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Com as tecnologias introduzidas a partir de meados do século XIX, tornando mais barata a difusão da imprensa diária, o jornal passa a ser uma atividade lucrativa. A venda da parte editorial está em correlação com a venda dos anúncios. Temos, assim, a transformação do jornalismo numa indústria cultural – o que, para Habermas, representa a mudança do

87 Trata-se, aqui, do ideal burguês da liberdade de imprensa. Posteriormente, no século XIX, Karl Marx

sustentou a tese de que este ideal, na verdade, não se sustenta no capitalismo, onde o capitalista tem muito mais liberdade de imprensa do que aquele que não dispõe dos meios para produzir um jornal. Marx afirma, sem rodeios, que esta situação onde só há liberdade de expressão para alguns é o que define o conceito de censura. Um século mais tarde, no contexto da Revolução Russa, Lênin também atacava esta liberdade de imprensa burguesa que, na verdade, significaria a liberdade do burguês de publicar mentiras no jornal (KUNCZIK, Michael. Conceitos de jornalismo: norte e sul. São Paulo: Edusp / Com-Arte, 1997, p. 115.).

88 MELO, José Marques de. A opinião no jornalismo brasileiro. Petrópolis: Vozes, 1985, p. 15. 89 PETLEY, Julian. Censoring the word. London/ New York/Calcutta: Seagull Books, 2007.

José Ismar Petrola ●Jornalistas e Dramaturgos

jornalismo de uma atividade antes voltada para o interesse público numa atividade cujo objetivo principal é a expansão capitalista do lucro90.

É nesta conjuntura que o jornalismo britânico e o norte-americano estabelecem desde o início do século XIX uma distinção radical entre os gêneros jornalísticos informativos e os opinativos. Esta distinção vai se acentuar durante o século, à medida que o jornalismo se transforma em indústria cultural91.

Por gêneros jornalísticos informativos, entendemos aqueles dos quais se pressupõe informarem a verdade sem juízos de valor. São eles: a nota, a notícia, a reportagem e a entrevista, segundo Marques de Melo. Já os gêneros opinativos são aqueles que permaneceram ligados à tomada explícita de posição política, como o artigo, o editorial, a coluna, a crítica, a resenha, as caricaturas e charges.

Estes gêneros, tais como os conhecemos hoje, só se delineiam em meados do século XX, e seu desenvolvimento se deu com peculiaridades no jornalismo anglo-saxão, francês, hispano-americano e luso-brasileiro. No entanto, este processo de diferenciação se desenvolve desde o século XIX e se acentua à medida que o jornalismo se torna uma indústria cultural de grande porte.

Quando a informação jornalística se converte em mercadoria, temos duas tendências, que não se excluem. Uma delas, citada por Marques de Melo, é a separação entre news e

comments que se observa no jornalismo inglês e de forma mais acentuada ainda no jornalismo

norte-americano92.

Outra tendência é a da espetacularização da notícia visando a atrair os leitores. O século XIX é o tempo da penny press nos EUA, que, em busca de público, apela às emoções

90 HABERMAS, Jürgen. Mudança estrutural da Esfera Pública: investigações quanto a uma categoria da

sociedade burguesa. Tradução de Flávio. R. Kothe. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984, p. 218. Devemos fazer uma ressalva quanto ao interesse de Habermas na reconstituição histórica da imprensa, como feita em

Mudança estrutural da esfera pública. Nesta obra, Habermas defende um jornalismo politicamente atuante e vê,

na transformação do jornalismo em grande indústria, uma perversão, pois o jornalismo passa a ser uma indústria do prazer e da alienação. Trata-se de um trabalho de 1968, quando o autor se encontrava mais ligado à linha central de pensamento da chamada “Escola de Frankfurt”. Há uma semelhança entre esta análise e o diagnóstico pessimista feito por Theodor Adorno e Max Horkheimer a respeito de outras manifestações da indústria cultural em Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Ao longo de sua carreira, Jürgen Habermas, influenciado pela pragmática e outras correntes filosóficas, afasta-se da matriz frankfurtiana e adota uma postura mais conciliadora, que se assemelha bastante ao ideal iluminista da revelação da verdade e da formação de consenso através da esfera pública – conferir Teoria da ação comunicativa. Frente ao questionamento da Escola de Frankfurt – a razão que deveria emancipar a humanidade se converteu em dominação total no capitalismo avançado – Habermas vê uma possibilidade de solução através da ação comunicativa, a formação de consenso através do debate racional entre sujeitos igualmente capazes de razão. Evitaremos aqui uma discussão mais aprofundada a este respeito, pois foge ao nosso escopo. Utilizamos Habermas com interesse especificamente na parte de reconstituição histórica do ideal jornalístico.

91 MELO, José Marques de. A opinião no jornalismo brasileiro. Petrópolis: Vozes, 1985, p. 15. 92 MELO, op. cit.

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do público, utilizando-se de elementos da narrativa de ficção, em especial do melodrama93. Este tratamento da notícia não contradiz a separação entre notícia e comentário. O que ocorre é que a própria notícia, ainda que aparentemente separada dos textos opinativos, passa a ter um tratamento sensacionalista.

Também para atrair público, os jornais passam a divulgar os folhetins – narrativas ficcionais em série. No Brasil, o gênero folhetim teve muito sucesso, lançando a carreira de escritores como José de Alencar e Manuel Antônio de Almeida e deu origem a gêneros, como a crônica, que, mesmo ligados ao jornalismo, utilizam recursos ficcionais, como a narrativa cronológica e a construção de personagens94.

Ainda que atrasado em relação à Europa, no Brasil também se observa este movimento de um jornalismo inicialmente ligado ao campo literário e à política e que, à medida que se torna indústria cultural, procura maneiras de atrair o público e se manter vivo financeiramente – por um caminho, através de uma separação entre fato e opinião, visando vender uma imagem de credibilidade e evitar melindres com políticos ou anunciantes e, por outro, pelo uso de formas narrativas de apelo popular, recorrendo a temas como sexo e morte.

O que não significa que uma posição como a de Habermas, para quem um jornalismo antes “politicamente pensante” se degrada em “entretenimento agradável que tende a substituir a captação totalizadora do real por aquilo que está pronto para o consumo” 95 seja a

única possível. Onde o pensador de Frankfurt viu a substituição de uma esfera pública atuante por mais uma indústria de consumo através da qual o sujeito alienado da sociedade capitalista moderna procura satisfazer suas pulsões inconscientes, Jesús Martín-Barbero viu também o reaproveitamento de formas ancestrais de narrativas. Em seu livro Dos meios às mediações, Barbero faz uma reconstituição interessantíssima do surgimento do gênero folhetim no jornalismo latino-americano, com ligações profundas ao melodrama, ao circo-teatro, ao cordel, às payadas96 e a outras formas de narrativa popular da América Latina. Narrativas estas que, antes mesmo da imprensa no sentido estrito, já faziam o papel jornalístico de relatar

93 SOUSA JÚNIOR, Walter de. O jornal das oito: noticiário e melodrama no Jornal Nacional. Dissertação de

Mestrado. ECA-USP, 2003.

94 Conferir MEYER, Marlyse. Folhetim, uma história. São Paulo Companhia das Letras, 1996, e SODRÉ,

Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira S. A., 1966.

95 HABERMAS, Jürgen. Mudança estrutural da Esfera Pública: investigações quanto a uma categoria da

sociedade burguesa. Tradução de Flávio. R. Kothe. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984, p. 201.

96 Forma de música improvisada, contando narrativas em versos, tradicional na Argentina, Uruguai e sul do

Brasil. Semelhante ao repente do Nordeste brasileiro, a payada se inspira com frequência em narrativas tradicionais (ou de folhetins, telenovelas, filmes, peças de teatro), e mesmo em acontecimentos recentes. Daí Martín-Barbero citá-la como exemplo de mediação.

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feitos atuais na forma de narrações em verso – não só os acontecimentos, mas principalmente histórias antigas e atuais, envolvendo valores da sociedade97.

Se, como pretendiam os iluministas, o jornalista transmite objetivamente os fatos para que a verdade se revele através do debate público, seria de se supor que houvesse uma distinção radical entre os gêneros jornalísticos e ficcionais. Mas, como veremos, nos séculos XIX e XX diversas correntes estéticas pretenderam aplicar, na ficção, este ideal jornalístico. E, por outro lado, o próprio jornalismo, mesmo vendendo uma imagem de veracidade e credibilidade, adota mecanismos de ficcionalização.

2.4 O FOLHETIM E A CRÔNICA. TRÂNSITOS ENTRE JORNALISMO, LITERATURA