Helena Silveira (1911-1984) veio de uma tradicional família paulistana, irmã da escritora Dinah Silveira de Queiroz, prima da escritora Rachel de Queiroz e do crítico teatral e dramaturgo Miroel Silveira144. Nascida em São Paulo, passou a infância entre Casa Grande e Batatais, no interior paulista, mas estudou na capital e depois em Paris, onde fez um curso na Comédie Française, teatro estatal francês. Desenvolveu carreira sólida no jornalismo, começando em 1941 no Correio da Manhã145. Trabalhou como colunista em jornais do Grupo Folha, desde 1946 até a sua morte, em 1984. As contribuições quase diárias – colunas sociais, críticas de televisão e teatro, crônicas – inicialmente na Folha da Manhã, Folha da Tarde e
Folha da Noite, depois na Folha de S.Paulo146, somam cerca de 3900 textos registrados no banco de dados do jornal.
Os primeiros textos de Helena Silveira para as Folhas são variados, como demonstram os títulos. Há uma reportagem, intitulada História de um menino pobre do Carandiru (Folha da Manhã, 26/05/1946), uma entrevista – Dois dedos de prosa com Gilberto Freyre (Folha da Manhã, 30/06/1946), textos sobre teatro, como Uma vitória do teatro nacional (18/08/1946). A autora fazia entrevistas com personalidades – Josephine Baker em Buenos Aires (Folha da Manhã, 30/07/1947), Com a Senhora Carlos Prado Mendonça (Folha da Manhã, 10/08/1947), Fala às Folhas o autor de Madre América (Folha da Manhã, 24/08/1947).
O feminismo, ou de forma geral, a condição feminina era uma das preocupações da jornalista Helena Silveira, em textos como Senhoras, sejam docemente femininas (Folha da Manhã, 22/09/1946), Aspectos de um Congresso Internacional de Mulheres (Folha da Manhã, 12/11/1947), Feminismo antifeminista (07/12/1947). A política não fica de fora, como já demonstram os títulos Depoimento sincero de um negro americano (Folha da Manhã, 10/11/1946), Evita Perón – A descamisada que possui dois milhões de cruzeiros (Folha da
Manhã, 22/05/1949).
144 SANTOS, Jacqueline Pithan dos. Miroel Silveira: um homem de teatro no espírito do seu tempo. (Dissertação
de Mestrado) São Paulo: ECA-USP, 2010, p. 38.
145 MEMORIAL DA Fama. Helena Silveira. <http://memorialdafama.com/biografiasEI/HelenaSilveira.html>
Acesso em 27 jun. 2013.
146 O jornal Folha de S.Paulo foi fundado no início dos anos 60 a partir da fusão de Folha da Manhã, Folha da Tarde e Folha da Noite.
José Ismar Petrola ●Jornalistas e Dramaturgos
A partir de maio de 1949, as publicações de Helena Silveira na Folha da Manhã se tornam semanais, quase sempre no gênero crônica. Os temas são os mesmos – a condição da mulher, algumas figuras relevantes do teatro, das letras, da política e da alta sociedade, o teatro, as artes. Entre outras questões de gênero, a autora toca várias vezes na polêmica do divórcio – Divórcio, convicção e hipocrisia (Folha da Noite, 29/08/1951), Opiniões sobre o
divórcio (Folha da Noite, 11/09/1951), Do casamento e do divórcio (Folha de S.Paulo,
Ilustrada, 23/11/1961). Helena Silveira também escreveu sobre teatro: Um espetáculo do
Teatro Folclórico Brasileiro (Folha da Manhã, 28/01/1951), Ouvindo uma psicologista sobre “Seis personagens à procura do autor” (Folha da Manhã, 13/03/1951), A temporada do teatro francês (Folha da Noite, 30/08/1951), Maria Della Costa (Folha da Manhã,
20/09/1951).
Na Folha da Manhã, foi responsável pela seção Paisagem e memória, onde publicava crônicas, posteriormente reunidas no livro Sombra Azul e Carneiro Branco. Em sua dissertação de mestrado, Noelma Brocanelli aponta que, entre os temas principais das crônicas de Helena Silveira, um tema recorrente é a presença da morte como problema social, fator de indignação, tema místico e elemento inerente à vida humana147. Brocanelli destaca que a crônica de Helena Silveira, com profundas raízes num gênero que historicamente fez pontes entre o jornalismo e a literatura de ficção no Brasil, é marcada pela influência do gênero memorialístico e pela exploração de nuances entre a realidade, muitas vezes autobiográfica, e a ficção.
Em 1956, Helena Silveira fundou o Suplemento Feminino da Folha da Manhã. Porém, é o novo meio de comunicação que chega às casas brasileiras na década de 1950, a televisão, o assunto do qual a jornalista Helena Silveira mais se ocupou, com a coluna Helena Silveira
Vê TV na Folha de S.Paulo. Em suas críticas de televisão, a autora mostra uma preocupação
em familiarizar o leitor com a linguagem televisiva.
Além de jornalista e dramaturga, Helena Silveira foi escritora de ficção. Estreou como contista no Suplemento Literário da Folha da Manhã. Seu primeiro livro foi A humilde espera (1944), seguido por Mulheres, frequentemente (1953). Boa parte de sua obra literária consiste em contos e crônicas, mesclando elementos de ficção e jornalismo, sendo que os textos estão calcados na sua própria experiência como jornalista. Exemplos disto são os livros Damasco e
outros caminhos (1957), escrito após um período vivendo no Líbano e na Líbia, e Os dias chineses (1961), em que a escritora conta sua experiência numa viagem à China. Reconhecida
147 Conferir BROCANELLI, Noelma da Silva. A morte nas crônicas memorialísticas de Helena Silveira.
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em seu meio como escritora, Helena Silveira chegou à presidência da União Brasileira de Escritores entre 1961 e 1963. Entre suas obras publicadas em livro, destacam-se Sombra azul
e carneiro branco (1960), Na selva de São Paulo (1966), Memória da terra assassinada
(1976), Amanheceu e já é ontem (1984), além da já mencionada autobiografia Paisagem e
memória, e livros infantis como A cachorrinha Cósmica (1984)148.
Figura 2 - Texto publicado na coluna Helena Silveira Vê TV. (SILVEIRA, HELENA. Ponto perdido na Globo. Folha de S.Paulo. São Paulo, 12 de janeiro de 1979, 1º caderno, p. 46.)
Fonte: Banco de Dados da Folha de S.Paulo
No Arquivo Miroel Silveira, encontra-se apenas uma peça teatral de sua autoria, O
poço (DDP 2946), de 1950, a única que chegou a ser encenada. Após O poço, Helena Silveira
escreveu um texto teatral com o título A Torre, para um concurso de dramaturgia, no qual
148 PREFEITURA DE São Paulo. Biografia da patronesse Helena Silveira. Disponível em:
<http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/cultura/bibliotecas/bibliotecas_bairro/bibliotecas_a_l/helena silveira/index.php?p=5254> Acesso em 26 jun. 2013.
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ficou em terceiro lugar, atrás de Nelson Rodrigues e Abílio Pereira de Almeida, o que a decepcionou bastante. Esta, entre outras razões, levaram a autora a continuar investindo no jornalismo e na literatura de ficção, abandonando a dramaturgia.