I. BÖLÜM
3.4. Araştırma Süresince Yapılan Uygulamalar
Frente à ideia de que a unidade documentária como obra, nas duas seções seguintes, buscamos explorar a noção de obra no AACR2 e em método de ordenação de documentos mediante a notação de autor.
4.5.3.1 Anglo-American Cataloging Rules, 2ª edição (AACR2)
A segunda edição do AACR2 foi publicada em 1978, com mudanças profundas quando comparada à primeira edição, publicada em 196764. À segunda edição seguiram-se três revisões (AACR2R de 1988, AACR2R de 1998 e AACR2R de 2002), que não alteraram substancialmente a noção de obra que discutiremos nesta seção. Por isso, utilizamos a sigla AACR2 para designar também essas revisões, ainda que lancemos mão da versão brasileira de 2004, publicada pela FEBAB, como referência de citação.
O AACR2, instrumento documentário produzido por instituições bibliotecárias
64 Abner Lelis Corrêa Nascimento fez a tradução e a adaptação para a língua portuguesa do texto norte-ameri- cano do AACR (1967) editado pela ALA (ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE BIBLIOTECAS et al., 1969).
anglo-americanas e amplamente aplicado em bibliotecas brasileiras, é constituído por duas partes: a primeira dá orientações relativas à parte descritiva dos diversos documentos, seguindo os preceitos das áreas estabelecidas pela ISBD, salvo a área 0 – Forma de Con- teúdo e Tipo de Mídia; a segunda parte dá orientações para o estabelecimento de pontos de acesso, de títulos uniformes e de remissivas.
Como editor do AACR2, Gorman (2000, p. 9) comenta que a distinção obra-livro foi observada, embora reconheça que tal distinção não está perfeitamente clara nas regras. De fato, o AACR2 avançou de modo mais coerente quando comparado à primeira edição de 1967, segundo Gorman, porque a lógica analítica de Seymour Lubetzky foi considerada (2000, p. 10). Todavia, embora Gorman afirme ter participado de uma revolução lubetzkiana, entendemos que tal revolução não nos parece ter ainda ocorrido plenamente, pois as três revisões do AACR2 – AACR2R de 1988, AACR2R de 1998 e AACR2R de 2002 – não alteraram esse Código substancialmente à Lubetzky.
A indistinção obra-livro e outras incoerências do AACR2 já eram percebidas por Shinebourne um ano após a sua publicação (1979, p. 233). Uma delas expõe o fato de que não havia uma distinção clara da definição da entidade bibliográfica que deveria ser representada em registro bibliográfico. Termos como ‘item’, ‘obra’ e ‘publicação’ são usados de modo indiscriminado, mas só o primeiro é definido no glossário do AACR2: “um documento ou um conjunto de documentos sob qualquer forma física, publicado, distribuído ou tratado como uma entidade autônoma, constituindo a base de uma descrição bibliográfica única.” (JOINT STEERING COMMITTEE FOR REVISION OF AACR, 2004, apend. D, p. 7).
Nessa direção, o item pode ser qualquer coisa que o catalogador julgar, o que deixa em aberto a questão de qual é a base bibliográfica da descrição (SHINEBOURNE, 1979, p. 233) de interesse do usuário. O estabelecimento da unidade base de descrição é condição necessária para que o instrumento documentário seja adotado de modo consis- tente para a elaboração de registros. Se a entidade bibliográfica base para a descrição em registro for prescrita, alguma arbitrariedade pode ser justificável em situações específicas, restringindo-se a elas, de modo a não se tornar a regra. (SHINEBOURNE, 1979, p. 234). Todavia, entendemos que o ideal é que não haja arbitrariedades, pois a presença delas é indício de que os fundamentos são falhos ou imprecisos.
Smiraglia (2001a, p. 28) identifica as incongruências dos termos ‘item’ e ‘obra’ no AACR2. O texto de uma das regras gerais desse Código enuncia que a transcrição é esta- belecida em função do item do seguinte modo: “transcreva a indicação de edição da maneira encontrada no item.” (JOINT STEERING COMMITTEE FOR REVISION OF AACR,
2004, regra 1.2B1); a regra correspondente no capítulo relativo a monografias impressas sugere que a edição é estabelecida em função da obra: “transcreva a indicação relativa à edição de uma obra que contenha diferenças em relação a outras edições da mesma obra [...]” (JOINT STEERING COMMITTEE FOR REVISION OF AACR, 2004, regra 2.2B1). Tal- vez essas incongruências sejam provocadas por descuido editorial, afirma Smiraglia (2001a), mas pode ser indício de falta de uniformidade sobre a importância em se distinguir obra e item de modo claro.
De modo paralelo, Delsey, auxiliado por Dulabahn e Heaney, analisaram o AACR2 e observaram que o termo ‘obra’ é uma referência implícita do Código, embora essa entidade seja determinante para a segunda parte do AACR2 (apud WEIHS; HOWARTH, 2008, p. 370).
Diante do exposto, indicamos os elementos constantes na primeira parte do AACR2 em que a obra está subjacente. Para tanto, valemo-nos do mapeamento realizado pela IFLA (2004), ao comparar os elementos da ISBD com as entidades e os atributos do Modelo FRBR. Tal comparação é válida porque os elementos da ISBD são correspondentes aos elementos da primeira parte do AACR2. Possíveis diferenças não comprometem a análise porque a comparação é ponderada em nível de elementos.
a) no elemento ‘DGM’, sob a forma de obra qualificada, como é o caso de ‘material cartográfico’;
b) nos elementos indicativos de coordenadas e de equinócios de obras carto- gráficas;
c) designação de tipo e de extensão de recurso eletrônico associados à forma da obra;
d) na área 5, descrição física, nos elementos que designam a forma de obra (mapa, carta etc.);
e) na área 7, notas, nos elementos que,
- designam a obra original adaptada no documento que se cataloga,
- citam a forma da obra conforme natureza, alcance, propósito os quais não apresentam correspondência no Modelo FRBR;
- indicam o relacionamento do documento com a obra que materializa, sucessão, divisão, suplemento, complemento, resumo, tradução, transfor- mação ou imitação;
- determinam ser a obra parte de outra obra maior; - indicam o público a que se destina a obra.
respondem ao documento, mas na segunda parte da estrutura lógica do AACR2 (JOINT STEERING COMMITTEE FOR REVISION OF AACR, 2004) a noção de obra é apresentada de modo menos implícito, porque tal parte trata do conteúdo intelectual ou artístico, confor- me salienta Delsey (apud WEIHS; HOWARTH, 2004, p. 369, tradução nossa).
O chamado princípio fundamental para a aplicação das regras na Parte I é que ‘o ponto de partida para a descrição é a forma física do item à mão, não o original ou qualquer forma anterior em que a obra tenha sido publicada.’ Por outro lado, a introdução à Parte II indica que as regras para a escolha e forma de entrada 'aplicam-se às obras e não às manifestações físicas dessas obras, embora as características de um item individual sejam leva- das em conta em alguns casos.’
Na primeira parte, então, entendemos que os aspectos descritivos são deter- minados pelo documento, os quais dão sentido ao registro. Todavia, tais aspectos são insuficientes para estabelecer relacionamentos com outros registros bibliográficos. Tal tarefa é desempenhada pelos pontos de acesso que, no âmbito do AACR2, são tratados na Parte II. Dos pontos de acesso tratados no código, concentramos a análise nas regras relativas ao ‘título uniforme’, ao ‘nome-título’ e à ‘entradas analíticas’, analisados na sequência, os quais estão correlacionados diretamente à noção de obra.
O título uniforme é uma prescrição presente de modo explícito nas edições do AACR ainda que seu emprego tenha germinado nas “91 Regras” de Panizzi (regra 52), salientam Weihs & Howarth (2008, p. 363). Posteriormente, Cutter também empregou-o na regra 246 da “Rules for a Dictionary Catalog” (4ª. edição de 1904). Tanto nestas Regras quanto nas “91 Regras” de Panizzi, o conceito de título uniforme se refere a traduções.
Figura 23 – Exemplo sob Regra 246 da “Rules for a Dictionary”, 4th ed. Fonte: Cutter (1904).
Nota: “Eng.” é abreviação de English (inglês).
O termo ‘título uniforme’ deve ter sido aceito nos anos compreendidos entre a publicação do “Catalog Rules: Author and Title Entries” (primeira edição do Código da ALA de 1908, publicada de modo conjunto com a Library Association da Grã-Bretanha sob o título “Cataloguing Rules: Author and Title Entries”) e a publicação das “A.L.A. Catalog
Rules: Author and Title Entries” (1941), pois consta do glossário destas, embora ausente do
corpo de texto (WEIHS; HOWARTH, 2008, p. 364). Mas seu emprego está evidente no AACR, capítulo 4, e no AACR2, capítulo 25 onde é definido assim: