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Eu me preparei para ir para o interior, tenho certeza absoluta e consciência disso, desempenhei muito bem a função de médico no interior. Principalmente na parte de Obstetrícia como se sabe, a gente estudava muito na Maternidade e eu fazia obstetrícia muito bem junto com a parte ginecológica e a clínica médica eu estudava muito me preparando para ir para lá. Sei que fui um bom médico e a cidade me acolheu muito bem, tive muito prestígio por lá. (Aluízio Bezerra de Oliveira).

Aluízio Bezerra de Oliveira é aluno egresso da segunda turma da Faculdade de Medicina da UFRN. Ingressou nesta Faculdade em 1957, por concurso vestibular e concluiu a formação médica em 1962. Ele nos recebeu para a entrevista numa das

48 Depoimento concedido pelo médico Luiz Gonzaga Bulhões, aluno egresso da turma concluinte de 1962, da Faculdade de

Medicina da UFRN, em Natal, em julho de 2005.

salas das Unidades da Liga Norte-Rio-Grandense contra o Câncer, no CECAN – UNIDADE AVANÇADA. Demonstrou alegria por poder contribuir com a pesquisa. Conversamos por alguns minutos sobre a importância da preservação da memória não só das instituições mas também das pessoas e de como isso vem se perdendo na atualidade. Começou o depoimento falando das dificuldades enfrentadas para conseguir aliar trabalho e estudo e dos esforços empreendidos para concluir o Curso.

O Curso foi para mim muito trabalhoso, não difícil, porque eu não tinha tempo para estudar. Eu trabalhava no Correio e quando passei no vestibular, já com data marcada para começar as aulas, eu ainda era carteiro. Fui ao Diretor do Correio dizer que havia passado no vestibular e que as aulas eram pela manhã e à tarde. Então, ele teria que me arranjar um trabalho à noite. Eu não podia deixar o emprego e nem podia deixar de estudar. Talvez, se eu tivesse sido obrigado a deixar o emprego para estudar, eu tivesse feito essa opção - estudar [...]. (Informação verbal).50

a) Conteúdos de ensino

As recordações de Aluízio Bezerra, quanto aos conteúdos de ensino, trazem como exemplo a disciplina Anatomia Descritiva, fazendo uma avaliação em relação à quantidade do que era ensinado, classificando como intensa, se comparada com o que é dado em Anatomia, atualmente, nos Cursos de Medicina.

[...] a gente estudava um ano todinho de Anatomia Descritiva e no outro ano Anatomia Topográfica, uma matéria muito difícil. Veja, depois de pegar um braço você vai ver os nervos que passam aqui e ali, as veias, as artérias estudar tudo. A gente estuda muito aquilo, aprende, e, depois a gente esquece quase tudo, claro que não esquece tudo isso da Anatomia, mas esquece muita coisa. Para um Cirurgião tem grande importância, Anatomia é base para todos, mas para um cirurgião principalmente, para um médico clínico também, mas não tanto como um cirurgião. Então, é uma matéria que eu acho que naquele Curso era muito intensa e que no final quando terminasse o Curso talvez ficasse com dez por cento de conhecimento. Hoje, o Ministério da Educação está mudando isso. Está completamente diferente o ensino de Anatomia não é aquele que eu tinha estudado

50 Depoimento concedido pelo médico Aluízio Bezerra de Oliveira, aluno egresso da turma concluinte de 1962, da Faculdade

naquela época, hoje já evoluiu bastante. [...] Hoje eu já estou sabendo que, no novo Curso de Medicina, o aluno no primeiro ano já começa a ter contato direto com o paciente. Naquela época nós começávamos a ter contato mais direto com o paciente no quarto ano. Isso é muito importante. (Informação verbal).51

b) Saber relacional: interação entre professores e alunos

Na narrativa de Aluízio Bezerra, o saber relacional pode ser reconhecido no desencadeamento de lembranças sobre os professores e a disciplina que ensinavam. Indica profunda admiração por alguns desses professores, para os quais dirige palavras que incitam essa interpretação. Expõe algumas das qualidades desses professores e o papel desempenhado pelo Professor Onofre Lopes, dando conta do que lhe era atribuído.

Lembro do Dr Raul Fernandes e de outros professores mais novos, como o Dr. José Américo que foi professor de Cirurgia. O Dr. Valério Cavalcante também. Dr. Milton Fonseca, irmão de Dr. Fernando Fonseca. Dr. Olavo Medeiros, professor de Dermatologia muito bom muito dedicado. Fui aluno do Dr. Ernane Cicco que era professor de Clínica Médica. Dr. Getúlio Sales professor de Patologia era um professor muito inteligente. Realmente, eu não poderia dizer de nenhum deles que não foram bons professores ou que não deveriam ser professores. Dr. Onofre Lopes combatia essa história de maus professores e realmente os professores do Curso de Medicina eram muito bons e dedicados. A Faculdade Medicina na época apesar de nova, formou muitos bons profissionais. Um professor que não posso esquecer porque fui interno da Maternidade, é o professor Dr. Leide Morais, altamente competente. Dr. Araquém Pinto tinha gosto em ensinar, Dr. Lavoisier Maia era um professor excelente e dava um Curso de Obstetrícia, muito bom [...]. (Informação verbal).52

c) Saber relacional: interação entre alunos

Observamos no excerto seguinte que as recordações de Aluízio Bezerra destacam um fato conflituoso ocorrido entre alunos da terceira turma, que logo

51 Depoimento concedido pelo médico Aluízio Bezerra de Oliveira, aluno egresso da turma concluinte de 1962, da Faculdade

de Medicina da UFRN, em Natal, em agosto de 2005.

depois redundou em amizade. Sugere, também, que havia coesão no grupo de alunos da sua turma.

Nós éramos sete colegas, todos bem relacionados. Não tinha problema nenhum. Tinha uns colegas da terceira turma, que gostavam muito de brincar, botar apelido, fazer brincadeiras até agressivas, mas isso nunca me prejudicou. Eu me lembro duma briga entre dois colegas da terceira turma, briga de bofete mesmo, mas depois se tornaram amigos. Mas na minha turma nunca houve nada que chegasse assim, às vias de fato, como se diz na política. Era um contato muito bom com todos os alunos, muito coeso não tinha nenhum problema. (Informação verbal).53

d) Recursos didáticos

Os recursos lembrados por Aluízio Bezerra são: ilustração, álbuns seriados e aulas práticas. Recorda também que geralmente as aulas eram expositivas.

As aulas naquela época eram geralmente expositivas. Não tinha naquela época retroprojetor então, os professores usavam muita ilustração, álbuns seriados e aulas práticas, essas aconteciam constantemente. (Informação verbal).54

e) Saber contextual

Por fim, o que podemos extrair do depoimento de Aluízio Bezerra nos oferece condições de perceber o saber contextual que era trabalhado no processo de ensino e aprendizagem da formação médica. Mostrando-nos um envolvimento com as populações pobres e sem assistência à saúde do interior do Estado do Rio Grande do Norte, para onde se dirigiu depois de formado, dando, assim, a sua contribuição à sociedade que lhe possibilitou estudar e realizar o seu desejo de ser médico:

53 Depoimento concedido pelo médico Aluízio Bezerra de Oliveira, aluno egresso da turma concluinte de 1962, da Faculdade

de Medicina da UFRN, em Natal, em agosto de 2005.

Terminei o Curso e fui para o interior. Tinha três cidades do interior para eu ir e eu escolhi Santana do Matos; passei quatro anos lá. Então, passei esses quatro anos no interior e nessa época não tinha nem um exame de fezes. Era só o olho clínico. Então o médico que não se preparar para ir para o interior ele sofre, porque é muito difícil. (Informação verbal).55

Benzer Belgeler