3.6. ADLİ MUHASEBENİN ÜNİVERSİTE PROGRAMLARINA
3.6.2. Adli Muhasebe Eğitiminin Müstakil Bir Program İçinde Verilmesi . 85
Para entendermos a teoria de identidade, é preciso nos alimentarmos do trabalho de George Herbert Mead. Mead (1993) sustenta a ideia de que a pessoa é uma construção que se desenvolve. Para o autor, nascemos humanizáveis, e nos desenvolvemos no processo social, por meio das relações que estabelecemos com os outros indivíduos que se encontram nesse processo. Apenas quando adota a postura do outro, o indivíduo pode realizar-se a si mesmo como pessoa.
Peter Berger e Thomas Luckmann (2008), em seu livro “A construção social da realidade” trazem importantes premissas para a teoria de identidade desenvolvida posteriormente por Ciampa (2009), trabalhando fortemente a dialética entre socialização e individuação, já presentes no trabalho de Mead (1993).
Apesar de os autores enxergarem a questão da identidade como algo cristalizado, muitos de seus argumentos contribuem para a construção do arcabouço teórico que compõe a base epistemológica da teoria de Ciampa (2009) e, consequentemente, desta tese.
Um dos argumentos centrais da obra de Berger e Luckmann (2008), inspirados no trabalho de Mead (1993), é a de que a nossa atitude em relação a nós mesmos (e, consequentemente, a nossa identidade) se constitui na relação com o outro, isto é, a individuação pressupõe a socialização. Os autores dizem que “esta reflexão sobre mim mesmo é tipicamente ocasionada pela atitude com relação a mim que o outro manifesta.
É tipicamente uma resposta ‘de espelho’ às atitudes do outro” (BERGER; LUCKMANN, 2008, p. 48).
Os autores trabalham a ideia de que a realidade é uma relação dialética entre a subjetividade e a objetividade, ou seja, tudo o que desejamos, o que queremos, passa pelo crivo das condições objetivas para a sua realização. Para eles, “sendo a sociedade uma realidade ao mesmo tempo objetiva e subjetiva, qualquer adequada compreensão teórica relativa a ela deve abranger ambos estes aspectos” (BERGER; LUCKMANN, 2008, p. 173)
Quando, na teoria de Ciampa (2009) discutirmos a questão da personagem e da identidade como metamorfose, retomaremos essa dialética subjetividade-objetividade, já que tal ponto está presente nos fundamentos epistemológicos deste trabalho.
Para Berger e Luckmann (2008), há uma relação direta entre o estudo da realidade, da formação da sociedade, com o estudo do indivíduo (ou como já podemos antecipar, do conceito de identidade). Os autores dizem que um indivíduo “simultaneamente exterioriza seu próprio ser no mundo social e interioriza este último como realidade objetiva” (p. 173). Para os autores, o indivíduo estar inserido na sociedade significa participar dessa dialética subjetividade-objetividade.
Nesse momento, os autores introduzem o conceito de socialização. Para eles, nós não nascemos socializados, mas sim socializáveis.
O ponto inicial desse processo é a interiorização, a saber, a apreensão ou interpretação imediata de um acontecimento objetivo como dotado de sentido, isto é, como manifestação de processos subjetivos de outrem, que desta maneira torna-se subjetivamente significativo para mim” (BERGER; LUCKMANN, 2008, p. 174).
Para os autores, é a partir da interiorização do mundo em que estamos que começamos o processo de apreensão deste mundo.
Esse processo de interiorização do mundo em que vivemos e que resulta na inclusão de um indivíduo em uma determinada sociedade é chamado pelos autores de socialização, por eles definida como “a ampla e consistente introdução de um indivíduo no mundo objetivo de uma sociedade ou de um setor dela” (BERGER; LUCKMANN, 2008, p.175).
Os autores diferenciam aí, dois processos de socialização pelos quais todos nós passamos, uma vez como aspirantes a membros da sociedade: a socialização primária e a socialização secundária. Segundo Berger e Luckmann (2008, p. 175),
a socialização primária é a primeira socialização que o indivíduo experimenta na infância, e em virtude da qual torna-se membro da sociedade. A socialização secundária é qualquer processo subsequente que introduz um indivíduo já socializado em novos setores do mundo objetivo de sua sociedade.
No processo inicial – a socialização primária – o indivíduo encontra uma estrutura social objetiva, dentro da qual estão os outros significativos que se encarregam de sua socialização, por exemplo, o pai, a mãe e outras figuras de relevância na infância de uma criança. Esses outros significativos, que são impostos, por si só, já representam a face objetiva da socialização (BERGER; LUCKMANN, 2008). Não nos é permitido escolher quem são esses outros significativos. Eles são dados do ambiente, fazem parte da nossa realidade objetiva. Como dizem os autores, “escolhem aspectos do mundo de acordo com sua própria localização na estrutura social e também em virtude de suas idiossincrasias individuais, cujo fundamento se encontra na biografia de cada um” (BERGER; LUCKMANN, 2008, p. 176).
A partir dessas análises, Berger e Luckmann (2008, p. 177) mostram que “a identidade é objetivamente definida como localização em um certo mundo e só pode ser subjetivamente apropriada juntamente com este mundo”. Mais adiante, os autores destacam que tanto a apropriação subjetiva da identidade, como a apropriação subjetiva do mundo social são apenas aspectos diferentes do mesmo processo de interiorização, mediatizado pelos mesmos outros significativos (BERGER; LUCKMANN, 2008).
Nesse processo, surge outro conceito importante da obra de Berger e Luckmann (2008) e de Mead (1993), o do “outro generalizado”. Mead (1993) define o “outro generalizado” como uma comunidade ou grupo social organizado que proporciona ao indivíduo sua unidade de “pessoa”. Para Berger e Luckmann (2008, p. 178), o “outro generalizado” é uma “abstração dos papéis e atitudes dos outros significativos concretos”. O “outro generalizado” é assim, o conjunto de regras, valores, normas e condutas aceitas por um determinado contexto social. Os autores afirmam que:
a formação na consciência do outro generalizado marca uma fase decisiva na socialização. Implica a interiorização da sociedade enquanto tal e da realidade objetiva nela estabelecida e, ao mesmo tempo, o estabelecimento subjetivo de uma identidade coerente e contínua30. A sociedade, a identidade
e a realidade cristalizam subjetivamente no mesmo processo de interiorização. Esta cristalização ocorre juntamente com a interiorização da
30 Aqui, temos um grande ponto de divergência entre a obra de Berger e Luckmann (2008) e a de Ciampa
(2009). Para os primeiros, a identidade é “coerente e contínua”. Para o segundo, como discutiremos adiante, a identidade é “metamorfose”. Nesta tese, baseamo-nos nessa segunda interpretação.
linguagem. De fato, por motivos evidentes à vista das precedentes observações sobre a linguagem, esta constitui o mais importante conteúdo e o mais importante instrumento da socialização. (BERGER; LUCKMANN, 2008, p. 179)
Segundo os autores, no momento em que se forma a consciência do outro generalizado, a socialização primária está finalizada. Apesar de Berger e Luckmann (2008) entenderem a identidade como algo cristalizado, eles defendem que a socialização não acaba com essa fase primária onde o indivíduo interioriza o “outro generalizado”. Ocorre, a partir daí, segundo os autores, a socialização secundária, que pode promover alterações na identidade que possibilitem a inserção do indivíduo em outros contextos sociais, além da possibilidade de nova significação de sua realidade.
Segundo Berger e Luckmann (2008, p. 184), “a socialização secundária é a interiorização de ‘submundos’ institucionais ou baseados em instituições”. Por exemplo, podemos ter como socialização secundária, o processo de desenvolvimento em uma determinada profissão por um indivíduo. Ele terá que aprender um vocabulário próprio, além de outros conhecimentos, valores e normas específicos dessa área do saber, desse universo social.
Uma diferença existente entre a socialização secundária e a socialização primária é que a socialização secundária não requer uma grande dose de afeto envolvido. Pode se dar por condições puramente funcionais, como a adaptação de uma pessoa a um determinado contexto social, por exemplo, o contexto profissional. Berger e Luckmann (2008) destacam, entretanto, que algumas vezes (o exemplo trabalhado pelos autores é a socialização em determinado grupo religioso), a carga afetiva no processo de socialização se faz necessária. Segundo os autores, isso ocorre quando:
implicam a institucionalização de um complicado processo de iniciação, um noviciado, no curso do qual o indivíduo entrega-se inteiramente à realidade que está interiorizando. Quando o processo exige uma transformação real da realidade ‘doméstica’ do indivíduo constitui uma réplica, tão exata quanto possível, do caráter da socialização primária. [...] a imersão na nova realidade e o devotamento a ela são institucionalmente definidos como necessários. O relacionamento do indivíduo com o pessoal socializador torna-se proporcionalmente carregado de ‘significação’, isto é, o pessoal socializador reveste-se do caráter de outros significantes em face do indivíduo que está sendo socializado. O indivíduo entrega-se então completamente à nova realidade. “Entrega-se” à música, à revolução, à fé, não apenas parcialmente mas com o que é subjetivamente a totalidade de sua vida. (BERGER; LUCKMANN, 2008, p. 193)
Quando discutirmos o caso da Severina, na obra de Ciampa (2009), ficará nítido que, nos momentos de sua história de vida, em que Severina pratica e/ou se converte a
determinadas práticas religiosas, essas comunidades e, em especial, alguns de seus integrantes assumem o papel de outros significativos para Severina, exercendo sobre ela grande influência e, em que o afeto facilita e potencializa esse seu processo de socialização.
Berger e Luckmann (2008), apesar da ênfase dada aos “outros significativos” no processo de socialização do indivíduo, destacam que mesmo “outros menos importantes” também têm seu papel no processo de reafirmação da realidade subjetiva. Eles dão, como exemplo, os companheiros de trem de um determinado indivíduo que utiliza esse meio de transporte para se deslocar até o trabalho. Mesmo que não haja conversa entre o indivíduo e esses outros passageiros, de alguma forma, eles ajudam a reforçar a identidade de “trabalhador” desse indivíduo.
Os autores afirmam que esses “outros menos importantes” formam uma espécie de coro àquilo que é reforçado pelos “outros significativos”, isto é, à realidade subjetiva (ou identidade) de cada um.
A importância que Berger e Luckmann (2008) dão aos “outros significativos, reside no fato de que é com esses “outros” que o indivíduo conversa. Para os autores, “o veículo mais importante da conservação da realidade é a conversa. Podemos considerar a vida cotidiana do indivíduo em termos do funcionamento de um aparelho de conversa, que continuamente mantém, modifica e reconstrói sua realidade subjetiva”. Mais adiantem os autores dizem que “a linguagem objetiva o mundo” (BERGER; LUCKMANN, 2008, p. 204).
Habermas (1975), em “Conhecimento e Interesse”, reforça o que foi dito sobre a linguagem como objetivadora do mundo. Já antecipando as ideias do filósofo sobre emancipação humana, podemos dizer que, para Habermas (1975, p. 299-300), “o interesse voltado à emancipação não é uma intuição vaga, pode ser reconhecido a
priori. Distingue-se este interesse da natureza mediante um dado fatual, o único possível de conhecimento por sua própria natureza: a linguagem”. O autor sugere que a autorreflexão conduz a uma situação de emancipação: “o interesse cognitivo na emancipação aparece como a realização do processo reflexivo [...] Conhecimento e interesse identificam-se na força reflexiva” (HABERMAS, 1975, p. 300).
Esse destaque que a conversa recebe nos escritos de Berger e Luckmann (2008) e que são reforçados por Habermas (1975) se deve ao fato que esta se torna uma grande facilitadora do processo de conscientização, tão importante (se não, fundamental) para a identidade do sujeito. Veremos em Ciampa (2009) que, para o entendimento e
apropriação pelo indivíduo de que identidade é metamorfose, a consciência31 é um
aspecto imprescindível, o que reforça a importância da comunicação e da linguagem. Como decorrência da importância da linguagem para a objetivação da realidade, Berger e Luckmann (2008, p. 205) também exploram a importância de viver em um universo simbólico que reforce a identidade assumida pelo indivíduo. Os autores dizem que “a ruptura da conversa significativa com os mediadores das respectivas estruturas de plausibilidade ameaça as realidades subjetivas em questão”. Logo a seguir, os autores compartilham que a transformação só é possível com uma estrutura de outros significativos que ofereçam ao indivíduo uma forte identificação afetiva. Segundo os autores, “não é possível a transformação radical da realidade subjetiva (incluindo evidentemente a identidade) sem esta identificação, que inevitavelmente repete as experiências infantis da dependência emocional com relação aos outros significativos” (BERGER; LUCKMANN, 2008, p. 208).
Os autores destacam na passagem acima a importância do universo simbólico para a legitimação da identidade. Eles descrevem o universo simbólico como “corpos de tradição teórica que integram diferentes áreas de significação e abrangem a ordem institucional em uma totalidade simbólica” (BERGER; LUCKMANN, 2008, p.131). Diante desse universo de significação, a legitimação se dá por meio das comunidades de sentido. No campo de pesquisa desta tese, é observável que o indivíduo pode buscar esse sentido por meio de seus atos de consumo e da forma como os opera, buscando, por exemplo, usar o consumo para reforçar sua posição de pertencimento (ou aspiração de pertencimento) a um determinado grupo.
Nas sociedades contemporâneas, em que o indivíduo é estimulado (para não dizer, incitado) a exercer diferentes papéis – e, muitas vezes, diferentes personagens simultâneos, o que discutiremos melhor no capítulo sobre a teoria de Ciampa (2009) – acabamos por encampar uma socialização que, pela teoria de Berger e Luckmann (2008), fica entre o que os autores chamaram de socialização secundária – estágio posterior à socialização primária que, como vimos, a complementa, sem modificar sua essência, ou como dizem os autores : “o presente é interpretado de modo a manter-se numa relação contínua com o passado, existindo a tendência a minimizar as transformações realmente ocorridas” (p. 215) – e ressocialização – quando se presume que o indivíduo precisa ressignificar o seu passado, ou, como dizem os autores: “o
31 Aqui, seguimos a definição de consciência de Mead (1993) como sendo um fluxo de pensamento e
passado é reinterpretado para se harmonizar com a realidade presente, havendo a tendência a retrojetar no passado várias elementos que subjetivamente não eram acessíveis naquela época” (BERGER; LUCKMANN, 2008, p. 215).
Nos estágios intermediários entre esses dois polos, o indivíduo passa por “transformações parciais da realidade subjetiva ou de particulares setores dela. Estas transformações parciais são comuns na sociedade contemporânea em ligação com a mobilidade social do indivíduo e o treinamento profissional” (BERGER; LUCKMANN, 2008, p. 213).
Podemos analisar, em nosso cotidiano, situações em que ocorre um pouco de cada processo, ficando assim, entre os dois polos da socialização secundária e da ressocialização. No caso da mobilidade social, isso fica evidente analisando casos típicos de pessoas que ascendem socialmente e, ao mesmo tempo que não se livram de valores anteriores (por exemplo, a prática religiosa, o apego familiar), também se ressocializam, passando a frequentar novos lugares, consumindo produtos que antes não lhe eram nem possíveis, tampouco desejados, entre outros exemplos.
Essa posição intermediária também favorece o aparecimento de um “outro outro que também sou eu”. Aqui, podemos fazer uma ligação dos estudos de Berger e Luckmann (2008) com o que discutiremos adiante em Ciampa (2009), já que o indivíduo pode atuar de modos diferentes, de acordo com o contexto que lhe é apresentado (noção de personagem). Isso é favorecido, segundo Berger e Luckmann (2008, p. 221) por “diferentes outros significativos mediatizarem diferentes realidades objetivas para o indivíduo”, o que vai em linha com o que veremos a seguir em Ciampa (2009) sobre a coexistência de múltiplos personagens em seu processo de individuação, isto é de desenvolvimento de sua singularidade: a mesma pessoa pode se apresentar de modo diferente, de acordo com o ambiente e em cada grupo que participa.