Arie Klausner, pai de Amós Oz, tinha um gosto pelo sublime, pelo grandioso: “Meu pai crescera à base de uma dieta saturada de romantismo teatralmente patriótico, de um romantismo sedento de batalhas”137. Por duas ou três ocasiões, foi incumbido da pesada tarefa de vender alguns volumes para trazer mantimentos para o “shabat”. Nessas circunstâncias, saía de casa cabisbaixo, com os volumes debaixo do braço, e retornava tempos depois, com os mantimentos, e essas situações faziam Oz lembrar-se de “Abraão ao sair de sua tenda de madrugada, carregando Isaac no ombro a caminho do monte Moriá”138. No entanto, em outras, voltava vitorioso do sacrifício de Isaac, com um novo e ainda mais raro e precioso livro debaixo do braço.
Era um entusiasmado pelas palavras e as trabalhava como um ourives, polindo-as, lapidando-as como a um diamante. Há uma passagem em De amor e trevas que descreve bem aquela função:
Eu entrava sorrateiramente no escritório e ficava na ponta dos pés espiando por trás das costas do meu pai, curvado sobre sua mesa, a cabeça exausta como que flutuando no círculo de luz amarela projetado pela sua lâmpada de trabalho, enquanto devagar, penosamente, ele escalava o wadi íngreme que passava no meio de sua escrivaninha entre duas pilhas de livros, consultava os livros que ficavam abertos à sua frente, recolhia os mais
136 OZ. De amor e trevas. 2005. p. 81. 137
OZ. De amor e trevas. 2005. p. 291.
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variados tipos de dados, aproximava-os da luz da lâmpada e os examinava com cuidado, ponderava, escolhia, copiava-os minuciosamente em uma das suas pequenas fichas, para então montá-los no lugar exato do quebra- cabeça, como um ourives compondo as pedras preciosas de uma tiara139.
Arie Klausner tinha um método obsessivo em seu trabalho, cada palavra devia seguir uma ordem, um padrão. Era um escritor que se ocupava das minúcias, procurava a etimologia dos vocábulos, ia até sua origem, trabalhava lentamente, pacientemente, polindo suas “pedras preciosas”. O fato é que esse amor foi passado de pai para filho e, apesar da tentativa de Oz de sair de casa após a morte de sua mãe, de abandonar tudo que fosse relativo ao universo paterno de livros, bibliotecas, de saber, e abraçar, de certa forma, o mundo rural do avô materno, algo impossível de abrir mão o acompanhou. Foi o mundo das palavras:
A verdade é que eu também trabalho como ele. Um trabalho de relojoeiro, ou de um ourives dos antigos — com um olho meio fechado e o outro grudado numa lente de relojoeiro, uma pequena pinça entre os dedos, e à minha frente não as fichas de meu pai, mas cartõezinhos nos quais anoto palavras diversas, verbos, adjetivos, advérbios e também pilhas de trechos desmontados de frases, cacos de idéias, fragmentos de definições e as mais diversas tentativas de combinações. De tempos em tempos, com os braços delicados da pinça, ergo com todo o cuidado um desses tênues fragmentos de texto, coloco à altura dos olhos e examino à luz, observo por todos os lados, e então volto a curvar-me sobre a escrivaninha, aparo as arestas e dou um polimento, e de novo ergo e examino à luz, dou novo polimento e insiro com todo cuidado a palavra ou a expressão no tecido do texto que estou tecendo. Então a observo de cima, de lado, a cabeça um pouco inclinada, olhando diretamente, olhando de esguelha, e, ainda não completamente satisfeito, tiro aquele fragmento recém-encaixado e substituo-o por alguma outra palavra, ou tento colocar a mesma palavra num trecho diferente da mesma sentença, retiro, dou mais uma polida, tento inserir de novo, talvez numa posição ligeiramente diferente. Talvez com um sentido um pouco diferente. Ou no final da frase. Ou no comecinho da frase seguinte. Ou é melhor picar logo a ficha em pedacinhos e criar uma frase de uma só palavra desta vez?140.
Vê-se que o escritor também carrega traços do pesquisador Arie, também trabalha lentamente, escolhendo as palavras, observando a estética e compondo, desta forma, um quebra-cabeça. Talvez a brincadeira infantil com toquinhos, fósforos e dominós tenha dado lugar a outra mais intelectual, a de brincar com as palavras, dando-lhes vida própria em um texto literário.
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OZ. De amor e trevas. 2005. p. 311.
140
No entanto, diferentemente de seu pai, a escrita de Oz, apesar de toda a ordem e método, deixa escapar algo do que está adormecido no passado, daquilo que não se pode escrever, que relampeja, como um vaga-lume, talvez alguma coisa que está na ordem do traumático. E é naquilo que ondula, some e aparece que é possível capturar o passado. Cito uma passagem que ilustra o modo como Oz percebe esse movimento:
Ou talvez nada disso acontecesse e esteja apenas anotado em minha memória: pois como as ondulações na água ou como as vibrações nervosas que percorrem a pele do cervo no segundo que precede a fuga, a lembrança dos fatos vividos surge de repente e adeja um instante, num tremor, em ritmos e focos variados, apenas um vislumbre antes de se congelar e imobilizar em memória de uma memória141.
No capítulo seguinte, será discutida a diferença entre autobiografia e memória, uma vez que Amós Oz afirma que De amor e trevas não é uma autobiografia. Também trabalharei com o mito grego de Mynemosine, a deusa da memória, e a interlocução entre memória e esquecimento.
141
2
A
TRAMA
DA
MEMÓRIA,
REMEMORAÇAO
E
REMINISCÊNCIA
Agora, em meu escritório, em Arad, num dia de verão no fim do mês de junho de 2001, tento reconstruir, ou antes adivinhar, convocar aquelas lembranças, quase criar a partir do nada: como os paleontólogos nos museus de história natural, que são capazes de reconstruir um dinossauro completo com base em dois ou três ossos.