2. BÖLÜM
3.1. Araştırma Modeli
Elaborar este texto dissertativo não deixa de ser uma aventura, por reviver em cada linha os momentos de dúvida em relação ao campo, de inquietação diante dos percursos dos sujeitos, de escolha por qual caminho eu deveria seguir. Momentos que fizeram parte do desenrolar desta pesquisa e ao quais tento dar vida nestas páginas. É também uma aventura dar voz aos/às jovens que escolhi para serem os sujeitos deste estudo, com seus percursos sinuosos e que me deixaram o desafio de apresentá-los. Assim como Matos (2001), considerei “[...] os jovens como interlocutores, priorizando suas percepções e dizeres de si, nas suas
múltiplas relações [...]” (p.42) com o assentamento, com a cidade, com seus percursos e projetos de vida.
Então, tento entender a partir desta escrita o universo multifacetado que é a vida das juventudes, considerando que “Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada” (Clarice Lispector). Dessa forma, ainda que não possa reproduzir a peculiaridade que é a vida dos/as jovens egressos/as da escola do campo, por ser irreproduzível, busco nos próximos capítulos expor o meu entendimento sobre eles/as, acreditando que assim darei visibilidade à vicissitude dos modos de vida e cotidiano juvenis, em suas dificuldades e possibilidades.
Escolhi apresentar este capítulo introdutório em tópicos por ter o desejo de aproximar quem o lê das minhas escolhas enquanto pesquisadora, da proximidade com a temática, e também revelar como o objeto foi se construindo.
No segundo capítulo, apresentarei a metodologia da pesquisa, com o esforço de detalhar a minha forma de caminhar e pensar os objetivos do estudo. A pesquisa etnográfica, enquanto perspectiva adotada, possibilitou-me conviver com as juventudes e conhecer os sentidos que elaboram para seus percursos e projetos de vida. Minha aproximação com os/as egressos/as é destacada na pesquisa exploratória (no Curso Técnico em Agroecologia e Extensão Rural do Programa Residência Agrária da Universidade Federal do Ceará22), com minha inserção e realização do trabalho de campo, até a definição de quem seriam os/as sujeitos. Apresento o diário de campo e a entrevista como suportes para a coleta de dados e encerro refletindo sobre a minha postura em relação à transcrição da fala dos/das jovens do campo.
O terceiro capítulo trata da discussão sobre a Educação do Campo, abordando seus aspectos políticos e ideológicos, que a fazem construir-se numa perspectiva de educação de classe, da classe trabalhadora camponesa, entendendo que está inserida no território camponês, portanto demanda para sua reflexão e prática pedagógica elementos que a distinguem de outras escolas rurais. Apresento o PPP da Escola de Ensino Médio João dos Santos de Oliveira, com o objetivo de explicar como a escola do campo é pensada e construída de forma diferente se comparada às demais escolas nacionais.
No quarto capítulo, dialogo com os/as jovens sobre suas vidas no assentamento, para compreender o contexto em que estão inseridos/as e quais as questões que perpassam o
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Neste trabalho também me refiro ao curso utilizando o termo REAJO (Residência Agrária Jovem), que é a maneira informal como a coordenação se refere a ele.
cotidiano deles/as.
O quinto capítulo explicitará os percursos e projetos de vida das juventudes, caminhos complexos, marcados por oportunidades e táticas para se inserirem no mundo do trabalho, vivenciarem novos momentos e realizarem suas aspirações.
Nas considerações finais, recupero algumas questões centrais da pesquisa, expondo o meu olhar sobre os percursos e projetos de vida dos/as egressos/as.
2 HORIZONTE METODOLÓGICO: APROXIMAÇÕES E DESCOBERTAS NO TRABALHO DE CAMPO
“[...] numa ciência onde o observador é da mesma
natureza que o objeto, o observador é, ele mesmo, uma parte de sua observação.”
Lévy-Strauss
Neste capítulo abordo a metodologia que guiou meus caminhos durante o trabalho de campo e na análise dos dados da pesquisa. Apesar de tratar esse momento como horizonte metodológico, por ter me levado à busca daquilo que o meu olhar pôde alcançar, entendo que ele não se construiu em linha reta, pois o próprio universo empírico levou-me a refletir sobre o método e o meu caminhar. Opto por trazer neste texto alguns pensamentos e questionamentos pessoais, enquanto pesquisadora que vem se iniciando na academia, para poder também dialogar com os autores, as problemáticas e os desafios que perpassam essa tarefa instigante e apaixonante que é pesquisar. Entendo como um momento de reflexão do meu “devir” pesquisadora.
Antes de apresentar a metodologia, percebo que se faz necessária a reflexão sobre a importância social que a pesquisa possui. Como destaca Minayo (2015, p.16) “[a] pesquisa [é] a atividade básica da ciência na sua indagação e construção da realidade. É a pesquisa que alimenta a atividade de ensino e a atualiza frente à realidade do mundo.” Atenta a essas questões apontadas pela autora, não posso deixar de destacar que a pesquisa também apresenta um sentido ético e político, questionado por uma militante23 do MST: “Fazemos pesquisa para quê? Para quem? Essas pesquisas estão comprometidas com que projeto de País?”.
Esses questionamentos expostos pela militante me instigaram a pensar: qual o sentido de ter pesquisado os percursos iniciados pelos/as egressos/as da escola do campo e também os projetos de vida dos/as mesmo/as? A quem (e aqui entendo sujeitos, movimentos sociais, instituições) se destinava essa busca? Ela de fato tem destinatário(s), e como pode trazer reflexões para quem a lê? Como pensar, por meio desta pesquisa, o meu compromisso com a Educação do Campo e com as juventudes assentadas? Como ficar atenta a essas dimensões se o meu próprio ato de escrever sobre essa temática já anuncia um posicionamento político?
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Fala da militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), do Setor de Educação, Ceará, que participou de uma exposição sobre “Educação e Movimentos Sociais” no encontro da Linha de Pesquisa Movimentos Sociais, Educação Popular e Escola, do Programa de Pós-graduação em Educação Brasileira da Universidade Federal do Ceará, em março de 2015.
Destaco essas interrogações, porque — assim como Paulo Freire (2003) reflete sobre o seu próprio ato de escrever como sendo de natureza política, que exige também compromisso ético que se deve assumir e cumprir — considero fundamental pensar sobre o meu compromisso de pesquisar, de escrever uma dissertação, de estar em uma universidade pública, em um programa de pós-graduação, produzindo e divulgando conhecimento. Entendo que esse empenho teve uma responsabilidade maior, o de contribuir para as reflexões sobre a Educação do Campo, com as populações que vivem em áreas de assentamentos rurais, principalmente com as juventudes, que ainda são despercebidas em suas singularidades e necessidades e também desconhecidas em seus modos de vida.
Outra contribuição de Freire (2003, p.18) que penso ser importante antes de apresentar os caminhos e resultados da pesquisa é reconhecer que possuo conhecimentos, mas que também tenho “Limites epistemológicos, econômicos, sociais, raciais, de classe etc. Uma fundamental exigência ética ante a qual devo estar sempre advertido é a que me cobra quanto ao conhecimento que devo ter de meus próprios limites”.
Conhecer e reconhecer meus próprios limites é entender que meu olhar, fala, escrita e ação serão perpassados pelo lugar de onde falo, de onde venho e de todas as experiências que vivenciei. Assim, entendendo que sou inconclusa, incompleta, inacabada, por “estar sendo” (FREIRE, 2004) constantemente na relação com os/as outros/as, com os lugares. Essa compreensão é, para Paulo Freire (2004), uma tomada de consciência que favorece a curiosidade, o desconhecido, a comunicação e a transformação, que percebo como necessária a quem ousa pesquisar.
As perguntas colocadas em relação à atividade de pesquisa, assim como os apontamentos de Freire sobre a escrita, serviram como instrumentos para que eu pensasse teoricamente minha própria prática e o conhecimento que propus construir. Espero ter alcançado ao final do trabalho o entendimento sobre os limites, as situações e os posicionamentos que perpassaram meu agir, enquanto pesquisadora, no ato de pesquisar.