• Sonuç bulunamadı

Imersão profissional diz respeito às vivências laborais que um empreendedor pode ter em toda a sua história de vida. Dependendo da maneira como são encaradas, essas experiências podem definir a identidade profissional do empreendedor, a sua disposição para aprender e a maneira como encarar o trabalho. Essa categoria está organizada em duas subcategorias: experiência familiar e, dedicação à empresa e compreensão da atividade empresarial. Assim, são apresentados dois momentos relevantes para a compreensão da aprendizagem empreendedora: o envolvimento com as atividades laborais e compartilhamento de valores a respeito do trabalho e da gestão na pequena fábrica da família; e as próprias experiências profissionais do entrevistado principal.

A imersão nos contextos sociais dinâmicos, como práticas e sistemas sociais, moldam a agência empreendedora e influenciam os resultados empreendedores (COPE; DOWN, 2010). Segundo Lévesque, Minniti e Shepherd (2009), a natureza e o escopo da aprendizagem empreendedora são moldados pela participação em atividades laborais e pela interdependência dos indivíduos, incluindo observação recíproca, repetição e experimentação, resultando no aumento de confiança em certas ações e na melhoria da habilidade de tomada de decisão.

4.3.4.1 Experiências familiares

Como apresentado na narrativa da vida do autor-empreendedor, sua vida foi também marcada pelo negócio dos pais. A pequena fábrica de roupas íntimas organizava-se

nos fundos de sua casa e seus pais sempre o colocavam para ajudar na confecção das peças. Possivelmente, essa convivência na empresa dos pais o fez incorporar significados relacionados ao trabalho: “Todo esse período todo eu trabalhava fazendo calcinha. Não era uma coisa certa, de carteira assinada. Nada. Era uma coisa incerteza. Tava eu casa tinha que costurar, dobrar calcinha e embalar” (E84).

A ação empreendedora pode ser vivenciada ainda no ambiente familiar, contribuindo para o surgimento futuro de novos negócios (VECIANA, 2007). Isso pode acontecer devido às rotinas e hábitos vivenciados mesmo que a consciência dessa aprendizagem não aconteça durante a infância, pois determinada maturidade e reflexão se fazem necessário para a transformação de experiências em aprendizado.

Quando questionado aos pais se o fato de eles trabalharem em um negócio próprio incentivou o autor-empreendedor a também ter o seu, as opiniões se mostraram conflitantes. O pai queria mais dedicação aos trabalhos na pequena fábrica. Já a mãe pensa que pelo autor- empreendedor ter acompanhado e visto eles trabalhando todo dia fez com que isso servisse de exemplo de trabalho e dedicação. De certa forma, desde a infância, ele se envolvia com as atividades, as rotinas, as preocupações, os sucessos, as responsabilidades. Porém, não de uma forma totalmente aceitável para os pais, já que a sua identidade profissional começava a se voltar para outra tecnologia:

“Pai: a respeito desse nosso negócio eu acho que não. Porque ele nunca

demonstrou interesse nenhum por isso aqui.

Mãe: eu acho assim que ajudou no exemplo de trabalho. De sempre ver os pais trabalhando e batalhando, ele ajudou quando era criança até quando pode (...) Cézar ajudou por que reconhece tanto o trabalho que hoje na posição que ele tá, quando o pai dele adoeceu, que não podia ir para a feira vender e pegar peso, essas coisas, ele foi mais ele e chegando lá ele pegou a sacola colocou nas costas e não teve vergonha de andar de banca em banca como antigamente” (Fp12).

Na narrativa de um dos amigos, quando questionado sobre o reconhecimento social do autor-empreendedor quanto ao seu perfil empreendedor, percebe-se a sua ação empreendedora não vinculada ao capital acumulado pela família mas às iniciativas, vivências e oportunidades aproveitadas durante tal fase e em outros momentos de sua vida:

“Vejo. Porque era um cara que só era estudante. A família não deixou uma herança. A família não deixou nenhum dinheiro para administrar. O ramo que a família vive é um ramo completamente diferente do que ele vive hoje, apesar quando ele era mais novo, ele vivia na feira, como vai até hoje quando ele não está muito ocupado” (A.I.36).

Esses achados sugerem que as famílias que possuem empreendimento podem ser consideradas como fontes de hábitos e rotinas capazes de potencializar e desenvolver a

aptidão para o empreendedorismo. Porém, os conhecimentos e experiências anteriores apenas servirão para o futuro empreendimento se forem eficazes o suficiente para a generalização entre contextos (ALDRICH; YANG, 2014).

Ao vivenciar determinadas experiências e conviver diariamente com as rotinas familiares e da empresa, de maneira intercambiável, o futuro empreendedor pode ter a oportunidade de (co) construir determinados significados e valores a respeito do trabalho e da ação empreendedora. Assim, por meio das experiências profissionais advindas do ambiente familiar, a imersão profissional acontece, permitindo também a construção da identidade empreendedora.

4.3.4.2 Compreensão e dedicação à atividade empresarial

A compreensão e dedicação à atividade empresarial diz respeito às diversas experiências vivenciadas e reflexões acerca do significado da vida organizacional. A aprendizagem não se restringe à absorção de conhecimentos exatos e operacionais, mas se abre para a compreensão, assimilação e construção de valores e dos processos sociais inerentes à atividade empresarial, ou seja, de ‘como funciona na prática’, como visto no trecho do sócio-empreendedor:

“No banco eu aprendi muita coisa: eu entendi o que é uma empresa, o que é a responsabilidade de entender as coisas, de se comunicar (...) O que eu trago melhor de João Pessoa, além da questão do curso, de ter conhecido alguns professores que incentivaram a gente, foi a questão do banco, por eu consegui absorver tudo o que o banco tinha para mim dar” (Cs6).

As experiências passadas contribuem para a aprendizagem empreendedora, pois fornecem ao empreendedor conhecimentos acumulados sobre como agir em determinadas situações e significados da atividade empresarial (como responsabilidade). Essas experiências possuem a capacidade de desencadear mudanças significativas e fundamentais na consciência a respeito de práticas de gestão eficazes e na formação da identidade pessoal; isso é possível por meio da reflexão, em que o indivíduo traz à tona (bring forward) esse aprendizado a novas situações (COPE, 2005).

Ao mudar de atuação (de um banco para uma empresa familiar) enquanto estava na universidade, em João Pessoa, o sócio-empreendedor pôde vivenciar um “choque de realidade” a respeito das práticas e modelos mentais existentes nas organizações. Compreender ‘o que funciona’ e ‘o que não funciona’ pode contribuir para o desenvolvimento de um empreendedor:

“Quando eu saí do banco, eu tinha um tio lá que tinha quatro lojas de importados, aquelas lojas de um e noventa e nove. Aí eu estava saindo do banco e ele me convidou para trabalhar lá. Tipo para tomar de conta das quatro lojas. Aí foi totalmente o contrário: no banco eu aprendi como fazer as coisas; lá, eu aprendi a como não fazer as coisas. Sabe aquele choque de realidade?” (Cs7).

As experiências enquanto funcionário também contribuíram para que o sócio- empreendedor compreendesse o papel dos colaboradores na empresa: “Quem foi dono sem nem ter sido funcionário tem uma mentalidade totalmente diferente. Aqui a gente sempre colocou o funcionário na frente do cliente” (Cs27).

Por meio da análise holística das narrativas é possível compreender o papel desempenhado por determinadas experiências no desenvolvimento de formas habituais de fazer as coisas e de compreender as estruturas organizacionais e a realidade, o que pode contribuir para a aprendizagem empreendedora, pois isso, de certa forma, economiza tempo e esforço, de acordo com Aldrich e Yang (2014). Segundo os autores, os empreendedores desenvolvem um quadro de compreensão sobre a consciência contextual, tornando mais fácil o reconhecimento de problemas e oportunidades.

Já na narrativa do autor-empreendedor, é possível perceber a vivência na abertura de uma empresa e a aprendizagem na parte técnica, específica do negócio, sem retorno financeiro, porém, em troca de conhecimento. O início de uma empresa é marcado por diversos episódios críticos, como a prospecção dos primeiros clientes, dos fornecedores, de como os processos de trabalho se darão. Com isso, ao vivenciar o início de uma empresa, o profissional, futuro empreendedor, terá vivido momentos cruciais e absorvido saberes necessários para a sua futura empresa:

“Uma empresa amadora tava começando assim. Os dois sem conhecimento de gestão, mais tinha mercado, na época tava iniciando o computador no Brasil. Eles eram uma loja, iriam vender e eu iria montar, iria ser o técnico. E esse meu amigo já tinha sido técnico, então ele iria me ensinar. E fui” (E90).

Atitudes proativas para com a empresa dos outros, refletidas na ‘mentalidade de dono’, podem contribuir para a aprendizagem situada dos empreendedores no sentido de se preocupar com a qualidade e com o sucesso da mesma:

“Acho que isso é uma virtude. Bom, ele que me ensinou isso. Inclusive tem uma frase há muito tempo atrás que ainda usa hoje, que foi ele que disse: ‘Hoje você tá aqui como empregado, se você agir como um dono você vai ter vantagem. Um dia, quando você for dono do seu próprio negócio, aja como empregado’. E guardei essa frase para sempre” (E99).

“Aquela questão de tratar a empresa dos outros como se fosse nossa... Porque a gente não consegue ter uma própria empresa se você não tem experiência, não tem knowhow. Quando a gente trata a empresa dos outros como se fosse nossa, a

gente tá estudando na melhor universidade que existe. E aí, o camarada que passa a vida fazendo isso e chega a hora de ter a própria empresa, ele não vai ter nenhum problema com isso” (Mp25).

O exercício vivencial e diário da “mentalidade de dono” por parte do autor- empreendedor contribuiu para a compreensão do funcionamento da atividade empresarial. Além disso, o agir “como empregado” na sua própria empresa pode contribuir para o seu reconhecimento social perante seus funcionários. Isso pode ser corroborado com as reflexões de Karataş-Özkan (2011), ao destacar que os constructos de capital, habitus e campo de Bourdieu são úteis para desenvolver uma compreensão holística sobre como os empreendedores conseguem conectar as experiências passadas à sua trajetória de tornar-se empreendedor e ao situá-las em um contexto sociocultural, econômico e institucional maior.

Assim, compreender e se dedicar à atividade empresarial em episódios anteriores à aventura de empreender parece ser favorável à aprendizagem empreendedora, pois permite ao empreendedor absorver determinados significados que a atividade possui. A relação entre as duas subcategorias (experiências familiares e compreensão e dedicação à atividade empresarial), permite a compreensão de que não só as ações e experiências vivenciadas individualmente parecem ser importantes, mas ao refletir sobre como essas aconteceram com pessoas próximas permite um movimento de co-construção da identidade e dos saberes empreendedores. Na seção seguinte, de maneira semelhante, dá-se atenção aos trechos que sinalizavam as experiências situadas dos entrevistados na imersão setorial.