Não resta dúvida de que o eixo de desenvolvimento São Paulo-Campinas se constitui no centro nevrálgico da indústria inovadora e de alta tecnologia do Brasil. Sandra Lencioni
Por meio das observações em campo foi possível perceber a concentração industrial e a de comércio e serviços que integram e proporcionam o funcionamento das indústrias em praticamente todas as cidades dos eixos de desenvolvimento econômico, inclusive as pequenas. Desta forma, foi possível compreender melhor a concentração industrial, sobretudo da indústria de transformação nos municípios que compõem os três eixos de desenvolvimento econômico conforme se pode constatar no figura 26.
Figura 26: Estado de São Paulo: Número de estabelecimentos industriais na indústria de transformação, por município – 2005.
A linha de municípios com alta concentração industrial ao longo das rodovias que formam os três eixos de desenvolvimento é evidente (ver figuras 27 e 28). A figura 26 demonstra as unidades industriais por município do Estado de São Paulo, privilegiou-se a indústria de transformação, em razão de que, este tipo de indústria é mais “independente” das proximidades com as fontes de matérias-primas, do que a indústria extrativa, conforme o
cartograma 27.
Figura 27: Estado de São Paulo: Número de estabelecimentos industriais na indústria extrativa por município – 2005.
Uma característica presente nos eixos de desenvolvimento econômico são as localizações de algumas unidades industriais próximas à rodovia em zona rural, em alguns casos relativamente longe de sedes urbanas. A maioria destas unidades industriais é de agroindústrias de cana-de-açúcar, mas há também indústrias de autopeças (como exemplo a Federal Mogul em Araras), de alimentos (como exemplo, a Nestlé em Cordeirópolis) e do suco de laranja (como exemplos a Cutrale em Araras e a Citrovita em Matão no eixo da rodovia Washington Luis – SP 310). Se levar-se em conta o grau de tecnologia presente nos equipamentos produtivos, certamente o que se encontrará nas agroindústrias de cana-de- açúcar, é muito mais expressivo do que o de inúmeros tipos de indústrias localizados no em
perímetro urbano. Mas o que isto indica? Indica que os avanços nos sistemas de comunicações e no de transportes possibilitaram o funcionamento desses empreendimentos em áreas mais distantes das fontes de mão-de-obra e das centrais de telecomunicações e das áreas consumidoras da produção de produtos de origem agroindustriais, conforme Santos (2008a) aponta o campo se moderniza com mais rapidez que a cidade.
Figura 28: Estado de São Paulo: Número de estabelecimentos industriais total por município – 2005.
Os avanços nos sistemas logísticos e o aumento da capacidade de carga dos meios de transporte, a fibra ótica e a telefonia móvel contribuíram para o deslocamento de unidades industriais para locais mais distantes das áreas urbanas. No entanto, essas condições são muito mais presentes e seguras nos eixos de desenvolvimento econômico e em suas proximidades, por muitas razões, tais como: rodovias com capacidades de fluxos e com qualidade de pavimento e sinalização significativa, presença de fibra ótica e antenas de telefonia em toda sua extensão, proximidade das sedes urbanas (no eixo da rodovia Anhanguera no trecho entre Ribeirão Preto e São Paulo a distância entre as sedes urbanas não ultrapassa trinta quilômetros). No eixo formado pela rodovia Presidente Dutra a distância entre as sedes urbanas também é pequena, principalmente no trecho entre Jacareí e Lorena.
Santos (2008c), ao analisar o período técnico atual observa nas relações cidade- campo:
• Deslocamento para o campo de certas atividades industriais;
• Novas atividades de concepção, comando, administração superior ou controle instalados nas cidades médias (e menores?); presença de novos terciários localizados;
• Novos fluxos entre a cidade e “seu” campo; os fluxos e as atividades criados pelo campo modernizado na ‘sua’ cidade; o impacto das novas redes de transmissão e comunicação;
• A cidade como lugar de residência de agricultores ‘agrícolas’; novas formas de rurbanização (p.132).
Esses fatores apontados pelo autor mostram que as relações campo-cidade influenciaram a seletividade espacial (SANTOS 2008a) das empresas que certamente avalia todos os atributos relacionados a essas relações somados com as características dos eixos, isto torna possível afirmar que os eixos são locais privilegiados para uma gama de ramos industriais. Há inúmeros fatores que condicionam a escolha do local a se instalar uma unidade industrial, e os eixos apresentam vantagem em uma parte, isto indica que nem todas as empresas preferirão se instalar em um eixo ou em área próxima. O principal fator a condicionar a localização de uma unidade industrial é sua escala comercial (relações de trocas comerciais como exemplo, fornecedores e consumidores) e informacional (relações de troca de informações).
Há uma ressalva a ser considerada referente a essas configurações atuais do sistema produtivo (compreendendo a produção a partir de Marx, 1982), trata-se do uso desses avanços observados em todas as etapas do sistema produtivo. Os avanços são utilizados primordialmente por uma parcela da população, o que se configura em um uso privilegiado, portanto corporativo conforme Castillo (2004; 2007), e também com cada vez menos reflexos positivos à população local, conforme Fischer (2009), pela diminuição da relação entre as empresas e as cidades onde estão instaladas. De fato, no passado essa relação era muito mais forte33, como exemplo, em Taubaté a primeira indústria que se instalou na cidade construiu uma vila operária próxima à unidade industrial34. Mas, atualmente, o que se observa é que as
33 “Como uma espécie de herança do período escravista, o empregador industrial tinha de financiar a totalidade
do custo de reprodução do trabalhador, geralmente internalizado na estrutura da produção. Além do pagamento do salário, havia também as despesas com as chamadas vilas operárias (moradia, educação, saúde, previdência e assistência, entre outros custos)” (POCHMANN, 2010, p. 68).
34 “No caso de São Paulo, por exemplo, a construção de moradias junto a fábricas pelos empregadores garantia a
residência e o transporte (a pé) dos trabalhadores no início da industrialização. À medida em que aumentaram o número de trabalhadores necessários e o custo de construção de habitações, os empregadores foram transferindo estes encargos para o Estado e para os trabalhadores” (VASCONCELLOS, 1998, p. 25).
empresas, além de ocuparem relativamente muito menos mão-de-obra, deixaram os problemas de moradia por conta do Estado.
As relações entre indústria e território de localização neste século XXI, marcado pela tendência ao aumento da lógica flexível de funcionamento das empresas industriais, revelam que estas passaram a ocorrer de modo indireto. A formação de mão-de-obra especializada, a moradia para operários, é tarefa do Estado, em outros casos pode-se apontar as terceirizações que significam menos responsabilidades das indústrias para com os trabalhadores.
Conforme já apontou Castells (1999), no volume 1 intitulado A sociedade em rede do seu livro intitulado A era da informação, inicia-se, mesmo que de modo ainda tímido, uma tendência no sentido da diminuição, que certamente será cada vez mais acentuada, do número de trabalhadores no setor secundário e um conseqüente aumento no terciário, mas, não numa intensidade compensatória capaz de absorver toda a mão-de-obra liberada pelo secundário. Castells (1999) exemplifica com dados dos países integrantes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE, mostrando que o mesmo ocorreu com o setor primário. Nesses países, o setor primário ocupa menos que cinco por cento da PEA, e não houve diminuição da produtividade se se comparar com períodos em que a porcentagem da PEA ocupada nesse setor era alta.
Enfim, para se compreender a formação dos eixos de desenvolvimento econômico é importante, neste ponto, compreender a formação industrial do Estado de São Paulo no século XX. Tema que será assunto do próximo capítulo.
CAPÍTULO 3 – FATORES DA CONCENTRAÇÃO INDUSTRIAL E