3. TOPLUMSAL CĠNSĠYET
3.6. Ataerkil Sistem
O próximo passo dos que desejavam se casar era o cumprimento dos requisitos do ritual de celebração do matrimônio. Primeiramente, o pároco celebrante devia anunciar ao povo que as denunciações foram feitas ou que os noivos foram dispensados de algum impedimento e questionar se alguém no recinto sabia de algum outro impedimento entre os cônjuges. A seguir, perguntava aos noivos se estavam se recebendo por suas livres vontades. Todo esse ritual devia ocorrer em presença de duas ou três testemunhas, capazes de atestar o mútuo consentimento dos consortes. O pároco também devia admoestar aos noivos que se confessassem antes de se receberem em matrimônio, pois, estando eles prestes a receber um dos sacramentos de Cristo, deveriam estar em estado de graça. Ainda se recomendava que a cerimônia não se realizasse antes do nascer do sol e nem depois dele posto e muito menos fora da Igreja, a não ser que houvesse licença especial para tais casos. Segundo os decretos do Sagrado Concílio Tridentino, portanto, os requisitos de validade do matrimônio eram: a presença do Pároco ou de outro Sacerdote com licença sua, a presença de duas ou três testemunhas capazes e o mútuo consentimento dos consortes.121
Embora fosse exigida a vontade livre e expressa dos consortes, o casamento ainda era realizado, muitas vezes, com base no interesse das famílias. Eram os famosos casamentos arranjados. Mas Lott diz que o simples fato de constar na lei a necessidade do consentimento já era um grande avanço, principalmente para a mulher, que deixava de ser um mero objeto de troca:
Para o matrimônio agora sacralizado, o amor não era necessário, e o ato sexual, admitido, desde que objetivando a procriação, finalidade maior da união entre o
120 Cf. SILVA, Maria Beatriz Nizza da. Sistema de casamento no Brasil colonial. São Paulo: T. A.
Queiroz/EDUSP, 1984. P. 132-133.
121
VIDE, Sebastião Monteiro da. Constituições primeiras do Arcebispado da Bahia. São Paulo: Typographia 2 de dezembro de Antonio Louzada Antunes, 1853. P. 119-122, nos. 287, 289, 293.
homem e a mulher. Entretanto, a introdução no ritual do casamento da anuência expressa da mulher foi um procedimento totalmente novo. É claro que na grande maioria das vezes o enlace era premeditado e arranjado pelos pais ou senhores, mas o princípio do consentimento mútuo foi psicologicamente um avanço, pois antes a mulher era somente um “bem” a ser trocado, e seu valor de barganha no “mercado matrimonial” medido em proporção da riqueza de sua família. A submissão da mulher, entretanto, continuou sendo valorizada aos olhos da Igreja, inclusive a partir do culto mariano [...].122
A Igreja Católica ainda era responsável pelos registros, lavrando os assentos de todos os casamentos que realizava. O pároco que não cumprisse tal função poderia ser penalizado. Mas em muitas paróquias, a Igreja era negligente e descuidada com os registros e muitos dados se perderam. O assento deveria conter o nome dos casados, de seus pais e mães e das testemunhas que estiveram presentes, o dia, o lugar e a Igreja onde eles se receberam; tudo por extenso, sem algarismos ou abreviaturas, da seguinte maneira:
Aos tantos de tal mês, de tal ano pela manhã, ou de tarde em tal Igreja de tal Cidade, Vila, Lugar, ou Freguesia, feitas as denunciações na forma do Sagrado Concílio Tridentino nesta Igreja, onde os contraentes são naturais, e moradores, ou nesta, e tal, e tais Igrejas, onde N. contraente é natural, ou foi, ou é assistente, ou morador, sem se descobrir impedimento, ou tendo sentença de dispensação no impedimento, que lhe saiu, como consta da certidão, ou certidões de banho, que ficam em meu poder, e sentença que me apresentaram, ou sendo dispensados nas denunciações, ou diferidas para depois do Matrimônio por licença do Senhor Arcebispo, em presença de mim N. Vigário, Capelão, ou Coadjutor da dita Igreja, ou em presença de N. de licença minha, ou do Senhor Arcebispo, ou do Provisor N., e sendo presentes por testemunhas N. e N., pessoas conhecidas, (nomeando duas, ou três das que se acharam presentes) se casaram em face da Igreja solenemente por palavras N. filho de N., e de N., natural, e morador de tal parte, e freguês de tal Igreja, com N. filha de N., ou viúva que ficou de N. natural, e morador de tal parte, e Freguesia desta, ou de tal Paróquia: (e se logo lhe der as bênçãos acrescentará) e logo lhe dei as bênçãos conforme aos ritos, e cerimônias da Santa Madre Igreja, do que tudo fiz este assento no mesmo dia, que por verdade assinei.123
O assento era assinado pelas testemunhas que assistiram ao matrimônio e quando este era realizado por dispensa de algum impedimento, deveria haver menção da referida sentença no assento.124
Essa função esteve a cargo da Igreja ao longo do período colonial e por quase todo o Império. Contudo, a Lei nº. 1829 de 9 de setembro de 1870, declarou que, a partir daquele momento, os registros de nascimento, casamento e óbito deveriam ser organizados
122
LOTT, Mirian Moura. Na forma do ritual romano: Casamento e família em Vila Rica (1804-1839). São Paulo: Annablume; Belo Horizonte: PPGH/UFMG, 2008. P. 67.
123 VIDE, Sebastião Monteiro da. Constituições primeiras do Arcebispado da Bahia. São Paulo: Typographia 2
de dezembro de Antonio Louzada Antunes, 1853. P. 130, no. 318.
124
VIDE, Sebastião Monteiro da. Constituições primeiras do Arcebispado da Bahia. São Paulo: Typographia 2 de dezembro de Antonio Louzada Antunes, 1853. P. 130-131, nos. 318, 319.
pelo governo e não mais pela Igreja Católica.125 Mas a realização e regulamentação do casamento permaneceram sob responsabilidade da Igreja até o final do Império, quando também chegou ao fim o regime do Padroado e foi instituído o casamento civil. Em 1874, um decreto regulamentou a referida lei e o artigo 62 estabeleceu como se daria o registro de casamento:
Art. 62. Dentro de trinta dias da celebração de um casamento no território do Império, os esposos por si, ou por seus procuradores especiais, são obrigados, quer sejam nacionais, quer estrangeiros, a fazer lavrar o assento respectivo no cartório do Escrivão de Paz do distrito de sua residência, à vista de certidão ou declaração do celebrante, seja qual for a sua comunhão religiosa [...].126
O registro deveria conter a data em que foi lavrado; a data e a hora em que o casamento se celebrou; o local da celebração; os nomes completos, filiação, idade, estado, naturalidade, profissão e residência dos nubentes; o nome do pároco ou celebrante do casamento; a condição dos cônjuges (ingênuos, libertos, escravos; no caso destes últimos, era necessário que constasse o nome do senhor e a declaração de seu consentimento); declaração da dispensa de qualquer impedimento canônico; no caso de menoridade de um ou ambos ou cônjuges, declaração de consentimento dos seus superiores legítimos; número, nome e idade dos filhos porventura existentes e que se legitimariam com o casamento; declaração do regime matrimonial; declaração se o casamento foi realizado por procuração e, neste caso, o nome, idade e domicílio do procurador e os nomes, idade, profissão e domicílio das duas testemunhas que assistiram ao casamento, e também deveriam assinar o assento.
Anexo ao decreto havia o modelo de como deveria ser o assento:
125 IMPÉRIO BRASILEIRO. Lei nº. 1829, de 9 de setembro de 1870. Sanciona o Decreto da Assembleia Geral
que manda proceder ao recenseamento da população do Império. Art. 2º. Disponível em <http://www6.senado.gov.br/legislacao/ListaPublicacoes.action?id=74497&tipoDocumento=LEI&tipoTexto=P UB>. Acesso em 17 de fevereiro de 2012.
126 IMPÉRIO BRASILEIRO. Decreto nº. 5604, de 25 de abril de 1874. Manda observar o Regulamento desta
data para execução do art. 2° da Lei n.° 1829 de 9 de Setembro de 1870, na parte em que estabelece o registro civil dos nascimentos, casamentos e óbitos. Art. 62-66. Disponível em <http://www6.senado.gov.br/legislacao/ListaPublicacoes.action?id=73595&tipoDocumento=DEC&tipoTexto=P UB>. Acesso em 17 de fevereiro de 2012.
Modelo nº 3. Assento de casamento
Nº... - Aos dias do mês de ... do ano de...,neste...Distrito de Paz da Paróquia de ...Município de...,Província de ..., compareceram em meu cartório F... e F... (ou F...e F... como procuradores especiais de F...e F... ) e perante as testemunhas abaixo nomeadas e assinadas, exibindo certidão (ou declaração) passada em ( a data) por F..., declararam: - Que (seguir-se-ão as declarações de que tratam os arts. 63 a 65, conforme as circunstâncias relativas às pessoas que se compreenderem no assento). - E para constar lavrei este termo em que comigo e os declarantes assinam as testemunhas do casamento (nome, idade, profissão e domicílio ou residência atual de cada uma). Eu F..., Escrivão de Paz, o escrevi.
F...(O Escrivão) F...(As testemunhas) F...
F...(As testemunhas) F...
FIG. 1 Modelo de assento de casamento
Pode-se perceber que não havia tanta diferença entre este modelo de assento e o anterior, recomendado pelas Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia. Contudo, ele é bem mais detalhistas nos requisitos exigidos.