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Akımsız Ni-B Kaplanmış Numunelerin Sertliği

OPINATIVOS

Encontramos no Brasil um processo que, apesar de suas especificidades, repete com algumas décadas de atraso o processo estudado na Europa por autores como Habermas. A consolidação do jornalismo como indústria editorial, entre nós, ocorre nas primeiras décadas do século XX.

Marialva Barbosa, ao entrevistar jornalistas experientes como fontes de história oral para seu livro História cultural da imprensa, observa que há, entre eles, uma percepção generalizada de que, antes da década de 1950, os jornais brasileiros teriam sido amadores,

111 RODRIGUES, Nelson. Nelson Rodrigues por ele mesmo. (Org. Sônia Rodrigues). Rio de Janeiro: Nova

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editorializados e pouco objetivos. Esta percepção se deve ao processo de modernização pelo qual passou o jornalismo brasileiro durante toda a primeira metade do século XX, da qual uma das marcas foi a separação entre o jornalismo informativo e o opinativo e a consolidação de um formato padrão para o texto informativo112. Este padrão de jornalismo se reflete nos procedimentos de reportagem e, de forma ainda mais clara, na própria construção do texto jornalístico, que busca ser mais enxuto, com menos recursos emotivos, e procurando um vocabulário mais simplificado e direto.

Não se trata apenas de uma questão de linguagem. É nas primeiras décadas do século XX que o jornalismo brasileiro procura se consolidar como um campo profissional autônomo, rompendo com a tradição do jornalismo produzido por literatos que vigorava desde a introdução da imprensa no país. Este movimento em busca de uma independência pressupõe a criação de uma identidade profissional do jornalista, que tem entre seus componentes principais uma ética própria, um conjunto de práticas e limites que definem a profissão113.

Esta autonomização do campo jornalístico está ligada ao crescimento da imprensa enquanto atividade econômica. É na primeira metade do século XX que o modelo “artesanal” da imprensa brasileira perde lugar para jornais que se tornam, cada vez mais, grandes empresas capitalistas, uma indústria cultural. Repete-se no Brasil, algumas décadas, aquele processo que Habermas identificou na imprensa europeia e norte-americana: se inicialmente a imprensa era uma atividade essencialmente política, instituidora de uma esfera pública, à medida que as novas tecnologias e a veiculação de anúncios publicitários tornam a imprensa lucrativa, o jornalismo ganha caráter informativo e industrial.

É dentro deste contexto que se dão as reformas nos jornais brasileiros de meados do século XX, e que na tradição do jornalismo brasileiro se colocam como momentos fundadores. Em 1951, Luís Paulistano introduziu na Última Hora do Rio de Janeiro o formato padrão americano de apresentação de notícias, o famoso texto modelado em lead e pirâmide invertida, e colocou na redação a figura do copidesque, profissional encarregado de fazer a revisão do texto. Estes novos padrões buscavam a “objetividade” e “imparcialidade” da narrativa jornalística. Paralelamente, outro jornal carioca que introduz mudanças neste sentido é O Globo114.

A partir de meados dos anos 50, como observa Marialva Barbosa, o campo jornalístico ganha autonomia e consolida-se, criando para si uma identidade pautada por eventos

112 BARBOSA, Marialva. História cultural da imprensa: Brasil, 1900-2000. Rio de Janeiro: Mauad X, 2007. 113 BARBOSA, op. cit.

114 Conferir BARBOSA, op. cit. e SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Ed.

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fundadores (como as reformas introduzidas por Última Hora e O Globo), e por uma ética que tem como principal baliza a ideia de que o papel do jornalismo é a divulgação da verdade. Na segunda metade do século XX, a tendência é de que o jornalismo se torne cada vez mais atento a um padrão de “objetividade” e “imparcialidade”, e a certas normas de conduta e de redação que procuram distanciar o repórter do fato. Aumenta o prestígio das hard news e, nas décadas posteriores, os jornais se padronizaram cada vez mais, criando manuais de redação para normatizar não só a escrita, mas também a atuação do repórter – como o pioneiro

Manual da Redação da Folha de S.Paulo115. Mudam os valores éticos da profissão, impondo novos limites, como resguardar a integridade e o direito à intimidade de suas fontes. Não que os abusos deixem de existir, mas o ideal perseguido pelo jornalismo torna-se outro.

Na década de 1950, a Última Hora, do Rio de Janeiro, e outros jornais incorporaram a figura do copy-desk, profissional encarregado de uniformizar a redação das notícias e corrigir erros. Foi instituído o padrão da redação jornalística estruturada em lead e pirâmide invertida, com uma inovação brasileira, o sublead. O lead é o início da matéria, resumindo seus principais elementos, as respostas para as famosas seis perguntas: quem, o quê, onde, quando,

como e por quê. O sublead é um segundo parágrafo, que complementa o lead, que pode expor

fatos de menor importância ou desenvolver fatos expostos no lead. Surgiu como um recurso gráfico, para melhorar a organização visual das matérias na página impressa. A estrutura de pirâmide invertida consiste em ordenar os fatos logicamente de acordo com sua relevância para a compreensão da matéria, do mais para o menos importante, ficando os pormenores para o final. Isto facilita a leitura (pode-se ler apenas o começo da matéria) e a edição, pois os trechos menos relevantes estão no final e podem ser facilmente cortados.

Por volta dos anos 60, este padrão de linguagem objetiva já era predominante na imprensa brasileira, e nas décadas seguintes os jornais se esforçariam por padronizar ainda mais a linguagem jornalística, através de instrumentos como os manuais de redação. Não obstante, ainda no final da década de 60, surgem também vertentes do jornalismo que se voltam contra esse padrão e buscam o uso de recursos da literatura na reportagem, exercendo assim o chamado jornalismo literário. Entre os veículos pioneiros nessa abordagem estiveram a revista Realidade, lançada em 1966 pela Editora Abril, e o Jornal da Tarde, em sua primeira fase, que tinham a proposta de se contrapor a esse padrão de jornalismo, oferecendo reportagens com “pautas frias” (que não ficam desatualizadas muito rápido), apuradas com

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mais aprofundamento e precisão, e com textos mais trabalhados, permitindo-se o uso de recursos próprios da literatura.

Alguns autores afirmam que esse movimento é influenciado pela geração que, nos EUA dos anos 50 e 60, fundou o New Journalism e contestava o padrão da linguagem jornalística objetiva em sua própria terra de origem. Nos principais jornais norte-americanos, repórteres como Truman Capote, Gay Talese, Tom Wolfe, Norman Mailer se destacaram pelo uso de elementos literários, como a descrição detalhada de ambientes, a construção de personagens e diálogos, para escrever reportagens de fôlego, que muitas vezes eram publicadas em livros. Os jornalistas dessa geração contestavam o paradigma segundo o qual um repórter não interfere no objeto de sua investigação. O repórter do New Journalism sente- se livre para deixar transparecer, em sua narrativa, qual o seu envolvimento com as personagens que retrata, obscurecendo as fronteiras entre jornalismo e ficção116.

Outros autores, porém, relacionam essa guinada literária no jornalismo brasileiro à extensa tradição luso-brasileira de hibridações entre jornalismo e literatura, que vai da crônica dos séculos XIX e início do XX, passando pelos relatos de João do Rio, até as reportagens em estilo literário de Joel Silveira nos anos 1940, entre outros exemplos. A favor desta tese, estão indícios de que, nos anos 60 a experiência americana do New Journalism ainda não era muito conhecida entre os jornalistas brasileiros da geração que fez a revista Realidade117. Terezinha Fernandes, em sua tese sobre Jorge Andrade, aponta que o jornalismo literário foi também usado como forma de resistência à ditadura militar118, posição corroborada por outros pesquisadores, como Cremilda Medina, que menciona o recurso à “narrativa autoral” no jornalismo como forma de burlar um sistema que cerceava a imprensa através da censura119.

No entanto, apesar destas experiências com o jornalismo literário, o padrão que prevaleceu no jornalismo dos anos 60 para cá foi mesmo o da linguagem objetiva na maior parte do jornal (composta por textos informativos, como notas, notícias, reportagens e entrevistas), com espaços delimitados, nas páginas dos jornais, para textos de gêneros opinativos e textos não-jornalísticos. Desta forma, criou-se uma categorização de gêneros

116 LIMA, Edvaldo Pereira. Páginas ampliadas: o livro-reportagem como extensão do jornalismo e da literatura.

4ª ed. Barueri, SP: Manole, 2009, p. 191.

117 IJUIM, Jorge Kanehide. Jornalismo além da fórmula: a supervalorização do referencial estrangeiro e o

desprezo às experiências brasileiras. In: ASSIS, Francisco de; LAURINDO, Roseméri e MELO, José Marques de (orgs.). Gêneros jornalísticos: teoria e práxis. Blumenau: Edifurb, 2012, p. 109-116.

118 FERNANDES, Terezinha Fátima Tagé Dias. Jorge Andrade, repórter Asmodeu (leitura do discurso

jornalístico do Autor na Revista “Realidade”). Tese de Doutoramento. São Paulo: ECA-USP. 1988, p. 12.

119 MEDINA, Cremilda. A arte de tecer o presente: narrativa e cotidiano. São Paulo: Summus Editorial, 2003, p.

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jornalísticos, assimilada pelos jornalistas durante a prática da profissão, e que diversos teóricos tentaram classificar.

Os gêneros textuais não são imutáveis, eles se formaram ao longo da história, e no caso do jornalismo esta observação é importante, pois muitas destas categorias, como a reportagem, a crônica e a crítica, são relativamente recentes. Esta maleabilidade dos gêneros jornalísticos, que se desenvolveram de diferentes formas em cada país, também nos leva a uma dificuldade quando se trabalha com uma categorização. Cada um dos autores que analisaram o tema criou a sua própria, utilizando critérios próprios.

Para o brasileiro Luiz Beltrão, os textos jornalísticos podem ser divididos em: notícia básica; entrevista; crônica; reportagem; de rotina ou de setor; história de interesse humano; grande reportagem120.

O jornalista espanhol Gonzalo Martín Vivaldi divide os gêneros jornalísticos da seguinte forma: notícia; grande reportagem; entrevista; comentário; crítica121. Já o peruano Juan Gargurevich, no início dos anos 80, procurou uma classificação com categorias que pudessem ser aplicadas ao jornalismo hispano-americano: nota informativa; entrevista; crônica; reportagem; gráficos; coluna; artigo; testemunho; resenha; crítica; polêmica ou debate; campanha ou cruzada; titulação; folhetim122.

José Marques de Melo, partindo do estudo da imprensa brasileira, cria sua própria categorização, a partir de dois critérios. Primeiro, agrupar os gêneros em categorias que correspondem à intencionalidade determinante dos relatos: reprodução do real (gêneros informativos) ou leitura do real (gêneros opinativos). Segundo, identificar os gêneros a partir da natureza estrutural dos relatos.

Desta forma, temos, segundo Melo, os seguintes gêneros jornalísticos informativos: nota, notícia, reportagem e entrevista, que se distinguem mais pelo grau de aprofundamento e angulação:

A nota corresponde ao relato de acontecimentos que estão em processo de configuração e por isso é mais frequente no rádio e na televisão. A notícia é o relato integral de um fato que já eclodiu no organismo social. A reportagem é o relato ampliado de um acontecimento que já repercutiu no organismo social e produziu alterações que são percebidas pela instituição jornalística. Por sua vez, a entrevista é um relato que privilegia um ou mais

120 GARGUREVICH, Juan. Géneros periodísticos. Quito: Editorial Belén, 1982, p. 18.

121 VIVALDI, Gonzalo Martín. Géneros periodísticos: reportaje, crónica, artículo (análisis diferencial).

Paraninfo: Madrid, 1973.

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protagonistas do acontecer, possibilitando-lhes um contato direto com a coletividade123.

A característica comum a todos os gêneros informativos é que, ao contrário dos textos mais literários, eles se propõem a dar um relato preciso dos fatos, sem juízos de valor e ocultando sinais da subjetividade do narrador. Se, antes, eles tendiam a ser escritos num estilo mais literário, com a consolidação do jornalismo como indústria cultural no século XX torna- se padrão a fórmula do jornalismo norte-americano, que, ao invés de narrar os acontecimentos em ordem cronológica, hierarquiza-os em lead (parte inicial, que resume a notícia que se quer contar) e expõe os dados restantes em ordem decrescente de importância.

Já os gêneros opinativos, na classificação de Marques de Melo, são:

a) Editorial: texto que expõe a opinião da empresa jornalística a respeito de um acontecimento ou tema de grande repercussão no momento;

b) Comentário: texto que aprofunda e comenta um fato do momento;

c) Artigo: texto breve, que elabora julgamentos mais ou menos provisórios sobre fatos que ainda estão se configurando;

d) Resenha e crítica: textos que avaliam uma obra de arte, com a finalidade de orientar a ação dos consumidores;

e) Coluna: seção fixa, marcadamente opinativa, e com estilo textual mais livre – pode ter crônicas, notas, artigos. Costuma ser especializada num assunto específico;

f) Crônica;

g) Caricatura: desenhos humorísticos, destinados à publicação na imprensa, representando ou comentando graficamente uma notícia do momento;

h) Carta.

Marques de Melo publicou essa proposta de classificação em livro em 1985, e, poucos anos mais tarde, realizou pesquisas que tentavam aplicar essa metodologia a exemplos reais de jornalismo, como os textos publicados na Folha de S.Paulo124.

Porém, conforme suas pesquisas avançaram, ele reviu sua categorização, prestando atenção às mesclas entre gêneros e surgimento de novos gêneros jornalísticos que ocorreram no final do século XX. Em estudos mais recentes, Marques de Melo tem adotado uma terminologia mais flexível, que distingue o “jornalismo argumentativo”, segundo ele, pautado pela versão sobre os fatos, e predominante nos países latinos, e o “jornalismo referencial”, que valoriza em primeiro lugar o relato impessoal dos acontecimentos, mais típico dos países

123 MELO, José Marques de. A opinião no jornalismo brasileiro. Petrópolis: Vozes, 1985, p. 49.

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anglo-saxões. Além destes dois gêneros básicos, novas variantes aparecem na virada do século XX para o XXI: “o jornalismo analítico que se nutre do gênero interpretativo; o jornalismo de entretenimento, também rotulado como jornalismo literário, cuja seiva provém do gênero diversional; e o jornalismo de serviço, metamorfoseado pela volúpia do gênero utilitário”125.

Além disto, cabe destacar mais uma vez, a narrativa jornalística é – ou no mínimo procura ser – sempre uma narrativa do real. Assim, podemos, como Marques de Melo, descartar como gêneros jornalísticos os gêneros ficcionais de textos publicados na imprensa periódica. Por esta linha divisória, um escritor que publica contos de ficção não será um jornalista ainda que escreva em jornal; mas sim se escrever crônicas a partir de acontecimentos atuais. Contudo, quando lermos os textos jornalísticos dos dramaturgos do Arquivo Miroel Silveira, veremos que esta linha não é uma divisória rígida, mas admite nuances complexas. A crônica e o folhetim representam uma zona intermediária entre o literário-ficcional e o jornalístico. E, como muitos dos jornalistas-dramaturgos brasileiros transitaram por esta zona, teremos de estudá-la em detalhe.

Desta forma, mesmo nos baseando na divisão entre o jornalismo informativo (ou referencial) e o opinativo (ou argumentativo), e na classificação estabelecida por Marques de Melo, trabalhamos com as nuances entre os gêneros, levando em conta o período histórico no qual os textos analisados foram escritos.