No Ateliê, cuja proposta foi vivenciar a Paisagem do Sensível, os professores em formação foram convidados a apreciar o olhar para si, vislumbrando seu corpo e sua corporeidade numa relação de inteireza consigo. Nesse encontro de busca de si, foram se percebendo como sujeitos de histórias e redescobrindo-se numa paisagem de beleza e encantamento pela vida. Assim se justifica a escolha temática da vivência.
As energias que circundavam, o colorido das mantas e os sons suaves das músicas davam à paisagem um novo cenário de espontaneidade, de criatividade, materializando-se em um lugar de diálogo e reflexões. Lugar de viver experiências. Assim é a imagem dessa nova sala de aula, um lugar em que “a relação pedagógica dialoga com os processos cognitivos do aprendente” (ASSMANN, 2007, p. 70).
Para essa vivencialidade, solicitamos que cada participante trouxesse uma fotografia 3X4, que foi colada numa folha de papel A4 impressa com linhas para a escrita das narrativas e com local destinado à colagem da foto. Distribuímos a cada um dos participantes a letra impressa da música “Caçador de mim”, do compositor Milton Nascimento, e realizamos uma leitura poética, desbravando frase a frase, interpretando e dando sentido aos sentimentos corporalizados que afloravam. Cantando, dançando e sentindo, pensamos em nós, nos outros e nas relações que construímos ao longo das etapas de vida experienciadas.
Acompanhamos cada expressão corporal para a escrita das narrativas e percebemos a expressão de alegria e contentamento. Alguns falaram que jamais tinham escutado de forma sensível aquela música. A nossa orientação para que interpretassem frase a frase fez com que percebessem a profundidade do seu texto.
A frase inicial da música, “Por tanto amor, por tanta emoção, a vida me fez assim...”, foi pouco a pouco desnudando a paisagem interior e revelando uma paisagem de sensibilidade e de descoberta de si, conforme ilustram as seguintes narrativas:
Mulher carinhosa, mansa e dedicada à família, mas não perfeita. Não aceito que ninguém queira me fazer de boba, porque daí viro uma fera.
Mas, tento resolver tudo conversando. Acredito que com calma e conversando tudo se resolve. Gosto do meu trabalho e me sinto bem quando estou trabalhando, gosto de estar com as pessoas e gosto de conversar com pessoas amigas. Amo muito minhas filhas, meu marido e meus pais (meu pai já falecido). Também acredito que sou amada por eles, pois os mesmos me fazem sentir assim. Também sou tímida e sinto dificuldades em me relacionar com pessoas que não façam parte do meu grupo de amigos (DOLORES, 2009).
[...] um Ser humano que vive em constante busca, procurando se encontrar... Emoções variadas, muitas vezes extremos sentimentos, um verdadeiro paradoxo. Antigos momentos, antigos sentimentos, nos levam a viajar no passado e às vezes nos encontrar longe de nós mesmos. Relembrar, sonhar, encontrar, assim se descobrir. Somos eternos caçadores de nós mesmos (NABOR COSTA, 2009).
Sonhadora, crendo que ser feliz é possível, sim, apesar das nuvens cinzas da maldade de alguns seres humanos desumanos. Doce me faço diante da beleza interior das pessoas e atroz por tanta injustiça. Às vezes me sinto presa às antigas canções que me falam de paixões e anos bons. Às vezes temo que a luta do dia a dia me enfraqueça e finjo ser forte para enfrentar o fantasma do medo e da solidão. Mas continuo, seguindo sempre, sonhando em busca da realidade do que quero, sonhando que será o melhor para mim (MARIA FLOR, 2009).
Observa-se que em cada narrativa está presente a expressão de encontro com a própria história, o despertar dos sentimentos e as reflexões que emergem nesse encontro consigo, desvendadas nas várias linguagens. O olhar para si faz com que o sujeito apresente-se como autor de sua história, demarcando as temporalidades representativas no campo cultural e psicossocial. Nesse contexto, um fio da Teia Epistemológica da Corporeidade se configura através da reflexividade histórica, ressaltando a análise corpográfica do sujeito (CAVALCANTI, 2010). Essa reflexividade de si, ou seja, autobiográfica, Dilthey (1992 apud PASSEGGI, 2008) propõe como forma de compreender o mundo. Assim, a tomada de consciência através da observação, percepção e reflexão sobre si na abordagem biográfica permite que o sujeito produza um conhecimento sobre si mesmo, sobre os outros e sobre o cotidiano (SOUZA, 2008). Esse desvendar-se cria uma relação consigo que desabrocha na poesia encantadora pela vida, apresentando-se na propriedade ludopoiética da autoconectividade. Nessa viagem a memória que ora se apresenta longínqua, ora próxima, o encontro com sua própria
história revela um ser que busca transformar-se pela necessidade do encontro ontológico refletido em cada sentimento que dá sentido à vida.
Nesse sentido, as narrativas autobiográficas são a paisagem ontológica do Ser em que o autor reflete, se reconhece e é tomado pelo questionamento socrático: quem sou eu? (JOSSO, 2003).
Outros fragmentos das narrativas a seguir revelam as emoções e os sentimentos vivenciados pelos educandos na produção das narrativas, subjetividades que expressam singularidade de cada sujeito declarando conhecimento sobre si. Agora a tarefa desafiante é analisar os fenômenos intersubjetivos para compreender o mundo social desses professores em formação. Foi com o olhar sensível da pesquisadora que interpretamos à luz dos princípios etnofenomenológicos as ações cotidianas expressas nas narrativas dos professores em formação.
Sou uma pessoa feliz, de bem com a vida. Alegre quase sempre. Às vezes pensativa e calada comigo mesma. Só eu sei de mim. Não temo os problemas da vida, enfrento-os de cabeça erguida. Vivo em busca dos meus horizontes, sonhando na realização de meus objetivos (REBECA, 2009).
[...] Mas uma coisa eu tenho certeza: sou uma pessoa batalhadora, que, apesar de encontrar muitos obstáculos no caminho, não desisto dos meus sonhos [...] sou alguém que ri, que chora, que ama, que sofre, que não desiste. Eu, caçadora de mim! (EDNA POETA, 2009).
[...] a vida me fez suportar as dores da partida dos meus entes queridos. Por tanto amor e por tanta emoção, estou superando muitas barreiras, e é ela que me ensina (MARINA, 2009).
Nas narrativas acima, podemos interpretar o fenômeno mediante o princípio da humanescencialidade em que o ser se expande por meio de sua essência humana, percebendo-se com um ser corpóreo que cria, pensa e sente (CAVALCANTI, 2010).
As emoções e sentimentos experienciados são desvendados em cada fala e transformam o olhar para si numa paisagem de beleza e de intensas manifestações em prol da vida. As relações que se estabelecem entre os sujeitos e o conhecimento tecem na metáfora da teia o segundo fio – a sensibilidade. Para Maturana (1999, p. 170),
Na vida cotidiana cada emoção implica em que somente certas ações são possíveis para a pessoa ou animal que as exibem. Por isso afirmo que aquilo que distinguimos como emoções, ou que conotamos com a palavra emoções, são disposições corporais que especificam a cada instante o domínio de ações [...].
Para o autor, as ações humanas, independentemente de onde ocorram, fundam- se no emocional e são disposições corporais. Nesse sentido, as narrativas acima manifestam essas disposições, especificando os domínios de ações experienciadas pelos autores das narrativas, que ora choram, ora sorriem, sentem dor e alegria.
Os vários domínios de ações ocorrem muitas vezes em espaços-tempos distintos, quais sejam: o tempo da atividade doméstica, o tempo do trabalho, o tempo livre, entre outros. Pineau (2003, p. 111) considera:
Tentar expressar a experiência vivenciada dos tempos de vida para compreender a vida e a sua vida, articulá-las melhor e transmitir estes resultados positivos a outros provavelmente é a primeira tarefa imposta pela escola da vida e que todo ser vivo exerce, mais ou menos confusamente, dentro uma dinâmica entre as gerações.
Observamos na narrativa abaixo a experiência nesses tempos de vida geracional, nos qual o professor em formação narra, fazendo emergir de uma determinada ação relações do tempo com o espaço da brincadeira e desenhando os fios da ludicidade e da criatividade. Cada palavra aparece dando sentido ao prazer de viver, em que o tempo é definido para tal finalidade, dentro de uma dinâmica temporal, lúdica e geracional.
[...] mas apesar de toda essa luta ainda achava tempo nos finais de semana para brincar de bonecas com as minhas filhas, fazendo roupas e às vezes até mesmo boneca de pano (JANA SORIEL, 2009).
De acordo com Torre (2005, p. 13), a “criatividade é a decisão de fazer algo pessoal e valioso para a satisfação própria e benefício dos demais”. É justamente nessa perspectiva que a narrativa se apresenta. A autora da narrativa cria o espaço de inventividade no viver o jogo da beleza e da alegria. Com o espaço criado, deleita-se com a brincadeira e o jogo livre, temporário, tornando o irreal concreto. As experiências
vividas integram-se numa triangulação do brincar, criar e sentir, formando os fios que dão sustentação à teia da corporeidade. A realização dos desejos ludopoiéticos é o estado vivencial de prazer e alegria no envolvimento com a vida, revelando o processo de autofruição, outra propriedade da ludopoiese. O princípio da experiencialidade da análise etnofenomenológica pode ser interpretado nas atividades cotidianas reveladas no uso de suas linguagens ao criar e recriar novas realidades no mundo social com o qual se identifica, compreendendo o princípio da experiencialidade.
Outras narrativas dessa vivencialidade são analisadas abaixo, nas quais observamos a linguagem expressa, característica que se identifica com a reflexividade vivencial. Nesse entrelaçamento de sentidos e significados, fomos interpretando cuidadosamente essas narrativas. Para Coulon (1995a, p. 46), “tornar o mundo visível significa tornar a minha ação compreensível, descrevendo-a, pois eu mostro o seu sentido pela revelação a outrem dos processos pelos quais eu relato”. Essa descrição na qual os professores em formação fazem de seus processos reflexivos a expressão do mundo social na sua mais pura essência é vista a partir da etnofenomenologia como princípio da auto-organizalidade. Na teia da corporeidade, a reflexividade vivencial se apresenta no refletir sobre as experiências, evidenciando as diferenças e similitudes entre tempos vividos, bem como resgata as experiências que foram formadoras.
Amável, simples e humilde, com carinho e dedicação a minha família onde para mim é a base de tudo. Talvez por ter sido criada de uma maneira muito reprimida, pois o meu pai era daqueles que não deixava as filhas saírem de casa, me acostumei naquela vida pacata de menina de interior só ajudando nos afazeres domésticos e indo ao colégio. Diante de tudo isso me tornei uma pessoa introvertida com vergonha de tudo e de todos (RUTE, 2009).
Ao longo da minha vida tenho vivido momentos diversos, como: alegres e tristes. Os mais agradáveis e que gostaria de vivê-los novamente foram os da minha infância [...]. Meus pais agricultores, analfabetos, sem recursos financeiros, mas me ensinaram muitas coisas boas, principalmente, paz e união ao lado de minha mãe. E isto serviu de alicerce para minha vida até os dias de hoje [...] (REBECA, 2009).
Filha, esposa, mãe, amada, amante, amantíssima em alguns momentos extremada por amor demais. Assim cresci, amadureci, mas a busca continua, em alguns momentos desejo mudar, me encontrar, melhorar e aprender. Nas situações do dia a dia a vida nos ensina coisas novas e assim vamos aprendendo. Aprendendo com a mãe, com os filhos, com o marido, vou buscando um ponto de equilíbrio, seguindo o caminho do amor, às vezes na dor e aí a vida exige de nós uma atitude energética e aí que tenho medo de magoar quem amo sendo rígida demais. Não sei a medida certa, só não deixo a emoção ultrapassar a razão (LALÁ SILVA, 2009).
As narrativas desvelam um espaço-tempo dos acontecimentos autorregulado pelas emoções e sentimentos e constituem-se nos desejos vivenciais de criação e expressão de si. No refletir consigo, apresentam manifestações de si mesmo por si mesmo, compondo assim uma terrritorialidade própria, o que evidencia outra das propriedades do sistema ludopoiético – a autoterritorialidade.
A observação sensível e atenta da pesquisadora permitiu vislumbrar um grande momento festivo: a descoberta de uma paisagem que se escondia nas inquietudes do ser. A beleza dessa Paisagem do Sensível se revelava em cada sorriso e encantamento que ia se estabelecendo na sintonia das escritas com os sentimentos que emergiam.
Nessa direção, acreditamos que a vivencialidade Paisagem do Sensível favoreceu o encontro individual, em que os professores em formação apreciaram o olhar sobre si, refletiram e redescobriram uma paisagem de encantamento pela vida, transformando essas aprendizagens em experiências formativas.