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A última categoria que busca compreender a aprendizagem empreendedora situada diz respeito às críticas colocadas pelo autor-empreendedor a respeito do modelo de ensino que ele vivenciou. Esse tema se faz oportuno justamente por ser também utilizado por

alguns autores da aprendizagem situada em instituições educacionais e que estão unidas às outras categorias deste mesmo objetivo específico.

Envolvido com outras atividades ‘concretas’ durante a infância, como o escotismo, o autor-empreendedor se vê recusando o modelo de ensino formal: “E aí tive que fazer essa quinta série. Rapaz quando eu fui fazer essa quinta série... Eu sinceramente era uma pessoa muito… sei lá. Não gostava da ideia da escola mais. Acho que tinha tanto possibilidade, cara” (E44).

As suas críticas se iniciam pela metáfora da prisão, como algo que normatizava os comportamentos dos alunos. Em conversas informais com a população e com o autor- empreendedor, percebe-se que a opinião dos mesmos a respeito desse tema se fundamenta na maneira com que esse tipo de estrutura não capacita profissionais para a inovação e para a sua autocapacitação:

“Não sei por que eu tinha uma vontade absurda de viver. E na escola eu sentia como se fosse uma prisão. A escola tinha uma… era uma prisão mesmo. Tinha uma regra entendeu, tinha que chegar na hora certa, sair na hora certa, não gostava das provas… sei lá, a escola era estranha para mim” (E63).

A teoria da aprendizagem situada também faz referência a essas críticas, de um ensino que não leva em consideração o contexto onde o aluno está:

“Era muito desconectada as aulas. Imagina só: o cara ia para uma aula de física, aí de repente entrava uma de religião, aí depois voltava de física, ou então vinha de química, aí para a geografia e depois educação física, aí depois vinha de matemática e nada batia com nada… era muita informação descontextualizada” (E64).

Em uma perspectiva utilitarista do ensino, o entrevistado afirma que as aulas não produziam ensinamento ‘útil’ e ‘interessante’ para a ‘vida real’: “Eu não via ensinamento útil com as coisas, tanto que a maioria das pessoas que estavam na minha sala hoje não fazem nada de interessante” (E65).

O autor-empreendedor termina suas críticas a esse modelo de ensino fazendo uma ligação com a sua área de atuação ao apontar que as atividades que muitos dos seus antigos colegas de classe fazem hoje se tornaram obsoletas devido às inovações tecnológicas: “Mas, se eles têm desejo de ter uma vida diferente? Não tem. (...) Tem trabalhos que vai deixar de existir para você ter ideia. Os caras tem emprego que vai acabar daqui a uns dias (E66).

Segundo Brown, Collins e Duguid (1989), a ideia de o conhecimento ser situado advém de que este é produto da atividade, contexto e da cultura em que é desenvolvido e usado. Por isso, os métodos didáticos da educação que assumem a separação entre o saber e o fazer tratam o conhecimento como algo autossuficiente e teoricamente independente da

cultura escolar, excluindo o caráter histórico, regional e social, além de adotar um posicionamento unicamente cognitivo e individual.

Já Anderson, Reder e Simon (1996) realizam quatro afirmações categóricas para explicar que o que é aprendido é específico à situação de origem do aprendiz: a aprendizagem é fundamentada em uma situação concreta em que a ação ocorre; o conhecimento não pode ser (totalmente) transferido entre os contextos; o treinamento por abstração, em salas de aulas, é de pouca utilidade, dadas as transformações ambientais e necessidades profissionais e regionais; e a instrução deve ser realizada em ambientes sociais, complexos.

Assim, a teoria cognitiva tradicional, que coloca ênfase sobre a aquisição individual do conhecimento como matéria independente, é distinta da teoria da aprendizagem situada, que percebe a aprendizagem como socialmente relacional e dá ênfase sobre a coconstrução do saber na realização de práticas (FOX, 1997).

4.3.9 Reflexões do pesquisador-autor

A discussão empreendida nesta seção está associada ao objetivo específico de caracterizar a aprendizagem empreendedora situada por meio da utilização das narrativas compartilhadas entre os diversos entrevistados. Assim, oito categorias foram concebidas durante o processo de desenvolvimento do projeto e de análise e interpretação dos dados: teorias pessoais situadas; participação contextual; aprendizagem relacional; imersão profissional; imersão setorial; “aprendendo, fazendo, refletindo...”; “saber perder é fracassar bonito”; e crítica ao modelo unidirecional da educação, representadas na figura abaixo.

Ao se analisar a aprendizagem por meio da perspectiva situada, não se pretendeu abordar os conceitos populares de tal teoria, como comunidades de práticas e participação periférica legitimada (LAVE; WENGER, 1991). Mas, buscou-se enfatizar outros elementos que venham a colaborar com o entendimento relacional, contextual e enraizado da aprendizagem de empreendedores. Isso foi possível graças à noção de que as narrativas permitem um olhar holístico a respeito das ações, sentimentos e hábitos que estão conectados por meio de uma rede de contatos.

A imagem abaixo apresenta a estruturação teórica da aprendizagem empreendedora situada. O tamanho dos círculos das categorias denota a sua complexidade, partindo da mais individual/pessoal, como as teorias pessoais situadas, para as mais complexas e sociais, como a participação contextual. As linhas tracejadas que envolvem as

categorias, simbolizam o caráter de permeabilidade e relação entre as mesmas. Já a distância e a sobreposição denota o relacionamento mais próximo ou distante entre os elementos, embora todas se relacionem de alguma maneira.

Figura 6 - Aprendizagem Empreendedora Situada

Fonte: Elaboração própria, 2017.

As teorias pessoais situadas trazem um entendimento já abordado por outros autores na literatura, porém a novidade foi vincular esse tema ao ambiente mais próximo das pessoas do Alto Sertão paraibano, e até mesmo da Paraíba, esboçando as opiniões e “leis” formadas pelos empreendedores a respeito de como empreender em seu setor e de como estes concebem a sua atividade. Já se tinha a noção de que cada setor ou indústria possuía suas “normas” que poderiam ser utilizadas para se alcançar sucesso, pois são formados por dinâmicas profissionais, institucionais, e pessoal, entre os diversos sujeitos, como fornecedores, compradores, concorrentes, leis específicas e governo.

Ao refletir sobre as teorias práticas situadas, as narrativas revelam que as mesmas contêm explicações de como empreender e gerenciar uma empresa. Com isso, o empreendedor parece possuir determinada habilidade advinda de seu envolvimento na atividade e no setor. Isso é corroborado pela noção de habilidades tácitas específicas ao contexto e práticas, de Ambrosini e Bowman (2001). Porém, não se pode afirmar de maneira categórica. Assim, recomendo maiores estudos sobre a relação entre as teorias práticas situadas e a imersão setorial.

Em participação contextual, o que me chama atenção é o papel concebido ao trabalho pelo autor-empreendedor. Construído por meio da convivência dos pais e usados como modo de transformar uma realidade, esse agente concebe a importância desse elemento na sua vida enquanto empreendedor, que é marcada por dedicação pessoal ao negócio. Ao se envolver com a sua comunidade (adotando aqui a perspectiva do empreendedor relacional e enraizado), o sujeito possui a oportunidade de desenvolver novos saberes a respeito do “comportamento geral” da mesma e de suas necessidades enquanto público consumidor futuro.

Ao sentir as preocupações, gostos e particularidades do meio (milieu), o autor- empreendedor pode se sentir responsável pelo desenvolvimento deste. Além disso, o seu envolvimento com diversos grupos contribui para a formação de sua identidade enquanto empreendedor, pois a compreensão e ação sobre as diversas realidades o permitiram desenvolver variados papéis sociais.

Ao se envolver nas rotinas diárias da comunidade, o empreendedor aprende nas suas experiências diretas. Ou seja, são nas experiências contextuais, estando nelas imersos, que aprendemos a empreender (FENWICK, 2000), vivendo em ambientes que transpiram a cultura empreendedora, adquirindo hábitos e pensamentos de pessoas com realizações ou feitos (traduzido para linguagem regional).

Em aprendizagem relacional, a noção de “ninguém aprende nada sozinho” se torna visível, principalmente quando se observa os relatos de amigos e colegas de trabalho. O aconselhamento ou a simples troca de informações sempre acontece por meio de relacionamentos entre pessoas. Com isso, o antigo mentor ganha lugar de destaque em muitas narrativas. Este indivíduo, enquanto agente, concebe oportunidades de trabalho, aconselhamento, indicação social, e foi por meio deste que a oportunidade de negócio do atual empreendedor se desenvolveu. Assim, de modo a contribuir para a literatura sobre a exploração de oportunidades empreendedoras, destaca-se o papel de indivíduos significativos na história de vida de um empreendedor.

Por meio das interações sociais, a aprendizagem empreendedora sobre as atividades de aquisição, manutenção e transformação do conhecimento vão se desenvolvendo. (CONTU; WILLMOTT, 2003). Aqui, o indivíduo não pode ser concebido como vivendo em uma bolha, ou estando “aéreo” (termo regional que denota isolamento e inconsciência contextual), mas em interação constante de forma ativa dentro de um contexto sociocultural (GODOI; FREITAS; CARVALHO, 2011). Em outras palavras, é por meio da interação recíproca e diária que o empreendedor adquire e transforma conhecimento. O relacionar-se torna-se mais importante do que o simples absorver.

Em imersão profissional e imersão setorial é possível compreender que o “mergulho” nas práticas e dinâmicas diárias da atuação profissional permitem ao empreendedor conceber significados, valores e hábitos, sejam estes observados em outros indivíduos ou experiencialmente vividos. Aqui, pode-se reforçar a noção de que o saber e o fazer estão imbricados em um contexto – que envolve tanto a comunidade, enquanto região geográfica, o setor compartilhado entre vários agentes e a empresa onde as ações e rotinas acontecem. Além disso, compreendo, após variadas reflexões sobre todas as narrativas, observações em campo e imersão pessoal, que a união entre os conhecimentos obtidos por meio da educação formal e os saberes e relações construídas favorecem o desenvolvimento do empreendedor.

A aprendizagem empreendedora e o processo de tornar-se empreendedor são processos inter-relacionados em um contexto socioeconômico. Por meio do enraizamento e do envolvimento ativo nas atividades empresariais, do comprometimento financeiro e emocional esse sujeito aprimora suas compreensões e ações sobre a atividade (KARATAŞ-ÖZKAN, 2011).

As últimas três categorias (“Aprendendo, fazendo, refletindo...”; “Saber perder é fracassar bonito”; e Crítica ao modelo unidirecional da educação) apresentam a aprendizagem diária enquanto o empreendedor atende ao mercado, realizando ações comuns ou sofrendo os impactos de seus erros ou de intempéries acometidas pelo ambiente. A última categoria, em especial, foi recebida com surpresa, pois ao empreendedor relatar a sua rejeição para com o modelo educacional percebe-se a urgência para a efetivação de práticas vivenciais da atividade profissional, como a aprendizagem baseada em problemas, a simulação computacional, estágios intensivos e rotineiros, entre outros.

Semelhante às evidências reveladas no estudo de Lucena (2006), percebe-se a aprendizagem empreendedora mediada pela performance e desempenho dos empreendedores e intensificada pela reflexão das atividades laborais e planos futuros. Graças às reflexões e

atividades diárias, esses profissionais podem construir entendimentos e opiniões de como agir sobre determinadas situações ou de seus concorrentes.

Por fim, compreende-se a consecução desse objetivo específico no que se trata de apresentar a aprendizagem empreendedora situada em um caso compartilhado no Sertão paraibano e contribuir para o desenvolvimento de programas institucionais com agendas holísticas para iniciantes ou profissionais experientes na atividade empreendedora.

Na próxima seção, objetiva-se revelar os significados das narrativas vinculadas ao último objetivo específico deste trabalho ao delinear o desenvolvimento da autoria empreendedora, esboçando o seu processo e elementos que a caracterizam. A autoria empreendedora denota a construção coletiva e responsabilidade dada ao empreendedor por estar à frente da ideia de negócio.