• Sonuç bulunamadı

3.3. Araştırma Bulgularının Değerlendirilmesi

3.3.3. Bölüm Tercihiyle İlgili Normallik Testi Sonuçları

Kant trata de usos equivocados das ideias da razão, da tentativa de determinar algum objeto para essas ideias, tomando-as por coisas reais e exorta que sejam concebidas como esquemas, como princípios reguladores, pensadas exclusivamente enquanto ideias e admitidas apenas relativamente. Entre tantas ressalvas e cisões, Kant também alerta para vícios nos quais usualmente se enverada no que concerne a razão, suas ideias e seu uso equivocado. Esse acréscimo de Kant reforça a afirmação que o tema das ideias da razão, particularmente daquelas classicamente clamadas para o reino da metafísica clássica, não é dos menos espinhosos e ainda que existam esclarecimentos definitivos, o caráter paradoxal de algumas questões; as constantes cisões de Kant mostram a dificuldade da empreitada.

Pois bem, o primeiro vício para o qual Kant chama a atenção é o da “razão preguiçosa” (ignava ratio). É o que modernamente chama-se apelo ao “deus das lacunas”, isto

é, se numa dada investigação encontra-se um fenômeno que não se pode explicar e a explicação é automaticamente atribuída a um Deus criador, a lacuna da ignorância é preenchida com Deus. A razão preguiçosa é prejudicial ao conhecimento, numa espécie de efeito inverso das vantagens heurísticas que as ideias da razão conduzem o investigador da natureza, pois ela encerra a perspectiva de avanço na explicação de fatos da natureza. Põe a razão para descansar como se esta faculdade nada tivesse de ativo a fazer e cria uma situação

cômoda onde todas as explicações estão à mão, tornando a pesquisa acurada obsoleta. Além, evidentemente, do vício da razão preguiçosa com relação à ideia teológica conduzir ao argumento físico-teleológico, que é justamente explicar a ordenação do mundo por meio de um arquiteto universal.

A admissão de ideias da razão como constitutivas induz a razão preguiçosa. No caso da ideia psicológica, há um elevado grau de comodidade em admiti-la como constitutiva e remetê-la a um objeto, pois permite ao “dogmático espiritualista” fazer montes de afirmações sobre os fenômenos da experiência interna humana, sobre a “unidade da substância pensante” (KrV, A690/B718, p. 562) que dispensam, por exemplo, explicações físicas sobre os fenômenos dessa experiência interna, visto que intransigente e preguiçosamente afirma a natureza imaterial da alma, dispensando quaisquer elementos de prova para todo o resto. O mesmo se observa numa interpretação teleológica radical da natureza, o dogmático encontra causa causas finais em todas as coisas (tal como o Cândido de Voltaire ao afirmar que o nariz foi feito para apoiar os óculos), quando muito provavelmente só o que há são causas mecânicas, contudo, muitas das vezes, essas causas finais são atribuídas arbitrariamente,

dispensando de “procurarmos nas leis universais do mecanismo da matéria” e dando azo para apelos aos “decretos insondáveis da sabedoria suprema” (KrV, A691/B719, p. 563); o vício

pode ser descrito como um atravanco eterno ao estabelecimento do conhecimento porque fornece uma resposta fixa para qualquer fenômeno que sobre a explicação paire a ignorância.

Não que “um princípio regulador da unidade sistemática de uma conexão teleológica”

não seja tanto útil quanto desejável, é contra a dogmática mania viciosa de encontrar finalidades dadas por Deus por toda a parte que Kant avança. Um tal princípio regulador pode

e deve, em verdade, “estender, a todo o tempo, o uso da razão relativamente à experiência,

sem lhe trazer, em caso algum, qualquer prejuízo” (KrV, A692/B720, p. 563), justamente na esteira do que fora afirmado e ficando evidente, novamente, que a separação entre o uso

equivocado e o uso apropriado é tênue, frisando a tese que os erros nos quais, historicamente, os metafísicos incorreram fazem parte do percurso, sendo necessário um apuro de análise ao longo do processo para que esses erros sejam ultrapassados.

Tal imposição “violenta e ditatorial” de fins à natureza leva ao segundo vício que é o

da “razão perversa” ou “razão que procede em sentido inverso”. Trata-se por tomar o

princípio da unidade sistemática da natureza como constitutivo e como primeiro passo do processo investigativo cognoscente, colocando os fins desde o princípio e criando, assim,

“antropomorficamente, o conceito de uma tal inteligência suprema” (KrV, A692/B720, p.

564) responsável pelo estabelecimento de tais fins. Este vício fere por completo a revolução copernicana, visto que pretende estabelecer as finalidades na natureza tendo a disposição apenas um princípio regulativo e, ainda pior, supõe que é possível dizer que as finalidades lá estão, na essência mesma da natureza e que é possível determinar isso a priori. Ademais, como alerta Kant, o vício em questão está calcado numa petição de princípio, pois pressupõe e pretende provar a partir da observação das finalidades do mundo uma causa inteligente

causadora desses fins, mas já admite de início “um ser ordenador supremo” que impingiu os fins no mundo e assim, com este segundo vício, “se pressupõe o que se deveria precisamente demonstrar” (KrV, A693/B721, p. 564), devendo ser afastado da investigação criteriosa do

mundo tanto quanto o primeiro.

A questão dos vícios é particularmente importante para a preocupação epistêmica aqui destacada visto tanto que reforça o já destacado caráter peculiar das admissões que Kant faz para os até então objetos caros apenas à metafísica clássica o que, por sua vez, desconstrói a hipótese do deslize metafísico ou de qualquer passo atrás reautorizando a metafísica e, especialmente, mostra que para haver efetivo ganho de conhecimento com o uso das ideias e para que se admita a necessidade das mesmas, há algumas condições a serem seguidas

estritamente, entre elas evitar vícios que em vez de descortinar o papel ativo exercido pela razão, tornam a mesma um item supérfluo. Segundo Kant:

A pesquisa da natureza prossegue o seu curso, seguindo unicamente a cadeia das causas naturais de acordo com as leis universais da natureza; sem dúvida, segundo a ideia de um autor supremo, mas não para deduzir deste a finalidade que busca por toda a parte, mas para lhe conhecer a existência a partir dessa finalidade (KrV, A694/B722, p. 565, grifos nossos).

E isso porque a ideia de Deus tem um papel a exercer e sua admissão pode ser dada de formas que comprometam todo arcabouço crítico que precede o Apêndice, particularmente se incorrer num dos vícios citados e o propósito com boa parte dos pormenores desse trecho da Crítica é, justamente, sair desse mal emprego da razão.