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Se os átomos estão em constante movimento pelo vazio, como explicar a formação de compostos organizados? Por que não temos simplesmente caos em lugar de uma ampla variedade de agregados, desde os mais simples e inanimados aos mais complexos e capazes de reprodução, de modo que consigam gerar outros corpos organizados mediante um processo que obedece a critérios de regularidade? Sabemos que existe uma passagem clássica da obra Vida de Epicuro, de autoria de Apolodoro (Vidas, X, 02), que afirma que Epicuro se voltou para a filosofia, ainda na juventude, pela impossibilidade de seus mestres-escolas explicarem o que é o caos. Pelo trajeto feito até agora não há dúvida que a explicação da natureza das coisas e seus princípios de ordenação é uma questão fundamental para Epicuro. Ele inicia o tratamento da questão analisando o surgimento das propriedades dos corpos compostos:

As qualidades agregam-se frequentemente aos corpos sem lhes serem permanentemente concomitantes. Elas não devem ser qualificadas entre as entidades invisíveis nem são incorpóreas. Por iὅὅὁ, uὅaὀἶὁ ὁ tἷὄmὁ “aἵiἶἷὀtἷὅ” ὀὁ ὅἷὀtiἶὁ maiὅ ἵὁmum, ἶiὐἷmὁὅ ἵlaὄamἷὀtἷ ὃuἷ “aἵiἶἷὀtἷὅ” ὀãὁ têm a ὀatuὄἷὐa ἶa ἵὁiὅa tὁἶa ὡ ὃual

57 pertencem, que chamamos de corpo concebendo-o como todo, nem têm a natureza das propriedades permanentes sem as quais o corpo não pode ser pensado. Em decorrência de certos modos peculiares de apreensão em que o corpo completo sempre entra, cada um deles pode ser chamado de acidente, mas somente quando se vê que pertencem realmente ao corpo, já que tais acidentes não são permanentemente concomitantes (Vidas, X, 70-71)40.

A reunião de propriedades permanentes forma a definição mesma de corpo. No entanto, o corpo não é apenas um composto produto do ajuntamento de corpúsculos, mas uma natureza integrada com diversos atributos (BOLLACK, 1973, p.227). A integração das propriedades pode ser percebida e distinguida na complexa unidade do corpo, constituindo uma totalidade relativa que deve ser entendida como uma natureza. Um acidente não pode determinar o que é um corpo, sua definição como característica passageira está ligada à percepção de seus aspectos efêmeros nos corpos, e consequentemente à capacidade de nomeá-los com base na sensação.

Conche (1977, p.165), em sua leitura, diferencia incidentes de propriedades. Estas últimas se referem às características de um corpo, são seus atributos e indicam aquilo que ele é, estando ligadas a sua natureza, enquanto os incidentes são ocasionais e passageiros, que surgem e desaparecem. Ele ainda nos lembra que acidentes e propriedades devem ser tomados no sentido relativo, pois o acidente de um corpo pode ser a propriedade de outro corpo. Todos os corpos existentes possuem peso, grandeza e forma, mas apenas os corpos visíveis manifestam cores. Um homem pode apresentar sobre sua pele uma cor, produto de uma mancha de tinta, um acidente percebido sobre sua pele, que também sob o efeito da luz manifesta uma cor permanentemente associada ao corpo desse homem, diferente da mancha que pode ser removida e não pertence aos atributos desse homem.

Sobre a discussão entre propriedades e acidentes Salem (1993, p. 75) faz uso do exemplo que se segue para demonstrar como uma propriedade de uma coisa pode ser acidente de outra: o movimento é propriedade do átomo, mas é um 40 Tradução do grego: “ αὶ ὴ αὶ ῖ α υ π π π αὶ πα α υ ῖ ' ῖ αὶ α α. ὴ α ὰ ὴ π φ ὰ ῳ α φα ὰ π ὰ υ π α α ὴ υ φ , υ α α ὰ ὸ α π α , ὴ πα α υ υ α υ α ὸ ῖ α . α ' π ὰ ' α πα α υ υ α α π α υ , ' π α α υ α α ῖ α , υ π πα α υ έ”

58 acidente quando se considera os corpos compostos. Isso porque o átomo está necessariamente sempre em movimento, enquanto os corpos compostos podem estar tanto em movimento quanto em repouso.

No processo de morte temos a ruptura do equilíbrio que mantém a vida, a implicação disso é a dissolução de todas as propriedades existentes e que caracterizavam um agregado vivo. Esse é um raciocínio fundamental para a construção do conhecimento adequado da morte, que deve ser compreendido dentro de uma perspectiva física.

Após o percurso físico percorrido até agora, o discípulo já tem elementos para entender a constituição fundamental de um corpo dotado de sensibilidade. Os corpos são estruturas formadas de átomos em contínuo movimento pelo vazio, designados por Epicuro como agregados ( α)έ ἡ tἷὄmὁ ὧ uὅaἶὁ para indicar o organismo em sua totalidade, inclusive o organismo humano (Vidas, X, 64). Os átomos que compõe um agregado ou organismo não são homogêneos, pois a diversidade de formas, tamanhos e pesos dos átomos produz entrelaçamentos de grande variação e diversidade. Longe de corresponder à imagem, algumas vezes associada ao atomismo antigo, que entende os átomos como análogos a tijolos que reunidos compunham os corpos, a visão epicúrea revela um universo dinâmico e em perpétua mudança. O agregado humano possui propriedades associadas com os processos de vibração e contra-vibração atômica, esses processos produzem uma dinâmica de crescente complexidade41, por meio de mudanças de ordem e seriam

os responsáveis pela capacidade de auto-organização, autodeterminação e até mesmo de atividades como pensamento, como sustenta Balaudé (2002, p. 23) baseado nas passagens 43 a 45 da Carta a Heródoto. Os corpos que são visíveis têm uma existência real, porém transitória, esse saber é construído no contexto da investigação natural, de acordo com princípios que regem a geração e a corrupção de todas as coisas.

A tese das propriedades emergentes, antes referida, é um modelo razoável de explicação para a produção de atributos que configuram a passagem dos corpos simples para compostos de crescente complexidade, mas há um grande problema que essa teoria não consegue responder, trata-se da transição entre corpos

41 χlguὀὅ autὁὄἷὅ ὂἷὄἵἷἴἷὄam ὀἷὅὅἷ ὂὁὀtὁ ἶa ὄἷflἷxãὁ ἷὂiἵúὄἷa uma “tἷὁὄia ἶaὅ ὂὄὁὂὄiἷἶaἶἷὅ

ἷmἷὄgἷὀtἷὅ”, ὃuἷ ὅἷguἷ ὀὁ ὅἷὀtiἶὁ ἶὁ ὅimὂlἷὅ ligaἶὁ aὁ imὂἷὄἵἷὂtívἷl aὁὅ ἵὁὄὂὁὅ ἶἷ alta complexidade manifestos aos nossos sentidos. Ver BARNES e MIGNUCCI (1988, p. 297-327).

59 inanimados e os organismos vivos. Essa questão até hoje permanece insolúvel, mas para Epicuro a vida vem da vida. A chave para a compreensão do problema da geração e da corrupção envolve o movimento que, por meio do deslocamento de átomos pelo vazio, promove agregações, enquanto a separação entre átomos, efeito de seu movimento eterno, conduz à desagregação. À medida que o processo de agregação se torna mais complexo vão emergindo qualidades diversas, entre elas a organização de compostos vivos, aos quais, a dinâmica do reposicionamento de átomos confere equilíbrio. A estabilidade que mantém a vida, quando rompida implica na completa dispersão de seus átomos componentes, a ruptura radical é o perecimento ou morte. De algum modo todos os seres estão sujeitos à dança dos átomos pelo espaço, e, por meio dela, a vida é gerada, e em outros tantos momentos desfeita. Epicuro se esforça em orientar seus discípulos em relação a essa constatação natural.

χ ἶiὀὢmiἵa ἶa gἷὄaὦãὁ tἷὄia ἶὁiὅ ὀívἷiὅ, um “hὁὄiὐὁὀtal” ἷ ὁutὄὁ “vἷὄtiἵal”έ ἡ processo de geração vertical se caracterizaria pelos processos de agregação atômica, possível graças ao seu movimento eterno pelo vazio, e, à medida que essas interações entre corpos fundamentais se tornam mais complexas, temos a emergência de compostos com propriedades com maior grau de elaboração. A verticalidade é verificável quando se constata que a geração é uma sucessão de estados que parte do nível atômico elementar para a agregação e então ao nível mais elevado de complexidade que encontramos na existência dos agregados vivos. O trajeto no sentido contrário também pode ser visto sob essa perspectiva da verticalidade, do microfísico para o macrofísico. A rigor esse percurso configura o processo de perecimento exatamente do modo como Epicuro faz, ao tratar dos fundamentos da physiologia no início de sua carta a Heródoto (Vidas, X, 35-42).

O que chamamos de verticalidade dos processos de geração e corrupção configura um conjunto de raciocínios que só podem ser desenvolvidos por meio da investigação da natureza. Sem esse conhecimento é impossível constituir um saber adequado sobre a morte. Isso principalmente pela incapacidade de compreensão do posicionamento atomista epicúreo sobre o problema da geração e da corrupção.

A horizontalidade do processo de geração diz respeito à tese sustentada por Epicuro ao defender que os organismos vivos nascem da semente de outros seres vivos semelhantes, enfatizando a perspectiva da linhagem como responsável pelo nascimento dos seres vivos percebidos pelos sentidos. A ênfase incide sobre o

60 nascimento e a manutenção da vida na dimensão dos sentidos; em outras palavras, a árvore que produz uma semente que gera outra árvore semelhante.

Tanto o que sugerimos pensar na perspectiva da verticalidade quanto o que chamamos de horizontalidade pode ser visto de modo integrado sob a perspectiva da physiologia epicúrea. Na realidade, ao propor uma visão unitária e sintética, Epicuro visava reunir toda diversidade envolvendo a investigação da natureza. Quando dizemos diversidade, estamos nos referindo a considerações que envolvem problemas relativos ao todo, mas que nem por isso perdem seu impacto na vida cotidiana dos epicuristas em sua busca pela eudaimonia. Como vimos, Epicuro apresenta sua filosofia como uma atividade que envolve investigação da natureza e a ação ética como inter-relacionadas.

2.4 ALGUNS DESDOBRAMENTOS RELATIVOS À COMPREENSÃO DOS