altos índices de desigualdade do Brasil.
Dados atualizados, no final de 2008, pelo documento que compõe o relatório anual do Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (UN-Habitat), revelaram-se preocupantes quanto à qualidade de vida nas cidades. (STATE..., 2008).
Chama atenção no Relatório o estudo que detecta que as cidades brasileiras têm hoje as maiores desigualdades de distribuição de renda no mundo, num nível socialmente desestabilizador e economicamente insustentável. Das cidades destacadas, Fortaleza ocupa a 4ª posição, estando à frente Goiânia, apontada como a campeã de desigualdade mundial, seguida de Brasília, Belo Horizonte, Fortaleza e São Paulo.
Fato curioso dentre as causas de desigualdade no País, apontadas pelo Relatório Estado das Cidades 2008/2009, que têm natureza estruturais, estão aquelas que se referem à políticas inovadoras de governos de esquerda. Processos democráticos que envolvem a participação popular, e onde grupos de mais baixa renda têm a capacidade de influenciar instituições e políticas, podem ter aumentado o problema, por não serem adaptados à situação local. Como exemplo, o Relatório ilustra a área metropolitana de Porto Alegre, onde o nível de desigualdade aumentou entre 1991-2000. Contudo, a desigualdade poderia ter sido ainda maior sem o modelo de participação popular, enfatiza um dos autores do citado Relatório.
3.2 Contextualização Sociopolítica do Município de Fortaleza
Cabe nesse momento construir um conhecimento sociopolítico da Cidade de Fortaleza. Para construir esse conhecimento é preciso entender que a cidade se produziu de forma desigual. Essa desigualdade se faz evidente a partir da paisagem urbana que foi apropriado de diferentes formas para diferentes usos. Há em Fortaleza áreas dotadas de infraestrutura e serviços urbanos e há aquelas em que predomina a carência generalizada, espaços em que se convive com falta de pavimentação, saneamento básico, iluminação, e mau atendimento de serviços como saúde e educação.
A ocupação desigual do espaço urbano revelou ricos e pobres, espelhando uma forma de produção espacial contraditória, causada pelo modelo econômico concentrador, onde o espaço geográfico é segregado segundo uma estrutura de classes, em que o mais pobre se estabelece em áreas mais carentes ou despreparadas.
Barreira (1998) esclarece que a questão social em Fortaleza se explicita em relação ao acesso desigual aos bens individuais e coletivos de consumo, tornando facilmente perceptível à simples observação. Para a autora, a desigualdade social se evidencia no plano espacial, na segmentação da cidade configurada por uma divisão entre leste e oeste. O “leste” é predominantemente habitado pela população de padrões médios e altos de renda, concentra o comércio, os serviços de melhor qualidade e a infra-estrutura de turismo. O “oeste”, por sua vez, é habitado pelas camadas de baixa renda, a indústria, o pequeno comércio, o aterro sanitário e os serviços realizados de forma precoce.
A reflexão de Barreira (1998) sobre a problemática da desigualdade física da cidade de Fortaleza aponta para a dificuldade de acesso da população aos frutos do crescimento econômico do Estado. Os dados referidos pela autora a respeito do PIB cearense registra um crescimento de 31,5% correspondente à média anual de 3,99% no período 1988-94, superando a média anual nacional, no mesmo período, que foi de 1,33%.
Dados atuais do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará registram um crescimento do PIB cearense já no primeiro trimestre de 2009 de 3,08% comparado ao mesmo período de 2008 a preços de mercado. A economia brasileira, em contrapartida, não alcançou o mesmo desempenho, registrando um decréscimo de 1,8% no primeiro trimestre de 2009. No caso do Brasil, os resultados refletem os efeitos da crise mundial que refreou um crescimento mais robusto. (CEARÁ, 2009).
Esse crescimento porém parece não refletir uma distribuição equitativa da renda para o Estado, criando um fosso entre pobres e ricos, especialmente em Fortaleza, cidade apontada como concentradora de renda, pelo Relatório das Nações Unidas, comentado anteriormente.
As desigualdades na má distribuição de renda refletem em outros aspectos relacionados às condições de educação, saúde, moradia e acesso a bens e outros serviços básicos. (BARREIRA, 1998).
Por outro lado, esse quadro perverso de desigualdades estimula a prática e permanência de comportamentos clientelistas no atendimento das demandas da população, que se torna presa fácil de políticos inescrupulosos. Torna-se um ciclo vicioso, que se caracteriza pelo poder político nas mãos de uma elite social e econômica local, alijando a maioria da população da participação política direta.
Fortaleza tem uma história política caracterizada pela rebeldia dos setores populares. O Ceará foi a primeira província brasileira a libertar seus escravos, em 25 de março de 1884, quatro anos antes de a libertação ser oficialmente decretada. Esse fato marcou a história da Cidade. Jangadeiros do Ceará, liderados por Francisco José do Nascimento (Dragão do Mar) tiveram papel relevante no impedimento do embarque de escravos para as províncias do Sudeste. Com isso, reforçaram a campanha abolicionista, contando o movimento com forte adesão popular. (CASTRO, 2006).
A partir daí, a transformação da cidade veio pela importante atuação dos setores populares e de trabalhadores, em diversas ocasiões, como na greve dos catraieiros em 1904, a greve da Ceará Ligth and Power em 1917, além de outras formas de revoltas, como a explosão popular contra a oligarquia Accioly. (CASTRO,2006).
Barreira (1998) desloca sua análise sobre a trajetória organizativa do movimento popular em Fortaleza em função da moradia e da provisão de bens e serviços básicos. Para a autora, o alcance dessas linhas de necessidade foi o destaque de algumas modalidades organizativas, destacando-se entre elas um estágio de organização e participação ao largo da esfera institucional, e um outro estágio em que esta ocorre de forma articulada com as instâncias institucionais. Nesses estágios, há diferentes matizes da articulação do movimento popular entre si e na sua relação com o Estado. É no período 1977-1988 que surgem algumas forças congregativas, além das comunidades esclesiais de base.
No cenário político, em termos de Estado, delineiam-se novos fatos que marcam a trajetória dos empresários na Federação das Indústrias – FIEC, em 1978. Um grupo de empresários do CIC, como Beni Veras, Tasso Jereissati, Sérgio Machado, Amarílio Macedo, Assis Machado, dentre outros, defendem uma atuação moderna de gestão empresarial e um projeto político diferente de participação e inserção direta no desenvolvimento do Estado, enfrentando as práticas coronelistas e parternalistas. A candidatura tassista apresenta-se como alternativa de eliminação
daquelas práticas, com um discurso moralizador do Estado e como meio de acabar com a miséria e a pobreza absolutas. (ESMERALDO; SAID, 2002).
A atuação política dos jovens empresários é coroada no Estado com a vitória de Tasso Jereissati (1986), apoiado pelo Movimento Pró-Mudanças, integrado por empresários progressistas e partidos de esquerda como o Partido Comunista Brasileiro (PC do B) e Partido Comunista (PCB). (ESMERALDO; SAID, 2002).
A participação desses partidos garantem à candidatura de Tasso um caráter de legitimidade e credibilidade da parte dos movimentos sociais, ideologicamente identificados com esses partidos políticos. A atuação do PCB se dá nos movimentos sociais urbanos desde 1960 e, desde meados da década de 70, o PC do B tem inserção nos bairros populares da cidade de Fortaleza, nas lutas por moradia, por obras de infraestrutura e por frentes de serviços. (ESMERALDO; SAID, 2002).
Em Fortaleza, a participação popular, nessa época, ainda se caracterizava pela realização de obras mediante o sistema de autoajuda, acrescida do envolvimento na formação de uma rede de solidariedade, envolvendo diversos atores da cena organizativa da cidade. Acontece que, naquele momento, havia a abertura de novos espaços de representação do movimento popular e, de algum modo, a criação de certas regras de convivência política. (BARREIRA, 1998).
Esmeraldo e Said (2002) comentam que o período denominado “Governo das Mudanças”, caracterizado pela modernização da gestão pública e pela abertura para novos investimentos econômicos, realiza-se a partir do primeiro governo Tasso (1987/1990), seguido pelo de Ciro Gomes (1991/1994), sendo retomado pelo governo Tasso (1995-1999), o qual foi reeleito para a gestão seguinte.
A participação da sociedade civil se dá de modo diferenciado para cada um desses governantes. No governo Tasso, as respostas para a sociedade civil advêm por meio de seu secretariado, que tem a autonomia para representá-lo e tomar decisões junto àquela. (ESMERALDO; SAID, 2002). Consentânea com essa afirmação, tem-se a posição de Barreira (2002), para quem as relações entre Estado e Sociedade Civil realizavam, no primeiro governo de Tasso Jereissati, estratégias de participação efetivadas por meio das secretarias estaduais, sobretudo pela Secretaria de Ação Social. A partir da segunda gestão do governo Tasso, em 1995, a proposta de participação era mediada, muitas vezes, pelos Conselhos Municipais de Desenvolvimento Sustentável - CMDS (criado na maior parte dos municípios.
Para alguns autores, a implantação dos CMDS foi considerado um avanço do ponto de vista político, porque ensaia maior abertura da administração pública à penetração de mecanismos de participação popular. (BONFIM, 2002; CORDEIRO,1999 apud BARREIRA, 2002)). Embora houvesse o risco da cooptação pelas elites dominantes ou servisse de estratégia para consolidar a bases políticas do Governo Tasso. (CORDEIRO, 1998; GOMES, 2001).
Ciro Gomes, por sua vez, centraliza essa relação, faz a interlocução com a sociedade civil de modo direto, passando a imagem de governador democrático e participativo. (ESMERALDO; SAID, 2002). Apesar de centralizador, e diferentemente de Tasso Jereissati, Ciro estabeleceu um diálogo mais frequente com as lideranças municipais, promovendo maior aproximação entre a figura política do governador e essas lideranças (BONFIM, 2002).
Ao longo de sua experiência, Fortaleza foi palco de diferentes experiências recentes de Gestão municipal. A eleição da prefeita Maria Luiza Fontenele, em 1986-89, significou uma ruptura eleitoral no âmbito das forças políticas tradicionais representadas pelos “coronéis”, que por meio de pacto ou alianças se reproduziam no poder (BARREIRA, 1998).
O período de gestão da Prefeita Maria Luiza (PT 1986/89) na cidade foi marcado por divergências políticas com o Governo do Estado, à época o Governador Tasso Jereissati (PSDB 1987/1991), que constrói um discurso de inoperância petista, e com o Governo Federal (Governo José Sarney 1985/1990. (ESMERALDO; SAID, 2002).
Apesar das dificuldades de relacionamento político entre as esferas, e de não ter acenado resultados concretos das políticas públicas, os conflitos e discussões colocaram a cidade no centro das atenções, evidenciando a Cidade como espaço de organização sociopolítica e não como espaços de privilégios. Temas como cidadania e participação, embora não consolidados a partir dos canais institucionalizados, evidenciaram-se como símbolos de uma administração municipal e popular. A participação popular tornou-se ícone para a constituição de princípios éticos e agir político. (BARREIRA, 1998).
O sucessor de Maria Luiza Fontenele na prefeitura foi Ciro Gomes, do PSDB, que procedeu a medidas administrativas mais enxutas, tanto em relação à máquina administrativa, quanto em relação ao funcionalismo, promovendo
mudanças institucionais que apontavam para ruptura com o clientelismo político. (BARREIRA, 1998).
Segundo a autora, a participação popular no Governo Ciro à frente da Prefeitura de Fortaleza, que só permaneceu durante dois anos, elegendo-se governador em 1989, deu-se de forma indireta, caracterizando-se de modo incipiente, por meio do acionamento de programas que incorporaram formas de organização popular.
O governo que se seguiu foi o de Juracy Magalhães (1990-1992), vice- prefeito de Ciro Gomes, que assumiu a gestão municipal, imprimindo uma marca administrativa caracterizada pela realização de obras urbanísticas, limpeza da cidade, recuperação de logradouros públicos, viadutos, praças, dentre outros. Nesse período, utilizou-se de instrumentos publicitários que trabalhavam com a imagem de cidade remodelada que proporcionava prazer e orgulho aos seus habitantes. As obras urbanistas tornaram-se uma espécie de prova da eficiência administrativa. (BARREIRA, 1998).
Juracy Magalhães conseguiu eleger seu sucessor como continuador de suas obras, Antonio Cambraia, que de fato deu continuidade às intervenções referentes às obras urbanas. As prioridades dos dois prefeitos se apresentavam constituídas de forma setorializada, com ênfase na infra-estrutura urbana, secundarizando as políticas sociais, no trato das carências sociais (BARREIRA, 1998). Novamente, Juraci é eleito para o período 2001-2004 para suceder Cambraia, dando continuidade ao seu portfólio de intervenções de infra-estrutura. (PABÓN, 2008).
Nas eleições de 2006, o Governo do Partido dos Trabalhadores novamente ascende ao Poder Municipal com o nome da candidata Luizianne Lins. Essa vitória foi fruto de uma reversão diante do que anunciavam as pesquisas de opinião. A candidatura de Luizianne Lins não contou com o apoio da direção nacional do Partido, que se posicionou abertamente a favor do candidato do Partido Comunista do Brasil (PC do B), Inácio Arruda.
Luizianne Lins é eleita com um discurso crítico frente à política macroeconômica do Fundo Monetário Internacional (FMI), às políticas econômicas e às reformas estruturais do Governo do Presidente Luis Inácio Lula da Silva. A sua vitória é creditada, em grande parte, ao apoio do trabalho de base realizado com e por meio do movimento popular e pelas alianças realizadas com o Partido do
Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), Partido Comunista do Brasil (PC do B), Partido Humanista da Solidariedade (PHS), Partido Verde (PV), Partido Social Liberal, Partido da Mobilização Nacional, Partido Renovador Trabalhista Brasileiro (PRTB), Partido Republicano Brasileiro (PRB), Partido Trabalhista Nacional (PTN) e Partido Trabalhista do Brasil (PT do B). As expectativas em torno da eleição da prefeita, desde o início, foram muitas. As expectativas giram em torno da maior participação da população na constituição das políticas públicas, de reverter condições sociais iníquas, de minimizar o quadro de desigualdades e condições de renda de grande parte da população.
A implantação de um Governo popular prometido nas eleições da candidatura de Luizianne Lins, far-se-ia a partir da participação direta dos movimentos sociais e com a inclusão dos segmentos sociais mais desfavorecidos, na tentativa de realizar políticas afirmativas voltadas aos segmentos sociais historicamente excluídos das gestões públicas como os de diversidade sexual, de juventude, mulheres, crianças e adolescentes, pessoas com deficiências e negros. Essa garantia de participação dar-se-ia, sobretudo, por meio do Plano Diretor Participativo e do Orçamento Participativo, política implementada a partir de 2005 em Fortaleza, na gestão da prefeita, objeto do meu estudo.