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Nos últimos vinte anos, centenas de cubanos tem emigrado para Portugal. Segundo o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, em 2011, havia 795 cubanos com permanência regular no país ibérico.

As relações entre Portugal e Cuba entre 1975 e 1991 foram particularmente tensas. Podemos maginar a repercussão que tivera sobre o processo de transição politica, a influência cubana sobre vários dos protagonistas da revolução portuguesa. Hoje não obstante certos constrangimentos que marcaram a relação pessoal de alguns dos seus líderes, e as diferentes opções estratégicas externas adoptadas pelos governos dos dois países, podemos dizer que as relações políticas entre Portugal e Cuba são boas e cordiais.

“Na ocasião de uma das Cimeira Ibero-Americanas, o presidente venezuelano que naquela altura era o Dr. Rafael Caldera, referiu que a Cuba do Fidel Castro não era uma democracia, e por isso, devia sair da Comunidade. Fidel Castro respondeu atacando a

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Venezuela e a Portugal, «o governo cubano ajudou tanto a Portugal durante a revolução…». Eu respondi: «Cuba ajudou mas foi ao PCP a tentar sovietizar Portugal, coisa que nós impedimos». A partir daí as relações pessoais entre nós os dois, congelaram. «Até àquela data recebia sempre charutos cubanos, depois nunca mais recebi… ainda bem porque deixei de fumar»254

Têm contribuído para isso, por parte de Portugal ‒ envolvendo sobretudo alguns sectores da sociedade civil ‒ , os acordos da Câmara Municipal de Vila Real de San António com os Serviços Médicos Cubanos (uns 400 portugueses, com problemas de visão, já foram tratados em Cuba), a ONG OIKOS (com uma delegação em Cuba), a Assembleia da República através do Grupo Parlamentário de Amizade com Cuba, entre outros.

Em Cuba um certo reconhecimento da presença portuguesa, que se traduz em pequenos gestos simbólicos como fora a inauguração, em 2005, de um mural de azulejos dedicado ao célebre romancista português Eça de Queirós, quem fora cônsul de Portugal em Cuba, entre 1872 y 1874. O restauro e reabertura das portas de aquele que fora outrora, o café «La Columnata Egipciana», local que frequentara o escritor e onde escrevera muitos das suas mensagens de protesto e a favor dos oprimidos e explorados, advogando pela extinção do comércio dos ‘trabalhadores chineses’ ou coolies, desde Macau. “ (…) de maneira a que esse recinto possa perpetuar o nobilíssimo propósito de lhe render homenagem e para lembrar que são ainda perceptíveis as marcas deixadas em terra cubana”.255 Podemos assinalar também a visita, em 2011, a Portugal, de uma delegação de Baracoa para celebrar as “Jornadas Luso-Cubanas”, como sendo parte de um amplo projecto de intercâmbio cultural entre esta histórica vila cubana (a primeira a tocar Cristóvão Colombo em 1492) e a ilha de Porto Santo (Madeira).256

254 Mário Soares (Primeiro-ministro de Portugal entre 1976-1978 e 1983-1985, Presidente da República Portuguesa, de 1986 a 1996), em entrevista concedida a autora, em 4 e 9/02/2011, na sede da Fundação Mário Soares, em Lisboa, devidamente arquivada.

255

SPENGLER, Eusébio Leal (2000), “Eça em Havana”.

256 Para alguns autores foi na ilha do Arquipélago da Madeira, Porto Santo, em que se inspirou Colombo para lhe atribuir o nome a baía.

121 As visitas ministeriais entre os dois países não são frequentes. O último membro do Governo português que esteve em Cuba foi o secretário de Estado João Gomes Cravinho, em 2009. Naquela ocasião ‒ num novo contexto de relações da União Europeia com Cuba, que incluía a retoma da cooperação para o desenvolvimento entre a UE e a ilha, depois de uma interrupção de cinco anos ‒ , ambos governos assinaram, em Havana, uma declaração para retomar a cooperação bilateral nos sectores económico e científico-técnico, com ênfase no turismo, biotecnologia, indústria farmacêutica e energias renováveis.

No âmbito das respectivas políticas externas, e apesar das opções estratégicas distintas adoptadas pelos dois estados, Portugal (no contexto mais amplo das cimeiras ibero-americanas) tem vindo a apoiar reiteradamente a Cuba contra el bloqueio económico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos à ilha há mais de meio século. A sua vez, Cuba junto ao resto dos países ibero-americanos apoiou a candidatura de Portugal a membro não-permanente do Conselho de Segurança da ONU, para o biénio 2011-2012.

Segundo a AICEP (2010), em 2009, Cuba era o 75º cliente de Portugal, com uma quota de 0,04%, e o 74º fornecedor, tendo representado também, 0,04% do valor global das importações.257

Portugal importa essencialmente açúcar e carvão de Cuba e exporta plástico, máquinas ligeiras e vários outros itens. Não obstante o peso reduzido que Cuba tem tido na estrutura do comércio internacional português, podemos constatar que tem havido um crescimento sustentado das exportações para este mercado nos últimos anos. “A taxa de cobertura é cada ano melhor, temos dados de Janeiro a Março de 2013, e se compararmos com o período homólogo do ano anterior as exportações portuguesas dispararam, estamos com uma taxa de cobertura das exportações sobre as importações, de 600 %”.258

257

Cf. AICEP, “Relações Económicas Portugal-Cuba”.

258 Cf. Diário de Notícias, “Embaixador em Havana quer visita ministerial de Portugal a Cuba”. 21/7/2013.

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Tendo em conta o actual processo de abertura económica da ilha ‒ considerado por muitos como sendo irreversível259 ‒ um dos sectores que aparecem com grande potencial para o investimento é o do turismo. Com efeito, Cuba constitui hoje um dos principais destinos turísticos das Caraíbas, inclusive por parte dos turistas portugueses. Portugal, em 2011, emergia como o 15º mercado estrangeiro emissor de turistas à ilha e o nono da Europa.260 Nesse sentido, e segundo o embaixador de Portugal em Cuba, Sr. Fernando Tavares de Carvalho “é cada vez mais elevado o número de empresas portuguesas presentes em Cuba, em áreas como o turismo, onde o Grupo Pestana acaba de ganhar um concurso de gestão de um hotel na praia de Cayo Coco, e existem oportunidades para renovar unidades hoteleiras, inclusive em praias mais perto de Havana, como Varadero”261.

Entre os instrumentos jurídicos vigentes que visam regular as relações entre os dois países, encontramos o Acordo sobre a Promoção e a protecção reciproca dos investimentos, de Dezembro de 1998 (entrou em vigor em Junho de 1999), e a Convenção para Evitar a Dupla Tributação e Prevenir a Evasão Fiscal em matéria de Impostos sobre o Rendimento, de Julho de 2001 (entrou em vigor em Fevereiro de 2006).

III.5 Actualidade das relações bilaterais entre Portugal e os países ibero-americanos:

Benzer Belgeler