De forma resumida, pode-se dividir os diferentes períodos recentes de atividade comercial internacional, de acordo com o seu grau de liberdade praticado, em 4 fases: Mercantilismo, Liberalismo, da Primeira Grande Guerra ao Fim da Guerra Fria, e Neoliberalismo.
2.2.1 Mercantilismo
O período conhecido como Mercantilismo se situa entre o início do século XV e o fim do século XVIII. Ele marca o fim do feudalismo e foi fortemente influenciado pela abertura de novas rotas comerciais, que promoveram a expansão de mercados e o crescimento das atividades de troca. Suas origens remontam ao processo de formação do Estado moderno e ao desenvolvimento da Revolução Comercial. Na passagem da Idade Média aos Tempos Modernos, os pequenos mercados locais formados pelas cidades medievais cederam lugar a um amplo mercado nacional formado pelo território e pela população submetidos à soberania
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da monarquia centralizada. Ao mercado nacional somou-se o mercado mundial, que se formou em conseqüência da descoberta dos novos continentes pelas Grandes Navegações do século XV (MELO, 1993).
A criação de centros de comércios que competiam por essas rotas e a necessidade premente de sustentar esse modelo de expansão comercial requeria uma quantidade de meios financeiros superior às possibilidades das estruturas existentes. Somente uma forma organizacional mais sofisticada, como a do Estado Nacional, poderia levantar os recursos, humanos e materiais, necessários à tarefa de desenvolver esses novos projetos. A formação quase simultânea de Estados Nacionais, tais como Portugal, Espanha, Holanda, Inglaterra e França, estruturados internamente como Estados modernos, centralizados e unitários, teve, portanto, uma íntima conexão com a expansão e exploração de novas rotas comerciais que apresentavam riscos crescentes (FALCON, 1990).
Wilson (1982) coloca que as políticas chamadas de mercantilistas que prosperaram nesse período defendiam que a riqueza de uma nação residia na acumulação de metais preciosos, tais como ouro e prata, e no incremento das exportações e da restrição às importações, gerando uma balança comercial superavitária. O Estado desempenhava um papel intervencionista na economia, implantando novas indústrias protegidas por barreiras alfandegárias, controlando o consumo interno de determinados produtos e melhorando a infra- estrutura. Adicionalmente, o Estado promoveu a colonização de novos territórios, utilizando essas novas regiões de influência como uma garantia de acesso a matérias-primas e ao escoamento de produtos manufaturados.
2.2.2 Liberalismo
O liberalismo econômico surgiu na Europa e na América no final do século XVIII como uma antítese do Mercantilismo, ao defender a emancipação da economia de qualquer dogma externo a ela mesma. Em 1776, dois fatos concomitantes e fundamentais para o fortalecimento de ideais liberais ocorreram em regiões distintas. No local em que se constituiria os Estados Unidos da América, foi lavrada a Declaração da Filadélfia sobre a liberdade política. Simultaneamente, economistas como Adam Smith (1999) e David Ricardo (2002) apregoavam que o livre comércio era benéfico a toda e qualquer nação. Nesse ano,
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Adam Smith publicava “A Riqueza das Nações”, na Inglaterra, argumentando que o liberalismo econômico se fundamentava no livre comércio, na abolição de restrições ao comércio internacional, no livre-câmbio, no padrão-ouro e no equilíbrio orçamentário. Para Smith, não eram necessárias intervenções na economia, visto que o próprio mercado dispunha de mecanismos próprios de regulação da mesma: a chamada “mão invisível”.
O liberalismo se assentava no princípio da livre iniciativa, baseado no pressuposto de que a não-regulamentação das atividades individuais no campo socioeconômico produziria os melhores resultados na busca do progresso. Dessa forma, a especialização internacional do trabalho levaria os países a produzir, com maior eficiência, aquilo que eles sabiam fazer com maior facilidade, ou cujos recursos existentes nos seus respectivos países assim os possibilitavam fazer.
Dois eventos são simbólicos para o liberalismo. Em 1846, a chamada Corn Law, criada em 1815 na Inglaterra para proteger produtores agropecuários ingleses contra a competição de produtos importados através de tarifas de importação, é revogada e, em 1860, um tratado de livre comércio é assinado entre a França e a Inglaterra (WELLER, 2006). A Inglaterra, um dos líderes do comércio oceânico e em estágio adiantado no processo de industrialização de sua economia, consolida-se como a maior potência militar e econômica da época. Através dessa hegemonia, a Inglaterra organiza um sistema financeiro internacional em que a libra esterlina era passível de ser convertida em ouro, possibilitando maior segurança nas transações internacionais. Adicionalmente, estabelece as bases de um sistema de transporte marítimo mundial, com suas colônias espalhadas em diversos continentes representando um papel crucial na oferta de serviços de armazenagem, entreposto, transbordo e transporte marítimo de longo curso (KENNEDY, 1989).
O processo de colonização européia da África e Ásia gerou novas correntes de comércio, uma enorme transferência de capitais, sobretudo ingleses, na seqüela da expansão imperial, assim como grandes migrações humanas para a colonização dos novos continentes.
2.2.3 Da Primeira Grande Guerra ao Fim da Guerra Fria
Embora de duração mais curta, quando comparada com os períodos anteriores, esta fase compreendida entre os anos de 1914 e 1989 foi marcada por grandes crises e
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profundas transformações sociopolíticas, econômicas e tecnológicas. A Primeira Guerra Mundial, ocorrida entre 1914-1918, serviu como marco a partir do qual se iniciou a era dos coletivismos de direita e esquerda - o nazifascismo e o comunismo -, ambos hostis ao livre comércio e favoráveis ao isolacionismo (CAMPOS, 1997).
A crise de 1929, que teve entre outros fatores uma excessiva austeridade monetária por parte do governo norte-americano, uma superprodução de produtos que os mercados não conseguiam absorver, uma distribuição desigual de riqueza e, finalmente, a queda abrupta das cotações nas bolsas de valores, gerou um quadro de recessão e desemprego em caráter mundial (McELVAINE, 1984). Debilitou o capitalismo e provocou uma irrupção de protecionismos. Como uma das suas possíveis conseqüências, e em conjunto com uma série de outros fatores, em 1939 é deflagrada a Segunda Guerra Mundial, que durou até 1945 (OVERY, 2007).
No período pós-guerra, compreendido entre 1945 e 1960, o processo de globalização volta a tomar forma através de planos de ajuda econômica, tais como Marshall na Europa e Colombo na Ásia, onde as nações vencedoras buscaram uma nova forma de hegemonia econômica (MARSHALL, S.d.; COLOMBO, S.d.). Esse movimento foi rapidamente acompanhado por firmas americanas e européias, que buscavam novas alternativas para expandir os seus lucros. Adicionalmente, organismos multilaterais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), também surgiram com o intuito de intensificar o comércio e fomentar o desenvolvimento econômico (IMF, S.d.; WORLD BANK, S.d.).
As décadas de 1970 e 1980 protagonizaram um acirramento das relações entre as duas potências dominantes após a Segunda Guerra Mundial, Estados Unidos e União Soviética, e crises econômicas, tais como a cambial em 1972 e os choques de petróleo em 1973 e 1979. Como algumas das suas conseqüências, as distâncias entre o potencial econômico dos países foram ampliadas e o esgotamento da capacidade do Estado em financiar os gastos exigidos por uma política de bem-estar social, implementada ao longo das décadas anteriores, ficou mais latente (LEAL, 1990).
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2.2.4 Globalização e Neoliberalismo
A ruptura do sistema econômico socialista soviético, simbolizado pela queda do Muro de Berlim, em 1989, pôs fim a mais de 40 anos da chamada Guerra Fria. Com esse acontecimento, extinguiu-se a divisão do mundo em dois blocos ideológico-econômicos estanques, oponentes e hegemônicos, consolidando o sistema capitalista como principal sistema econômico (THUROW, 1997). Concomitantemente ao esfacelamento político- econômico da União Soviética, blocos econômicos regionais se formam ou se fortalecem. União Européia na Europa, Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA, na sigla em inglês) na América do Norte e Latina, Mercosul na América do Sul e Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico (APEC, na sigla em inglês) na Ásia são alguns dos exemplos.
Adicionalmente, o advento de novas e mais acessíveis tecnologias de informática e comunicação nesse período potencializa a aproximação de empresas e países. O processo de internacionalização se torna mais agudo. Barreiras comerciais, tanto as tarifárias como as não alfandegárias, são eliminadas ou renegociadas através de tratativas diretas entre países ou através de fóruns multilaterais, como o de Doha. Organismos, como o World Trade Organization (WTO), ganham maior importância no processo de arbitragem de disputas comerciais. Os fluxos comerciais e, principalmente, financeiros se intensificam, gerando um aumento no volume e na velocidade com a qual capitais financeiros se deslocam de uma região para outra, mas também na volatilidade. Tanto países desenvolvidos quanto em desenvolvimento, como Brasil, China e Índia, recebem volumes sem precedentes de investimentos diretos voltados para a implantação dos mais diversos projetos. (THUROW, 1997; GILPIN, 2002)
Com o aprofundamento do processo de internacionalização, nações muitas vezes se viram compelidas a reduzir suas soberanias nacionais, com o capital privado controlado por investidores individuais, grupos de investidores ou empresas assumindo um papel central em várias decisões. Conflitos comerciais entre países começam a dar lugar a outra modalidade, em que empresas ou indústrias negociam diretamente com países soberanos termos comerciais das suas relações. Fatos como o conflito comercial entre a indústria farmacêutica mundial e o Brasil, com respeito à fabricação de remédios genéricos para tratamento de pacientes com o vírus Human Immunodeficiency Virus (HIV), ou a criação de barreiras
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alfandegárias à entrada de suco de laranja brasileiro nos Estados Unidos, por pressão de produtores locais, exemplificam essa mudança de paradigma.
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