“Que pena e pincel possam suprir reciprocamente sua insuficiência mútua.”
(JEAN-BAPTISTE DEBRET)
Entre a primeira visita francesa ao território brasileiro e a vinda da comitiva artística no século XIX, a organização social europeia – e mundial – passou por grandes transformações. Do fim do feudalismo à Era das Revoluções, tem-se o surgimento da modernidade, ou do “[...] estilo, costume de vida ou organização social que emergiram na Europa a partir do século XVII, e que ulteriormente se tornaram mais ou menos mundiais em sua influência.” (GIDDENS, 1991, p. 11). As alterações se deram em todos os campos: político, econômico, técnico, social e das ideias. A contestação da ordem social anterior se dava a partir das alterações das
bases econômicas e política e a insatisfação da classe emergente – a burguesia – levou à uma reorganização das relações sociais. O acesso à educação e à cultura são, então, marcas do período que, segundo o historiador Eric Hobsbawm (2004), marcaria uma época em que os ideais de liberdade e igualdade entre os cidadãos dominavam os discursos revolucionários na Europa e se espalhavam pelo mundo.
Para Hobsbawm (2004), esse período compreenderia a última década do século XVIII – iniciando em 1789 – e perduraria até meados do século XIX – mais precisamente, 1848. Dessa forma, mesmo que as ditas revoluções burguesas tenham começado anteriormente, com a Revolução Inglesa (1640) e a Revolução Americana (1776), a marca escolhida por Hobsbawm, para a Era das Revoluções, refere-se, em grande medida, ao calendário republicano francês – 1789, ano da tomada da Bastilha, caracterizando a Revolução e a vitória dos ideais burgueses sobre o clero e a monarquia na França; e, 1848, fim da Comuna de Paris. Esse período compreende, também, o início da Revolução industrial na Inglaterra, com a construção da primeira usina do mundo moderno e, finalmente, ao ano da “Primavera dos Povos” – ou dos levantes do operariado que passava a exigir melhores condições de vida e trabalho – em toda a Europa, se espalhando pelas colônias na África, Ásia e Américas sem, no entanto, conseguir garantir uma vitória a longo prazo, bem como a publicação do Manifesto Comunista, de Marx e Engels (1848). Hobsbawm (1989) caracteriza o período da seguinte forma:
A grande revolução de 1789-1848 foi o triunfo não da “indústria” em si, mas da indústria capitalista; não da liberdade e da igualdade em geral, mas da classe média ou da burguesia liberal; não da “economia moderna” ou do “Estado moderno”, mas das economias e dos Estados de uma região geográfica particular do mundo (parte da Europa e alguns trechos da América do Norte), cujo centro eram os Estados rivais e vizinhos da Grã- Bretanha e França. A transformação de 1789-1848 é essencialmente a o levante gêmeo que se deu naqueles dois países e que dali se propagou por o mundo. (HOBSBAWM, 1989, p. 17).
Esse período analisado pelo autor compreende, portanto, a vitória dos princípios da sociedade burguesa de forma global e do surgimento de uma classe trabalhadora organizada. É, também, o período da “construção das nações”45,
entidades sociais relacionadas ao Estado territorial moderno, ou ao Estado-Nação (HOBSBAWM, 1991, p. 19) que será tema de debates inflamados a partir do século XIX (GUIBERNAU, 1996, p. 48). Os debates da Europa levaram a questionamentos da organização, também, em parte longínquas, principalmente, nas colônias. O espírito contestador do Iluminismo chegaria ao Brasil e, 1789 seria, também, um ano emblemático para a formação do moderno Estado Brasileiro. Esse foi o ano de grandes insurreições contra o poder da Monarquia Portuguesa sobre a Colônia na América do Sul. É possível, por exemplo, perceber o conhecimento prévio dos debates de Iluministas franceses sobre política, economia e organização social nas ideias daqueles que participaram da Inconfidência Mineira, um dos marcos republicanos no país. E, embora não se possa atrelar claramente Revolução Francesa e Inconfidência Mineira, é possível perceber os dois movimentos enquanto explosões do clima libertário do final dos Setecentos e perceber suas afinidades no campo das ideias: os projetos de construção de novas sociedades estão, de alguma forma, interligados46.
É importante salientar que as ações que se passaram no palco europeu tiveram influência direta sobre o encaminhamento da sociedade brasileira no período: da Revolução francesa à era napoleônica, o risco de desaparecimento da Monarquia em Portugal, devido aos avanços de Napoleão Bonaparte e ao seu Bloqueio Continental tiveram por efeito a transferência de Dom João VI, Rei de Portugal, juntamente com sua Corte para o Brasil, em janeiro de 1808. Sendo então alçado a Reino Unido de Algarves, o território colonial brasileiro passou por grandes alterações: a abertura dos portos às nações amigas, garantindo os produtos necessários à vida da Corte e a continuidade das relações econômicas, principalmente com a Grã-Bretanha. O desenvolvimento das relações econômicas levou, também, a um progresso da indústria, a construção de estradas e melhorias executadas nos portos, a um aumento da produção agrícola e à criação de organismos educacionais e administrativos no Brasil47. Em setembro daquele mesmo ano seria publicado o primeiro jornal de circulação no território brasileiro, a Gazeta do Rio de Janeiro. Durante os doze anos seguintes, o Brasil desenvolveria uma relação privilegiada com Portugal, tornando-se sede da Monarquia Portuguesa.
46 Sobre o assunto, Cf. ACERVO. Revista do Arquivo Nacional, Rio de Janeiro, v. 4, n.1, jan./jun.
1989.
47
Sobre o assunto. Cf. PRADO JUNIOR, C. História Econômica do Brasil. Rio de Janeiro: Brasiliense, 2006.
Com o retorno de D. João ao território europeu, em 1821, D. Pedro I seria nomeado príncipe regente no Brasil. Entretanto, a tentativa portuguesa de reinstaurar o status de colônia ultramarina no território brasileiro – que havia sido elevado à condição de reino unido de Portugal – fez com que, em 7 de setembro de 1822, Dom Pedro I fosse levado a declarar a Independência do Brasil – que se tornaria um Império, na esteira de movimentos na Europa. E é nesse contexto de grandes alterações político-econômicas e sociais, que a primeira missão de artistas franceses se instala no Brasil em 1816.
Os artistas da primeira Missão Francesa atinham-se aos padrões da arte neoclássica europeia em suas ilustrações da realidade brasileira. Dessa forma, como observa Carelli (1994, p. 74), há uma representação do Brasil para atender ao gosto europeu da época:
Esta reconstrução do real é flagrante na célebre gravura “Fôret Vierge du Brésil”, do mantenedor das Antiguidades do Louvre, o Conde Charles de Clarac. Nesta cena primitiva, a reprodução da natureza luxuriante dos trópicos atinge seu propósito enquanto os índios são totalmente reinterpretados. (CARELLI, 1994, p. 74).
As cenas brasileiras são, portanto, retrabalhadas tendo em vista o gosto artístico europeu naquele momento: forjavam-se paisagens, os índios, que no século XVI haviam sido figuras de admiração, perdem seus traços próprios para se adequarem à paisagem. As obras tornam-se, então, palatáveis e, mesmo agradáveis para o europeu curioso sobre a vida no Brasil.
O propósito dos pintores franceses não era de “mentir”, mas lhes faltava por demais frequentemente a verificação do cotidiano e essa familiaridade que atenua e amadurece as impressões contraditórias da descoberta. Na maior parte das vezes, o olhar procurava não somente o que queria encontrar, mas ainda imagens apresentáveis, dignas de serem rememoradas [...]. (CARELLI, 1994, p. 76).
Como observa Schwarcz (2010, p. 92), essa representação francesa sobre o Brasil – como as representações no geral – não são um reflexo passivo da realidade, pelo contrário, elas produzem, também, as realidades. Dos pintores
viajantes franceses no Brasil, destacam-se os nomes de Nicolas Antoine Taunay e Jean-Baptiste Debret, que teriam traduzido a natureza pitoresca do Brasil em suas obras.
Considerado um ilustrador e documentarista, conhecedor da importância da movimentação das gravuras para a propagação da imagem do Estado48, coube a Debret assegurar a representação da passagem da família real portuguesa pelo Brasil, como na tela Casamento de D. Pedro e de Dona Amélia (1829). O artista, que ficou em território brasileiro entre 1816 e 1831, voltaria à França, onde exporia suas obras e publicaria Viagem pitoresca ao Brasil, em três volumes compostos por 156 pranchas litografadas e seus textos descritivos.
Liderados por Joachim Lebreton – secretário da classe de Belas Artes do Institut de France – Taunay e Debret, juntamente com Grandjean de Montigny, Simon de Pradier e François Ovide, dentre outros, instalariam-se no Rio de Janeiro para a fundação da Imperial Academia de Belas Artes, em agosto de 1826. Dessa forma, enquanto mecanismos de representação da realidade brasileira, as obras dos pintores românticos franceses da primeira metade do século XIX servem de modelo para essa sociedade que se estruturava.
O que se percebe a partir das gravuras dos artistas da missão francesa é uma necessidade de adaptação de uma sociedade mestiça que fosse palatável ao europeu: a realidade brasileira se alterara nos Oitocentos tendo em vista, exatamente, as mudanças ocorridas na Sociedade Internacional Europeia. A reestruturação dos portos, a mudança da Corte para o Rio de Janeiro, a construção da cidade e o desenvolvimento da moda, dos transportes e das instituições, dentre outros, nos arquétipos europeus.
Esse Brasil da primeira metade do século XIX, sob forte influência europeia, seria essencial para a construção da própria identidade nacional do país, uma vez que essas seriam as bases para a construção do Estado-nacional brasileiro anos mais tarde. Ressalta-se, também, a forma como a questão da miscigenação – já presente de forma fluida nos séculos anteriores – é representada nas obras desses artistas franceses ao tratarem da “família brasileira”. A “terra dos canibais” do século XVI que chocara o Velho Mundo, que selvagizara os europeus em seu próprio processo de conquista e colonização – como apontaram Thévet e Lery – pela
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Sobre o assunto, Cf. DEBRET. Enciclopédia Itaú Cultural. Disponível em: <http://goo.gl/EMDG8A>. Acesso em: 10 abr. 2015.
simples convivência com os índios seria pacificada pelo favorecimento da união entre índios e colonos (CARELLI, 1988; FREYRE, 2005). Primeiramente com os índios, em seguida com os negros, de forma a completar a “epopeia mestiça” de formação do povo brasileiro. Esse será um traço importante para a formação da identidade nacional brasileira que surgirá nas décadas seguintes.