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ahattî : tîi : brosüklsr !

O professor Valter, de História, é o mais jovem dos professores entrevistados. Ele atua nessa escola como professor eventual desde 2005, quando ainda era estudante. Já formado, assumiu algumas turmas de Ensino Fundamental (oitava série27) e Ensino Médio, substituindo a professora efetiva, em licença médica no momento da entrevista.

Questionado sobre as dificuldades mais frequentes apresentadas pelos alunos, o professor Valter afirma que os alunos não mantêm a atenção nos conteúdos de História, não se focam no professor. Tal dificuldade teria diversas motivações, desde um número inviável de alunos em sala de aula, passando por uma grande diversidade de “atrativos” que dispersaria a sua atenção, até o fato de eles gostarem ou não do professor. Interessante notar que a importância que o professor Valter atribui à capacidade de os alunos manterem-se focados no professor deve-se à centralidade que ele delega à figura do docente na aula, ministrada, na maior parte das vezes, seguindo o modelo de aula expositiva:

P_H: E os alunos têm grande dificuldade pra manter a atenção nos conteúdos de História,

(...) então você, esse é o desafio do professor, é um grande desafio, você tem que manter eles focados em você [Apêndice J]

A figura do professor, assim, funde-se aos próprios conteúdos, pois o nível de atenção conferido a estes dependeria do quanto os alunos se mantêm focados no professor:

P_H: Bem, o fato é que a gente tem que fazer constantemente aulas expositivas, e se o

jovem não gostar de você, ele vai ter um déficit de atenção, (...) você tem que fazer de tudo pra que ele tenha o foco em você [Apêndice J]

Esse “tudo” a que se refere o professor consistiria mais em estratégias retóricas utilizadas na condução de sua aula expositiva, pois outros recursos que poderiam ou deveriam ser utilizados para conquistar ou manter a atenção do aluno são muitas vezes inviáveis e nem sempre eficazes:

P_H: A aula expositiva é a base pra quase todas as ciências humanas, né, você tem que dar

exemplos, você cita casos, você vai adequar a vida deles com o conteúdo de ciências humanas, é lógico, você pode usar outros modos também, por exemplo, uso de datashow, de figuras, de imagens, mas isso nem sempre é possível [Apêndice J]

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O professor lembra que a escola possui um datashow e que ele próprio adquiriu um

laptop para diversificar os recursos utilizados em suas aulas; no entanto, devido ao risco a que

o equipamento fica exposto – o professor lembra que já foi roubado na escola – prefere não utilizá-lo mais. Além disso, afirma que o uso de vídeos ou projeções na condução das aulas acaba sendo “só mais uma” entre as tantas mídias a que os alunos estão constantemente expostos, não garantindo sua adesão aos métodos ou propostas do professor:

P_H: Então só a informática, falar que só a informática pode resolver o problema da

educação é uma quimera, só brincando, é o que eu vivo falando pra eles, eles têm celulares, do que vale você ter um celular, se você não tem nada pra ser dito? (...) O que que me vale trazer um datashow e passar um filme ruim? Que não tem a ver com a realidade deles ou algo que eles não vão se interessar? Então pra não cometer esse erro eu prefiro dar a minha aula expositiva, que eu sei que é boa, que mantém boa parte dos alunos concentrados em mim, quanto mais alunos eu consigo concentrar em mim mesmo, mais fácil de controlar os que não estão [Apêndice J]

O discurso do professor é surpreendentemente taxativo na importância atribuída a si mesmo como única fonte de conhecimentos relevantes e/ou acessíveis aos alunos. Chama a atenção, contudo, a discrepância entre sua afirmação de que sua aula expositiva é suficientemente boa para manter parte considerável dos alunos concentrados nele, e as considerações anteriores sobre o que considera serem as dificuldades mais frequentes dos alunos – manter a atenção nos conteúdos de História ou, o que para ele parece significar o mesmo, manter a atenção no professor. Se esta é a principal dificuldade dos alunos, o discurso do professor sugere que tal desafio é enfrentado e superado com sucesso – “os alunos têm dificuldades para se concentrar nos assuntos de História, mas minha aula expositiva é boa o bastante para mantê-los concentrados em mim” – tal é a paráfrase que elaboramos a partir de seu raciocínio.

O objetivo da aula parece remeter mais a essa atenção dos alunos concentrada na figura do professor do que à sua aprendizagem propriamente dita – “quanto mais alunos eu consigo concentrar em mim mesmo, mais fácil de controlar os que não estão”. Perguntamo- nos: controlar para quê? Acreditamos que o professor se refere à gestão da disciplina na sala de aula, que precisa ser controlada para não inviabilizar qualquer ação que se pretenda empreender neste espaço. Assim, não se trata, a rigor, apesar da aparência extremamente conservadora do seu discurso, de uma ação deliberada para controlar ou manipular os alunos, ainda que, inconscientemente, devido à sua firme convicção na autoridade que lhe confere

este lugar de “professor” – centro absoluto da aula – o professor Valter aja como se pudesse ou devesse decidir o que é melhor para cada um dos alunos:

Pesquisadora: E a base dessa aula expositiva normalmente é um texto?

P_H: Nem sempre, várias vezes eu exponho as próprias experiências dos meus estudos em

História, por exemplo, a crítica é uma ferramenta muito interessante pra eles, eles têm realmente que questionar ordens estabelecidas, (...) se o jovem daqui não entende que uma crise social, uma crise financeira pode começar lá do outro lado da Terra, então ele é peão, então ele é um peão usável, e eu não quero que eles sejam robozinhos utilizados pelos outros, eu quero que eles pensem, que eles causem um impacto positivo no mundo [Apêndice J]

Obviamente, “questionar ordens estabelecidas” não é algo que o professor deseja que os alunos façam no contexto específico da sala de aula, pois isso significaria questionar a importância dos conteúdos trazidos para estudo pelo professor e, em última instância, sua própria centralidade no processo educativo. O principal instrumento de formação do senso crítico do aluno seria, pois, o professor, que assume esse desafio de enfrentar os questionamentos dos alunos e mostrar-lhes, por força de argumentos, a validade de suas próprias posições, menos ou mais marcadas, ideologicamente.

As falas do professor Valter mostram que ele aceita e encoraja questionamentos dos alunos, desde que estes sejam de ordem conceitual e relacionados aos objetos de sua disciplina:

P_H: (...) se você faz o aluno entender que ele deve fazer constantemente perguntas,

muita gente acha isso um aluno irritante, eu acho isso um pecado falar que o aluno faz perguntas demais, o aluno que faz perguntas demais é o meu favorito, porque eu sei que ele está interessado (...) [Apêndice J]

Por outro lado, o professor não considera como formas válidas de questionamento ou resistência, por parte dos alunos, sua indiferença a atividades propostas, compreendida como falta de responsabilidade e desinteresse. Para não lidar com essas formas de resistência dos alunos, o professor Valter simplesmente não propõe determinadas atividades e concentra seus esforços naquela que considera ser sua estratégia mais eficiente: a aula expositiva. Inferimos, por muitas de suas falas, que ele parece experimentar uma forma de prazer intelectual ao conquistar a atenção dos alunos, como se ele personificasse o próprio conhecimento – por diversas vezes o professor Valter afirma que focar-se nos conteúdos é o mesmo que focar-se no professor. Assume que, como professor, tem o dever de encorajar os alunos a fazerem

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perguntas e de fornecer respostas corretas, concisas e sem hesitação, não podendo manifestar dúvidas:

P_H: (...) a pergunta pode até ser ridícula, mas se você der a resposta certa, concisa, na

hora, sem essa de “eu vou pesquisar e vou entregar pra você mais tarde”, eu acho isso o fim, porque se o professor não é capaz de responder a pergunta de um jovem que não tem nem metade da sua formação, difícil, então a formação do professor está baixa [Apêndice J]

Fica claro, portanto, que o professor Valter se coloca como centro da atividade docente e assume a responsabilidade de suprir todas as necessidades formativas dos alunos no que se refere à constituição de um repertório de conhecimentos em História.

Benzer Belgeler