Conforme já exposto em outro momento desta tese, baseamo-nos na ideia de Habermas de que vivemos na Modernidade. Para Habermas (1990), a Modernidade é caracterizada por alguns aspectos, a saber:
- estruturas sociais organizadas em torno da empresa capitalista e do aparelho burocrático do Estado;
- dissolução das formas de vida tradicionais;
- modelos de socialização que levam à formação de “identidades do Eu” abstratas, que tendem à individualização.
Habermas se baseia em Hegel para tratar da questão da Modernidade. Hegel destaca que a subjetividade faz parte da Modernidade, o que fortalece a importância de se discutir a questão da identidade. Para Hegel, a subjetividade implica quatro conotações: o individualismo, o direito à crítica, a autonomia do agir e o exercício de uma filosofia idealista (HABERMAS, 1990).
Berger e Luckmann (2004) também discutem a sociedade sob o ponto de vista da Modernidade e a consequente crise de sentido proveniente desse ponto de vista. Os autores discutem o que chamam de “uma nova constituição social do sentido da vida humana nos tempos modernos que lançam o sentido e, com ele, a vida humana numa crise sem par na história” (BERGER; LUCKMANN, 2004, p. 14). Para os autores “o sentido se constitui na consciência humana: na consciência do indivíduo que se individualizou num corpo e se tornou pessoa através de processos sociais. Consciência, individualidade, corporalidade específica, sociabilidade e formação histórico-social da identidade pessoal são características essenciais da nossa espécie”. (p. 14). Nesse momento, os autores retomam a importância da interação social, complementando que é por meio da experiência, da vivência que o sentido é construído e tornado consciente.
Aqui, estamos discutindo a dialética entre significado (que é compartilhado) e sentido (que é a forma como um determinado significado é apropriado pelo indivíduo). Na análise da pesquisa de campo, focaremos no sentido atribuído pelos sujeitos pesquisados a seus atos e relações de consumo. Os autores dizem que:
O sentido nada mais é do que uma forma complexa de consciência: não existe em si, mas sempre possui um objeto de referência. Sentido é a consciência de que existe uma relação entre as experiências. [...] A experiência atual em um dado momento pode ser relacionada com uma experiência já acontecida há pouco ou num passado remoto. Geralmente a experiência atual não é relacionada com uma única outra experiência, mas com um tipo de experiência, um esquema de experiência, uma máxima comportamental, uma legitimação moral, etc., derivados de muitas experiências e armazenados no conhecimento subjetivo ou tomados do acervo social do conhecimento. (BERGER; LUCKMANN, 2004, p. 15-6)
Berger e Luckmann (2004) retomam a importância da dialética entre subjetividade e objetividade discutidas em “A construção social da realidade”, instruindo que o “agir social” é o lugar da construção das identidades. Segundo os autores:
a vida cotidiana está repleta de múltiplas sucessões de agir social, e é somente neste agir que se forma a identidade pessoal do indivíduo. Vivências puramente subjetivas são o fundamento da constituição do sentido: estratos mais simples de sentido podem surgir na experiência subjetiva de uma pessoa. Mas estratos superiores de sentido e uma estrutura mais complexa de sentido pressupõem uma objetivação do sentido subjetivo no agir social. Somente então pode o indivíduo fazer conexões lógicas complicadas, dar início e controlar sequências diferenciadas de ação e recorrer ao tesouro disponível de experiências em seu ambiente social (BERGER; LUCKMANN, 2004, p. 17-8).
Berger e Luckmann (2004) salientam a questão da formação de sentido. Os autores discutem o papel das instituições (por exemplo, a Igreja) nesse processo como legitimadoras e reforçadoras de sentido ou como os autores dizem: “de especial importância são aquelas instituições que têm por tarefa o reprocessamento social do sentido” (p. 22). Eles complementam, explanando sobre a importância da comunicação de sentido. Segundo Berger e Luckmann (2004, p. 23), “através da educação ou da doutrinação orientada visa-se a que o indivíduo só pense e faça o que corresponde às normas da sociedade”.
Ainda hoje, muitos são os indivíduos que buscam as instituições como formas de criar sentidos para si de significados compartilhados. Isso se dá também com o objeto de estudo desta tese, o consumo, pois a sociedade de consumo como um todo, bem como o grupo a que se pertence (e que é simbolizado pelo tipo de roupa que se veste, pelo tipo de música que se escuta, pelo tipo de lazer que se pratica...) ou se quer pertencer (grupo aspiracional) tem esse caráter legitimador de sentidos. É o que os autores chamam de comunidades de vida, ou comunidades de sentido.
No capítulo que discute a relação entre a modernidade e a crise de sentido, Berger e Luckmann (2004, p. 46) ressaltam algo que pode ser bastante útil para esta tese: “quando o bem-estar material garante a sobrevivência dos cidadãos, eles não incorrem tanto na tentação de questionar a legitimidade de uma organização. Mas deve- se acentuar mais uma vez que seria grave erro considerar este estado como garantido e irreversível”. Essa análise dos autores ajuda muito a entendermos a contribuição da “sociedade de consumo” para a legitimação das instituições e de seus valores e (talvez
aqui esteja o ponto mais importante para o sistema) da passividade dos indivíduos perante os acontecimentos.
Com o pluralismo próprio da modernidade, os autores mostram que a vida do indivíduo nascido agora requer muitas tomadas de decisão se comparada ao início do século passado, por exemplo. Berger e Luckmann (2004, p. 59) expõem esse pluralismo: “até mesmo os deuses estão à disposição numa multiplicidade de ofertas de escolha. Posso mudar minha confissão religiosa, minha cidadania, meu estilo de vida, minha autoimagem e meu hábito sexual”. Adiante (p. 59), os autores dizem “o pluralismo não só permite que escolhamos (profissão, esposo ou esposa, religião, partido), mas obriga a isto, assim como a oferta moderna de consumo obriga a decisões (sabão Minerva ou Omo, carro Volkswagen ou Renault)”. Para eles, aí está o poder da economia de mercado e da democracia como instituições que promovem a passagem para as possibilidades de escolha e para a compulsão por escolher: “Já não é possível não escolher, pois é impossível fechar os olhos diante do fato de que uma decisão tomada poderia ter sido diferente” (BERGER; LUCKMANN, 2004, p. 59). Sendo assim, para os autores, esse pluralismo resulta em uma crise de sentido para as pessoas que, muitas vezes, vivem uma situação de manipulação (consciente ou não) não conseguindo exercer sua autonomia nesse processo decisório.
Costa (2004), em seu livro “O vestígio e a aura”, analisa a chamada crise de valores da atualidade a partir de fenômenos contemporâneos como o culto ao corpo e à aparência, o consumismo e a cultura da imagem. Recorrendo à filosofia, sociologia e psicanálise, o autor nos apresenta uma interessante análise desse cenário que vivemos para entendermos seus reflexos na moral contemporânea.
Ao tratar do consumismo, o autor, de imediato, menciona que esferas da vida social, como a religião, a política e a família perderam espaço no sistema capitalista para o “consumismo hedonista e narcisista que está na base do culto ao corpo e da epidemia de atentados violentos à vida” (COSTA, 2004, p. 131).
Podemos discutir aqui que o pluralismo moderno, de uma certa forma, minou o poder legitimador das instituições tradicionais, como a Igreja e o Estado e, até mesmo pelo que vimos no parágrafo acima, o mercado de consumo acabou apropriando-se desse papel. Há uma pseudossensação de que tudo pode ser comprado, até mesmo o próprio corpo. Basta olhar o aumento significativo da demanda por procedimentos ligados à cirurgia plástica no Brasil nos últimos anos. A indústria de cosméticos e de beleza é uma das que mais cresce. Sobre isso, Lipovetsky (2008, p. 44-5) afirma:
Revelo, ao menos parcialmente, quem eu sou, como indivíduo singular pelo que compro, pelos objetos que povoam meu universo pessoal e familiar, pelos signos que combino “à minha maneira. Numa época em que as tradições, a religião, a política são menos produtoras de identidade central, o consumo encarrega-se cada vez melhor de uma nova função identitária. Na corrida às coisas e aos lazeres, o Homo consumericus esforça-se mais ou menos conscientemente em dar uma resposta tangível, ainda que superficial, à eterna pergunta: quem sou eu?
No contexto da modernidade, o indivíduo (até pelo pluralismo de opções) é instigado a todo momento a mudar32. Berger e Luckmann (2004) defendem que isso é sentido como uma grande libertação por alguns, mas também como um grande peso, que aliado ao medo do novo, do desconhecido pode causar bastante insegurança em boa parte das pessoas. “A maioria, porém, sente-se insegura num mundo confuso e cheio de possibilidades de interpretação e, como alguns desses também estão comprometidos com diferentes possibilidades de vida, sentem-se perdidos”. (BERGER; LUCKMANN, 2004, p. 54).
Habermas reforça isso ao dizer que, nas sociedades modernas, com o enfraquecimento das religiões e das tradições, e, consequente, pluralização das formas de vida, há espaço para desenvolvimento de manifestações reflexivas e críticas sobre os saberes e normas (SILVA, 2009).
Giddens (2002, p. 16) reforça esse pensamento explicando que “A falta de sentido pessoal – a sensação de que a vida não tem nada a oferecer – torna-se um problema psíquico fundamental na modernidade tardia.”
Nesse contexto de enfraquecimento das instituições legitimadoras de sentido (como é o caso das religiões e das tradições), Habermas expõe um paradoxo: ao mesmo tempo em que o enfraquecimento dessas instituições provoca nos indivíduos uma maior liberdade para buscar uma posição de autonomia, também os deixa desamparados e buscam esse suporte no sistema, tornando-se dependentes dos ditames do mercado de trabalho sobre o que fazer para manter sua empregabilidade, das ofertas de consumo e do simbolismo nelas envolvido, da moda, dos conselhos de especialistas (WERLE, 2009).
Apesar dessa insegurança e da crise de sentido geradas pelo pluralismo moderno e pelo empoderamento do sistema, os indivíduos podem encontrar nesse contexto,
32 A partir da análise da pesquisa de campo, ficará evidente que essas mudanças podem ou não ter um
grandes possibilidades emancipatórias. Berger e Luckmann (2008, p. 58) explanam que “o pluralismo coloca sempre alternativas diante dos olhos, as alternativas obrigam a refletir; a reflexão solapa o fundamento de todas as versões de um ‘mundo curado’”. Por “mundo curado”, os autores estão chamando o mundo que as instituições “vendem” aos seus filiados. Dessa forma, o pluralismo ameaça as instituições e por estas são rejeitados.
Siebeneichler (2003) também comenta sobre essa crise de sentido. Ele comenta que a crise de sentido se expressa pela indefinição por parte dos sujeitos do que vem a ser a representação de uma “vida boa” e justa. Segundo o autor, “não sabemos como devemos viver, que normas devemos seguir [...]. E o que é mais grave: não sabemos o que devemos querer para viver bem” (SIEBENEICHLER, 2003, p. 41).
A indústria do consumo, como forma de se defender desse movimento, procura não mais trabalhar com uma visão unificadora e generalista. Cada vez mais, baseadas no conceito de pluralismo, as empresas diversificam seus produtos e, por meio de estratégias de segmentação e de marketing de nicho33, buscam atender a toda sorte de
demandas específicas dos consumidores.
Todos esses estudos que discutem o processo de construção de identidades na Modernidade contribuem para o desenvolvimento dos estudos da “Escola de São Paulo”34, em que Ciampa viria a desenvolver a sua teoria de identidade como
metamorfose contínua e que busca a emancipação. Esta teoria, base conceitual desta tese, está descrita a seguir.