4. KARINCA KOLONİSİ OPTİMİZASYONU
4.3 ARP için KKO algoritmaları
O jornal presbiteriano O Estandarte, que sucede o Imprensa Evangélica a partir de 1893, publica diversos textos sobre esta situação grave da política brasileira. Em artigo intitulado A Pátria, lê-se:
... Diante dos triste e lamentáveis acontecimentos occorridos nestes últimos dia s na capital da Republica, grande e justa é a apprehensão do espírito publico.(...) Orar pela Pátria e em favor dos que se acham revestidos de auctoridade, é um dever.(..) Os patriotas são chamados a postos para defender a integridade da Pátria, e os crentes á oração. Si o dever cívico nos manda pegar de uma arma mortífera e pôrmo-nos em athitude defensiva, o dever christão nos manda irmos pressurosos e cheios de confiança ao throno da graça, a fim de implorarmos ao nosso Deus, o Senhor dos Exércitos-o arbitro da paz e da guerra- em favor da paz e do bem estar da Pátria .(OE: 23.09.1893, p.1)
Devemos ressaltar neste trecho a ênfase conciliatória que tem marcado o discurso protestante, típico do modelo proposto por Mendonça (1995), o protestantismo
cansado de guerra, mas que por outro lado, deixa nas entrelinhas que do outro lado
estava mesmo um inimigo. Procuramos nesta dissertação evitar fazer uma apreciação meramente evangélica sobre os acontecimentos. Todavia, frases como defender a
integridade da Pátria e o dever civico nos manda pegar de uma arma mortífera e por- nos em atitude defensiva, indicam muito bem o posicionamento do jornal. Diante do
dever cívico, entenda-se manutenção da liberdade de religião e consciência, a guerra pode ser considerada justa. Ao que parece, este é um grande dilema, ou pelo menos, um problema a ser resolvido, porque dois números à frente o jornal parece reconsiderar sua posição:
A PATRIA E A PROVIDENCIA -O Estandarte, jornal religioso, cuja missão sagrada é athender ao lado moral das cousas e annunciar á grande família brazileira Nosso Senhor J. Christo, o Príncipe da Paz (...) observando os tristissimos eventos que perturbam o socego do paiz, abstem-se de fazer sobre
elles qualquer apreciação política, que levasse ao espírito do leitor a desconfiança de que o animam paixões partidárias.(grifo nosso)(...) E porque
é alheio á politica, deixa o Estandarte de encarar a actualidade sob o ponto de vista pelo qual a observa a imprensa profana, para contemplal-a pelo prisma da moral christã. (OE: 07.10.1893, p.2)
O verbo abster-se concorda com a ação apolítica e com o discurso de neutralidade, mas ainda é possível percebermos um acusador. Do outro lado está a imprensa profana, que observa os acontecimentos de outra forma, não segue a moral cristã.. O texto A Revolta é longo, mas é possível notar em poucas linhas que sua mensagem tem duas direções definidas: é anti-católica, e por indução, republicana. Vejamos:
A revolta continua. Nictheroy tem sido cruelmente bombardeado (...) Assim se explica a attithude hostil da imprensa catholica, que não cessa de promover o descrédito da Republica.(...) Enquanto os Estados Unidos e outros paizes americanos o clero promove, em sua esphera de acção, o engrandecimento de seus respectivos paizes, o clero nacional nada faz; apenas queixa-se da Republica. (OE: 21.10.1893)
O jornal sugere que os casos de revoltas sociais que se seguiram à proclamação da República são orquestrados pela imprensa católica, uma vez que sustenta a tese de que esta “não cessa de promover o descrédito da República”. O clero dos Estados Unidos, país protestante, novamente é citado como modelo de atuação política.
É preciso olhar para o cenário da cidade do Rio de Janeiro que nos é apresentado por Carvalho (1987, p. 15-22). Segundo ele, a cidade passou pela fase mais turbulenta de sua existência, e por uma febril agitação, oriundas desta mudança de regime. O redator do jornal coloca em campos opostos a imprensa protestante e a imprensa católica, sendo que, para ele, a imprensa católica estava associada à desmoralização da República, situação que a coloca em defasagem em relação aos paises mais desenvolvidos. Por dedução, ser anti-republicano é não estar em sintonia no concerto das nações. A nova elite dirigente continuava a ser recrutada nas camadas sociais mais abastadas, e a única alteração consistente foi a introdução do trabalho assalariado. A mão-de-obra vai ser recrutada no exterior, e o governo brasileiro põe em curso um projeto de imigração, tendo em vista, entre outras intenções, o embranquecimento da raça. Boris Fausto (1994, p.275-276 e 281) dá-nos uma cifra impressionante: de 1887 a 1930, entraram no Brasil a pretexto deste embranquecimento da raça, 3,8 milhões de estrangeiros. Contudo, as condições de vida para esses imigrantes não eram melhores do que a vida dos camponeses nativos, e em alguns casos, beirava a escravidão. Como muitos deles eram protestantes, a saída era esperar o celeste porvir, ainda seguindo a teoria de Mendonça (1995). A ascensão social destes trabalhadores só ocorrerá num período posterior, mesmo assim, para uns poucos. A mudança política, do ponto de vista social, não vai trazer muitas alterações; o que houve, então, foi apenas uma modernização institucional, sendo que os conflitos permaneceram de uma forma subjacente. Este é o panorama que os primeiros missionários protestantes encontraram, e de onde atraíram os seus primeiros adeptos, ainda que, em muitas das vezes, os evangélicos não tivessem consciência disso.
Em 1894, a eleição do civil Prudente de Morais não abafou a crise institucional, nem tampouco o clima de revoltas populares contra a situação econômica em que a
maioria dos brasileiros se encontrava. Essa conjuntura ensejou os movimentos classificados como messiânicos, uma espécie de mix de religiosidade e revolta social, como define Maria Isaura Pereira de Queiroz (1977, p. 27): “O messias é alguém enviado por uma divindade para trazer a vitória do bem sobre o mal, ou para corrigir a imperfeição do mundo”, e que possui “qualidades pessoais extraordinárias, provada por meio de faculdades mágicas que lhe dão autoridade”.(Queiroz: 1977, p. 27). O termo messianismo é utilizado para denominar aqueles movimentos sociais nos quais milhares de sertanejos fundaram comunidades comandadas por um líder religioso. Atribuíam-se a esse líder dons como o de fazer milagres, realizar curas e profetizar acontecimentos.
Os messianismos, surgidos em áreas rurais pobres e atingidas pela miséria, aguçavam dois componentes básicos dessa população, a religiosidade e o sentimento de revolta, dos quais Canudos (1893-1897) e Contestado (1912-1916) foram os mais significativos. O jornal presbiteriano, durante o ano de 1897, portanto já no ocaso de Canudos, deu grande cobertura àquele acontecimento, assumindo o lado do governo republicano. Os revoltosos eram chamados de “fanáticos” e, geralmente, associados aos “interesses romanistas”. O tom das narrativas é épico. Um mês antes da destruição final do arraial, o jornal publica uma carta de alguém chamado de um nosso irmão na Fé,
actualmente estacionado em Monte Sancto, estado da Bahia :
Eu graças ao nosso bom Pae Celestial estou sem novidade. Sahi de Therezina a 15 de março com o 35 batalhão de infantaria, afim de irmos bater os fanáticos de Antonio Conselheiro no miserável antro de Canudos, onde estão encerrados os bandidos.(...) Ao entrar nesta planiie era tanto o fogo que faziam os bandidos, sempre occultos nas trincheiras, que era um horror. Então o General Savaget, depois de falar com os coronéis Telles e Serra Martins, resolve dar carga de bayoneta, o que se realizou, conseguindo-se, depois de 7 horas de fogo por-se em fuga os bandidos, deixando elles não pequeno numero de mortos, etc... (...) No dia 28, logo que encetamos a marcha, elles nos atacaram novamente. Já nos achávamos a uma meia légua de Canudos, quando tivemos ordem para fazermos juncção com a primeira columna, o que fizemos das onze horas para o meio dia, sempre debaixo de uma formidável fuzilaria. Acampamos juncto com a primeira columna no logar denomiado Favella, distante de Canudos 1.500 metros. Dahi em deante não cessaram mais os combates, que muitas vezes entravam pela noite. O fanatismo do povo de Antonio Conselheiro, bandido chefe dessa horda, julgo que está sendo explorado pelos monarchistas, nossos eternos inimigos, e creio que também pelos roupetas, que não dormem. (OE: 11.09.1897, p. 3)
Mais interessava para o editor informar sobre a existência daquele grupo de revoltosos, talvez por isso, se tenha omitido o nome do missivista. Relato de natureza semelhante também foi encontrado no Expositor Cristão:
Antonio Conselheiro – Diz O Propulsor, da Feira de Sant’Anna: Noticias trazidas por alguns boiadeiros vindos de Acará, logar distante de Monte Santo quatro léguas, dão a conhecer que as hordas do Conselheiro exterminaram as fazendas Salobro e Penedo. Ambas estas fazendas criam gado bovino e lanígero. A turba multa dos fanáticos promettia liquidar pouco a pouco outras fazendas, conforme ordens e precisões do fakir.(EC: 29.05.1897, p.4)
Pelo dito acima, agora, alé m da ordem estabelecida, também correm perigo as propriedades privadas, motivo pelo qual os fazendeiros devem ficar alertas. Segundo O
Estandarte, não é só da Bahia que chegam as ameaças de fanatismo, qualquer
movimento social que contestasse o novo governo republicano receberia essa denominação. Na edição do dia 02 de outubro, diante de acontecimentos que se dão no Rio Grande do Sul, envolvendo o beato José Maria, o tema do fanatismo reaparece, e o jornal novamente se arma junto com o exército legalista:
Dando conta ao presidente deste Estado do Rio Grande do Sul do resultado da missão que fôra encarregado, auxiliar a batida dos fanáticos reunidos no municipio de Lages, Estado de Santa Catharina, narra o coronel Bento Porto, chefe da 1ª região policial: ‘Na madrugada de 29 do passado, após dous dias de marcha á pé, com chuva constante, por brenhas serradas, chegaram as forças ao principal reducto desses outros jagunços. Houve três horas de fogo. Afinal os fanáticos dispersaram-se, sendo valentemente perseguidos. Foram muitos os feridos, morrendo alguns, entre eles o de nome Abílio Rosa.(...) Tudo, inclusive os 34 ranchos e casa, ardeu no incendio por ocasião do ataque. A divisa desses jagunços era branca e encarnada. Foi rude a tarefa das forças expedicionarias, mas completa o seu resultado. Ao menos estes êmulos dos conselheristas não nos incommodarão para o futuro. (OE: 02.10.1897, p. 2)
No artigo Agglomerações fanáticas, o Estandarte reproduz texto extraído de A
Estrela Polar, um jornal católico editado na vila Pederneiras, em São Paulo (Expositor
Cristão, 31.12.1897). Por este relato, fica evidente como o episódio Canudos estava se tornando uma idéia fixa na mentalidade dos amantes da República. Qualquer reivindicação, qualquer movimentação popular, de caráter político ou religioso, logo recebia esta qualificação.
Estão se multiplicando extraordinariamente as agglomerações fanáticas no Brazil. Não é somente nos sertões da Bahia que se reprodusem scenas perturbadoras da ordem publica por meio de farças relig iosas, que chegam á intitular de milagres. O Padre Cícero Romão Baptista, depois de ter agitado o sertão do Ceará, mudou-se actualmente para o Salgueiro, no sertão de Pernambuco. A paciência do Exmo. Sr. Bispo do Ceará foi esgotada. O Exmo. Prelado fez tudo quanto era possível para desilludir o Padre Cícero, demonstrando á luz da evidencia que esse pretenso milagre de sangue que sahia da bocca de Maria de Araújo era uma verdadeira farça. (...) O Salgueiro vai-se tornando uma nova espécie de Canudos, onde há agglomeração fanatica, acclamando ainda em vida o Padre Cícero –de Sancto. (OE: 30.10.1897, p. 3)
Entre as práticas pregadas e algumas postas em curso por Antonio Conselheiro e seus adeptos, havia três que particularmente atraíam o ódio do governo republicano: a abolição da propriedade privada, a recusa a pagar impostos e uma vaga aspiração monarquista. Conselheiro pregava o retorno de Dom Sebastião, rei de Portugal morto em 1580, no norte da África. Todos estes ingredientes facilitavam a identificação dos messianismos com os inimigos do protestantismo, os católicos, para o deleite dos redatores.
Diante dessa situação, um fato curioso ocorre no texto acima: o tratamento dado ao bispo que combateu os revoltosos é profundamente respeitoso, algo difícil de se ver neste cenário. O bispo, autoridade da Igreja Católica sempre desvalorizada ou ridicularizada em tantos outros escritos anteriores, agora aparece recebendo um tratamento diferente: é chamado de “Excelentíssimo Bispo” e “Excelentíssimo Prelado”. Nesta situação retórica (Halliday: 1988, p. 123), todo o julgamento anterior é suspenso, para elevá-lo à condição de uma pessoa do bem, dotado de boas intenções, talvez seja porque o bispo adotou uma postura favorável aos interesses protestantes. Ou talvez estivesse no imaginário do articulista reeditar o ocorrido há mais de 30 anos, e que ficou indelével nos corações e mentes protestantes: a conversão de um sacerdote católico, no caso, José Manoel da Conceição. Ainda que o artigo fale bem do bispo, não podemos nos esquecer o fato de que para o protestantismo em geral a Igreja Católica era a grande responsável pela situação de ignorância e fanatismo em que estava mergulhado o povo brasileiro.Em 19/03/1898 é publicado um artigo extraído do jornal A Republica, de Fortaleza, relatando outro caso de fanatismo no Ceará, através de uma carta que chega da região de Sobral:
(...) referente a uma quadrilha de fanáticos que appareceu naquellas paragens, denominada Irmandade ou legião da Cruz. Apadrinhados com esta denominação, estão os taes fanáticos á inquietar o povo que tranqüilo vivia em suas casas, com invenções fanáticas, inventadas não sabemos por quem, formando assim uma segunda edição de Canudos. É mister que o governo da Republica providencie emquanto o mal não toma maiores proporções, afim de que não tenhamos de registrar, mais tarde, lamentáveis factos como os que se prendem á negregada historia do tristemente celebre Antonio Conselheiro”. (OE: 19.03.1898)
Também na edição de 23 de junho desse mesmo ano, o jornal relata que um correspondente “de toda a fé” informa que em Salgueiro, no Ceará, a força policial mandada para conter os “fanáticos” foi “completamente desbaratada” pelo grupo de criminosos, e que as autoridades locais, sem forças para reagir, telegrafaram exigindo a remessa imediata de um contingente nunca inferior a 100 praças, “pois só assim,
poderão enfrentar com vantagem os bandos de cangaceiros que ultimamente atacam aquella villa”.(OE: 23.06.1898). O Expositor Cristão fala em “conselheirismo em pencas”:
Diz o Correio de Minas, de Juiz de Fora, edição de 13 do fluente: Parece que a moda pega e que o conselheirismo fanático e embuste vae avassalando as populações ignorantes do interior, e isto desafia a vigilância do governo. No município de Muriahé, por exemplo, em o logar denominado Ribeirão Alegre, districto de Santa Rita da Gloria, existe um embusteiro que está a fanatisar as populações da redondeza com as suas practicas e embustes de modo a formar naquelle centro ainda inculto um verdadeiro núcleo de jagunços, sob a capa de curanderias, e feitiçarias, sob a qual devem baixar as vistas o governo de Minas.(OE: 28.08.1897, p. 4)
Estes relatos bastam para nos dar a idéia de como a imprensa evangélica acompanhou com interesse os conflitos durante a consolidação da República. O messianismo, típico de regiões rurais pobres atingidas pela miséria, costurado à intensa religiosidade do sertanejo e seu sentimento de revolta, era mesmo uma mensagem diferente daquela pregada pelos protestantes, que pressupunha um público letrado e confiante no progresso. Os sertanejos, embora derrotados neste episódio, mantiveram o espírito de resistência e a revolta adormecida. Belo exemplo deste quadro são os versos que, mais tarde, Euclides da Cunha (1902, p. 351) nos deixou:
Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados.
Diante disso, fica demonstrado como a imprensa protestante desempenhou seu papel diante dos acontecimentos da República nascente. Mesmo sem pegar em armas para defender a integridade da Pátria, como proclamava o Estandarte de 1893, seu discurso foi totalmente voltado à manutenção do novo sistema. Entretanto, essa defesa incondicional, como veremos adiante, começava a apresentar algumas restrições.