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Çin’in Türkiye’den Yaptığı İthalat

Continuando a pesquisa sobre a memória e seu resgate, quando se pensa nesse tema, o que vem à mente é o processo de volta ao passado com a intenção de recuperar a matéria bruta, ou seja, o fato decorrido, de trazer a recordação de forma mais ou menos intacta para o presente. Tal concepção está dentro das teorias que encaram o tempo como algo linear, um continuum, no qual o sujeito não é visto como dividido, fragmentado, cindido diante do real, e, portanto, acredita que o vivido possa ser resgatado na sua integridade. Desconsidera que, nesse gesto, o de se debruçar em direção ao passado, há outro elemento, o da linguagem, pois é apenas através dela que o resgate é feito. Se se considera que na rememoração exista um duplo gesto, vale lembrar o esclarecimento a respeito desse movimento que faz Lúcia Castello Branco:

enquanto um dos gestos implica uma retroação, um movimento em direção ao que já não é, outro gesto, simultânea e subliminarmente, como um trabalho silencioso e invisível se dá. Este, inevitavelmente, caminha em direção ao que ainda não é, a uma instância futura que, no entanto, é presentificada no momento em que se constrói: a representação verbal171.

Considerar esse resgate sem considerar esses dois gestos é acreditar “na ilusão de uma captura do real, de uma conservação fossilizada do passado e de uma falsa inteireza do sujeito que efetua a rememoração”172.

Diante da questão da memória, é impossível não se referir aos mitos gregos como o de Mnemosyne. Quinta esposa de Zeus, a deusa da memória deu à luz nove musas ou Palavras Cantadas, as quais, através de seu canto, oferecem ao aedo o privilégio da vidência e a função de intérprete. Era a divindade que assegurava “a circulação das forças entre o domínio do Invisível e do Visível, já que Memória é a que, em cada mo(vi)mento de cada ente, decide entre o ocultamento do Oblívio e a luz da Presença”173.

170 OZ. De amor e trevas. 2005. p. 508.

171 CASTELLO BRANCO. A traição de Penélope. 1994. p. 24. 172

CASTELLO BRANCO. A traição de Penélope. 1994. p. 25.

173

Portanto, a deusa era capaz não só de promover o resgate do passado, como seu esquecimento, afirmação facilmente comprovada pela descrição do processo de purificação que o consultante, aquele que se submetia ao processo, se submetia antes de sua descida ao Hades.

Antes de penetrar na boca do inferno, o consultante, já submetido aos ritos purificatórios, era conduzido para perto de duas fontes chamadas Lethe e

Mnemosyne. Ao beber a da primeira, ele esquecia tudo de sua vida humana

e, semelhante a um morto, entrava no domínio da noite. Pela água da segunda, ele devia guardar a memória de tudo o que havia visto e ouvido no outro mundo. À sua volta, ele não se limitava mais ao conhecimento do mundo presente. O contato com o além lhe havia trazido a revelação do presente e do futuro174.

Ao mergulhar naquelas águas, o sujeito voltava mais rico de sabedoria. Não só acumulava conhecimento do passado, mas também do presente e do futuro. No entanto, o resgate daquilo que passou, exatamente na forma do que já fora um dia, é impossível. A memória deve ser encarada “enquanto a própria lacuna, enquanto decomposição, rasura de imagem”175, ela se constrói a “partir de faltas, de ausências: é admitir, portanto, que o gesto de se debruçar sobre o que já se foi implica um gesto de edificar o que ainda não é, o que virá a ser”176.

Parece então que, para resgatar o passado, é condição que o esquecimento esteja presente. A respeito dessa dialética, é pertinente citar o verso 53 da Teogonia sobre a união de Memória e Zeus:

A elas, na Piéria, gerou, unida com o pai Cronida, Memória, que nas colinas do Eleutero reinava, Esquecimento dos males e pausa das preocupações177.

Segundo Brandão, o que é possível perceber nessa passagem é que Memória gerou suas filhas, as Musas, misturando-se ao pai Cronida (Zeus), não para rememoração e, sim, para esquecimento. O que se pretende nesses versos é realçar o valor do esquecimento, e para justificar sua afirmação, o autor aponta que essa palavra “ocupa a mesma posição métrica que

174 VERNANT. Mito e pensamento entre os gregos. 1973.p. 79. 175 CASTELLO BRANCO. A traição de Penélope. 1994. p. 26. 176

CASTELLO BRANCO. A traição de Penélope. 1994. p. 26.

177

Mnemosyne ocupava no verso anterior, estando ambas, além do mais, encabeçando os respectivos versos”178.

A leitura mais comumente feita desse trecho é que “Memória, mesclada com Zeus, gerou as Musas para esquecimento dos males e pausa das preocupações”179. Portanto, o traço das Musas que mais chama atenção é “fazer esquecer e fazer cessar”180. No entanto, é importante salientar que não são todas as coisas que devem sofrer esse processo: o que deve ser esquecido e cessado são, especificamente, as preocupações.

As Musas são produto de uma mescla e, assim sendo, carregam características do pai e da mãe. O que Zeus inocula em Memória, durante o ato sexual que lhes dará origem, só pode ser algo relativo à não memória, já que memória, a mãe já o é:

As Musas, portanto, não são exclusivamente memória, mas o resultado dessa mistura de memória e não-memória: mais exatamente, atentando nas próprias palavras de Hesíodo, elas são fruto da memória (o útero de Mnemósine) e da pausa e do esquecimento (sêmen de Zeus)181.

Pode-se pensar que o livro de Oz carrega consigo esses dois traços: é através da escrita que se promove a revificação da memória e de certa forma seu esquecimento, pois o que não podia ser mencionado, agora já está escrito e, portanto, pode ser esquecido. Uma versão dessa concepção pode ser aprendida a partir do comentário de Márcio Seligman-Silva. Segundo ele: “tanto o testemunho deve ser visto como uma forma de esquecimento, uma ‘fuga para frente’, em direção à palavra e um mergulhar na palavra, como também, por outro lado, busca-se igualmente através do testemunho, a libertação da cena traumática”182.