6.MATERYAL VE METOD
7. BULGULAR VE TARTIŞMA
7.1. Anket Sonuçları
Como vimos, as ONGs, os projetos sociais, associações e diversos outros agrupamentos humanos instituídos socialmente, inseridos no Terceiro Setor, preocupam-se em preencher as lacunas sociais por meio de programas e atividades que visam melhorias na qualidade de vida. A elaboração de propostas e a institucionalização de ações coletivas de educadores e artistas, têm colocado a música como centro de algumas proposições. Tais
propostas, em geral, objetivam o desenvolvimento de habilidades musicais concomitantemente ao desenvolvimento humano e o despertar sensível às relações humanas, gerando novas perspectivas de crescimento pessoal.
A internet tem sido um importante veículo de propagação de propostas musicais. Diversos projetos sociais utilizam o espaço da web para divulgar à população em geral, sua história, seus objetivos, características e localização do público atendido, atividades desenvolvidas, quem patrocina e apoia, calendário de apresentações e, ainda, a disponibilização de imagens e vídeos que exemplificam o desenvolvido artístico. A proliferação de projetos e o surgimento de espaços e demandas para atuação profissional tem motivado, no contexto acadêmico científico, o desenvolvimento de estudos que buscam compreender as particularidades desse fazer musical.
Para Souza (2014), o campo da Educação Musical, no Brasil, interessou-se pelas ações de projetos sociais simultaneamente à visibilidade das práticas musicais consideradas não formais, no final dos anos 1990. Essa temática tem sido foco de estudos que buscam compreender como tais iniciativas legitimaram-se como espaços significativos para a aprendizagem da música, a utilização de metodologias contextualizadas, o impacto na sociedade em geral e particularidades da vida dos envolvidos e, a formação profissional para atuação nesse contexto, entre outros. A Associação Brasileira de Educação Musical (ABEM), preocupada e atenta aos temas emergentes, vem proporcionando, por meio de seus encontros
nacionais e regionais8 momentos onde o assunto é colocado em discussão, demonstrando a
ampliação e significação da temática para a área.
Tendo em vista que as atividades propostas por projetos ou ONGs destinam-se a pessoas em situação de risco e vulnerabilidade social, todo trabalho educativo, inclusive o de vivência e desenvolvimento de habilidades musicais, “deverá ser orientado visando a reumanização das crianças e dos jovens, a partir da recuperação do sentido de humanidade reprimido em função do abandono e exclusão social” (NASCIMENTO, 2014, p. 53). Nessa
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Temas dos Encontros da ABEM que demonstram o interesse da área por proposições que incluem o contexto de Terceiro Setor: X Encontro Anual (2001) - Educação musical hoje: múltiplos espaços, novas demandas educacionais; XII Encontro Anual (2003) - Políticas públicas e ações sociais em educação musical; XIV Encontro Anual (2005) – Educação musical e diversidade: espaços e ações profissionais; XVII Encontro Anual (2008) - Diversidade musical e compromisso social: o papel da educação musical; VIII Encontro Regional da ABEM Sul (2005) - Educação musical e diversidade: espaços e ações profissionais; XI Encontro Regional da ABEM Sul (2008) - Diversidade musical e compromisso social: o papel da educação musical; IV Encontro Regional Nordeste da ABEM (2005) - Diversidade da educação musical no Nordeste; VII Encontro Regional Nordeste da ABEM (2008) - Diversidade musical e compromisso social: o papel da Educação musical; XI Encontro Regional Nordeste da ABEM (2012) - Educação Musical em Múltiplos Contextos: inovação, inclusão e tecnologias; IV Encontro Regional Centro-Oeste da ABEM (2003) - A educação musical nas ações socioculturais; V Encontro Regional Centro-Oeste da ABEM (2005) - Educação Musical e diversidade: espaços e ações profissionais. Informações obtidas no site: www.abemeducacaomusical.com.br
direção, a música é utilizada como ferramenta que busca transformar a condição humana de exclusão em inclusão, por meio de ações que agregam pessoas e sons, comportamentos e emoções. O fazer musical, nesse contexto, apresenta-se como facilitador no processo de compreensão dos significados sociais concatenados aos musicais.
O termo inclusão, no contexto aqui discutido, refere-se à inserção social daqueles indivíduos menos favorecidos. No campo da educação musical, entendemos que o termo refere-se também, às motivações associadas à aprendizagem, às diferentes experiências musicais adquiridas ao longo da vida e os significados dessas experiências, obtendo maior importância do que as habilidades ou competências musicais propriamente ditas.
As experiências musicais em projetos sociais podem dar suporte para que os educandos tenham experiências autônomas e se tornem aprendizes que transformam a matéria musical em caminhos pessoais relevantes, como a participação em grupos musicais e orquestras e a profissionalização. E, se essas experiências puderem apontar em uma direção do coletivo e comunitário, talvez a dimensão da inclusão esteja sendo contemplada também (SOUZA, 2014, p. 22).
A música, no contexto de projetos sociais, apresenta-se como um meio, uma ferramenta de comunicação e interação onde pessoas são alcançadas. Por tratar-se de um campo relativamente novo em relação às praticas musicais já institucionalizadas socialmente como, por exemplo, a aprendizagem em espaços formais de ensino, as atividades desenvolvidas em projetos sociais carecem de flexibilidade, principalmente com relação às metodologias utilizadas, duração e horário destinado aos encontros e aspectos relacionados às interações sociais e o desenvolvimento do respeito entre os participantes.
O trabalho de Kleber (2006) apresenta subsídios para a compreensão do papel da educação musical no processo politizado dos movimentos e projetos, submersos pela busca de transformação e justiça social. Kleber argumenta que o processo pedagógico musical instituído nas ONGs só pode ser pensado de maneira sistêmica, onde “não há espaço para uma produção do conhecimento musical descolado dos contextos” (2006, p. 296). Sobre a terminologia utilizada por Kleber para expressar a formação global e integral do ser humano (sistêmica), outros educadores como Cançado (2006) utilizam “visão holística”. Entendemos que sistêmico e holístico são expressões que instigam o mesmo sentido de ação que descarta a fragmentação em prol de um olhar ampliado, que considera tudo aquilo que envolve a natureza humana. A compreensão de que o processo pedagógico musical instituído em ONGs só pode ser pensado de maneira sistêmica ou a partir de uma visão holística, vem ao encontro dos nossos pressupostos, pois a partir do momento em que concebemos a música como
cultura, estamos considerando o todo, o contexto, as significações e as interações que permeiam o fazer musical desenvolvido por projetos sociais.
Sendo assim, o trabalho musical em projetos sociais implica em compreensões profundas do contexto sociocultural dos beneficiários, bem como o desenvolvimento da afetividade entre educador e educando, descobrindo e desenvolvendo potencialidades sem descartar as singularidades, valorizando ao mesmo tempo a individualidade e a coletividade. Salientamos que, além do conhecimento contextual, é imprescindível uma formação docente que contemple as especificidades técnicas, estruturais e pedagógicas do fazer musical.
Os aspectos da formação musical são importantíssimos para o perfil daquele que vai trabalhar numa ONG que tem a música como elemento básico, pois definem realmente o que pode acontecer como atividades músico- pedagógicas na prática. O gosto musical, os níveis das habilidades musicais (voz e instrumento), a capacidade criativa e expressiva, o nível de apreciação crítica do repertório musical, a auto compreensão sobre os próprios saberes e competências, sabedoria e modéstia mas, ao mesmo tempo, autoconfiança e alegria pelo que consegue fazer, a capacidade de trabalho interdisciplinar e as habilidades de negociação administrativa e pedagógica podem interferir decisivamente para o sucesso do profissional numa determinada ONG. A inteligência lógico-pedagógica visando atuação adequada no ensino, através de um bom sequenciamento de atividades e repertórios, tomando em conta os diversos fatores de variabilidade da população e da instituição, é uma das principais qualidades a serem observadas no profissional da equipe (OLIVEIRA, 2003, p. 96).
A utilização de metodologias de ensino adequadas, que contemplem a diversidade e as especificidades do público atendido, fortalecem a motivação e o sentimento de pertencimento daqueles que frequentam as atividades oferecidas por projetos sociais. De certa maneira, o público-alvo contribui nas definições das propostas apontando para questões organizacionais, como por exemplo, o horário e a duração das atividades, a modalidade de ensino musical (coro, orquestra, percussão, musicalização), os resultados esperados (performances, concertos didáticos) e a continuidade das atividades, com vistas à inserção significativa na comunidade atendida (empresa, bairro ou cidade).
Pensar na didática musical em projetos sociais significa levar em conta os fatores que contribuem para a inclusão dos alunos no grupo, como metodologias, conteúdos, repertório e ambiente. Embora não padronizadas, as propostas didáticas devem garantir igualdade, acessibilidade, envolvimento e processos de aprendizagem musical que incluam o outro, a comunidade (SOUZA, 2014, p. 21).
Nessa perspectiva, o sentimento de pertencimento faz-se extremamente relevante, tendo em vista que a música constitui-se o elemento central de construção social. O indivíduo
que enxerga-se como um importante elemento na composição do “todo”, pode contribuir na formação de uma sociedade mais justa e inclusiva. Vemos dessa maneira que o campo da educação musical, diante da diversidade de contextos e das oportunidades oferecidas pelo Terceiro Setor, procura atender demandas da sociedade com atividades músico-educativas fundamentadas na formação global do sujeito.
Entretanto, devemos considerar as imprevisibilidades e fragilidades das construções sociais no qual o Terceiro Setor está submetido. Por caracterizar-se de ações que dependem de recursos originários de mecanismos institucionalizados, por meio de leis, editais públicos e parcerias com órgãos privados, os projetos sociais convivem com as instabilidades governamentais, o que incide na sua dinâmica e estruturação. Kleber (2006) vivenciou esse processo durante sua pesquisa junto à duas ONGS e relata que:
[...] movimentos sociais se institucionalizaram e estão se institucionalizando sob uma plataforma sociopolítica, econômica e jurídico-institucional movediça. [...] As políticas sociais, as leis, nesse tempo de coleta, sofreram mudanças que incidem na dinâmica dessas instituições. Assim, as fragilidades, elas existem a partir desse momento de mutação da própria identidade do que seja a ONG. Como não existe, em termos educação musical em ONGs, uma tradição como há nas universidades, conservatórios e escolas de música, o processo está sendo construído no cotidiano mediante as ações práticas. Isso, ao mesmo tempo em que pode ser visto como uma fragilidade mostra-se, também, como uma capacidade de se lidar com contextos instáveis, imprevisíveis, com o “fazer de repente” (KLEBER, 2006, p. 298).
As mudanças que incidem na dinâmica das ações do Terceiro Setor, bem como a construção de uma pedagogia musical contextualizada e formulada no cotidiano educacional, nos permitem compreendê-las como elementos ligados ao processo de enculturação. As experiências desse contexto educacional possibilitam a geração de novos conhecimentos acerca de metodologias e procedimentos a serem utilizados na busca da transformação social concomitantemente ao ensino musical. Esses conhecimentos pedagógicos, por sua vez, são transmitidos e aprendidos por meio das interações sociais características do Terceiro Setor, atribuindo identidade e significado em suas ações educativas. Temos assim, outras teias construídas pelo homem, que exemplificam o caráter estável e não estático da cultura, dinâmico e em constante transformação. A imprevisibilidade e a mutabilidade geram a necessidade de novas aprendizagens e construções sociais, evidenciando assim o processo de enculturação.
O que temos visto até então sobre a educação musical no âmbito dos projetos sociais a partir dos autores mencionados, reflete a busca por uma postura equilibrada entre o educar
musicalmente e o educar para a vida, contribuindo para a formação integral de crianças e adolescentes considerados em condição de vulnerabilidade. Os apontamentos apresentados permitem-nos pensar a música em projetos sociais a partir de seus aspectos estruturais e dos aspectos não propriamente sonoros. Voltamos nosso olhar para as metodologias utilizadas, mas buscando compreender as razões de sua utilização, os impactos que podem causar no processo educacional e como tais procedimentos refletem na formação global dos sujeitos. Desejamos conhecer que músicas compõem o repertório a ser ensinado e suas especificidades, mas buscamos identificar as concepções ligadas à sua escolha, o padrão de sonoridade estabelecido e o deleite em executá-lo. Procuramos identificar os conteúdos estabelecidos por educadores, porém, investigando as mensagens nas entrelinhas, os significados imbricados ao fazer musical, ao prazer do ensino e do aprendizado coletivo, bem como do canto como expressão artística.