• Sonuç bulunamadı

BCC Modeli ile Etkinliğin Analizi

BÖLÜM 2: AZERBAYCAN`DA SAĞLIK HĠZMETLERĠNĠN GELĠġĠMĠ

3.4. Verilerin Analizi ve Bulgular

3.4.3. BCC Modeli ile Etkinliğin Analizi

Inicio esse capítulo fazendo referência e concordando com Freire (2003), uma vez que tenho a convicção de que sei algo e de que ignoro algo que se junta a certeza de que posso saber melhor o que já sei e conhecer o que ainda não sei, assim posso falar com tranqüilidade de algumas dificuldades e aprendizagens vivenciadas na atividade de Tertúlia Literária Dialógica.

Nesse primeiro momento de reflexão sobre minha participação como condutora e pesquisadora em uma TLD entre crianças e adolescentes, quero relatar algumas aprendizagens e conflitos surgidos durante essa interação.

Na função de condutora da atividade foi possível aprender a cada dia com as dicas, algumas vezes diretas, outras vezes implícitas dadas pelos próprios participantes, que na função de sujeitos auxiliavam na construção da atividade. No início da atividade foi muito fácil me perder diante desse papel, uma vez que estava estabelecendo tripla função: a de amiga, condutora e pesquisadora e, assim, dando-me a conhecer.

Era necessário primeiro entender e depois clarear esses papéis para o grupo todo, para que dessa forma eu pudesse “cortar” as interações ruins e desrespeitosas que se estabeleciam entre as crianças e adolescentes e dar um maior enquadramento na atividade. Esse comportamento, muitas vezes confundido com o papel da professora, aquela que ensina para os alunos e alunas que ainda não sabem, precisou ser buscado e entendido pelo grupo todo, através do diálogo estabelecido em torno dos princípios da aprendizagem dialógica.

Aqui o diálogo igualitário tornava-se agora o eixo principal dessa atividade, entendendo que cada um/a tem sua própria experiência e pode contribuir com ela entendendo que não era necessário “reforçar ou interferir” nas reflexões e apontamentos de cada participante, como mostra o diário do dia 01-02.

Nenhuma criança se pronunciou e então eu tentei “explicar”. O que depois percebi que foi um erro, pois nem dei tempo das outras crianças tentarem, expliquei na função de professora e essa não é a função da Tertúlia. Depois da explicação, procurei no livro a página que melhor representava a minha fala. (diário do dia 01-02)

Em busca do convívio, eu também estava aprendendo a fazer Tertúlia. Foi buscando compreender o caminhar e os pequenos passos iniciais, que eu aprendia e compreendia agora que as crianças e adolescentes estavam me ensinando a moderar a atividade, assim

(...) pelo comentário de Íris c. percebi que era a hora de voltarmos para a leitura do texto, antes não sabia como ia fazer isso para não dar a entender que o que estávamos conversando não era importante para nós, depois dessa fala senti-me segura para voltarmos para a atividade. (diário de campo do dia 20-05)

Retomando o contexto das desigualdades educativas vividas por grande parte de crianças em idade escolar, a dinâmica da atividade, estabelecida pelos princípios da aprendizagem dialógica, permitia estimular e incentivar a leitura daquele/as que tivessem com mais dificuldade, para que pudessem posteriormente querer ler e pudessem, assim, transformar suas dificuldades em possibilidades.

A relação de amizade que inicialmente construí com as adolescentes pode ser considerada como um fator negativo para o estabelecimento da dinâmica da Tertúlia, pois em algumas situações senti-me desrespeitada não só como participante, mas também fazendo parte dessa relação. Em um segundo momento, avaliei a presença de uma outra pessoa no grupo como um fator que exclui a possibilidade de interação ruim, como por exemplo, a presença da pessoa de apoio.

(...) considerei a atividade hoje um pouco mais difícil que de costume, acho que a participação das duas adolescentes gera um clima de instabilidade, ficam conversando a todo o momento e tendo atitudes que não eram mais para terem, por saberem das regras e dos princípios de aprendizagem dialógica, há tanto tempo vivenciados.

Creio que a ausência de Leandro (apoio dessa atividade) no grupo também dificultou a minha moderação, parece que por me conhecerem e por estabelecerem outro tipo de relação comigo, no caso relação de amizade, desrespeitam as pessoas participantes e se esquecem o que estão fazendo no grupo e com o grupo. Avalio que a presença de outro membro, especificamente masculino teria impedido, por exemplo, o comentário de

Afrodite a. a respeito do professor de cursinho. (parte reflexiva do diário de campo, dia 20/04)

Num primeiro momento foi possível perceber que a presença de outra pessoa no grupo, como apoio impossibilitou o estabelecimento de algumas situações de desrespeito. A presença de Leandro na atividade, ou de qualquer outra pessoa que esteja como apoio fez com que as adolescentes ficassem mais tímidas e menos falantes, até com relação aos destaques.

Porém, no decorrer da atividade observamos que essa atitude foi se modificando, podendo-se perceber que elas foram ficando mais “à vontade” e ganhando segurança para participarem, na presença de outras pessoas ou não.

Com relação à moderação entendo que o primeiro mês de Tertúlia foi bastante conturbado. Parecia haver uma sutil disputa entre adolescentes e crianças, situações estas em que estamos acostumados a vivenciar em vários ambientes, escolares e não escolares. A Tertúlia como atividade cultural e educativa não podia se desvincular de seus objetivos iniciais: garantir o respeito e acesso a todos/as, portanto deveria interferir nessas relações. Porém, em certos momentos não sabia que atitude tomar e muitas vezes, sentia-me apreensiva e insegura diante dos fatos.

Hoje, na Tertúlia, algumas adolescentes ficaram mandando bilhetinhos durante todo o tempo, passando de uma mão para a outra, foi bastante difícil, pois não sabia que atitude tomar. Em certo momento, uma criança (Minerva c., que estava sentada ao meu lado) sai pra ir ao banheiro e nesse momento uma adolescente vem e senta no lugar onde ela estava para ficar mais perto das outras duas adolescentes que estavam passando os bilhetinhos, também. Quando a criança chega, vê que seu lugar está ocupado e pede para que a adolescente dê licença, o que não acontece e a criança procura outro lugar para se sentar. (dia 25-01)

Para interferir nesses comportamentos, as conversas com pessoas mais experientes em Tertúlia, como por exemplo, a orientadora e a pessoa integrante do NIASE, que estava no momento de apoio comigo na atividade e as reuniões quinzenais do grupo de estudos em Tertúlia, tornavam-se essenciais e um elemento positivo em minha aprendizagem. Falavam da importância em incentivar a leitura das crianças menores, especialmente daquelas que ainda não dominam todas as letras, para que pudessem ser ouvidas nesse espaço e sentissem vontade em ler, como também a necessidade de dar a palavra a quem estivesse correndo maior risco de exclusão. Além disso, essas vivências me ajudaram a intervir nas relações de desigualdade e desrespeito que estavam sendo estabelecidas entre as adolescentes.

Entendendo que a riqueza de cada encontro se dava com as diferentes experiências e falas de cada um/a, devido a grande diversidade entre o grupo: crianças e adolescentes, foi possível entender e aceitar as diferentes dinâmicas que se estabeleciam na medida em que a atividade caminhava. Assim, as adolescentes passaram a ser referência para as crianças menores, que buscavam tirar suas dúvidas com elas. Dúvidas estas que, no início girava em torno do significado das palavras, foram pouco a pouco sendo substituídas pelos comentários em torno de cada parágrafo.

Em síntese, a partir da análise dos dados podemos perceber os processos educativos que se estabeleceram tanto na ótica da pesquisadora quanto na das participantes, dentro dessa prática social.

Dessa forma, ao perceber como as participantes viveram a atividade foi possível reconhecê-la como uma prática social, entendendo de acordo com Silva et al, 2006 que as práticas sociais são:

(...) relações que se estabelecem entre pessoas, pessoas e comunidade, na qual se inserem: pessoas e grupos, grupos entre si, grupos e sociedade mais ampla, num contexto histórico de nação e, notadamente em nossos dias, de relações entre nações, com objetivos (entre outros) como: garantir direitos sociais, culturais, econômicos, políticos, civis. (ibid,p. 5)

Localizando a atividade de Tertúlia dentro desse referencial metodológico estudado nas disciplinas de mestrado, foi possível enxergá-la como um espaço onde as pessoas participantes se educam e se educam por um motivo: tentar superar as diversas situações de exclusões que sofrem na sociedade, por diversos motivos, ora por serem negras, ora por apresentarem dificuldades de leitura e de escrita, por serem pobres etc.

Daí a importância da ação de ouvir o que elas tinham a dizer sobre as situações cotidianas que aconteceram no seu bairro, na sua rua quando o assunto era violência, fome, entre outros. Isso nos facilitou a compreensão e entendimento a respeito de quem educa quem.

De forma a entender melhor os diferentes processos educativos presentes nessa prática, “é preciso situá-las cultural, histórica e politicamente no nosso continente, a América Latina, numa perspectiva multicultural, dialógica, humanizante e libertadora” (Silva, et al, 2005).

E falando das diferentes culturas estamos de acordo com Flecha (1992) sobre o que ele diz a respeito do multiculturalismo, ou seja, o reconhecimento de que em um mesmo território existem diferentes culturas. E é essa diversidade cultural que enriquece as relações existentes em nosso país, já que são nas interações entre as diferentes experiências culturais que as pessoas se formam. Diante disso está a responsabilidade de realizar uma pesquisa

progressista e humanitária, mediante o reconhecimento e respeito a essa diversidade e fazer uma pesquisa com os/as sujeitos e não para eles ou sobre eles.

Ouvir o que cada participante tem a dizer é algo que vai além da possibilidade auditiva de cada um/a, pois segundo Freire (2003) escutar

(...) significa a disponibilidade permanente por parte do sujeito que escuta para a abertura à fala do outro, ao gesto do outro, às diferenças do outro. Isso não quer dizer, evidentemente, que escutar exija de quem realmente escuta sua redução ao outro que fala (ibid, p.119).

Gostaria de finalizar com minhas considerações no que se refere aos processos educativos desenvolvidos nesse espaço. Para isso, tenho que levar em conta meu olhar que está mediado pela minha experiência. Diante disso, talvez não tenha conseguido captar todas as imagens, todos os sentidos e significados dessa atividade para o grupo.

Talvez para aquelas crianças, adolescentes e pesquisadora o significado da atividade não tenha se dado só no período da pesquisa, pois o tempo e o espaço vão sendo construídos e desconstruídos no decorrer da história de vida de cada um/a.

Assim, podemos concluir neste capítulo, que entre as inúmeras aprendizagens adquiridas ao longo da participação nessa Tertúlia, algumas foram mais presentes e significativas, como por exemplo, entender que a riqueza de aprendizagens está não apenas em abrir o livro, mas ouvir o que cada pessoa traz de dentro dele, o que lhes suscitam essas leituras, entender que as palavras não são símbolos mortos e para saber o que acontece de especial na vida de cada um/a é preciso primeiro abri-lo e fazer o outro conhecer essa diversidade, o que pode ser dito, refletido, discutido e transformado por meio da interação e do diálogo entre os diferentes.

CAPÍTULO 5

A VISÃO DOS FAMILIARES SOBRE OS PROCESSOS EDUCATIVOS VIVENCIADOS POR SUAS CRIANÇAS E ADOLESCENTES NA ATIVIDADE

DE TERTÚLIA LITERÁRIA DIALÓGICA

(...) e como você que incentivou a gente a fazer a tertúlia e isso a gente tem que levar para os da frente, pra quem não sabe. A gente é nova, a gente pode passar isso para os nossos filhos e os nossos filhos vão passando. A gente não sabe quando vai morrer, um dia a gente vai morrer, mas não sabemos nem o dia nem a hora, aonde. (participante da TLD - 11 anos)

No capítulo anterior foi possível explicitar os processos educativos vividos por crianças e adolescentes na atividade de TLD. Dedicar-nos-emos no presente capítulo a apresentar a visão de três mães, a partir de entrevistas e análises suscitadas no que diz respeito à maneira como percebem a participação de suas crianças e adolescentes na atividade.

Devido à quantidade de informações apresentadas no trabalho, os dados foram organizados em forma de quadros divididos por temas, objetivando melhor redação do texto. Assim como apresentados no capítulo anterior, os quadros destacam elementos transformadores presentes na atividade e elementos que se apresentaram como obstáculos para a realização do desejado. Há também a sistematização de propostas que as participantes da pesquisa fazem para a superação dos obstáculos e para a melhoria da atividade.

Dessa forma, o capítulo está organizado em dois itens, sendo que no item 5.1 indicamos a visão das mães com relação à participação de suas crianças e adolescentes na atividade, bem como elementos e propostas de melhoria. Já no item 5.2, nos dedicaremos à análise comparativa entre os fatores que aproximam crianças e familiares.