Dada a limitação do tipo de informação que é possível tirar dos testamentos, bem como as informações mais pertinentes a esta pesquisa, é necessário buscar compreender com que conceitos é possível ler essas informações. Por isso, faz-se necessário estabelecer neste capítulo uma revisão da historiografia sobre alguns dos temas mais pertinentes a este trabalho.
2.1 - As famílias na historiografia
A família é categoria fundamental de compreensão da História da América portuguesa há cerca de 100 anos32. Desde esse tempo, a temática da família na História passou por diversas reviravoltas. De modo geral, o debate se situou sobre a pertinência de conceitos como o patriarcalismo para a compreensão daquela realidade.33 Certamente o primeiro a
32
A maior parte dos historiadores contemporâneos aponta Populações Meridionais do Brasil de Oliveira Viana, publicada originalmente em 1920, como a obra fundadora dos estudos sobre a família e sobre seu papel na colonização do Brasil. Outra obra importante do mesmo autor é Instituição política brasileira, na qual se detém sobre o papel político da família na colonização do Brasil.
33
A lista de autores que debateram a pertinência do conceito utilizado por Freyre é longa. Duas sínteses sobre esse debate podem ser vistas em RODARTE, Mario M. S. Op. Cit. 2008. BRUGGER, Silvia Maria Jardim. Família e Patriarcalismo em Minas Gerais. In: Paiva Eduardo França (Org.) Brasil-Portugal: sociedades,
cultural e forma de governar o mundo português (século XVI-XVIII). São Paulo: Annablume, 2006. Em forma
mais ampla em BRUGGER, Silvia Maria Jardim. Minas Patriarcal: família e sociedade (São João del Rei- século XVIII e XIX). São Paulo: Annablume, 2007. Estes endossando, de maneira geral, a concepção de patriarcal de Freyre. A posição contrária à idéia de família patriarcal pode ser encontrada, por exemplo, em FIGUEIREDO, Luciano R. A. Op. Cit. 1997. PRIORI, Mary del, Ao sul do Corpo: condição feminina, maternidade
mentalidades no Brasil Colônia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1995. PRIORI, Mary del. (Org.) e BESSANEZI,
Carla ( Coord. de textos), História das mulheres no brasil. São Paulo: Contexto, 1997 (2 ed.). Outra posição, inspirada por Freyre e outros trabalhos que tratam das mestiçagens, mas enfatizando o papel das mulheres mestiças bem como a matrifocalidade tão comuns a elas, pode ser encontrada em: PAIVA, Eduardo França. Op Cit. 2001; PAIVA, Eduardo França. Op Cit. 2009; CERCEAU NETTO,Op. Cit.2008. PAIVA, E. F. ; CERCEAU NETTO, R. Uma mamaluca poderosa entre Itú e Pitangui no início do século XVIII. In: Leandro Catão. (Org.).
Pitangui colonial. História & Memória. 1ed. Pitangui: Arquivo de Pitangui, 2011, v. 1, p. 133-154. CERCEAU
NETTO, R. População e mestiçagens: a família entre mulatos, crioulos e mamelucos em Minas Gerais (séculos XVIII e XIX). In: PAIVA, Eduardo França. IVO, Isnara Pereira. MARTINS, Ilton Cesar. (Orgs.). Escravidão, mestiçagens, populações e identidades culturais. São Paulo: Annablume, Belo Horizonte: PPGH-UFMG, Vitória da Conquista: Edições UESB, 2010. (Coleção Olhares). Já enfatizando o papel exercido pelas mulheres nessas
48 utilizar o conceito de patriarcal para compreender o Brasil colonial foi Gilberto Freyre34. Esse autor apresenta em Casa-grande & Senzala que, devido à dificuldade de colonização do Novo Mundo pelo Estado português, o possível naquele momento foi a “privatização” da empresa colonial nas mãos dos donatários e de seus respectivos sesmeiros. E é justamente nesse contexto de privatização da empresa colonial que surge a figura no senhor de terras e de gentes, o patriarca. Posteriormente, em Sobrados & Mucambos, Freyre argumenta que esse primeiro regime patriarcal ou patriarcado rural entraria em declínio a partir do final do século XVIII. Obviamente, para o autor pernambucano, a família patriarcal nunca formou um modelo de estrutura domiciliar único. O que o autor chama de patriarcado rural é muito mais um conjunto de valores, de organização do poder. Este sim entraria em declínio a partir de finais do século XVIII para dar lugar ao patriarcado urbano. De certa forma, o que ocorreu foi a paulatina reinvenção do patriarcado rural em um ambiente urbano. Claro que houve precedentes para isso desde o século XVII, com a invasão holandesa e, posteriormente ao longo do século XVIII, com a experiência urbana mineira. Porém, para Freyre, é somente no século XIX que a transição de um patriarcado rural a outro patriarcado urbano terminará.
Para Eni de Mesquita Samara (2003:17-25), a história da temática da família pode ser dividida em 3 períodos. O primeiro desses pode ser localizado entre as décadas de 1920 e 1940, este momento responsável por traçar o perfil básico da família patriarcal com a constituição de clãs parentais formados a partir de solidariedade de todos os tipos. Num segundo momento, entre as décadas de 1950 e 1960, é possível perceber uma preocupação com as diferenças das famílias entre regiões, das classes e até mesmo do gênero. Segundo Samara, a produção desse período enfatizava:
sociedades, inclusive compreendendo que elas contribuíram para a construção de uma sociedade patriarcal podem ser encontrados em E SAMARA, Eni de Mesquita. Família, mulheres e Povoamento: São Paulo no
século XVII. Bauru, SP: EDUSC, 2003.
34
Ver FREYRE, Gilberto, Op. Cit. 2006. e FREYRE, Gilberto, Sobrados e Mucambos – decadência do
patriarcado rural e desenvolvimento do urbano. São Paulo: Global. 2004. Especialmente a introdução à primeira
49 mais a questão do poder e das parentelas, esses autores buscaram as bases patriarcais da sociedade brasileira e o entendimento das relações sociais e raciais. A organização da família foi, portanto, analisada sob esse prisma, permanecendo ainda intocável esse momento a ideia de que a família brasileira era uma vasta parentela que possuía fins comuns. Solidariedade, deveres, obrigações mútuas e parentesco fictício integravam os indivíduos em verdadeiras redes de dependência. Sendo assim, seria impossível pensar o Brasil sem pensar em família. (SAMARA, 2003:19- 20)
O terceiro momento dessa temática inicia-se na década de 1970. Nesse período, essa temática é profundamente influenciada pelos avanços da Demografia Histórica. Justamente por conta dessa influência, os trabalhos começam a ganhar uma forte base documental. Nesse momento fica claro, como diz Samara (2003: 21) que é impossível “conceber uma imagem
única de família aplicável ao longo do tempo para vários segmentos sociais.” De outro modo,
Cerceau afirma que:
Pode-se considerar que esses estudos não desqualificaram a obra de Freyre, mas ajudaram a matizar generalizações sobre o caráter extenso e patriarcal da família brasileira. Samara, por exemplo, mesmo demonstrando em sua pesquisa estruturas familiares mais simplificadas, afirmava que suas constatações não invalidavam a concepção de família patriarcal utilizada por Freyre. Já Mariza Corrêa, em estudo
sobre a família, dizia que: “a família patriarcal pode ter existido, e seu papel ter sido extremamente importante, apenas não existiu sozinha” (CERCEAU NETTO, 2008:
176)
Todas essas transformações pelas quais passou o campo não pode significar, como
adverte Samara, ao “leitor menos atento, [que] o debate aí instaurado pode parecer uma
completa reversão da ordem, pois o patriarcalismo das primeiras décadas do século, [deu lugar] hoje a discussão tem um doce sabor de matriarcado. No entanto, não é o que ocorre
desde que se faça uma leitura criteriosa dos trabalhos.” (SAMARA, 2003: 22)
Ainda Samara (2003:41-3) indica que esse sistema patriarcal passou por mudanças ao longo do século XVIII e, decididamente, no século XIX, devido ao processo de centralização administrativa do Império português e, posteriormente, brasileiro. Consequentemente a elite buscou adaptar-se aos novos tempos.
50 Por outro lado, Brugger aponta a necessidade de repensar o conceito de patriarcal,
podendo ser este ainda muito útil: “Creio que, quando se entende por patriarcalismo um
conjunto de valores e práticas que coloca no centro da ação social a família, fica difícil de se questionar a sua presença em Minas ou em qualquer outra parte da Colônia ou do Império.” (BRUGGER, 2007:63) Dessa forma, enfatizando a família e os valores a ela relacionados
bem como os projetos estabelecidos para o engrandecimento da “casa” por meio das relações
de compadrio, amizade, pode ser, na verdade, a descrição dessa família patriarcal rural decadente de Freyre, mas é, na verdade, reinventada em um contexto urbano. Nesse sentido, a definição que Ronaldo Vainfas deu ao patriarcal, que passa não pela família patriarcal, mas sim por valores compartilhados por uma sociedade, é bastante elucidativa:
Se as famílias coloniais eram mais ou menos extensas, se numa dada habitação moravam poucos indivíduos ou dezenas deles, eis um dilema de pouca relevância nos trabalhos de Freyre e Candido. E quer-nos parecer, ainda, que a maior ou menor concentração de indivíduos, fossem em solares, fossem em casebres, em nada ofusca o patriarcalismo dominante, a menos que se pretenda que, pelo simples fato de não habitarem a casa-grande, as assim chamadas “famílias alternativas” viviam alheias ao poder e aos valores patriarcais - o que ninguém seria capaz de afirmar, seguramente. (VAINFAS, 1997: 118)
Algumas autoras35 tendem a concordar com Ronaldo Vainfas. Para citar um exemplo de maneira mais incisiva, utilizando-se também de Vainfas, Silvia Brugger posiciona-se deste modo:
Ronaldo Vainfas, por outro lado, discordando dos críticos do modelo patriarcal da família brasileira, procurou mostrar que não era pela estrutura do domicílio – extenso ou nuclear – que se definia o patriarcalismo. Ainda que grande número de dependentes, agregados, parentes e escravos fosse normalmente indicado como característico da família patriarcal, não se deve indentificá-la com a família extensa. Seria mais no universo dos valores e da estrutura de poder que se definiria o patriarcalismo (BRUGGER, 2006:48)
Portanto, poderia haver mulheres chefiando famílias, mas sem acabar com o amplo modelo social Patriarcal, como afirmou Freyre em uma nota extensa de Casa-grande &
35
51 Senzala36. Além disso, Samara, ao revisitar o modelo patriarcal, informa que
[…] Vem daí a tentativa de sair do ideológico e mostrar as famílias e as mulheres na
sua integração com os sistemas de poder, as redes de dominação e os laços de parentesco e de vizinhança. Daí o esforço de desvendar os prescritos nas normas, ultrapassando mitos e estereótipos e evitando a tendência funcionalista de ver o feminino como reverso da cultura masculina. (SAMARA, 2003: 90-1)
Com isso enfatiza-se que a administração de uma casa por uma mulher não quer dizer o rompimento com os valores patriarcais de uma sociedade. Primeiramente porque, para Samara, parece não haver uma grande diferença de gênero na gestão da família nuclear feita por uma mulher ou por um homem. As mulheres que administrariam suas vidas sozinhas, por não terem um esposo, sendo viúvas ou não, podiam ser tão autoritárias quanto os homens na organização de sua casa. Nesses casos, a ênfase em homens é secundária aqui, pois essas mulheres estariam buscando se inserir em um grupo familiar amplo, procurando, é verdade, vantagens econômicas ou sociais. Por último, esse patriarcal daria ênfase à família em seus aspectos culturais e não na figura do pater família, como sendo o pai ou um homem.
Outro elemento que se coloca nesse contexto é o do poder. E entende-se que aqui estão em jogo concepções diferentes de poder. Nesse tempo e espaço, as formas de poder eram profundamente marcadas por vivências afetivas, especialmente nos casos aqui trabalhados que envolvem relações em torno da casa, da família. Em uma sociedade que confunde público e privado, família e aliados políticos, vida pública e intimidade familiar, é natural que todas relações sejam clivadas de sentimentos ou emoções. De forma clara, trata-se de uma era pré- liberal na qual o mérito ainda não era critério para a promoção dos indivíduos. O que se tem aqui é uma série de vivências afetivas conformadas e compartilhadas por todos, sendo eles parentes, amigos, agregados ou escravos.
Com essa apresentação geral sobre a constituição das famílias, o que venho propor é
36
A esse respeito FREYRE, Gilberto, Op. Cit. 2006. pp. 129-131 tem uma nota muito extensa na qual trata dos diversos modelos de arranjos domiciliares passíveis de serem encontrados na América portuguesa.
52 um estudo sobre a constituição das vivências afetivas em torno da família37 e não um estudo sobre a família nuclear propriamente dita ou mesmo da família patriarcal. Nesse sentido, e para esclarecer um pouco mais, é interessante o que Jean Louis Flandrin (1995: 12-3) nos fala a respeito:
A leitura dos dicionários antigos franceses e ingleses revela que o conceito de família estava dividido entre a idéia de residência comum e a idéia de parentesco que se encontram unidas na definição que é hoje mais corrente. A palavra evocava de facto; com muito mais freqüência, um conjunto de parentes que não moravam juntos; e designava também frequentemente um conjunto de pessoas que coabitavam e que não estavam necessariamente ligados pelo sangue ou pelo casamento.
Era a idéia da coabitação que era anunciada em primeiro lugar nos antigos dicionários ingleses. Assim, o de Samuel Johnson (1755) dá-nos como primeiro
significado de family: “Aqueles que vivem na mesma casa”; e, como sinônimo,
household. Abel Boyer, na primeira edição do seu Dictionnaire royal françoys et
anglois, entendia por “família”: “Todos aqueles que vivem numa mesma casa, sob um mesmo chefe”; e dava como equivalentes ingleses family e household. Também Cotgrave, em 1673, traduzia “Família” por A family or household; e family por “Família, gente da casa”, acrescentado a seguir outros sinônimos correspondentes a
outros sentidos da palavra. Nenhum destes dicionários reduzia a família àqueles que, dentro da casa, estão ligados por parentesco. E o uso confirma que os criados e
outros “familiares” faziam parte dela [...]. (FLANDRIN, 1995, p. 12-3)
Apesar de Flandrin tratar de um período próximo ao aqui trabalhado, é interessante consultar um dicionário mais apropriado à realidade em tela. Assim, o Padre Raphael Bluteau (1712-37:28 vol. 4) definiu família: “FAMILIA: Família. As pessoas de que se compõem
huma casa, pays, filhos & domésticos. [...]”. Isto é, família significava, a constituição de um
grupo para além de laços sanguíneos. Portanto, é importante enfatizar que, quando se pensa em família para o século XVIII, não é possível partir dos dias de hoje e acreditar que a família da qual trata este trabalho é tal qual as famílias dos dias de hoje. A família nesse período inclui os criados, os agregados e os escravos. Portanto, faz todo o sentido que autores como Clotilde Andrade Paiva, Luiz Arnaut e Mario Marcos Sampaio Rodarte afirmem, em seus respectivos trabalhos,38 que domicílio, família ou fogo podem ter significados distintos para
37
Portanto, chega o momento de formalizar um dos aspectos do qual este trabalho trata. Quando se fala de uma pesquisa sobre família, este trabalho preocupa-se principalmente com relações afetivas que foram estabelecidas na casa entre as pessoas que as habitavam, tendo ou não laços sanguíneos.
38
53 cada tempo e lugar, em especial para as sociedades pré-industriais que foram privilegiadas em seus estudos, bem como neste nesse trabalho. Além disso, esses autores afirmam que o domicílio tem outras funções, pois, além de abrigar os membros de uma família, esses fogos são unidades produtivas. Porém, esses primorosos trabalhos optaram por privilegiar o fogo ou a casa como unidade produtiva, sem se prenderem a análises sobre as relações estabelecidas entre alguns dos membros desses fogos. Por um lado, ressalta-se que essa não era a preocupação desses trabalhos e, por outro, as fontes com as quais esses autores trabalharam, as listas nominativas, não constituem um corpo documental que ofereça dados suficientes para que se faça uma análise mais complexa dessas relações e sentidos vividos pelos agentes histórico. Assim, as indicações acima apresentadas mostram a importância de lançar luzes sobre a vida íntima, familiar, as formas de sociabilidades e o cotidiano do século XVIII mineiro, mobilizando outras categorias que não promiscuidade, tal qual Algranti o faz.39 Dessa forma, pode-se compreender como aquela sociedade funcionava. Nesse ambiente, existia um permanente ir e vir, uma mistura de público e privado no qual se forjaram culturas. Nesse sentido uma contribuição definitiva a esse campo foi dada já em 1933, quando Gilberto Freyre publica Casa Grande & Senzala40, marco fundamental no Brasil na interpretação do papel da família para a formação da identidade brasileira. Com essa obra, o sociólogo/antropólogo anteciparia em várias décadas o que hoje é conhecido por nome de História Cultural41. Essa obra marca o pensamento brasileiro até os dias atuais, apesar de um In: V SEMINÁRIO SOBRE ECONOMIA MINEIRA. Anais... Belo Horizonte: UFMG/ CEDEPLAR, 1990. PAIVA, Clotilde Andrade. População e Economia nas Minas Gerais do Século XIX. Tese (Doutoramento em História) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo. São Paulo, 1996. RODARTE, Mario M. S. O trabalho do fogo: Perfis de domicílios enquanto unidades de produção e reprodução
na Minas Gerais Oitocentista. Tese (doutorado de Demografia) – Centro de Desenvolvimento e Planejamento
Regional – UFMG. Departamento de Demografia, Belo Horizonte, 2008.
39
ALGRANTI, Leila Mezan. Família e vida doméstica. In: SOUZA, Laura de Mello e (Org.). Op. Cit. 1997. Especialmente p.: 113 e seguintes.
40
FREYRE, Gilberto. Op. Cit. 2006.
41
Para mais detalhes sobre a aproximação entre os métodos de trabalho de Gilberto Freyre e os da História Cultural, ver os seguintes textos: PALLARES-BURKE, Maria Lúcia Garcia. Anos de Busca. In: Gilberto Freyre
- um Vitoriano nos Trópicos. São Paulo, Ed. da UNESP: 249-327. 2005; PALLARES-BURKE, Maria Lúcia
Garcia. Gilberto Freyre: um nordestino vitoriano In: KOSMINSKY, Ethel Volfzon; LÉPINE, Claude; PEIXOTO Fernanda Arêas, (Org.) Gilberto Freyre em quatro tempos. Bauru, SP: EDUSC, 2003. (Coleção Ciências
54 período pautado por leituras um tanto quanto equivocadas que fizeram desse autor42 . A sua retomada hoje e a temática tratada por esse autor demonstram o quanto ela ainda instiga e incomoda. Nessa obra, apesar de algumas descrições um tanto quanto “impressionistas”, o autor busca adentrar o terreno do íntimo, do sentido pelos agentes históricos, buscando compreender o significado dos gestos, muitas vezes singelos, que muitas vezes mesclaram culturas.
A partir dessas contribuições historiográficas, pode-se compreender que a constituição da sociedade mineira surgiu a partir de referências muito distantes das próprias Minas. Afinal, foram os homens e mulheres, livres, libertos e escravos que vieram para cá no século XVIII e trouxeram consigo seus valores e culturas que, como este trabalho mostrará, deixaram marcas indeléveis nesta sociedade. Claro que essas marcas ou elementos da cultura aqui foram reapropriados e ressignificados, mas isso não impede de identificar ou, ao menos, aventar conexões entre os universos de origem dessas marcas e, com isso, contribuir para a compreensão do complexo fenômeno das mestiçagens. Nesse sentido, é claro que essas mesclas se estabeleceram nos mais diversos lugares, inclusive nas casas de morada. Por isso, a importância de pensar na constituição de famílias mestiças como Cerceau Netto propõe:
A constatação de um grande número de uniões familiares não sancionadas pela Igreja, envolvendo homens e mulheres brancos, pretos, crioulos e mestiços, livres, libertos e escravos, possibilitou verificar na sociedade colonial o surgimento de um fenômenos populacional caracterizado pela união familiar de pessoas desiguais com comportamentos herdados de culturas múltiplas e de condições sociais variáveis. Ou seja, uma família formada por pessoas que provinham de diferentes etnias e localidades e que também tinham níveis socioeconômicos e culturais diversos. (CERCEAU NETTO, 2008: 166).
É bastante evidente, levando em conta a compreensão de família trabalhada aqui, que Sociais); PALLARES-BURKE, Maria Lúcia Garcia. Ingleses no Brasil: um estudo de encontros culturais (Resenha de Ingleses no Brasil de Gilberto Freyre). In: Tempo Social; Rev. Sociol. USP, S. Paulo, 13(2): 227- 230, novembro de 2001; PRIORE, Mary Del, Um diário, a carne e a pedra em Gilberto Freyre. In: PAIVA, Eduardo França, ANASTASIA, Carla Maria Junho. (Org.). Op. Cit. 2002.; LÉPINE, Claude; PEIXOTO Fernanda Arêas, (Org.) Gilberto Freyre em quatro tempos. Bauru, SP: EDUSC, 2003. (Coleção Ciências Sociais).
42
55 a maior parte das famílias constituídas vivia a mestiçagem cotidianamente. No entanto, será que é possível falar em vivências afetivas estabelecidas no seio da intimidade familiar marcada nesse momento pelas mestiçagens? E, além disso, por que, como e onde essas vivências afetivas foram estabelecidas? No final das contas, o que são essas vivências afetivas e qual a sua relação com a História?