3.4. Araştırmanın Yöntemi
3.4.1. Araştırmanın Evreni ve Örneklemi
A pesquisa qualitativa caracteriza-se por uma coleta de dados predominantemente descritivos, ou seja, o material obtido nesta pesquisa é rico em descrições de pessoas, situações, acontecimentos, e inclui transcrições de entrevistas e de depoimentos. Alves-Mazzoti (1998) evidencia que numa abordagem qualitativa não há a necessidade de partir de hipóteses delineadas e fazer deduções; ao contrário, o pesquisador pode partir de observações mais livres, deixando que hipóteses e idéias emerjam à medida que realiza o trabalho de pesquisa.
Vale lembrar que algumas questões surgem a partir do envolvimento do pesquisador com o campo e no contato com os dados coletados (ALVES-MAZZOTI, 2001). Por isso, a observação teve um papel expressivo em todo o período da pesquisa. Observar levou-me a elaborar algumas questões que eu não havia pensado antes de me envolver com o “universo” da pesquisa, constituído pelos
alunos calouros do curso de Pedagogia iniciado no ano de 2007 na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Observar e conviver com os alunos calouros (sujeitos e não-sujeitos) foi um passo crucial no decorrer dos dois primeiros semestres do curso. E entrevistá-los teve como objetivo tentar recuperar as representações dos próprios sujeitos sobre suas práticas de leitura e escrita na tela, ou seja, procurar compreender o impacto que tais práticas têm provocado no desempenho acadêmico, o grau de domínio de determinadas habilidades nas situações em que elas são requeridas e as expectativas quanto ao aprimoramento dos conhecimentos digitais.
Alves-Mazzoti (2001) ainda destaca a importância do papel exercido pela observação dos fatos, comportamentos e cenários. Seguindo a sugestão da autora, no contexto desta pesquisa, foi fundamental investir na observação dos cenários em que ocorreram as navegações dos sujeitos - perceber a forma como estes lidam com os aparatos tecnológicos. Por exemplo, o data show, em apresentações de trabalhos na sala de aula, os computadores destinados à busca por livros e artigos na base de dados da biblioteca e os computadores disponíveis para navegação e realização de trabalhos acadêmicos nos laboratórios da universidade.
Outro aspecto relacionado à escolha da pesquisa qualitativa na maior parte deste estudo é a rejeição da idéia de "neutralidade" do pesquisador, o que implica a rejeição da idéia de separação do sujeito (pesquisador) do objeto da pesquisa (realidade estudada), já que existiria influência recíproca entre eles (ALVES- MAZZOTI, 1998). Bogdan e Biklen (1994) alertam quanto aos riscos da subjetividade do investigador se manifestar na hora de se processar os dados. “Será que o observador se limita a registrar aquilo que pretende ver e não o que de fato se passa?” (BOGDAN; BIKLEN, 1994, p.67).
Alves-Mazzoti (2001) levanta um importante aspecto da aproximação do pesquisador com seus sujeitos via observação participante:
[...] quanto à interferência do observador na situação observada, pode-se argumentar que esta fica minimizada pela permanência prolongada do pesquisador do campo, pois os sujeitos, com o tempo, se acostumam com sua presença. Ou, pode-se considerar, ainda, como preferem os teóricos- críticos, que as relações que se estabelecem entre pesquisador e pesquisados não são diferentes daquelas que existem na sociedade, e como tal devem ser encaradas e discutidas. (ALVES-MAZZOTI, 2001, p.164)
A permanência nesses espaços/cenários (biblioteca, sala de aula, laboratórios) como observadora me fez ser reconhecida pelos alunos calouros como também estudante, alguém que até emprestava livros quando precisavam. Já não era estranho para eles me virem assentada em suas salas de aula, por exemplo. Além disso, eu buscava interagir de forma natural, evitando que minha presença fosse ameaçadora ou intrometida. Ler Bogdan e Biklen foi importante para respaldar e afirmar minhas atitudes como investigadora, pois em alguns momentos fiquei insegura, questionava-me se estaria correto esse tipo de aproximação, pois houve situações em que os alunos confessavam a mim, pessoalmente ou por e-mail, suas insatisfações com alguns professores. A leitura desses autores me fez compreender que,
Se conduzir a sua investigação de uma forma sistemática e rigorosa e se desenvolver confiança, ser-lhe-ão fornecidas informações e opiniões que nem mesmo os intervenientes conhecem. Importa, contudo, não revelar aquilo que sabe quando fala com os sujeitos, já que estes podem ficar melindrados com a presença de um “sabe-tudo”. Não discuta com ninguém nada que um sujeito lhe tenha revelado. (BOGDAN e BIKLEN, 1994, p.128- 129)
Alves-Mazzoti ainda aponta outras vantagens que costumam ser atribuídas à observação:
[...] permite “checar”, na prática, a sinceridade de certas respostas que, às vezes, são dadas só para causar boa impressão; permite identificar comportamentos não-intencionais ou inconscientes e explorar tópicos que os informantes não se sentem à vontade para discutir; e permite o registro do comportamento em seu contexto temporal-espacial. (ALVES-MAZZOTI, 2001, p.164)
Foi interessante considerar esse “alerta” dado pela autora, pois percebi algumas contradições nos discursos dos estudantes quando conversavam informalmente comigo e quando concediam entrevistas gravadas. Por isso, outro instrumento de coleta que requer certo cuidado é a entrevista, pois, muitas vezes, o entrevistado tende a responder o que ele acha que o pesquisador quer ouvir. A observação por um período de tempo considerável (dois semestres) também permite verificar se certas respostas dadas pelos sujeitos são realmente compatíveis com seu “comportamento”, diante de situações em sala de aula ou em outros espaços da universidade onde foi possível acompanhá-los. Por exemplo, Inês é uma aluna que não participa com opiniões nas aulas, a não ser que seja requisitada pelo professor, e o seu desenvolvimento em relação às demandas do mundo digital é “tímido”, como é tímida sua participação em sala. Em contrapartida, Vânia é uma aluna que admitiu, em meio a todos os colegas, não saber “nada de computador”, no primeiro dia de aula na universidade. Em sala de aula, ela interrompe o professor para levantar questões as mais elementares, mas não se intimida diante dos colegas, das críticas, das intolerâncias recorrentes em sala. Assim também se comporta diante do computador/internet. Ela se arrisca a aprender, não demonstra timidez. Só pude associar os comportamentos de Inês e Vânia aos seus respectivos “aprendizados na cultura digital” observando e convivendo com as duas durante um ano. Daí a importância de investir num estudo de caráter longitudinal31, mesmo que de curta duração, ou seja, compreendendo o período dos dois primeiros semestres de
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Caracterizar esta pesquisa como “longitudinal de curta duração” foi sugerido na Banca de Qualificação, em novembro de 2007, pela professora Magda Soares.
entrada na universidade (um ano de coleta de dados via questionário, observação e entrevistas – 2007 - e dois anos de comunicação por e-mail – 2007 e 2008-, além de mais um período de entrevistas em 2008).
Como os sujeitos (pesquisador e pesquisado) que entram em contato são de realidades diferentes (GIL, 2002), com o objetivo de neutralizar os efeitos de violência simbólica, evitando que a entrevista se torne um interrogatório entre pesquisador e pesquisado, foi necessário apoiar-me nas sugestões de Bourdieu (1997). Ele nos faz refletir sobre a delicada relação existente nesse tipo de interação, em que se revela uma pressão de estruturas sociais “de submissão”. “É o pesquisador que inicia o jogo e estabelece a regra do jogo, é ele quem geralmente atribui à entrevista, de maneira unilateral e sem negociação prévia, os objetivos e hábitos, às vezes mal determinados, ao menos para o pesquisado” (BOURDIEU, 1997, p.695). Esse jogo se acentua ainda mais quando há conflito entre as diferentes espécies de capital32, especialmente o capital cultural. Segundo Bourdieu,
Sem dúvida a interrogação científica exclui por definição a intenção de exercer qualquer forma de violência simbólica capaz de afetar as respostas: acontece, entretanto, que nesses assuntos não se pode confiar somente na boa vontade, porque todo tipo de distorções estão inscritas na própria estrutura da relação de pesquisa. Estas distorções devem ser reconhecidas e dominadas; e isso na própria realização de uma prática que pode ser refletida e metódica, sem ser a aplicação de um método ou a colocação em prática de uma reflexão teórica.
Só a reflexividade, que é sinônimo de método, mas uma reflexividade reflexa, baseada num “trabalho”, num “olho” sociológico, permite perceber e controlar no campo, na própria condução da entrevista, os efeitos da estrutura social na qual ela se realiza. (BOURDIEU, 1997, p. 694)
Tentar diminuir a distância entre mim e os sujeitos e cuidar para que as interrogações (entrevistas) tivessem sentido para o pesquisado foi também um caminho para eu compreender a relação que indivíduos de meios populares,
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Bourdieu amplia a concepção marxista de capital econômico (renda) e elabora conceitos de capital social - “conjunto de recursos atuais ou potenciais que estão ligados à posse de uma rede durável de relações [...] ligações permanentes e úteis” (NOGUEIRA e CATANI, 1998, p. 67) -, de capital simbólico (prestígio, honra) e de capital cultural (posse de conhecimentos e hábitos considerados culturalmente legítimos).
ingressantes em instituição de ensino superior – que pressupõe alunos já com letramento digital –, mantêm com o computador e a internet.
É efetivamente sob a condição de medir a amplitude e a natureza da distância entre a finalidade da pesquisa tal como é percebida e interpretada pelo pesquisado, e a finalidade que o pesquisador tem em mente, que este pode tentar reduzir as distorções que dela resultam, ou, pelo menos, de compreender o que pode ser dito e o que não pode, as censuras que o impedem de dizer certas coisas e as incitações que o encorajam a acentuar outras. (BOURDIEU, 1997, p.695)
Após um ano de convívio, não só com os quatro sujeitos que priorizei para esta pesquisa (Inês, Elza, Paula e Vânia), mas com o universo dos 66 alunos do curso de Pedagogia Noturno da Faculdade de Educação da UFMG - observando as aulas, as navegações nos laboratórios de informática e nas bases de dados da biblioteca33, conversando informalmente em lanchonetes e corredores da faculdade e entrevistando -, consegui estabelecer uma relação mais próxima com eles, obtendo, assim, algumas declarações, gravadas ou não, e e-mails significativos para o prosseguimento deste estudo. Um exemplo é a declaração de Inês sobre suas condições de difícil inserção e sua insatisfação com um professor do curso que utiliza o Moodle34, software presente no portal minhaUFMG para execução de atividades e avaliações. Ela escreve em e-mail35:
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Tento manter também certo afastamento quando observo os estudantes no laboratório de informática. É evidente que suas práticas de navegação perdem a espontaneidade quando os abordo, no entanto isso não é um grande problema. Ao contrário, pode se converter em dado, pois a perda da espontaneidade leva o sujeito a pensar/verbalizar sobre o “como” fazer/trabalhar diante de uma tela, o que se constitui como um precioso dado para mim.
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Moodle (Modular Object-Oriented Dynamic Learning Environment) - Software livre, de apoio à aprendizagem, executado em ambiente virtual. Consiste num Sistema de Gestão de Aprendizagem (Learning Management) baseado em trabalho colaborativo. Apoiado no modelo pedagógico do construtivismo social, Martin Dougiamas, educador e cientista computacional, elaborou o software, que constitui-se como um sistema de administração de atividades educacionais destinado à criação de comunidades on-line, em ambientes virtuais voltados para aprendizagem colaborativa. O programa é gratuito e pode ser instalado em diversos sistemas operacionais.
35
Esse e-mail já está fora do período de coleta propriamente dito – ano de 2007. Porém, utilizo-o como exemplo para demonstrar que os sujeitos se sentiam à vontade comigo para revelar suas insatisfações ou temores. Isto deve-se ao período em que estive com eles em sala e em outros
De: Inês
Para: Daniela
Data: 03/04/2008 18:52
Assunto: oi DANIELA estou com saudades de você também.
Começei esse semestre assustada como todos os outros achando que não vou dar conta ,mas no final vai dar tudo certo se DEUS quiser.
Quem fez minha matrícula foi Alice36, foi bem mais tranquilo .
Fiz um curso de digitação nas férias , não fui muito bem e estou demorando muito para digitar , espero que com tempo eu melhore mais. Fiz apenas digitação e continuo não conseguindo utilizar outras ferramentas (word).
Ganhei um computador, aquele mesmo que te falei, não tem internet e nem impressora mas dá para eu treinar digitação
Estou tendo dificuldades de acompanhar as aulas da (DISCIPLINA X)37 pois o professor está realizando seminário virtual toda semana e já perdi 2 porque tenho dificuldade de lidar com esse mundo virtual.
O seminario e para toda a turma as perguntas sao sobre os temas discutidos em sala. As perguntas ficam no modle( minha ufmg) e temos que responder a pergunta ou opinar sobre a resposta de outra pessoa.Perdi porque o professsor colocou as perguntas perto do final de semana e só aceitou a resposta até o comeco da aula na segunda-feira. Já tem mais uma pergunta para o seminário e vou ver se não perco desta vez.
Um grande abraço, Inês.
OBS/ O teclado do c cedilha está estragado e do til também.
Como já afirmei anteriormente, numa pesquisa qualitativa é possível admitir que a subjetividade do pesquisador interfira em suas observações e conclusões, mas isso não significa deixar de lado critérios de objetividade e de rigor no desenvolvimento da mesma (GIL, 2002). Ao correr esse risco, foi necessário buscar em teorias e práticas metodológicas bem fundamentadas a melhor forma de apresentar a análise dos dados, a fim de evitar que os relatos que apresento aqui pareçam apenas “historinhas” que vão sendo contadas, sem maiores preocupações. Uma grande parte dos dados obtidos nesta pesquisa foi coletada por meio de entrevistas semi-estruturadas com os alunos. Apesar de ter realizado 24 entrevistas – duas, em diferentes semestres, com cada um dos 12 sujeitos selecionados –, decidi priorizar os quatro casos mais significativos para esta pesquisa (Inês, Paula, espaços, compartilhando as mais diversas situações. Além disso, todos os e-mails serão deixados em sua forma original, com todas as abreviações e sem nenhuma correção ortográfica ou gramatical.
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Todos os nomes dos sujeitos aqui citados são fictícios. Alice é uma colega que ajuda Inês a executar atividades “digitais” demandadas pela FaE.
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Para evitar futuros constrangimentos, decidi não revelar qual a disciplina a que a estudante se refere.
Elza e Vânia). Com essas estudantes, realizei não apenas duas, mas três entrevistas, uma no primeiro período, a segunda no segundo período e a terceira no quarto período. Assim, a apresentação dos dados, no texto, será organizada por temas comuns às quatro e também específicos de dois ou três sujeitos, ou até mesmo de apenas um. Para melhor explicar: após selecionar os quatro sujeitos que melhor atendiam ao objetivo da pesquisa, reconstruí suas trajetórias singulares a partir de seus relatos - tendo como foco sua entrada na cultura digital –, analisei o conteúdo das entrevistas e apresentei os resultados sob a forma de uma narrativa temática38. Ou seja, ao analisar as entrevistas, identifiquei pontos comuns nos discursos dos sujeitos. Tais pontos foram categorizados e chamados de temas (tipos de participação presentes na cultura digital; locais de participação na cultura digital; estratégias de aprendizagem; fatores que criam demandas de uso;
condições de produção da participação na cultura digital). Tem-se, portanto, cinco
temas e em cada um as entrevistas com as quatro estudantes selecionadas são inseridas, comentadas e analisadas, fugindo à tendência comum de apenas narrar, o que acaba sendo mais uma descrição do que uma análise39.