3. YÖNTEM
3.1. Araştırmanın Modeli
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O momento de concluir é, pois, o momento de fechar um processo de estudo, de busca, de escrita, de leitura, de análise, de construção, de aprendizagem. Assim, apresentamos essas considerações como parte de um percurso, destacando os objetivos que nos moveram, as limitações, as contribuições e as possibilidades de outros estudos.
Partimos da necessidade de investigar os sentidos do cuidado e, no decorrer desta pesquisa, entendemos que o nosso objeto eram as relações sociais de cuidado com o outro. Essa mudança reflete a dificuldade com a qual deparamos no início da pesquisa. Os estudos que nos familiarizavam com o tema ora diziam sobre técnicas voltadas para a fisiologia, como algo bastante separado da cultura e do simbólico, ora enfatizavam o amor e a responsabilidade, o reconhecimento, as emoções que constituíam o cuidar, separados das atividades. Tal dicotomia, como observou Montenegro (2001), está relacionada à separação corpo/espírito, associada às disciplinas que mais se ocuparam de pensar o cuidado: a filosofia e a enfermagem.
Estávamos certas de que o cuidado não se encerraria em técnicas/ações, bem como em emoções, sentidos, envolvendo grande complexidade. Como perceber as intersubjetividades, se o que orienta uma ação qualificada como de cuidado é tão constitutivo da própria definição de cuidado? Foi quando deparamos com o conceito descritivo do cuidado, como sendo uma relação social cujo ob- jeto é o outro (HIRATA, 2010). Entendemos, assim, que se tratava de perceber as ações e emoções juntas no cotidiano, desvelando-as como parte das relações sociais.
Mas, ainda assim, éramos conduzidas a perceber nas experiências das mulheres que participa- ram desta pesquisa - em espaços tão precários de vida – somente a ausência de cuidado. Essa etapa inicial foi muito difícil e angustiante, pois as relações de cuidado estavam turvas, afirmando-se ape- nas pela sua consequência: a continuidade das vidas das pessoas, impossível de ocorrer sem o cui- dado, mesmo que fosse apenas o cuidado de si mesmas. Novamente problematizamos o conceito de cuidado, concordando com Tronto (1993) que, como um conceito, o cuidado tem apenas dimensões normativas para se autodirigir e não contém as normas dos objetivos para os quais ele se volta. Ou seja, “o bom cuidado” pode levar maus propósitos e o “mau cuidado” pode levar bons propósitos, instaurando-se as contradições próprias das relações sociais.
De modo a compreender as relações sociais de cuidado com o outro, nossos objetivos específi- cos foram construir as histórias de vida dessas mulheres, com foco nas relações de cuidado; caracte- rizar também as suas ações no cotidiano de trabalho no Centro de Saúde, percebendo como organi- zam o trabalho, como se relacionam com outras pessoas (usuários/as e profissionais), as representa-
ções que constituem o seu agir concreto, e, por fim, analisar as concepções e significados construí- dos nas relações de cuidado.
Construímos as histórias de vida a partir das narrativas de Lúcia e Rosa, de algumas pessoas mais próximas delas, das nossas observações e da interações que significam as situações de entre- vistas. Entrevistar outras pessoas que fazem parte das histórias dessas mulheres, bem como conhe- cer e observar os lugares em que elas acontecem (quando possível), ajudou-nos a perceber as rela- ções de cuidado de forma dinâmica, histórica e entrelaçada a outras relações, como de gênero, clas- se e raça.
Essa escolha tornou o trabalho de pesquisa mais amplo, e foi desafiador conciliar os prazos da universidade, projetos, disciplinas e a dinâmica do trabalho em campo. As pessoas entrevistadas trabalhavam em jornadas extensas e/ou não conseguiam ter grande previsibilidade do futuro, com trabalhos incertos, “bicos”, etc. Assim, todas elas acabaram desmarcando as entrevistas pelo menos uma vez. Também realizamos entrevistas nas casas, no centro da cidade (numa lanchonete), no sa- lão de beleza, no Centro de Saúde, situações que, quase sempre, eram pausas nos expedientes, sobre os quais as pessoas tinham pouco controle. Foi difícil encontrar locais e disponibilidades para con- versas sem interrupções. Contar a própria história, como observou Dafne Patai (2010), é muitas ve- zes um luxo ao qual as pessoas pobres têm acesso limitado. Essa dimensão, que está associada às la- cunas que percebemos na história das mulheres e dos pobres, somada às riquezas das histórias sin- gulares, nos fizeram perceber que, para além dos objetivos de compreender o cuidado, a história de vida construída é um documento único e valioso por si mesmo.
Na descrição e analise dos dados das histórias de vida, no âmbito da família, observamos que as agentes cuidadoras, bem como os intercâmbios entre agentes cuidadores e as pessoas que re- cebem cuidado se dão fortemente marcadas pela dimensão de classe social e de gênero. Essas di- mensões mostraram-se radicalmente ligadas à conformação do pensamento do cuidado nas famílias como sendo uma contribuição para relações de troca/obrigação, passíveis de serem dadas principal- mente pelas meninas, já que é considerado algo da essência das mulheres, da ordem dos comporta- mentos e sentimentos da “natureza” feminina. As relações de cuidado nas famílias evidenciam uma mudança em termos geracionais, ou seja, a responsabilidade de cuidar do outro, por parte das filhas mais velhas, vai tendo um menor peso diante da escolarização dessas famílias. O cuidado, como dissemos, se mostrou contraditório. Com o propósito de proteger, dar atenção, responsabilizar-se pelo outro, essas relações podem significar uma transmissão de saberes e valores sobre a saúde e so- bre as relações interpessoais, constituindo uma forma de poder próprio das mulheres e também po- dem nos dizem sobre situações de violência e vulnerabilidade.
pessoas (usuários/as e profissionais) e as representações que constituem o seu agir concreto. O Cen- tro de Saúde onde Lúcia e Rosa trabalham caracterizou-se como um espaço restritivo, no que se re- fere a materiais, locais e tarefas de trabalho, normas e possibilidades de ação. Tal restrição, a nosso ver, está associada ao público-alvo da unidade e reflete também um modo de perceber o cuidado e de constituí-lo como prática distanciada do reconhecimento do outro, ainda que possa ter como pro- pósito o bem-estar deste. Os esforços para o reconhecimento das necessidades do outro por parte de algumas trabalhadoras, como ressaltou a experiência de Rosa, ou a naturalização dos “não esforços”, mais presente nas condutas de Lúcia, evidenciam as condições precárias de trabalho, a desorganização, a falta de reconhecimento do cuidado. O termo “má-fé institucional” agrupa uma série de desafios para tornar o cuidado uma premissa fundamental na instituições de saúde pública, descrevendo-o, ao mesmo tempo, como um fato lastimável.
Ao analisarmos, nesses contextos, as concepções e significados construídos nas relações de cuidado, notamos que a compreensão destas só pode ocorrer a partir das relações entre técnicas, ações e orientações das ações, dentro de um universo simbólico e objetivo que se transforma de acordo com a necessidade de cuidados, bem como de acordo com os/as agentes que participam des- sa relação. A relação de cuidado que se estabelece é uma relação de poder, e, no Centro de Saúde, pesam as representações sociais a respeito dos/as usuários/as, uma vez que eles/as necessitam de cuidado e não podem fazê-lo por si mesmos/as, estando vulneráveis às cuidadoras. Nessa situação, o cuidado é fornecido ou não, de forma boa ou ruim, tendo como base “a matriz do favor”.
Como observou Tronto (1993), o cuidado analisado dentro de dualismos como enfermeiros/as/usuários/as, mãe/filha/o, é restrito e faz com que as qualidades, que também são do dominante, sejam atribuídas somente ao dominado da situação. Pensando assim, embora na unidade de saúde Lúcia e Rosa tenham mais poder e o outro seja reconhecido como “o/a vulnerável”, caren - te, etc., numa análise que engloba as suas vidas, percebemos que, em outros momentos, são elas as vulneráveis, que precisam de cuidado, mas não descrevem nas suas histórias essas necessidades. As lembranças de Lúcia e Rosa descrevem histórias de mulheres que receberam muito pouco cuidado, mas se protegiam dessa falta agindo como se dele não necessitassem. Proteger-se de receber o cui- dado é uma forma de se proteger como cuidadora. Ao mesmo tempo, há pistas de que sendo algo que não faz parte das técnicas do curso técnico, o cuidado parece ser melhor desenvolvido por aque- las cuidadoras que puderam receber cuidado ou que aprenderam a reconhecer o outro, como no caso de Rosa. Desse modo, a prática do cuidado se constitui em continuidade entre a esfera familiar e a unidade de saúde. Os cuidados das técnicas de enfermagem são bastante influenciados pela relação cultural que se estabelece: mais pelo significado do outro, das suas secreções, do que pelas regras técnicas de saúde, “universais”: as quais também são influenciadas pela cultura.
Compreendemos que, como notou Tronto (1987), em termos éticos, a prática do cuidado favore- ce essas mulheres a construir uma rede de relações referenciada na troca, no respeito e na não vio- lência. Mas essas relações devem ser confrontadas em nível ampliado de análise, mostrando poten- cialidades conservadoras que inibem possíveis transformações que, a nosso ver, são emancipadoras. As trabalhadoras que se esforçam na unidade de saúde para reconhecer o outro, separar-lhe uma se- gunda dose da medicação, estão cuidando do outro, do mesmo modo que as mães preocupadas com a escolarização das/os filhas/os (de modo a poder competir no mercado). Mas essas relações desfa- vorecem o cuidado, por exemplo, na medida em que dizem sobre atitudes que favorecem alguns, mas que são direitos de todos na sociedade, ou deveriam ser. Em que medida o cuidado é emancipa- dor é uma disputa política, que precisa ser discutida pela educação, enfermagem e outras discipli- nas.
As nossas análises pretendem contribuir para a reflexão que vem sendo feita acerca do próprio conceito de cuidado nos estudos aplicados do campo da educação e da enfermagem, principalmente. Desse modo, continuamos a reflexão do cuidado considerando a sua imbricação com as relações so- ciais, bem a contradição que essas relações carregam, no âmbito dos sentimentos e das fronteiras entre o público e o privado. Esses elementos contraditórios, muitas vezes, de acordo com Mollinier, fazem parte da “caixa preta” do cuidado, tendo como referência a perspectiva hegemônica com que o conceito vinha sendo pensado nos países anglo-saxões.
Para nós, muitas questões mostram-se interessantes para futuras pesquisas. Apontaremos algu- mas delas. Sendo a ética do cuidado relativizada em confronto com a análise macrossocial, notamos que é interessante percebê-la em diálogo com os estudos pós-coloniais, trazendo contribuições dos/as pensadores latino-americanos/as, de modo a colocar em evidência os pensamentos e forma de agir das populações colonizadas na relação de cuidado do outro. Da mesma forma, de modo a colocar em relação as perspectivas nas quais o cuidado vem sendo pensado, é interessante que tra- gam a perspectiva da família e do trabalho e sejam realizados com cuidadores do sexo masculino. Estudos sobre enfermeiros têm sido realizados (WAINBERG, 2004; LOPES, et al. 1996), mas são poucos e estão focados numa perspectiva mais ampliada de análise, e pouco se sabe sobre as experi- ências de cuidado na esfera familiar. Ainda por motivos semelhantes, consideramos importante o es- tudo do cuidado nas classes privilegiadas, a aprendizagem de cuidado na infância, as relações de cuidado na juventude. Por fim, entendemos que a análise do cuidado relacionada ao corpo e às emo- ções representa um caminho fértil para estudos.