Rasmussen em cena do espetáculo. FONTE: http://www.bacante.com.br/critica/andersens- dream/
sinestésicos evoca uma fruição sensível, na qual somos remetidos a um universo caleidoscópico e mergulhamos em nossa subjetividade.
O grupo inspirou-se em muitos episódios da vida de Andersen. Barba disse em entrevista que, para o espectador dinamarquês, os contos do escritor são como a obra Macunaíma no Brasil, todos conhecem. Na Dinamarca, o autor é um herói nacional. Deste modo é mais fácil para este público reconhecer no palco dados de sua biografia ou de seus contos.
A obra se comunica, sobretudo, a partir de estímulos sensoriais, levando em conta os princípios direcionadores do projeto poético do grupo. A produção é apresentada em dinamarquês, espanhol, árabe, italiano, inglês, norueguês e português. O diretor acredita que o idioma não é uma barreira para o entendimento de sua arte, pois para ele o ser humano pensa a partir de uma lógica emotiva e utiliza o cérebro para detectar ações e sentimentos.
O encenador ainda afirma que uma das fraquezas do teatro contemporâneo é ter se tornado demasiado racional. Às vezes as palavras podem enclausurar questões amplas e não deveriam adotar uma forma fixa. As relações de suas obras são criadas por meio da dinâmica entre técnicas sonoras, físicas, imagéticas e narrativas.
Na peça, as palavras são antes evocativas que denotativas e, muitas vezes os atores as utilizam em seu efeito sonoro, não pelo significado. No Odin Teatret, os intérpretes não interpretam um texto, procurando dar vida a ele. As ações físicas também acompanham o ritmo da voz, como versos não escritos ou pronunciados, reações de impulsos internos.
Para Paul Zumthor, a voz está ligada a nossa memória arquetípica e, ao romper a reclusão do corpo, engloba valores míticos ancestrais ao relato poético. À sua maneira, ela emana a energia do processo para o público, cumprindo o papel de enunciadora do balaio catártico da criação.
A vocalidade está então presente em momentos de forte comoção coletiva, inseridos no campo de ação da arte. Em tal âmbito, são manifestadas condutas ritualizadas de comunicação que se reverberam em vibrações fisiológicas do artista e do fruidor.
Os contos de Andersen abarcam muitas histórias de brinquedos animados. A encenação da companhia teatral contempla estes momentos de possibilidades de duplos universos: realidade e sonho. O mundo infantil de brinquedos que criam vida é representado pela atmosfera mágica, na qual um cavalinho de balanço que nunca sai de cena, um ator anda trajado de soldadinho de chumbo, velhas princesas voam e bonecos conversam.
Em meio a estas doces e decrépitas figuras afloram criaturas retorcidas e deformadas, como as que povoam pesadelos. Jogos entre luz e sombra, verão e inverno, originam dantescas imagens de membros mutilados, torturas, amputações e enforcamentos, que ajudam a entender as camadas de perversidade e violência presentes nas fábulas do autor.
Paralelamente, a imaginação desdobrada do coletivo nos leva a pensar sobre a passagem do tempo, a velhice, o amor e a morte. Esta última quase sempre associada ao frio, assim como nos contos do autor. A neve foi um elemento fundamental para a evocação de imagens poéticas e sombrias no espetáculo.
A neve é muito significativa em várias das produções anteriores do Odin Teatret. O simbolismo da neve como uma expressão do efêmero tem um papel importante em Itsi-Bitsi, onde pedaços de papel confete alternam entre a imagem da heroína (droga), ou mantém sua concretude como papel confete. Outro exemplo é o urso polar que toca sanfona, conhecido nas paradas de rua do grupo, nas trocas e na produção Ode ao Progresso. Por fim, a demonstração de trabalho de Roberta Carreri – Traços na Neve – usa a neve como metáfora para criar um universo imaginário que acompanha sua narrativa de atriz em busca de uma técnica (KUHLMANN, 2005, p. 228 – 229, tradução Vanja Poty).
Quando conversei com alguns espectadores a propósito das impressões que tiveram de O Sonho de Andersen, descobri que a platéia sai do espetáculo perplexa; incapaz de explicar suas relações – são tantos elementos sobrepostos que é preciso tempo para assimilar a vivência que acabamos de passar. A obra é extremamente complexa, cheia de meandros e questões escondidas118.
118 Tal característica fragmentária da obra pode ser considerada tanto uma qualidade, quanto um defeito. Ao mesmo tempo em que suas experimentações estéticas podem ser interessantes para o fruidor – que reencontra o mistério do cotidiano –, podem também assinalar uma conceituação extrema, de opacidade hermética: é, portanto, anti-
Para conseguir provocar no espectador a instabilidade do olhar recorrente a este ambiente onírico, os atores desdobram-se em sua capacidade artística. As diversas metamorfoses ao longo da obra
indicam a capacidade imaginativa do grupo que, a partir do contraste entre caos, realidade e ficção construiu uma estética surreal e barroca, baseada na justaposição de imagens e de símbolos – ou seja, de linguagens – de mídias que se cruzam para a montagem de uma condição sinestésica de fruição.
A cena torna-se uma forma de comunicação ativa de comunhão entre
artistas e público – dialógica e não linear. Desperta o poder da memória e do imaginário inconsciente, por meio de representações arquetípicas e mitológicas. Sua localização se dá em um território miscigenado que nega a ascendência do drama burguês, problematizando seu status de verdade aparente.
Trata-se de uma obra que investiga a desorganização da representação como narrativa, priorizando o fragmento e a desconstrução física, em prol da intensidade expressiva. Deste modo, o percurso intersemiótico ampliou as possibilidades comunicativas da produção, pois suas conexões são plurais, móveis e inacabadas.
3.8 – Dedicatória
Muitos dos meus mestres nunca me conheceram, não me escolheram como discípulo, estavam já mortos quando eu comecei; aquilo que tinham feito e escrito não era dirigido a mim. No entanto, apesar de ser objetivamente controlável, isso não é verdade. Toda a sua vida e seu agir foram uma compilação de uma enigmática mensagem (...) Eu passo a minha vida tentando decifrar essa mensagem que mora no meu corpo e na minha alma e que os mantêm vivos (BARBA, 2006, p.116).
comunicativa, cheia de informações cifradas e inacessível ao público “não iniciado” por suas difíceis entradas perceptivas.
26. Os atores Torgeir Wethal, Iben Nagel Rasmussen e Julia