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Em 5 de novembro de 2004 foi instituído, através do decreto 5.264, o Sistema Brasileiro de Museus. Suas finalidades eram:

I – a interação entre os museus, instituições afins e profissionais ligados ao setor, visando ao constante aperfeiçoamento da utilização de recursos materiais e culturais;

II – a valorização, registro e disseminação de conhecimentos específicos no campo museológico;

III – a gestão integrada e o desenvolvimento das instituições, acervos e processos museológicos; e

IV – o desenvolvimento das ações voltadas para as áreas de aquisição de bens, capacitação de recursos humanos, documentação, pesquisa, conservação, restauração, comunicação e difusão entre os órgãos e entidades públicas, entidades privadas e unidades museológicas que integrem o Sistema.32

Além de “instituições” e “acervos”, o Sistema incorpora os “processos museológicos” como elementos cuja presença caracteriza as instituições como museus. Abordando as “características das instituições museológicas”, o documento afirma que um de seus componentes é “a disponibilização de acervos e exposições ao público, propiciando a ampliação do campo de construção identitária, a percepção crítica da realidade cultural brasileira, o estímulo à produção do conhecimento e à produção de novas oportunidades de lazer.”33

O terceiro item do mesmo parágrafo colabora para a percepção das matrizes que informam a produção deste instrumento de gestão dos museus. Nele, afirma-se que as instituições consideradas museológicas atuam na execução de “programas, projetos e ações” que têm como mote a utilização do “patrimônio cultural como recurso educacional e de inclusão social.” 34

O terceiro artigo incorpora, definitivamente, os formatos institucionais afins à museologia social ao instrumento de gestão estabelecido naquele momento. Ao estabelecer as instituições que podem ser cadastradas no Sistema Brasileiro de Museus, são elencadas “as organizações sociais, os museus comunitários, os ecomuseus e os grupos étnicos e culturais que mantenham ou estejam desenvolvendo projetos

32 Decreto 5.264 de 5 de novembro de 2004. 33

Decreto 5.264 de 5 de novembro de 2004.

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museológicos.” 35 Estas instituições estão presentes igualmente no Comitê Gestor do Sistema Brasileiro de Museus, contando com um representante.36

A representação dos ecomuseus e museus comunitários no Comitê Gestor do Sistema Brasileiro de Museus foi instituída após demanda encaminhada pelo Ecomuseu Comunitário de Santa Cruz, instituição que se localiza em Santa Cruz, bairro da Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro. Este ecomuseu foi fundado em 1992 e instituído por lei da cidade do Rio de Janeiro em 1º de setembro de 1995. Sua criação foi efeito do I Encontro Internacional de Ecomuseus, realizado no Rio de Janeiro, do qual participaram membros do Núcleo de Orientação e Pesquisa Histórica (NOPH), atuante naquele bairro desde 1983. O contato dos membros do NOPH com ecomuseus de outros países durante o encontro de 1992 despertou seu interesse por esta maneira de operar a museologia e então se propuseram a fundar o museu. 37 Em 2004, durante dos debates sobre a criação do Sistema Brasileiro de Museus, a instituição enviou carta ao IPHAN na qual “reivindica assento e voz no Conselho do Sistema Brasileiro de Museus para os ecomuseus e museus comunitários, já que os demais componentes vinculam-se às estruturas de museus convencionais que se acham maciçamente representados.” 38 O documento enviado ao IPHAN recebeu apoio de diversas instituições de ensino e profissionais do campo, dentre os quais se destacam Maria Cristina Bruno, então coordenadora do curso de especialização em Museologia do MAE/USP e Tereza Scheiner professora da Escola de Museologia Unirio e consultora permanente do Icofom LAM. 39

Ressalta-se que, no Sistema Brasileiro de Museus, a categoria museologia social não é utilizada para descrever os formatos institucionais geralmente elencados como parte do campo semântico que gravita em torno dela. Analisando as pessoas que apoiam a iniciativa e, especialmente, as que não a apoiam explicitamente (destaca-se que não assinam o documento pessoas como Mario Chagas ou Mario Moutinho, apesar da autora da carta, Odalice Miranda Priosti, ser à época vice-presidente do Minom), pode- se concluir que o uso do termo museologia social tem um acento político. Ela será 35

Decreto 5.264 de 5 de novembro de 2004.

36Decreto 5.264 de 5 de novembro de 2004.

37 Informações disponíveis em: http://www.quarteirao.com.br/quarteirao.html. Acesso em 16/03/2016. 38

Carta do Ecomuseu Comunitário de Santa Cruz ao diretor do Demu / IPHAN. Disponível em:

http://www.abremc.com.br/cartaaoIPHAN.asp. Acesso em 16/03/2016.

39 Informações disponíveis em: http://www.abremc.com.br/cartaaoIPHAN.asp. Acesso em: 16/03/2016.

Conforme apontado no capítulo anterior, o Icofom LAM concorria com o Minom pela operação da museologia.

mobilizada ou não a depender do campo político e acadêmico a que se ligam os sujeitos em questão.

Outro documento que produz definições sobre os museus é o Estatuto Brasileiro de Museus, instituído em 2009. Nele, consta que sua abrangência se dá sobre:

as instituições sem fins lucrativos que conservam, investigam, comunicam, interpretam e expõem, para fins de preservação, estudo, pesquisa, educação, contemplação e turismo, conjuntos e coleções de valor histórico, artístico, científico, técnico ou de qualquer outra natureza cultural, abertas ao público, a serviço da sociedade e de seu desenvolvimento.40

Mais adiante, no mesmo artigo, salienta que serão abrangidas por esta definição de museus, com o objetivo de enquadrar-se nesta lei, “instituições e os processos museológicos voltados para o trabalho com o patrimônio cultural e o território visando ao desenvolvimento cultural e socioeconômico e à participação das comunidades”. 41

A articulação e a organização dos instrumentos de gestão do campo dos museus a partir da criação do DEMU / IPHAN levaram, seis anos depois, à criação do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram). A lei 11.906 de 20 de janeiro de 2009, que institui o Ibram, também traz definições para as instituições museológicas. Nesta lei não constam as referências explícitas aos museus comunitários e ecomuseus e no seu lugar entram as “práticas sociais”, o que também indica um alargamento na noção de museu ali operada. Assim, são elencados como instituições museológicas:

os centros culturais e de práticas sociais, colocadas a serviço da sociedade e de seu desenvolvimento, que possuem acervos e exposições abertas ao público, com o objetivo de propiciar a ampliação do campo de possibilidades de construção identitária, a percepção crítica da realidade cultural brasileira, o estímulo à produção do conhecimento e à produção de novas oportunidades de lazer. 42 40 Lei 11.904 de 11 de janeiro de 2009. 41 Lei 11.904 de 11 de janeiro de 2009. 42 Lei 11.906 de 20 de janeiro de 2009.

Todos estes documentos têm em comum a prevalência de uma definição de museus ligada à posse e exibição de acervos e coleções. Entretanto, esta definição é ao mesmo tempo colocada lado a lado com definições que procuram ampliar este espectro. Este esforço por alargar a definição de museus é coerente com o movimento que, internacionalmente, desde pelo menos a década de 1970, como já abordado, fez com que os museus fossem reinventados. É preciso destacar que a institucionalização da museologia social se alimenta deste processo, ao mesmo tempo em que também o alimenta.

Ainda assim, analisando as atribuições do Ibram, percebemos que os conteúdos da categoria museologia social de alguma forma reverberam na definição do instrumento de gestão dos museus no Brasil. Entre as funções do instituto está “estimular, subsidiar e acompanhar o desenvolvimento de programas e projetos relativos a atividades museológicas que respeitem e valorizem o patrimônio cultural de comunidades populares e tradicionais de acordo com suas especificidades”. 43 As comunidades populares e tradicionais, ou seja, o público central das ações propostas pelos agentes mobilizados em torno da museologia social eram definidas como centrais também nas ações do Ibram.

Foi partir da criação do Ibram que a museologia social ganhou um espaço específico na política de governo. O instituto é composto por três departamentos – de Processos Museais; de Difusão, Fomento e Economia dos Museus; de Planejamento e Gestão Interna – e uma Coordenação Geral de Sistema de Informação Museal. Dentro do Departamento de Processos Museais (Depmus), dirigido por Mario Chagas no período entre 2009 e 2012, foi criada a Coordenação de Museologia Social e Educação (Comuse). 44

A primeira coordenadora da Comuse foi Marcele Pereira (2009 – 2012). Graduada em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, tem mestrado pelo Programa de Pós-graduação em Museologia e Patrimônio (PPG-PMUS) da Unirio, onde desenvolveu pesquisa sobre educação em museus sob orientação de Mário Chagas. Desde 2013 é professora de Museologia da Universidade Federal de Rondônia e cursa o doutorado em Sociomuseologia na Universidade Lusófona, também sob orientação de Mário Chagas. Observando sua trajetória, é reiterada uma vez mais a circulação destes 43

Lei 11.906 de 20 de janeiro de 2009.

44 As outras coordenações que compõem este departamento são: Coordenação de Pesquisa e Inovação

Museal, Coordenação de Espaços Museais, Arquitetura e Expografia e Coordenação de Patrimônio Museológico.

acadêmicos entre o campo intelectual e o campo político. Eles estão, ao mesmo tempo, produzindo e gerindo políticas, desenvolvendo pesquisas que alimentam o campo e atuando como formadores de profissionais que atuarão nos museus.

Segundo Marcele, seu grande desafio à frente da Comuse foi não haver, mesmo após tantos anos de debates e articulações, um consenso na área sobre o que seja a museologia social, apontando para uma fragilidade conceitual:

é uma coisa que precisa realmente ser bastante difundida, trabalhada. Conceitualmente, não se tem clareza do que significa isso. Tem clareza de que prática seja essa, ou seja, trabalhar com a museologia nesses museus de favela, museus mais sociais, museus mais engajados socialmente, mas não se tem ainda clareza do ponto de vista conceitual do que é museologia social.45

Marcele considerava a criação desta coordenação uma “grande inovação”. Segundo seu ponto de vista, outras áreas ligadas à preservação, à gestão dos patrimônios e arquitetura de museus eram historicamente contempladas nos organogramas das instituições que se dedicaram aos cuidados dos museus nas diversas esferas de governo. Entretanto, a educação e os “museus sociais” costumavam se restringir a ações pontuais. A criação da coordenação seria, então, segundo seu ponto de vista, a possibilidade de instituir políticas mais sólidas para este setor. 46

A primeira ação da Comuse foi criar e desenvolver o Programa Nacional de Educação em Museus e o Programa Pontos de Memória. O primeiro tinha como objetivo traçar diretrizes para as ações de educadores e profissionais dos museus na área educacional, fortalecer o campo profissional e garantir condições mínimas para a realização das práticas educacionais nos museus e processos museais. 47 Já o segundo, como será visto adiante, tinha como foco central ações e populações privilegiadas pela perspectiva da museologia social.

Benzer Belgeler