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3) Alternatiflerin Değerlendirilmesi 4) Satın Alma Kararı ve Uygulanması

3.2. Araştırmanın Modeli ve Hipotezler

Em sua obra Modos de Objectificação da dominação colonial, Nuno Porto, ao se referir à obra de Robert LumleyThe museum time machine,afirmaque o Museu do Dundo se encaixa na metáfora da máquina do tempo, no sentido em que permite ver no presente a cultura nativa, intrinsecamente,como um objeto do passado.258Nesse mesmo sentido, Nuno Porto tambémfaz, de forma pertinente, referência à obra O Tempo e o Outrode Johannes Fabian para analisar alguns aspectos do Museu, ainda que Fabian sededique a discussão no campo da antropologia, sobretudo, ao trabalho de campo.259

EmO Tempo e o Outro, obra fruto de reflexões a partir de sua experiênciaem África, Fabian mostra basicamente como a pesquisa etnográfica muitas vezes não considera a natureza ideológica dos conceitos temporais. Para Fabian,em lugar algum:

o poderse mostra mais claramente visível, ao menos assim que procuramos por ele, do que nos usos que a antropologia do Tempo faz quando se esforça por constituir seus próprios objetos – o selvagem, o primitivo, o Outro. É pelo diagnóstico do discurso temporal da antropologia que se redescobre o óbvio, ou seja, que não há conhecimento sobre o Outro que não seja também um ato temporal, histórico, político.260

Se o conhecimento do Tempo tornou-se uma parte integral do equipamento intelectual da antropologia, ele pode ser reconhecido, segundo o autor,“em uma perspectiva que foi característica de nossa disciplina ao longo da maior parte de seus períodos ativos: a

258 PORTO, Nuno. Modos de Objectificação da dominação colonial. Op. cit. P.412.

259 No seu artigo “Manageable Past: Time and Native Culture at the Dundo Museum in Colonial Angola”, Nuno Porto também apresenta uma pertinente discussão sobre o Museu do Dundo e a questão do Tempo. In: Cahiers d'études africaines. Vol. 39 N°155-156. 1999. PP.767-787.

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postulada autenticidade de um passado (selvagem, tribal, camponês) que serve para denunciar um presente inautêntico (desenraizado, évolués, aculturado)”.261

Apesar de focar no campo da antropologia, o trabalho de Johannes Fabian é de grande importância para pensar o Museu do Dundo, pois este espaço foi projetadonum marco temporal que pode ser definido pela própria indefinição. Otrabalho de Fabian dialoga com questões e problemas discutidos também por Edward Said. No prefácio de seu livroo próprio Fabiandeixa claro como muitas de suas inquietações e perguntas preocuparam também outros estudiosos no momento em que estava escrevendo, sendo o mais importante deles o autor de Orientalismo. Nela, Said discute sobre as visões e versões construídas pelo Ocidente sobre o Oriente para legitimar uma dominação, pois “a relação entre o Ocidente e o Oriente é uma relação de poder, de dominação, de graus variados de uma complexa hegemonia”.262Por isso, de acordo com o autor:

assim como o próprio Ocidente, o Oriente é uma ideia que tem uma história e uma tradição de pensamento, imagística e vocabulário que lhe deram realidade e presença no e para o Ocidente. As duas entidades geográficas, desse modo, apoiam e, em certa medida, refletem uma à outra.263

Exatos dez anos após a publicação de O Tempo e o Outro, Edward Said publicouCultura e Imperialismo, que também apresenta um claro diálogo com a obra de Fabian. Publicada em 1993, nela Said discute como as narrativas, em especial, os romances, sustentam a ideia de que “as regiões distantes do mundo não possuem vida, história ou cultura dignas de menção, nenhuma independência ou identidade dignas de representação sem o Ocidente”.264

No seu primeiro capítulo “Territórios sobrepostos, histórias entrelaçadas” Said, não por acaso, começa discutindo o passado. De acordo com o autor,

A invocação do passado constitui uma das estratégias mais comuns da interpretação do presente. O que inspira tais apelos não é apenas a divergência quanto ao que ocorreu no passado e o que teria sido esse passado, mas também a incerteza se o passado é de fato passado,

261 FABIAN, Johannes. O Tempo e o Outro.Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.P.47-48. 262 SAID, Edward. Orientalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.P.17. 263Idem.

135 morto e enterrado, ou se persiste, mesmo que talvez sob outras formas.265

Tanto a obra de Johannes Fabian quanto as duas obras de Said são uma possibilidade de caminho para compreender como em um contexto de situação colonial, o Museu do Dundo foi projetado como um espaço voltado para um passado histórico indefinido, em vias de extinção. A presença desse passado marcado pela indefiniçãonão se evidencia apenas na política de colecionar objetos antigos, mas também em muitas outras iniciativas propostas pelo Museu, desde festas “folclóricas” até a contratação de escultores que deveriam reproduzir nas obras padrões escultóricos típicos dos chokwe, como se esses povos não apresentassem um dinamismo também refletido na prática escultórica.

Essa projeção do Museu do Dundo em um passado indefinido, por outro lado, evidencia as contradições do colonialismo por meio da atuação de uma Companhia de Diamantes que estava sempre projetada no presente e, sobretudo, no futuro. Quando convinha à Diamang, os indígenas deveriam estar integrados cada vez mais aos valores civilizatórios propostos pelo colonialismo português, em particular,aqueles ligados ao trabalho. Mas no espaço de seu Museu, esses mesmos indígenas, inclusive os sobas - homens sempre pressionados para satisfazer as demandas da Companhia por mão de obra-, deveriam ser testemunhas ou mesmo colaboradores desse projeto de “salvação”, ou seja, daquilo que os próprios portugueses imaginavam como perdido ou em “vias de extinção” e que deveria ser “resgatado” e salvaguardado no Museu.

O caso do Museu do Dundo evidencia também a presença de uma narrativa em que o europeu é quem atesta a existência do outro, nesse caso específico “os povos da Lunda”, que “estão apenas ali”, como se refere Said em Cultura e Imperialismo ao analisar a obra L´immoraliste, de Gide. Tal como é perceptível na análise do Museu do Dundo, “a narrativa possui uma estrutura de atitudes e referências que permite ao sujeito-autor europeu vincular-se a um território ultramarino, beneficiar-se dele, depender dele, embora, em última análise, recusando-lhe autonomia ou independência”.266

Reiteramos que não foram muitos os trabalhos dedicados à análise do Museu do Dundo, principalmente se for levadaem consideração a peculiaridade dessa experiência no

265 SAID, Edward. Cultura e Imperialismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. P.34. 266Ibidem.P.304-305.

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contexto do colonialismo português. A tese de doutorado do antropólogo português Nuno Porto evidencia uma pesquisade enorme fôlego e complexidade abarcando as mais diversas esferas e setores dessa instituição museológica, oferecendo ao leitor uma análise sofisticada e profunda sobre o Museu.

Entende-seque não faria sentido reproduzir aqui nem as ideias contidas na tese desse antropólogo, ainda que não raro tenham servido de referência para este trabalho, e nem fazer uma biografia do Museu desde a sua criação até 1961, marco final da periodização desta pesquisa. O que se propõe aqui é analisar o Museu do Dundo apresentando alguns aspectos chaves desse espaço para compreender os seus propósitos e ações bem como as relaçõesestabelecidas entre os sobas e o Museu. Para isso serão tomados como base para a discussão dois espaços que compõem o que se pode chamar de complexo do Museu do Dundo: o edifício e suas salas e a aldeia do Museu composta pelos escultores privativos e como palco para as festas folclóricas (sanzala folclórica).

Esses dois espaços do Museu estão interligados e têm em comum o importante papel dos sobas nessa engrenagem. É provável que pela forma “inusitada” como o Museu foi criado, a partir de uma coleção particular, nem mesmo a Companhia de Diamantes poderia prever que ele teria papel tão relevante na manutenção da sua ordem e estabilidade, através das relações construídas com os chefes locais e, por consequência, com os indígenas situados na área da Diamang.

Por outro lado, ao longo de sua existência, o Museu criou estratégias que contemplavam, com clareza, esses chefes tanto simbólica quanto materialmente. Essa relação marcada pela desigualdade, no entanto, exigia que esses homens estivessem sempre dispostos a colaborar com os projetos do Museu. E esses projetos eram sempre marcados pela subjugação e dominação, ainda que estivessem sempre carregados pelo discurso da “salvação” e “valorização” dos povos da Lunda.

137 Figura 11: Planta onde é possível ver a ligação entre o Museu, a Aldeia do Museu e o seu terreiro do Folclore. Fonte: Relatório Anual do Museu do Dundo de 1956. P.35. Arquivo da Diamang. Acervo do MAUC.