4. BULGULAR ve TARTIŞMA
4.2. ARDL Sınır Testi Yaklaşımı Sonuçları
4.2.4. ARDL modeli uzun ve kısa dönem tahmin sonuçları
Hannah Arendt, em obras como A Condição Humana (1995), Da Violência (1985), Crises da República (1973), Origens do Totalitarismo (1989), entre outras, estabelece a distinção entre política e violência, mais precisamente, entre poder e
violência, essencialmente distintos entre si. Na visão da autora, o poder constitui-se como um fenômeno da política, erigido no espaço público, locus onde a ação e o diálogo46 se fazem presentese a pluralidade humana se materializa numa situação de igualdade e de liberdade.
A ação se efetiva no mundo comum, onde o homem é livre e igual para reformá- lo e começar algo novo e, também, para julgar e escolher. Por conseguinte, o espaço público é o espaço da política, conforme nos sugere Arendt:
(...) a esfera política resulta diretamente da ação em conjunto, da co- participação de palavras e atos. Ação, portanto, não apenas mantém a mais íntima relação com o lado público do mundo, comum a todos nós, mas é a única atividade que o constitui. (Arendt, 1995: 210), (...) a ação é exatamente a substância de que é feita a política (Arendt, 1973: 15).
E prossegue acentuando que o espaço público é também o espaço do poder:
[...]o poder que mantém a existência da esfera pública, o espaço potencial da aparência entre homens que agem e falam (...). Poder é sempre, como diríamos hoje, um potencial de poder, não uma identidade imutável, mensurável e confiável como a força. Enquanto a força é qualidade natural de um individuo isolado, o poder passa a existir entre homens quando eles agem juntos, e desaparece num instante em que eles se dispersam (Arendt, 1995: 212)
Como se percebe, pelas afirmações de Arendt, o poder se efetiva sempre mediante acordo que se forma entre interesses divergentes no espaço público. Desse modo, ele não é do domínio de um só indivíduo, mas pertence a uma coletividade. Por isso, não pode ser confundido com a força que se constitui como propriedade de uma única pessoa. Isso significa dizer que o poder é a base do espaço público, o local onde as pessoas agem e argumentam na companhia das outras, de forma livre e igual.
46 Quanto à ação, na visão de Hannah Arendt (1995: 15), é “a única atividade diretamente entre os
homens sem a mediação das coisas ou da matéria, corresponde à condição humana da pluralidade, ao fato de que homens, e não o homem, vivem na terra e habitam o mundo”. A ação está relacionada ao discurso e à palavra, não necessitando de mediação, pois o discurso e a palavra são frutos da interação da pluralidade dos homens.
Portanto, forma-se da interação dos homens que agem e falam, movidos por convicções comuns e interesses divergentes.
O poder corresponde à habilidade humana de não apenas agir, mas de agir em uníssono, em comum acordo. O poder jamais é propriedade de um indivíduo: pertence ele a um grupo e existe apenas enquanto o grupo se mantiver unido (Arendt, 1985: 24).
Ademais, a violência, por sua própria natureza, detém um caráter instrumental, é um meio para atingir determinado fim, portanto, “necessita de justificar-se através de algo mais que não pode ser a essência de coisa alguma” (Arendt, 1995: 28). E, como ela é exercida no contexto individual, não tem a capacidade do agir coletivo e plural. Portanto, torna-se obstáculo ao diálogo, à divergência e à negociação, que, conseqüentemente, cria um processo que “desumaniza o homem e o retira de sua condição humana”. Ainda a esse respeito, Arendt (1985:27-28) esclarece: “o poder é realmente parte da essência de todo o governo, mas o mesmo não se dá com a violência.”
Neste caso, a violência, que não é mais contida e nem restringida pelo poder, destrói o espaço em que a política se faz, constituindo, assim, o seu reino, aniquilando todas as formas de organização e instaurando um “estado policial de vigilância”, que se torna superior aos aparelhos de repressão do Estado (Arendt, 1989). Tal reflexão se constitui como ponto de análise para o entendimento do totalitarismo, uma forma inédita de domínio que se baseou na violência e no terror, sem precedência na história política ocidental; uma forma de governo que se alicerçou no terror e na ideologia, fazendo com que a violência desenfreada se inserisse na política.47
47 Arendt (1989), em Origens do Totalitarismo, analisa as experiências totalitárias da Alemanha Nazista e
da Rússia Stalinista, realizando um trabalho minucioso e apresentando as causas históricas antecedentes que propiciaram a formação do totalitarismo, as características fundamentais, bem como as conseqüências trágicas para a humanidade.
Para Arendt, o fenômeno histórico do totalitarismo se desenvolveu em um contexto europeu de crise econômica e política, aliado ao crescimento vertiginoso do desemprego, da exclusão e da miséria, entre outros aspectos. Tais características engendraram um terreno fértil que ensejou um regime de violência e de terror, que, por sua vez, solidificou os mecanismos para subjugar e aterrorizar judeus, ciganos, deficientes, etc. Esse contingente foi, então, transformado em “seres descartáveis”, “supérfluos”, “párias”, “pessoas destituídas de seus direitos, da proteção do Estado e da sua condição humana” (Arendt, 1989:496-508). Em outras palavras, tratava-se de pessoas “desumanizadas” “impedidas de pertencerem ao mundo comum, locus da ação, da palavra e do diálogo, onde a política se faz presente no direito de ter direitos” (Idem: 320-322).
Nessa perspectiva, os campos de concentração tornaram-se marcos da realização do domínio totalitário, onde as pessoas foram privadas do mundo comum em um cenário de destruição das individualidades. Arendt (Idem: 496) sublinha que os campos significam
o inferno, no sentido mais literal, [onde] as massas humanas que eles detêm são tratadas como se já não existissem, como se o que sucedesse com elas não pudesse interessar a ninguém, como se já estivessem mortas (...). Um lugar onde os homens podem ser torturados e massacrados sem que nem os atormentadores nem os atormentados, e muito menos o observador de fora, saibam o que está acontecendo é algo mais do que um jogo cruel ou um sonho absurdo. Portanto, para Arendt, o totalitarismo europeu é descrito como o espaço inumano, representado pela metáfora do inferno. Neste contexto, horrores, tortura, massacre, dor e arbitrariedade, por parte dos agentes nazistas recaíam sobre os “párias” como o “mundo dos agonizantes”.48
48 Na visão de Hannah Arendt (1989:508), o “mundo dos agonizantes” significa o lugar onde “os homens
apreendem que são supérfluos através de um modo de vida em que o castigo nada tem a ver com o crime, em que a exploração é praticada sem lucro, e em que o trabalho é realizado sem proveito, é um lugar onde a insensatez é diariamente renovada.”
Sabe-se como é arriscado transpor categorias de análise de um momento histórico específico para um outro. Contudo, ao utilizar o pensamento arendtiano nesta pesquisa, o que se pretende é estabelecer articulações entre os conceitos e categorias deste pensamento e a realidade presente, com propósito de, à luz da reflexão, entender os dilemas contemporâneos.
A metáfora descrita acima contribuiu para inferir que um crescente número de pessoas, ainda hoje, é “supérfluo economicamente”, encontra-se à margem da produção capitalista e destituído da própria “condição humana”. São homens, mulheres, crianças, adolescentes e idosos que convivem em seu cotidiano com as condições adversas para sobrevivência e sem o acesso aos direitos, ou seja, não pertencem a nenhum “lugar no mundo”. Sem esse “lugar”, ficam sujeitas a viver em uma realidade entremeada de violência da qual podem ser eliminadas.
Segundo Arendt, a eliminação em massa de seres humanos nos campos de concentração só foi possível porque as pessoas foram isoladas da comunidade política, ou seja, foram privadas de um “lugar no mundo” e perderam todos os direitos, até mesmo os direitos humanos.
A calamidade dos que não têm direitos não decorre do fato de terem sido privados da vida, da liberdade ou da procura da felicidade, nem da igualdade perante a lei ou da liberdade de opinião (...), mas do fato de já não pertencerem a qualquer comunidade. (...). Só no último estágio de um longo processo o seu direito à vida é ameaçado; só se permanecerem absolutamente ‘supérfluos’, se não se puder encontrar ninguém para ‘reclamá-los’, as suas vidas podem correr perigo (Arendt, 1989:329).
No esteio desta chave interpretativa, pode se dizer que as inúmeras chacinas49 ocorridas no país são fenômenos sociais que, em certa medida, se relacionam entre si, cujas vítimas tiveram seus direitos, sobretudo, os humanos, violados pelo Estado, sem
49Como exemplo, podemos citar: Carandiru, Vigário Geral, Candelária, os moradores de rua da cidade de
São Paulo; e, recentemente, a execução sumária de dezenas de pessoas em São Paulo, proveniente dos conflitos entre os policiais e a organização criminosa (PCC – Primeiro Comando da Capital), entre outras.
ter ocorrido, até o momento, em muitos desses casos, a condenação e a prisão dos mandantes e dos executores de tais chacinas. Portanto, as reflexões de Arendt podem oferecer pistas para se entender esse fenômeno social, corriqueiro no Brasil.
1.3 O Não-pertencimento ao “Mundo Comum” e a Condenação da “Vida” em