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Büyük Selçuklu Emîrlerinin İznik Kuşatması

BÖLÜM 1: DOĞU ROMA İMPARATORLUĞU’NDAN TÜRKİYE SELÇUKLULARI’NA İZNİK SELÇUKLULARI’NA İZNİK

2.1. Türkiye Selçuklu Devleti Başşehri İznik (1081-1097)

2.1.2. Büyük Selçuklu Emîrlerinin İznik Kuşatması

Pensamento e linguagem são para o artista instrumentos de uma arte.

Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Gray.

A dialética do gênio no juízo de gosto

No segundo capítulo trabalhamos com a hipótese de encontrar o final da dedução do juízo de gosto nos parágrafos 30-38, como indicam muitos estudiosos de Kant. Porém, contrariando a opinião dos que defendem que os parágrafos que ultrapassam o 40 não tratam mais da Dedução dos juízos estéticos, embora estejam sob rubrica dela. Acreditamos que ela não só avança toda a Analítica, mas também adentra a Dialética e, na verdade, a nosso ver, ela percorre toda a primeira parte da Crítica da Faculdade do Juízo, ou seja, toda a Crítica da Faculdade do Juízo Estética, principalmente na solução da antinomia, crucial na economia da Crítica do Juízo e do juízo estético.

Assim, nossas exigências ainda estão longe de serem atendidas, pois a comunidade vai se efetuar na união de todas as faculdades, inclusive a da razão. Portanto, a dedução continua, pois há um outro princípio a ser inferido. Até agora foi deduzido apenas o princípio formal do juízo de gosto inserido na Analítica, o qual deixa claro que o caráter transcendental alcançado no sentimento, o torna apto para colocar o Juízo (Urteilskraft) lado a lado com as outras faculdades superiores da mente, condição necessária para a comunidade universal se efetivar. Mas ainda é

preciso deduzir a necessidade exemplar exposta e deixada em suspenso no quarto momento da "Analítica do Belo" que, como já vimos no primeiro capítulo, constitui um momento essencial na Crítica do Juízo por tirar definitivamente o juízo de gosto da instância psicológica do sujeito e colocá-lo no patamar das faculdades superiores da mente. Há um “dever” colocado já na exposição que persiste e amarra a Dedução, quando ela, em vez de se concluir no § 38, alarga-se consideravelmente no § 40, quando o dever é retomado como se fosse um fio condutor.

É com o conceito de senso comum, esboçado anteriormente, que Kant almeja um fundamento para estabelecer a intersubjetividade da disposição das faculdades de conhecimento (o livre jogo), determinada pelo sentimento de prazer ou desprazer na ocasião de uma representação dada. Sendo assim, o senso comum, como condição necessária da comunicabilidade universal, “não pode ser fundado na experiência, pois quer legitimar juízos que contêm um dever-ser: não diz que todos irão concordar com nosso juízo, mas que devem (sollen) concordar com ele”.1 Ora, o assentimento universal não pode ser sustentado na experiência, senão seria contingente e não necessário; também não pode contar com o apoio de proposições lógicas, senão sua necessidade seria objetiva e não subjetiva; é estabelecida, então, uma validade exemplar que Kant denomina como “mera norma ideal”, uma norma indeterminada do senso comum que é efetivamente pressuposta por nós e que pode oferecer ao juízo de gosto a possibilidade de passar por objetivo conservando sua subjetividade de juízo estético. Entretanto, no fim do § 22, é levantada uma questão:

Se de fato há um tal senso comum, como princípio constitutivo da possibilidade da experiência, ou é um princípio ainda superior da razão que faz dele, para nós, somente um princípio regulativo para, só então, produzir em nós um senso comum para fins superiores; se, portanto, gosto é uma faculdade originária e natural ou

1 Kant, I. – "Analítica do Belo", tradução Rubens Torres Filho, § 22, p. 331 (B 67).

somente a Idéia de uma faculdade ainda a ser adquirida e artificial, de tal modo que um juízo-de-gosto, com sua presunção de um assentimento universal, de fato é apenas uma exigência da razão, de que se produza uma tal unanimidade do modo- de-sentir, e o dever-ser, isto é, a necessidade subjetiva da confluência do sentimento de todos com o sentimento particular de cada um significa somente a possibilidade de entrar em acordo sobre isso, e o juízo-de-gosto estabelece somente um exemplo da aplicação desse princípio.2

Neste contexto é importante salientar o questionamento de Guillermit. O autor comenta que, diante da inserção de uma norma ideal do senso comum, não se sabe se tal norma indeterminada existe de fato como princípio constitutivo da possibilidade da experiência ou se é um princípio regulador da razão que nos impõe produzir um senso comum para fins mais elevados. A indagação é digna de nota porque diz respeito ao estatuto do juízo de gosto. Afinal, diante disso vale perguntar: o gosto é dado ou está por fazer, ele é da ordem do fato ou da ordem do ideal, é uma faculdade originária e natural, ou é somente a Idéia de uma faculdade artificial (künstlich) a ser adquirida?

Neste segundo caso, o gosto seria uma exigência da Razão (eine Vernunftforderung), uma exigência de produzir em nós uma unanimidade da maneira de sentir, a obrigação (o Sollen), ou seja, a necessidade objetiva de uma confluência (Zusammenfliessen) do sentimento de todos com o de cada um, significando a possibilidade de realizar o consenso, o juízo de gosto se oferece no exemplo da realização desse consenso na aplicação desse princípio.3

2 Idem, Ibidem.

3 Guillermit, op. cit. pp. 162-163.

A resposta podemos encontrar no § 40, embora de modo indireto e preliminar, onde Kant introduz a necessidade de um ponto de convergência (Vereinigungspunkt) de todas as nossas faculdades a priori através das máximas do entendimento humano comum, que, como faculdade de julgamento, precisa ter capacidade para se expressar sobre regras universais, o que o obriga a abstrair-se de toda sensação e comoção. Kant preocupa-se em definir muito bem os termos quando fala em “entendimento humano comum” (der gemeine Menschenverstand). Isso porque não devemos entender senso comum como o simples são-entendimento (als bloβ gesunden Verstand)4, mas sim como um sensus communis, que é a idéia de um senso comunitário (gemeinschaftlichen), isto é, de uma faculdade que, ao refletir, considera “em seu pensamento (a priori), o modo de representação de qualquer outro como que para ater o seu juízo à inteira razão humana e, assim, escapar à ilusão que, a partir de condições privadas subjetivas teria influência prejudicial ao juízo”5, pois considera apenas as “peculiaridades formais de sua representação ou de seu estado de representação”. O são-entendimento, entendido também como o entendimento vulgar (o homem não cultivado), ao contrário, é uma faculdade que não consegue fazer abstração das limitações materiais do conceito e, por isso, a sua representação estabelece uma comunicação de pensamentos, e não de sentimentos. Kant aqui, de um modo diferente, ainda cuida da fundamental distinção entre juízo estético e juízo lógico (ou intelectual, como agora escreve). Mas, porque a faculdade de juízo estética e não a intelectual pode usar o nome de senso comunitário já que a meta é atingir regras universais? Kant explica que é por causa do termo “sentido” contido na expressão sensus communis. Entende-se por sentido o sentimento de prazer como o

4 Encontramos uma explicação do são-entendimento e da sã-razão na Logik Phillippi de Kant (312-

313), apud Daniel Dumouchel, Kant et la Gênese de la Subjectivité Esthétique, p. 119: “O são- entendimento é uma faculdade de tirar numerosos conhecimentos empíricos comparados a um habitum universal que lhe é conforme e, daí, tirar o analogon de uma regra universal. A sã-razão é uma faculdade de tirar por meio de conceitos da razão in concreto um analogon de um axiomatis, ou seja, de tirar uma disposição (Fertigkeit) a partir da qual um axioma pode ser derivado, mas cuja retidão só pode ser provada pelo juízo in concreto” (XV, R. 432, cerca de 1769).

5 Kant, I. – Crítica da Faculdade de Julgar, tradução de Rhoden e Marques, pp. 139-140 (B 157).

efeito da simples reflexão sobre a mente (Gemüt). Logo, o que é universal é o juízo, o prazer6, não o objeto do gosto7. “Poder-se-ia até definir o gosto pela faculdade de julgamento daquilo que torna o nosso sentimento universalmente comunicável em uma representação dada, sem mediação de um conceito”.8 Na verdade, o que está sendo evidenciado é a diferença entre o senso comum estético e o senso comum lógico: um expressa a comunicabilidade universal do sentimento de prazer ou desprazer diante de uma representação bela, o outro, a universalidade do conhecimento.

O que causa estranhamento neste parágrafo não é a introdução do senso comum como sensus communis, que até agora aparecia na Crítica como Gemeinsinn. Nada há de tão novo nas explicações desse novo conceito uma vez que já conhecíamos as diferenças entre os juízos lógicos e estéticos, reiteradamente explicados na Analítica da Crítica da Faculdade de Julgar Estética. O surpreendente aí são as máximas do entendimento humano comum que, como o próprio Kant escreve, não fazem parte da crítica do gosto, embora possam servir para elucidar seus princípios. As máximas são:1. pensar por si; 2. pensar no lugar de qualquer outro; 3. pensar sempre em acordo consigo próprio. E referem-se respectivamente às faculdades superiores da mente: entendimento, Juízo (Urteilskraft) e razão. Na primeira, Kant contrapõe justamente a superstição, que é a forma mais acabada de preconceito ou razão passiva ao esclarecimento, que tem a função de libertar alguém da cegueira e da dependência lançadas pela superstição. A segunda máxima pede uma maneira mais ampla de pensar e, embora não trate do grau de potência intelectual do homem, nem da faculdade de conhecimento, espera-se uma capacidade alargada de

6 Sentimento – prazer. Não há oposição entre sujeito e objeto. O sentimento de prazer ou desprazer

depende da proporção entre a imaginação e o entendimento. É no jogo regular entre a liberdade da imaginação e o entendimento sem conceito (ou melhor, um conceito indeterminado) que a representação comunica-se como sentimento interno de um estado da mente conforme a fins.

7 O gosto é o senso comum estético. Sua representação é auto-referente. 8 Idem, Ibidem, p. 141 (B 161).

pensar, para que se faça dela o uso conveniente de se colocar à parte das condições privadas do juízo, e assim, poder se imaginar no lugar de qualquer outro para determinar e poder “refletir sobre seu próprio juízo de um ponto de vista universal”9

. Na terceira máxima, ou no modo de pensar conseqüente, Kant nos alerta que, “além de ser a mais difícil de se alcançar, ela só pode ser alcançada pela ligação das duas primeiras e perante uma observância reiterada dessa ligação, convertida em habilidade (Fertigkeit)”.

Logo, pela própria essência das máximas, é possível ver claramente a preocupação do autor em evitar qualquer usurpação da liberdade de pensar, ou refletir. O papel crítico da filosofia está muito bem desempenhado aqui e, ainda que seja a razão que, de uma esfera mais ampla, comanda e assegura a conformidade entre as proposições, ao estabelecer um diálogo entre as legislações (máximas) das faculdades heterogêneas, Kant garante ao seu projeto crítico um alcance de unidade sistemática entre teses antagônicas e permite, sem contradição, pensar por si e considerar o pensamento dos outros10. Com o acréscimo da máxima da razão, ocorre um passo bastante extenso e súbito aqui, o qual provoca um certo estranhamento e suscita a questão de como a razão pode ajudar na elucidação do princípio do gosto. Será que o gosto é uma exigência da razão como suspeitou Guillermit? Deleuze nos oferece uma boa explicação para esta questão:

Poder-se-ia acreditar que o senso comum estético completa os dois precedentes: no senso comum lógico e no senso comum moral, ora o entendimento ora a razão legislam e determinam a função das outras faculdades; agora, seria a vez da imaginação. Mas não pode ser assim. A faculdade de sentir não legisla sobre objetos; não há, portanto, nela uma faculdade (no segundo sentido da palavra) que

9 Idem, Ibidem, p. 141, B159-160.

10 Lebrun, G. - Kant e o Fim da Metafísica, nota 21 do cap. XIII: sobre a máxima do “senso comum”

que nos ordena a “pensar substituindo-se pelo outro”, e a comparação com o juízo do outro como “pedra de toque da verdade”.

seja legisladora. O senso comum estético não representa um acordo objetivo das faculdades (isto é: uma submissão de objetos a uma faculdade dominante, a qual determinaria ao mesmo tempo o papel das outras faculdades em relação a estes objetos), mas uma pura harmonia subjetiva onde a imaginação e o entendimento se exercem espontaneamente, cada qual por sua conta. Por conseguinte, o senso comum estético não completa os outros dois; funda-os ou torna-os possíveis. Jamais uma faculdade assumiria um papel legislador e determinante se, porventura, todas as faculdades juntas não fossem primeiro capazes desta livre harmonia subjetiva.11

Se nos remetermos aos nossos capítulos anteriores onde especificamos a importância de considerar a antecedência do juízo em relação ao sentimento, e lembrar que a raiz do acordo das faculdades fica naquela instância pré-lógica do estado da mente, da filosofia transcendental, fica mais fácil entender esta questão. Kant precisa fazer a vinculação das faculdades da mente em prol de sua sistematização, o que denota neste § 40 a indicação da finalidade do gosto, ou seja, sua conexão com o supra-sensível.

Ora, consegue-se por certo descobrir entre o sentimento de prazer e as duas outras faculdades uma vinculação a priori e, se vinculamos um conhecimento a priori, ou seja, o conceito racional da liberdade, como a faculdade-de-desejar como seu fundamento-de-determinação, encontrar nessa determinação objetiva, ao mesmo tempo, subjetivamente, um sentimento de prazer contido na determinação da vontade. Mas desse modo não é por intermédio do prazer ou desprazer que a faculdade de conhecimento está ligada com a faculdade-de-desejar; pois este não a precede, mas, ou se segue diretamente à determinação desta última ou, talvez, nada mais é do que a sensação dessa determinabilidade da vontade pela própria razão,

11 Deleuze, G. – La Philosophie Critique de Kant, p. 72

portanto absolutamente não é um sentimento particular e uma receptividade peculiar, que exigisse, entre as propriedades da mente, uma divisão particular.12

Isso, por sua vez, também esclarece a busca de Kant de um princípio a priori para o sentimento e a preocupação de elevar o Juízo (Urteilskraft) à classe das faculdades superiores da mente e colocá-lo no mesmo patamar que o entendimento e a razão. É o a priori que estabelece a conexão entre elas:

Ora, a faculdade-de-conhecimento segundo conceitos tem seus princípios a priori no entendimento puro (em seu conceito da natureza), a faculdade-de-desejar, na razão pura (em seu conceito da liberdade), e assim resta ainda entre as propriedades da mente em geral uma faculdade ou receptividade mediana, ou seja, o sentimento de prazer e desprazer, assim como entre as faculdades superiores do conhecimento uma faculdade mediana, o Juízo. O que é mais natural do que supor: que este último conterá igualmente princípios a priori para aquele primeiro.13

Assim, a norma ideal do senso comum é mesmo pressuposta como um ideal a ser buscado infinitamente, mas “a Gemeinschaft kantiana, por ser um ideal, não é uma noção puramente abstrata; ela não é um voto piedoso assim como as Idéias reguladoras não eram ficções do cientista, (...) ela está inscrita em nossa faculdade de conhecimento”14.

No entanto, ainda falta resolver a questão do dever (Sollen) que, parece trazer para o juízo estético um aspecto moral. Kant dá uma boa sugestão no fim do § 40 quando diz que se pudéssemos admitir um interesse na comunicabilidade

12 Kant, I. – Duas Introduções à Crítica do Juízo, org. R. R. Terra, p. 42. 13 Idem, Ibidem.

14 Lebrun, op cit. pp. 504-505.

universal, o sentimento no juízo de gosto seria atribuído quase como um dever15

(gleichsam als Pflicht) a qualquer um. Ou seja, o dever está vinculado a um interesse. Mas uma das marcas essenciais do juízo de gosto não é justamente o desinteresse? Esta pergunta por si só já contaminada pela suspeita de que ocorre nesses parágrafos uma mudança em relação ao estatuto do gosto, ou melhor, senão uma mudança, pelo menos um acréscimo àquele juízo de gosto que a exposição delineara: há um interesse estético.

No § 41 é rejeitado o interesse empírico pelo belo porque ele é indireto e mediato. A sociabilidade se dá mediante a inclinação ou propensão do homem para a sociedade, e, por isso, como diz Lebrun, este parágrafo esboça uma interpretação do gosto como transição entre natureza e cultura, o que acaba fazendo do gosto uma figura da economia de mercado, uma mediação graças a qual, o sensível se torna moeda, não dando conta, naturalmente, da significação profunda do juízo estético enquanto faculdade a priori.16 Em sociedade, vale para o gosto o mesmo que vale

para o juízo de conhecimento: a satisfação se dá pela existência do objeto, e à medida que cresce na sociedade a satisfação do gozo de determinados objetos, aumenta também o interesse sobre eles, numa relação diretamente proporcional. É a “idéia de comunicabilidade universal desse objeto que aumenta quase que infinitamente o seu valor”17. É nesse sentido que Kant diz que um homem isolado não teria interesse em qualquer adorno para sua própria aparência, tampouco cuidaria de sua morada com zelo, “pois só em sociedade ocorre-lhe ser não simplesmente homem, mas também um homem fino à sua maneira”.18 No final deste parágrafo Kant sugere que a passagem do sensível ao bom pode ser encontrada não no juízo de gosto empírico,

15 O grifo é nosso.

16 Cf. Lebrun, op. cit. pp. 509 e 512.

17 Kant, I. – Crítica da Faculdade de Julgar, p. 144 (B164). 18 Idem, Ibidem, p. 143 (B163).

como acabamos de conferir, mas no juízo de gosto puro. E é no § 42 que o interesse descreve com precisão a contemplação estética e o sentimento moral.

O interesse habitual, indireto e imediato do simples prazer pela beleza da natureza, ou melhor, pelas belas formas da natureza, “denota pelo menos uma disposição da mente (Gemütsstimmung) favorável ao sentimento moral”19; mas este interesse tem de ser desprovido de qualquer atrativo ligado às formas, pois ele nessas condições é empírico, embora seja, no entanto, imediato também. É o interesse imediato e intelectual, isto é, o pensamento acompanhado pela intuição e pela reflexão de que a natureza produziu aquela beleza, que confere a quem a contempla um sinal de boa alma, um indício de que esta é a maneira de pensar de todos os homens que cultivam o sentimento moral. Ao contrário do interesse empírico, neste, o solitário aprecia o belo pelo beloenquanto tal e “não apenas o seu produto apraz a ele segundo a forma, mas também a sua existência, sem que um atrativo sensorial tenha participação nisso ou também ligue a isso qualquer fim”.20 Para a sociedade como inclinação do homem, “a ‘bela forma’ não era o mais requintado dos produtos de consumo, mas o símbolo de uma comunidade universal possível – nela, a ausência de fim não era sinônimo de gratuidade, mas o indício de que ela não servia mais para a satisfação de alguém em particular”.21

Kant faz um paralelo entre faculdade de julgar estética e faculdade de julgar intelectual explicitando que, em ambas, o julgamento é sobre formas puras e a satisfação não é fundada sobre um interesse. Tanto o prazer ou desprazer no gosto, que julga sem conceitos e encontra a satisfação no mero ato de julgar tornando-a, ao mesmo tempo, regra para qualquer um, como também a satisfação pelo sentimento moral, cuja faculdade “determina a priori para simples formas de máximas práticas (enquanto elas se qualificam espontaneamente para uma legislação universal) uma

19 Idem Ibidem, p. 145 (B 166). 20 Idem, Ibidem, p. 145 (B 167). 21 Lebrun, op. cit. p. 525.

satisfação que tornamos lei para qualquer um”.22 Ambas as faculdades não se fundam sobre um interesse, mas ocorre entre elas uma diferença importante: a primeira [estética] também não produz um interesse, a segunda o produz. Isso porque interessa também à razão que

as Idéias (pelas quais ela produz um interesse imediato no sentimento moral) tenham por sua vez realidade objetiva, isto é, que a natureza pelo menos mostre um vestígio ou avise-nos de que ela contém em si algum fundamento para admitir uma concordância legal de seus produtos com a nossa satisfação independente de todo interesse (a qual reconhecemos a priori como lei para qualquer um, sem poder fundá-la em provas), assim a razão tem que tomar um interesse por toda manifestação da natureza acerca de uma semelhante concordância, em conseqüência disso, a mente [Gemüt] não pode refletir sobre a beleza da natureza sem se encontrar ao mesmo tempo interessada por ela. Este interesse, porém, é, pela sua afinidade, moral; e aquele que toma um tal interesse pelo belo da natureza somente pode tomá-lo na medida em que já tenha fundado solidamente seu interesse no moralmente-bom [Sittlichguten]. Portanto naquele a quem a beleza da natureza interessa imediatamente temos motivo para supor pelo menos uma disposição para a atitude moral boa”.23

Ou seja, Kant faz a aproximação das duas instâncias, à primeira vista intransponível, por analogia. É a atividade heurística mais uma vez que cuida de preencher o vão existente entre a natureza e o supra-sensível através das belas formas que a natureza oferece:

22

Idem, Ibidem, p. 146 (B 169).

23 Idem, Ibidem, pp. 146-147 (B 169-170).