BÖLÜM 3: USUL-Ü CEDİD OKULLARI
3.2. Abbaskulu Ağa Bakihanov’un Müslüman Okulu Projesi
A discussão da agenda desembocou num patamar onde não mais era possível discursar querer mudanças, ventania que desnudou o desejo de não mudar, de reproduzir, de prosseguir agenda, trabalho, rotina, atendimento como conhecem.
Não foi possível reformular o atual formato das agendas dos trabalhadores da Unidade de Saúde.
E agora José? pergunta Drumond: O dizer não foi fazer. As linhas de visibilidade e dizibilidade se deslocam: O dizer é mudar, o visível é mudar para quê? Já não está bom?
Tantos pisam esse chão que ele talvez um dia se humanize. E malaxado,
embebida da fluída substância de nossos segredos,
quem sabe a flora que aí se elabora, calcária, sangüinea? (ANDRADE, 1983, p. 130)
Finalizando nosso percurso pelo território agenda interroguemos mais uma vez: as agendas existem para regulação de fluxos de gente, de desejo e de vida? Pouco serviço de saúde e muita gente para atender? Parece também isso: são barragens de usuários para os serviços de saúde que estão privatizadas por distintos trabalhadores pois cada um tem a sua e a controla e assim fortalecem a equipe flexneriana/resistente às mudanças. Trabalhador de saúde deveria ser produtor de vidas, não de barragens, se aborrece com isso, acha jeitos de prosseguir: reproduz.
As discussões sobre a agenda extraíram pelo meio as dificuldades de aceitar a imprevisibilidade dos atendimentos em saúde e o medo de não-saber dos trabalhadores, que a produzem equipe dura-sem-cintura e inflexível.
Território reticulado que abre-se em fissuras passando a liso quando produzem-se não sentidos, ladainhas, e mais sofrimento que qualquer coisa, estria-se e alisa-se, sem cessar, se produzindo mais estriado e árvore.
Antes de entrarmos no território da paranóia, façamos uma pausa para relaxar: Lembra-se que durante as discussões sobre a agenda um trabalhador falou do desejo de realizar um trabalho que traga satisfação?
Todos aqui têm o desejo de atendimento de boa qualidade! Ahn... No sentido de que o paciente também saia satisfeito né? Ahn... Que a gente... Também fique satisfeito né? (Grupo em 14 de Junho).
Viajemos em lembranças:
Estamos num sítio em Minas Gerais, o inverno tem castigado mais com a secura do ar que com o frio. As árvores e todas as plantas estão ressentidas pela falta de chuva. O pó da terra faz a atmosfera mais vermelha e os bichos estão mais juntos e encorujados.
O trabalho de análise dos grupos para a escrita da tese tem me acompanhado mesmo nos raros momentos de folga e de conversas com meus irmãos. É um deles que me conta sobre uma conversa de roça.
Sr Emílio é peão, amansador de cavalos, retirante, vive a vida num lombo de bicho.
Durante a pausa do almoço acontece o seguinte diálogo:
— Sr Emílio como a égua Estrela está bonita, nem parece que esteve doente.
— Pois é, tava bem judiada, mas eu fui tratando, tratando, ela foi me agradecendo, agradecendo...
— Agradecendo? Como assim?
— Foi arribando, melhorando, sarando.
Um link com nosso estudo e nossa viagem: na língua menor do caboclo de Minas um profundo ensinamento sobre e para trabalhadores de saúde: Esperamos que as pessoas das quais cuidamos nos agradeçam!!! Agradecimento que não tem a ver com não reconhecimento do direito à saúde. É direito do usuário ser cuidado com resolutividade e qualidade. Esperamos que ele agradeça melhorando, arribando, sarando, isso é satisfação, é passagem do desejo para a produção e produção de desejo.
Essa é uma busca legítima, pois o trabalhador sabe, às escondidas, que o sentido do que faz é o de que o outro se sinta cuidado e preferencialmente que se restabeleça. Quem cuida, quer colher frutos do trabalho: quer ver a vida rebrotar, mesmo no inverno, invernada.
4 Território Paranóia:
É tempo de meio silêncio, de boca gelada e murmúrio, palavra indireta, aviso na esquina. Tempo de cinco sentidos num só. O espião janta conosco (ANDRADE, 1983, p. 112)
É tempo de nos dirigirmos a um outro território que denominaremos de “paranóia”. Volta e meia olhamos para trás. A sensação é a de estarmos sendo observados sempre.
O sol é um grande olho que tudo vê como os de Horus, filho de Osíris. Deus egípcio, Hórus é criatura com corpo de homem e cabeça de águia. Seus olhos são misturas de olhos humanos e olhos de águia: uma porção sol e outra lua, podendo enxergar dia e noite.
Olhos negros de sol e de lua rondam a paisagem paranóia. O terreno é pequeno mas tem espelhos por todos os lados, o que produz uma amplificação dos sentidos e das dimensões, fazendo do horizonte um enclausuramento; da planície uma jaula.
Olhem para céu, sigam o Amir Klink (1985) em sua imagem de um tubarão amarelo de nuvens deixando escorrer de seus olhos o amanhecer:
O tempo não andava muito católico e eu aguardava ansioso as primeiras luzes do amanhecer para ter uma noção de como seria o dia. O mar poderia às vezes por algum tempo, parecer o mesmo, mas o céu, nunca. Cada amanhecer e cada pôr-do-sol, por mais que o tempo fosse estável era sempre uma nova surpresa. Os primeiros sinais do dia que estava para nascer revelaram sombras escuras no horizonte. Não havia céu. Nuvens grossas corriam com o vento forte, baixas, não deixando o sol sair. [...] Aos poucos o escuro foi-se diluindo em direção ao nascente e os contornos desse vazio tomaram uma forma achatada e definida que acompanhou as nuvens. A luz vermelha do dia entrou por ali, deixando claramente definido o formato de um tubarão.[...] A pequena nuvem que fazia o olho derreteu-se e escorreu como uma lágrima arrancada pelo vento. E, por dentro do tubarão, o dia nasceu (KLINK, 1985, p.130).
Tubarão nas nossas cabeças são projeções dos tubarões das águas do mar, ficam grandes demais e ganham também o céu. Deles escorrem amanheceres e milhares de pontos luminosos.
Medo do tubarão que ronda o barco frágil, e os temores da equipe em paranóia são os mais variados: medo de ser visto, de não saber, de perder, de não ser incluído, de ser “patinho feio”. A competição é facilitada pois não sabemos quem são os amigos e nem quem são os inimigos, e o importante é se sobrepor, se destacar. Desconfiem de tudo e de todos.
Há uma exterioridade hegemônica e tudo se passa no outro e com o outro, cisão do dentro e do fora, dentro há o conhecido: o eu mesmo, e fora estão todas as dificuldades: o outro é que não muda, o outro é quem atende a população de modo inadequado, o outro precisa ir embora para voltarmos a viver em paz.
Nesse território não há possibilidade de inclusão plena da diferença que ameaça mostrando nossos medos e limites, há apenas potência para a exclusão que acalma e confirma que o problema é o outro, está no outro e fora.
Por falar em medos, lembremos dos três medos ontológicos do humanos: medo de morrer, de fracassar e de enlouquecer. No território paranóia eles estão bem atiçados, e para não fracassar, que o fracasso seja do outro, para não morrer que a morte seja outra (não desejar — morte do desejo,) e para não enlouquecer, a loucura é não viver.
[...] há sempre uma angústia pairando no ar. Angústia que tem uma face ontológica (medo de a vida se desagregar, de ela não conseguir perseverar; medo de morrer); uma face
existencial (medo de a forma de exteriorização das
intensidades perder credibilidade, ou seja, de certos mundos perderem legitimidade, desabarem; medo de fracassar); uma
face psicológica (medo de perder a forma tal como vivida pelo
ego; medo de enlouquecer). Essa angústia gera uma tentativa, sempre recomeçada de abolição da ambigüidade.[...] Dá para dizer que essa angústia é a própria nascente dos mundos (ROLNIK, 1989, p.49).
Amanheceres escorrendo dos olhos de tubarão: paranóia é nascente da mesmice, da repetição, pode ser nascente de outros mundos.
Para Deleuze e Guattari (2000) há em produção permanente nas instituições o modo de funcionamento esquizo e o paranóide.
No modo esquizo há cisão com o conhecido, há possibilidade do novo, da arte. No delírio esquizo temos produção de produção, a descaptura do modo de subjetividade capitalística que se singulariza em devires outros, devires em potências.
Paranóica é a seqüência, a repetição, a diligência para os buracos negros, pontos de anti-produção da vida.
Baremblitt (199-?) assinala que o pólo paranóide fecha possibilidades de invenção, fecha-se sobre si mesmo, o esquizo abre:
[...] em todo escrito, em toda iniciativa, em todo discurso, etc... tem o que se chama um pólo paranóide [...] um pólo paranóide, um pólo fascista, um pólo hierarquizador, acadêmico, aristocrático, que fecha. E um pólo esquizóide, um pólo revolucionário que abre (BAREMBLITT, 199-?, p.10)
Na proposta esquizoanaílitica é tarefa associar-se ao pólo esquizóide revolucionário, como diz o autor acima, soprando as brasas desse pequeno fogo para avivá-lo porque este arrasta para a vida. Um grande incêndio pode ser produzido a partir de pequenas fagulhas, incêndio produtor de vida e não consumidor dela.
No território paranóia, a dor é negada e retida. Múltiplas dores. A dor frente à exclusão social, miséria, morte, afeta os trabalhadores e são trazidas em cenas vividas com cotidianidade.
Ante a dor produzida pelo sofrimento no trabalho em saúde, Sá (2001) analisa sua banalização e a do sofrimento alheio e elenca modos da manifestação nos serviços de saúde:
Se manifesta pela apatia burocrática, no coorporativismo, e na omissão dos profissionais, na falta de ética, de respeito, e de solidariedade na relação entre profissionais de saúde e destes para com os usuários/pacientes. O clientelismo e o fisiologismo também não poupam os serviços de saúde. O saldo desse processo não se traduz apenas em ineficiência, baixa produtividade, baixa cobertura e baixa qualidade dos serviços, mas principalmente, em sofrimentos, seqüelas e mortes desnecessárias (p. 154)
Deixemos os textos do saber oficial reconhecido. Peço licença ao viajante nômade primeiro para abrir um jornal. De preferência na parte
mais leve, onde haveria ilustrações como se intitula o caderno22, mas a surpresa é a palavra escrita em letras grandes:
Dor
. Acima da página uma foto de gente presa e cercada, expressões lívidas, olhares distantes, profundos e graves. Num canto da foto a mensagem escrita: “internos emcampo de concentração em Buchenwald, Alemanha, em 1945”.
Vem-me a mente: gente morta e ainda aflita. O texto tem tom de entrevista, com perguntas e respostas, acima da foto está em letra menor:
Susan Sontag vê a. Ela vê a dor, por ser fotografa mostra a dor por fotos
de guerra.
Em um dado trecho da matéria a entrevistada revê sua posição em “Ensaios de fotografia” dos anos setenta. Defendia que a força moral de mostrar fotos de guerra estaria neutralizada pelo excesso de exposição. Acompanhe-me num trecho da matéria:
Não é o acúmulo de fotos que produz a indiferença; há uma série de outros fatores em jogo. “A compaixão é uma emoção instável” diz a autora. “Ela precisa ser traduzida em ação, do contrário definha”. Comover-se apenas, não é grande mérito moral. Por outro lado, podemos facilmente querer virar a página do jornal ou desligar a tv se considerarmos que a situação retratada é insolúvel. Sem dúvida uma mera foto, por mais terrível que seja, não substitui a uma análise contextualizada da situação que a produziu. “Imagens dolorosas e pungentes fornecem apenas uma centelha inicial para que cada um de nós ( se puder) vá mais adiante. (COELHO; MOURA, 2003, E- 4, entrevista concedida por Susan Sontag ao Jornal Foha de São Paulo)
Multiplicando: A exposição exagerada de cenas de dor e sofrimento deixa o trabalhador de saúde num estado de imunidade a dor (que produz a não-humanidade) e a não-tradução do sentimento produzido pelo contato com a dor em ações concretas faz definhar a comoção e é necessária a contextualização, a conversa, a produção de sentidos para a dor e o sofrimento vividos no trabalho em saúde. Ao invés de negá-la, multiplicar seus sentidos e carecemos tomar a dor como centelha não para consumir a vida mas para deixá-la passar livre e...
Vamos para outros campos de saberes que também tratam das dores humanas, a música popular canta:
Tem dias que a gente se sente/ Como quem partiu ou morreu/ A gente estancou de repente/ Ou foi o mundo então que cresceu/ A gente quer ter voz ativa/ No nosso destino mandar/ Mais eis que chega a roda viva/ e carrega o destino prá lá/ (BUARQUE;MPB 4,1967)
Paranóia é roda viva que faz a dor estancar de repente e o mundo crescer e o tubarão ganhar o céu e a voz ativa calar nas voltas do meu
coração. Paranóia é o lugar da acusação: acusações no trabalho,
vejamos as oito peças de acusação de Massi (1999):
Primeira acusação: as organizações produtivas fabricam infelizes porque constrangem os seus dependentes a serem (ou pelo menos parecerem) eficientes e competitivos a todo o custo (p.31)
Na paranóia a competição: atacar antes.
Segunda peça de acusação contra a atual organização do trabalho: a tristeza estética de seu teatro de guerra (p.32)
Nos locais de produção a desordem, a feiúra, anonimato e a monotonia, a falta de condições no trabalho.
A prática da hora-extra, a incapacidade de compensar os inconvenientes vividos pelos trabalhadores (as dores no trabalho em saúde, por exemplo), o tempo contado, a estranheza e a impotência que são gerados nos colaboradores da organização, o sadismo e o medo, e a degeneração burocrática, são as outras teses de acusação para a organização atual do trabalho elencadas por Massi (1999).
Embrenhemos paranóia adentro, acusações e defesas!!!
4.1 O início dos trabalhos: a supervisão é a paranóia !!!
Por muitas vezes, no papel de pesquisar/intervir fomos arrastados por labaredas incandescentes que tomavam por combustível o oxigênio e a vida, lavra, magma liquidificada em calor, que grudava a equipe de análise/intervenção no pólo paranóico junto com a equipe. O pesquisar/intervir do início dos trabalhos deixava-nos todos em paranóia:
ver e ser visto, medo das analistas e da equipe, desconfortos que fizeram um esconde-esconde infantil mas não-criança.
C. C - O que vocês acham que vai acontecer aqui?
I 1 - Fiquei pensando na metodologia ( ) preocupada ( ) ansiosa. ( ) às vezes...
C. C - com qual finalidade que ficou ( )
I-1 - ( ) ajuda ( ) intervenção externa, ( ) caminhar um pouco melhor
C.C - E as outras pessoas? (grupo em 8 de Março de 2002)
O sentimento de preocupação e ansiedade e o desejo de caminhar melhor, emergem assim como as falas não capturadas23 e registradas por inteiro, frases esburacadas, queijos e luas no diálogo do grupo .
I-2 - Posso estar colocando? Espaço para reflexão sobre o trabalho( ) caminhar, entender
I-3 - A primeira vez enriqueceria só vocês, teria retorno ( ) vomita e não ajuda a resolver ( ) Aí vocês voltaram, explicaram. ( ) Dr Z até discordou de vocês. Acho que vai por em confronto ( ) essa discussão, as relações, as angústias com o trabalho ( ) Penso ( ) claro que vocês estão, vão tirar proveito ( ). Espero ter um retorno. ( ) as pessoas não estão com propostas de mudar. ( ) preocupada que não são as mesmas pessoas que vão participar de todas. ( ) tenho certeza que vai ( )
I-4 - Acho que vocês vão observar o comportamento de cada um, como agem ( ), se está tendo entendimento, se tá tendo muito desacordo.
I-5 - O que a I-4 da falou mais o trabalho. É isso? (grupo em 8 de Março de 2002)
Ser explorado e expropriado é o que parecem temer. As relações capitalísticas, de benefício apenas de uma das partes, são conhecidas no mundo do trabalho e por esses trabalhadores que se propõem a resistir a nova exploração que entendiam se desenhar: neste caso, a das pesquisadoras que levariam deles os dados, os conhecimentos e fariam um capital individual e privado, a tese.
Resistir a exploração é linha de fuga possível para o modo capitalístico de produção. O serviço escola talvez já tenha vivido muitas
23 Nesse momento da intervenção/pesquisa, não estávamos fazendo uso do gravador, devido a não
solicitação formal para os trabalhadores de suas autorizações o que foi realizado nesse encontro de 8 de Março.
vezes a chegada dos pesquisadores, como a dos colonizadores que nos idos de 1500 D.C. atravessaram os mares em expedições levando o que lhes interessava mediados pelo saber/poder numa relação de força desigual.
A equipe de análise/intervenção ganha dos trabalhadores o grande olho que tudo vê, e ainda o apito de juiz do jogo. Um anúncio: “as
pessoas não estão com propostas de mudar. ( ) preocupada que não são as mesmas pessoas que vão participar de todas”.
As lembranças do referencial de grupos operativos (ADANSON, 1977), nos levam para as fases e mitos vividos nos grupos: “Eu não sou você”, a acentuar a diferença pelo temor da fusão e da indissociabilidade, abrindo-se para o desejo de “Eu sou você”, participante igual, amante igual, investidor igual nas propostas do grupo.
A esperança da terceira fase do grupo nesse momento é da equipe de intervenção: “Não sou você, sou como você”. Poderá haver a diferença, e sua inclusão não dividirá, fará dos trabalhadores uma máquina de produção de vida.
Encontro com a onipotência no trabalho de análise/intervenção: o grupo tem um traçado à priori na cabeça da analista. E a diferença, os outros caminhos possíveis, o entre, a multiplicidade de devires?
Esquema árvore de representação dos grupos: semente, broto, árvore, seqüência e fases. Os grupos operativos fazem parte da caixa de ferramenta das analistas, e a questão é como fazer da árvore um rizoma? Como fugir do único sentido? Da sobrecodificação? Arriscando, saindo do conhecido, talvez, mas em paranóia é dificil para as analistas se arriscarem.
Ouçamos o convite de Deleuze e Guattari ( 2000):
Nunca fazer raiz, nem plantar, se bem que seja difícil não recair nos velhos procedimentos. “As coisas que me vem ao espírito se apresentam não por sua raiz, mas por um ponto qualquer situado em seu meio. Tentem então retê-las, tentem então reter um pedaço de erva que começa a crescer somente no meio da haste e manter-se ao lado. Por que é tão difícil? É desde logo uma questão de semiótica perceptiva. Não é fácil perceber as
coisas pelo meio, e não de cima para baixo, da esquerda para a direita ou inversamente: tentem e verão que tudo muda (p.34)
A seqüência das falas proposta pela coordenação do grupo ao mesmo tempo propicia rodar a palavra e permanecer em circularidade: o coordenador é o centro, todos falam para ele, vive também o conhecido coordenador-centro-que-sabe, (a coordenação árvore que em paranóia não consegue se fazer rizoma) e o medo de ser explorado não pôde nesse momento ser nominado.
C.C - Falta a I-6 e a I-5.
I-5 - Não entendi nada de nada. Aqui, nós não participa. Eu tô mais por fora ( ) Não sei o que ( ). Vou esperar a Dra. Y ( )
I-3 - Agora a I-6.
I-6 - A minha opinião vai mais pro lado da I-2 ( ) algumas coisas do trabalho, o que a gente pode estar melhorando. (grupo em 8 de Março de 2002)
No mesmo encontro fizemos um exercício com o objetivo de que cada um apresentasse o outro. Estávamos interessadas na mútua representação interna da equipe e no mapeamento dos vínculos, e os trabalhadores expressaram suas dificuldades de relação entre si e com a equipe de coordenação.
A mútua representação interna é também um conceito da escola Argentina de grupos, dos grupos operativos de Pichon-Riviére (1982). É mútua porque envolve encontro de pessoas que produzem referências em relação ao outro e que ficam internalizadas nas pessoas em seu mundo interno.
As mútuas representações internas podem ficar estáticas: o outro sempre igual, imóvel e fixo, fazendo dos vínculos, dos laços que unem as pessoas semelhanças às águas estagnadas.
Naquele momento, nos interessava conhecer as mútuas representações e os vínculos, mas também interessava-nos produzir possíveis revisitas dos trabalhadores às suas imagens, amizades, afinidades e seus reversos.
Com o exercício grupal de apresentar o outro, o medo de ser expropriado abriu passagem para outro medo: do choro e das brigas, da incompreensão.
I-6 - Jogo de empurra. O meu amigo secreto é... Uma agente comunitária. Faz visitas, ajuda na recepção, discussões de caso... Que mais que a I 7- faz? Pão de queijo, não deixa passar um quintal com latinha e garrafa Pet.
I-7- (chora) Desculpa que estou assim. Pessoa é indiferente. Isso me magoa. ( ) não procuro. Sei que ela faz a limpeza do posto, faz café e ( )
(I-5 é chamada para atender telefone) I-5 - Quem é?
C.C -
I-6 - então eu vou pedir (I-6 sai para resolver a questão do telefone para I-5)
C.C - A I-7 se emocionou. alguém quer falar...?
I-5 - desde que eu voltei (das férias?) ela não conversa comigo, eu não converso com ela.
C.C - Alguém mais gostaria de falar alguma coisa sobre isso?
I-2 - essa semana, essa daqui (aponta I-8) falou que eu não dou mais atenção ( ) Essa situação era algo que eu não conhecia. . (grupo em 8 de Março de 2002)
O modo de funcionamento paranóide não deixa que o devir- criança se faça devir da equipe. A criança briga, brinca, e passa, a equipe briga fica de mal e jamais se esquece: faz da dor um canteiro para cultivo