saber como esses indicadores de ligações são calculados, vide
Guilhoto & Sesso Filho (2010).
Como o cálculo desses indicadores envolve valores, não se pode separar o efeito preço do efeito quantidade.
Contudo, dentre essas cinco atividades observa-se a perda de elos importantes em três: Serrarias e fabricação de artigos de madeira e mobiliário, fabricação de produtos farmacêuticos e de perfumarias e indústria de transformação de material plástico. Além dessas perdas, outras atividades também se destacam: fabricação de máquinas e tratores, fabricação de aparelhos e equipamentos de material elétrico, fabricação de aparelhos e equipamentos eletrônicos, fabricação de outros veículos, peças e acessórios, fabricação de produtos químicos diversos, indústria têxtil, fabricação de artigos do vestuário e acessórios, fabricação e refinanciamento de óleos vegetais e gorduras para alimentação.
Tabela 10: Índice de encadeamentos para trás da indústria brasileira no período de 1995 a 2009 (backward linkage)
Atividade 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 Máquinas e tratores 1,06 1,06 1,01 1,03 1,00 1,00 0,99 1,02 1,04 1,08 1,10 1,07 1,07 1,06 1,06 Aparelhos e equip. de material elétrico 0,92 0,95 0,95 0,98 1,02 1,07 1,04 0,98 1,01 1,03 1,03 1,04 1,03 1,07 1,07 Aparelhos e equip. de material eletrônico 1,20 1,21 1,19 1,12 1,08 0,99 0,98 1,01 1,02 1,05 1,06 1,08 1,07 1,04 1,02 Automóveis, caminhões e ônibus 1,30 1,30 1,25 1,24 1,20 1,24 1,32 1,37 1,39 1,36 1,41 1,38 1,36 1,32 1,34 Outros veículos, peças e acessórios 1,05 1,07 1,06 1,03 1,05 1,02 0,99 1,00 1,09 1,15 1,14 1,12 1,11 1,12 1,11 Serrarias, artigos de madeira e mobiliário 0,83 0,84 0,83 0,84 0,85 0,91 0,91 0,89 0,94 0,98 0,97 0,96 0,95 0,94 0,95 Indústria de papel e gráfica 1,01 1,05 1,07 1,09 1,05 0,96 0,99 1,00 0,97 0,96 1,00 0,99 0,99 0,98 0,98 Indústria da borracha 1,04 1,04 1,06 1,00 1,03 1,07 1,08 1,00 0,99 1,03 1,04 1,01 1,00 1,00 0,96 Elementos químicos não-petroquímicos 1,41 1,43 1,36 1,39 1,23 1,17 1,02 1,01 1,02 1,07 1,12 1,09 1,10 1,12 1,15 Refino de petróleo e indústria petroquímica 1,08 1,19 1,20 1,19 1,13 1,24 1,24 1,25 1,14 1,16 1,23 1,32 1,23 1,32 1,16 Produtos químicos diversos 1,16 1,15 1,17 1,17 1,09 1,16 1,14 1,11 1,18 1,14 1,14 1,14 1,15 1,14 1,09 Produtos farmacêuticos e de perfumaria 0,80 0,82 0,79 0,76 0,80 0,87 0,87 0,84 0,94 0,93 0,90 0,90 0,91 0,93 0,91 Indústria de material plástico 1,06 1,02 1,03 1,07 1,15 1,10 1,06 1,06 1,10 1,11 1,06 1,08 1,08 1,06 0,99 Indústria têxtil 0,90 0,89 0,89 0,92 0,96 0,99 1,00 1,05 1,04 1,04 0,97 0,97 0,97 0,96 0,99 Artigos do vestuário e acessórios 0,89 0,89 0,89 0,86 0,94 0,90 0,98 0,99 0,96 0,96 0,96 0,94 0,91 0,93 0,92 Calçados e artigos de couro e peles 1,28 1,26 1,28 1,25 1,25 1,20 1,16 1,15 1,16 1,18 1,14 1,15 1,15 1,12 1,03 Indústria do café 1,47 1,39 1,52 1,47 1,47 1,48 1,55 1,52 1,47 1,53 1,49 1,53 1,51 1,50 1,51 Benef. de produtos de origem vegetal 1,21 1,18 1,15 1,19 1,17 1,29 1,30 1,30 1,30 1,36 1,36 1,34 1,37 1,43 1,42 Abate e preparação de carnes 1,38 1,38 1,42 1,44 1,45 1,45 1,41 1,43 1,42 1,42 1,37 1,40 1,40 1,47 1,44 Resfriamento e preparação do leite e laticínios 1,34 1,29 1,27 1,25 1,37 1,39 1,45 1,47 1,46 1,50 1,51 1,47 1,42 1,47 1,44 Indústria do açúcar 1,47 1,53 1,51 1,54 1,51 1,50 1,27 1,29 1,18 1,10 1,18 1,17 1,21 1,14 1,22 Fab/ref. de óleos veg/gorduras para alimentação 1,37 1,37 1,39 1,40 1,44 1,59 1,61 1,60 1,64 1,60 1,64 1,66 1,70 1,71 1,72 Outras indústrias alimentares e de bebidas 1,22 1,24 1,21 1,18 1,18 1,15 1,17 1,20 1,22 1,19 1,18 1,15 1,17 1,18 1,19 Indústrias diversas 0,88 0,88 0,89 0,90 0,93 0,91 0,89 0,87 0,99 0,94 0,90 0,88 0,89 0,93 0,88
Fonte: Elaboração própria a partir de Guilhoto & Sesso Filho (2010).
Por outro lado, as atividades que obtiveram ganhos expressivos no período 1995-2009 foram: fabricação de automóveis, caminhões e ônibus, fabricação de elementos químicos não- petroquímicos, fabricação de calçados e de artigos de couro e peles, indústria do café, indústria do açúcar e indústrias diversas.
No que diz respeito aos efeitos de encadeamento para trás, tabela 10, em 1995 havia 18 setores dos 24 analisados considerados chaves para a economia brasileira. Mesmo com a evolução positiva do setor de fabricação de aparelhos e equipamentos de material elétrico, esse número foi reduzido para 16 setores em 2009.
Todavia, desse total, quatro atividades apresentaram queda expressiva no período em análise, de modo que, dada a perda de participação da indústria de transformação no PIB no período mais recente, os efeitos de encadeamentos para trás desses setores podem estar comprometidos.
Em suma, podemos destacar dois processos dentro da análise das matrizes insumo- produto de acordo com o seguinte critério: se a diferença dos encadeamentos para frente (ou para trás) entre o ano final e o ano inicial for positiva e maior que 15 pontos e, sendo a trajetória de ganho, consideramos que o setor em questão se fortaleceu e, portanto, aumentou seu peso dentro da indústria de transformação. Caso contrário, se a diferença for negativa e maior que 15 pontos e, sendo a trajetória de perda, podemos considerar como um caso localizado de desindustrialização, ou no mínimo de perda de peso dentro da indústria de transformação139.
No grupo dos que se fortaleceram encontram-se os setores de fabricação de automóveis, caminhões e ônibus, fabricação de elementos químicos, refino de petróleo e indústria petroquímica, indústria do café, beneficiamento de produtos de origem vegetal, fabricação de óleos vegetais e gorduras para alimentação e indústria diversas.
No grupo dos que se enfraqueceram encontram-se os setores de fabricação de aparelhos e equipamentos de material elétrico, fabricação de aparelhos e equipamentos de material eletrônico, fabricação de produtos químicos diversos e fabricação de calçados e artigos de couro.
Uma forma de obter o efeito líquido do movimento entre os efeitos de encadeamentos é através da decomposição dos efeitos das relações de insumo-produto. Para isso, sendo necessário corrigir a influência dos preços sobre o comportamento dos coeficientes técnicos (de acordo com a metodologia adotada por Messa, 2012) e, portanto, obtendo efeitos que podem ser interpretados estritamente em termos de quantidades físicas, refletindo de fato as mudanças na estrutura produtiva.
139 Quando os efeitos são distintos, consideramos a soma do resultado dos dois efeitos de encadeamentos. Esse
critério foi utilizado porque a literatura considera 15 pontos como uma perda de difícil recuperação, de modo que a tendência de reestruturação desse setor é limitada (Rose & Casler, 1996; Cella, 1984).
A tabela 11 sintetiza a decomposição do crescimento do produto em efeitos das relações insumo-produto e efeitos da demanda final. Neste sentido, observa-se que a demanda final foi o principal fator para o crescimento de todas as atividades e que as relações de insumo-produto foram responsáveis por parte da retração da indústria de transformação.
Em outras palavras, a cadeia produtiva brasileira apresentou menor dinamismo em relação ao consumo intermediário de insumos fornecidos pela indústria de transformação, sendo responsável pela redução de 8,4%140 no crescimento deste setor entre 2000 e 2009.
Tabela 11: Crescimento e Efeitos sobre o crescimento do produto (%):Brasil, 2000-2009.
Atividades
Efeitos
Crescimento Relações de insumo-produto Demanda final
1 Agropecuária 46,0 20,5 79,5
2 Indústria extrativa mineral 75 19,2 80,8
3 Indústria de transformação 15,7 -53,7 153,7
4 Produção e distribuição de eletricidade, gás e água 32,2 17,5 82,5
5 Construção 14,9 -14,3 114,3
6 Comércio 32,2 11,4 88,6
7 Transporte, armazenagem e correio 34,5 21,0 79,0
8 Serviços de informação 64,2 32,4 67,6
9 Intermediação financeira, seguros e previdência complementar 37,2 13,0 87,0
10 atividades imobiliárias e aluguel 42,9 16,1 83,9
11 Outros serviços 32,2 1,7 98,3
12 Administração, saúde e educação pública 28,1 -2,7 102,7
Fonte: Messa (2012).
Tabela 12: Decomposição desagregada dos efeitos das relações de insumo-produto (%): Brasil, 2000-2009.
Atividade sob efeito Atividade indutora 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 1 -1,6 0,2 91,2 0,3 8,1 4,1 5,4 -0,3 -4,3 0,2 -5,3 2,2 2 0,0 6,1 52,2 18,3 13,0 4,4 4,0 0,1 -3,1 ,2 -1,7 6,3 3 -1,7 -1,7 -52,4 -0,7 -3,5 0,6 3,1 -1,8 -8,8 -0,7 -24,1 -9,2 4 -1,5 -1,7 65,9 -24,9 -13,0 14,5 20,6 6,1 -11,2 2,4 -1,7 44,5 5 -0,6 5,2 -9,3 0,2 -82,3 -0,7 -1,6 1,5 -21,9 -28,6 -33,2 71,4 6 6,0 0,9 110,8 0,1 3,1 10,5 -4,5 -3,2 -12,3 -0,4 -17,8 6,9 7 -1,6 4,8 56,7 6,0 1,5 31,5 29,5 -3,0 -6,8 1,0 -20,9 1,5 8 0,4 1,8 12,6 0,6 1,6 6,3 2,4 13,4 4,4 1,9 7,2 47,3 9 -0,3 -0,5 109,3 -3,1 16,3 22,7 14,5 6,3 -62,5 9,5 -1,1 -11,1 10 1,4 9,9 38,7 0,7 -4,7 9,2 -2,0 -3,4 -4,4 4,1 -6,0 56,4 11 -4,5 39,6 54,7 -1,9 -35,9 105,4 -38,9 -74,3 -195,9 78,4 -253,9 427,1 12 -3,3 -1,6 -35,0 -2,0 -9,2 -4,0 -3,9 -3,7 -8,6 0,3 -22,1 7,0 Fonte: Messa (2012).
A tabela 12 mostra os setores responsáveis pelos efeitos das relações de insumo produto sobre cada setor. Ou seja, o quanto do consumo de insumos dos setores que estão na linha foi derivado dos setores que estão nas colunas da tabela. Por exemplo, como visto na tabela 11 as relações de insumo-produto foram responsáveis por um crescimento de 20,5% da agropecuária. Assim, de acordo com a tabela 12, observa-se que 91,2% desse crescimento foi derivado do aumento do consumo induzido pela indústria de transformação.
Desse modo, a indústria de transformação continua sendo um grande setor indutor do crescimento para os demais setores, mas não para a própria indústria de transformação, já que da retração de 53,7% das relações de insumo-produto, 52,4% foi provocado pelo setor dinâmico da economia. No mesmo sentido, a tabela 12 também ilustra a menor demanda dos demais setores por insumos industriais, sendo responsável por parte da retração deste setor.
Esses dados confirmam a redução dos encadeamentos industriais evidenciados nas tabelas 9 e 10, além de corroborar com a hipótese de que pode estar ocorrendo um processo de substituição de insumos domésticos por importados.
Uma das razões para essa perda de elos importantes da indústria de transformação brasileira se deve ao aumento da substituição de insumos domésticos industriais por insumos importados em todos os setores da economia. Este foi favorecido, sobretudo, por uma taxa de câmbio sobrevalorizada e aumento do preço da energia durante quase toda a década de 2000. Conforme estudo do Boston Consulting Group (BCG, 2014), esses fatores aumentaram fortemente os custos de produzir bens manufaturados no Brasil, o que, diante de uma produtividade supostamente estagnada, tornou a produção de bens manufaturados 23% mais caro do que nos EUA em 2014, um salto significativo, já que em 2004 o custo da indústria brasileira era 3% menor.
Não obstante a perda de elos importantes em algumas atividades e da baixa competitividade na última década, a indústria brasileira ainda continua bastante diversificada, com uma indústria de transformação relativamente forte em termos de encadeamentos para frente e para trás, sendo uma das mais importantes entre os países em desenvolvimento. Porém, setores intensivos em recursos naturais, nos quais a economia brasileira possui vantagens comparativas, têm ganhado peso dentro da indústria, o que de certa forma mostra, permanecendo estas condições estruturais e conjunturais, uma tendência de especialização no longo prazo. Consistindo, portanto, em um sintoma de desindustrialização. Por outro lado, observou-se também ganhos de encadeamentos em setores importantes para a economia brasileira, o que permite questionar a tese de desindustrialização.
Diversos estudos encontram resultados semelhantes. Carvalho e Kupfer (2008), ao analisarem a mudança estrutural através de uma decomposição do valor adicionado e do emprego a partir das matrizes insumo-produto brasileiras em três recortes temporais (1985- 1990, 1990-1996 e 1996-2004), mostram que a mudança estrutural foi um processo iniciado em meados da década de 1990 e aprofundado nos anos 2000, cuja causa deriva de dois processos: a falta de dinamismo da demanda doméstica e do processo de abertura comercial.
Bruno, Araújo e Pimentel (2009), através do teste de Chow141, argumentam que o ponto de quebra estrutural ocorreu no quarto trimestre de 1993. Na perspectiva desses autores, o regime de câmbio sobreapreciado foi prejudicial aos setores tecnologicamente mais sofisticados, favorecendo os ramos em que o país possui vantagens comparativas, ou seja, relacionados às atividades intensivas em recursos naturais.
Pires, Teixeira & Rocha (2012) utilizando a metodologia desenvolvida por Freitas et
al (2012) mostram que a indústria de transformação brasileira apresentou uma tendência de
caminhar na direção de segmentos mais da base, onde possui vantagens comparativas. No entanto, devido a uma leve recuperação dos seus efeitos de encadeamentos em 2005, não consideram essa perda de importância da indústria de transformação como um sintoma de desindustrialização, mas a destruição definitiva de laços internos à cadeia industrial com o incremento de laços com o segmento de serviços. Neste sentido, como foi sintetizado na tabela 12, as relações de insumo-produto em termos de quantum mostraram que a indústria de transformação consumiu mais serviços entre 2000 e 2009, o que é compatível com a hipótese dos autores.
Assim, como o debate enfatizado no capítulo anterior, os dados apresentados neste capítulo não são conclusivos quanto à identificação do processo de desindustrialização precoce para a economia brasileira. Quando analisados pelo lado do valor adicionado e do emprego, não se pode concluir a favor desse processo, haja vista que os segmentos com maior intensidade tecnológica mantiveram sua participação no valor adicionado e no emprego da indústria de transformação.
Contudo, foi observada uma forte associação entre os deflatores setoriais com o deflator do PIB, o que reforçaria a tese de que a redução da indústria como proporção do PIB seria também derivada das mudanças de preços relativos, o que contradiria a tese de desindustrialização precoce. Porém, os indicadores físicos de produção mostraram que a queda na participação da indústria no PIB não está relacionada exclusivamente às mudanças
de preços relativos, não se tratando de um artefato estatístico, mas de uma queda real na participação da produção industrial que talvez seja sintoma de um processo de desindustrialização em algum grau.
Por seu turno, os dados da produtividade do trabalho, do setor externo e dos coeficientes técnicos da matriz insumo-produto corroboram a tese da desindustrialização, menos do que normalmente se tem enfatizado em alguns estudos, dada a concentração do investimento e da pauta de exportações nos segmentos de menor intensidade tecnológica e em produtos não manufaturados, além da perda de encadeamentos de algumas atividades industriais importantes.
Não obstante, o fato é que a indústria brasileira nessa última década passou por grandes dificuldades, sobretudo no que diz respeito à competitividade. Essa tendência parece se agravar no início dessa segunda década dos anos 2000, porém diferentemente da primeira, os efeitos de uma indústria em decadência se fazem mais fortes, refletindo em taxas de crescimento pífias do PIB, o que pode ser o reflexo das dificuldades com que os principais parceiros comerciais do Brasil passam nesse início de década.
Quadro 1: conclusões encontradas acerca do processo de desindustrialização
Indicadores Aspectos contrários ao processo de desindustrialização
Aspectos que corroboram com o processo de desindustrialização
Indicadores internos
– valores agregados Quando desindustrialização através de valores, o analisada a hipótese da processo de desindustrialização é confirmado. Mas os deflatores mostram que isso podia ser apenas um artefato estatístico.
Os dados de produção física provaram que não se trata apenas de um artefato estatístico, mas de uma queda real da participação física da indústria de transformação no total.
Os diversos indicadores de emprego mostram que a participação da indústria no emprego total se manteve relativamente estável ao longo da série estudada, não caracterizando um processo de desindustrialização.
Os indicadores de emprego no Brasil não permitem afirmar algo sobre o processo de desindustrialização, dadas as dificuldades metodológicas e mudanças estruturais que ocorreram no período analisado, como a formalização do emprego por exemplo.
Indicadores internos
– valores
desagregados por intensidade tecnológica
Não se observou mudanças claras dentro da indústria de transformação que confirmem a tese de desindustrialização.
Contudo, o baixo crescimento da produtividade em relação ao crescimento dos salários combinado com o baixo investimento no setor industrial constitui um sintoma de desindustrialização. Os dados do emprego por intensidade
tecnológica também não oferecem resultados confiáveis.
Indicadores externos Sem argumentos. A pauta de exportação (valor e quantum) está concentrada em produtos de baixa relação capital/trabalho, sendo também um indicador de desindustrialização.
Sem argumentos. A pauta de importação (valor e quantum) está concentrada em bens de consumo e intermediários, substituindo parte da produção doméstica e tornando a indústria de transformação em maquiladora.
Insumo-produto A indústria de transformação ainda continua com uma estrutura relativamente forte em termos de encadeamentos e obteve ganho em setores importantes.
A indústria de transformação perdeu elos importantes em setores onde possui desvantagens comparativas e ganhou elos em setores que possui vantagens comparativas.