Partindo do principio de que o confronto com o mundo físico é o modo mais aparente da consciência existencial da linguagem visual, foi eleita a apreensão da forma (secundidade) como um campo perceptivo menos complexo, em face das terminologias necessárias ao entendimento da sintaxe (primeiridade) que exige maior capacidade de abstração, portanto as duas faixas etárias selecionadas foram de 12 a 14 anos para a primeira e 15 a 17 anos para segunda. Seguidamente, foram levados em contas três critérios para seleção de grupos:
1. Desejo de participação: As práticas sistematizadas da linguagem visual ocorrem em cursos livres e técnicos ou na formação de educação básica conforme prevê a lei de diretrizes e bases. Essas práticas denunciam uma população com tendências idiossincráticas (vontade – curso livre) e os indiferentes (circunstanc ias – educação básica);
2. Repertório: Grupos pertencentes a sistemas de aprendizagem que apresentam planejamento da área de linguagens e códigos com pouca (ou nenhuma) evidência da linguagem visual em seus planejamentos, que é reflexo, empiricamente falando, de um caráter do senso comum das escolas;
3. Assiduidade: condição de manter o compromisso de participar de toda a extensão da oficina, que neste caso gerou um grupo não integrado no horário escolar e outro dentro da grade curricular, porém essas variações não foram tratadas como pontos relevantes para as metas avaliativas.
O primeiro grupo, então denominado A, pertence à instituição de educação básica, Espaço Educacional VDL-EBAL, situada no bairro de São Cristóvão na cidade do Rio de Janeiro. Foi composto por 15 alunos (8 meninas e 7 meninos), na faixa etária entre 12 a 14,
matriculados na 6º série, 7º e 8º séries do Ensino Fundamental, durou 30 horas distribuídas em 10 encontros de 3 horas nos meses de outubro, novembro e dezembro de 2005. O segundo, o grupo B, instituição pública de Educação Básica – Ciclo II do Ensino Fundamental e Ensino Médio, EE Gonçalves Dias, situada no bairro Parada Inglesa na cidade de São Paulo, foi composto por 30 alunos (24 meninas e 06 meninos), na faixa etária entre 15 e 17 anos, matriculados na 2a. série do Ensino Médio. Durou 24 horas distribuídas em aulas regulares de 50 minutos nos meses de março, abril e maio de 2006.
Os grupos A e B, conforme previsto pelo critério de seleção, apresentam traços em comum observados através de análises dos planejamentos escolares: a condição econômica de classe média baixa informada pelas próprias instituições e a inserção em unidades escolares cujos contextos de aprendizagem subjetivam a linguagem visual como suporte da linguagem verbal. As variáveis dependentes, tais como gênero, condição econômica, planos de gestão pedagógica, contexto geográfico, condição jurídica da instituição de ensino, foram desconsideradas dada a particularidade do objeto de pesquisa: voltar-se para a percepção cujos aspectos citados não obliteraram os dados levantados.
Considerando o desenvolvimento da linguagem visual, como já exposto anteriormente (cap. 2), os estudos voltaram-se para as faixas etárias que vão até a pré- adolescência, pois a Teoria das Inteligências Múltiplas propõe a idade de 12 anos como média de tempo para o cérebro atingir sua maturação e conseqüentemente suas estruturas percepto- cognitivas. As observações de Gardner (1997) sobre o desenvolvimento artístico dos 8 anos em diante levou a fixar a fa ixa etária dos grupos no período da adolescência, pois presumiu-se que estariam preparados para a exposição de uma percepção mediada intensamente pelo signos no seu caráter simbólico, contribuindo para o estreitamento do domínio produtivo da linguagem visual, conforme regem as hipóteses a serem verificadas nesta pesquisa.
Com o intuito de permitir uma maior visibilidade dos grupos envolvidos, foi aplicado um questionário levando em consideração, além de dados pessoais (nome, endereço, serie e contato) como registro de identificação, cinco indicadores25 transformados em dados quantitativos: a constituição dos grupos, os objetivos e subjetivos sobre o idiossincrático, os objetivos sobre convivências parciais com a área de linguagem visual e o conhecimento de materiais (Tabela 4.1) .
Tabela 4.1–Aspectos dos grupos
Indicadores Item Morfologia Oficina Oficina da Sintaxe Total de participantes 15 30 Constituição
do grupo Idade 12 anos – 03 13 anos – 06 14 anos - 07 15 anos – 12 16 anos – 14 17 anos - 04 objetivo do aspecto idiossincrático
Interesse pela linguagem visual
Há interesse Não há interesse 15 0 21 09 Desenvolve atividades visuais
Só na escola Só em casa Na escola e em Casa 0 13 02 10 0 20 Subjetivo do aspecto
Idiossincrático Motivação de produção
Só para atender tarefas Por iniciativa própria Ambos os casos 0 15 0 21 09 0 Objetivos parciais de convivência com a produção de linguagem visual
Convivência em exposições de Artes Sempre As vezes Nunca 0 11 04 0 16 14 Recursos materiais Materiais citados Lápis de cor Giz de cera Caneta hidrocolor Tinta Guache Lápis Grafite Régua Caneta esferográfica Outros 09 01 06 0 10 0 01 0 27 04 03 05 17 09 0 0
Cumpre observar que o grupo A demonstrou 100% de interesse em aprender a desenhar e pintar, pois este foi um dos argumentos usados no recrutamento e, provavelmente, pelas condições de participação, não integrada ao horário do curso regular. O grupo B registrou 30% de desinteresse, denunciando possíveis ausências de idiossincrasias para a área, pois este grupo, ao contrário do A, estava inserido no horário regular de curso.
O grupo A obviamente desenvolve trabalhos por livre iniciativa, sendo a grande maioria em casa, enquanto 70% dos integrantes do grupo B alegam atender a necessidades das tarefas escolares, portanto restringe-se a desenvolver atividades visuais somente determinadas pela práticas escolares. Mais uma vez fica evidente a predisposição idiossincrática do grupo A.
Curiosamente o grupo B informou que freqüenta mais exposições de Artes (fato indicativo de leitura de produção visual), mas uma investigação mais particularizada revelou que se tratava de conseqüência de propostas escolares. Basta uma única vez para esses jovens registrarem como fato comum.
O dois grupos, considerando as proporções, apresentam parco conhecimento de variedade de materiais (ferramentas expressivas para a linguagem visual), dando grande evidência ao lápis de cor e ao lápis grafite. Os dados sobre materiais levam a crer que a produção de linguagem visual é desenvolvida por estes jovens como expressões intensamente voltadas para as formas concebidas sob o domínio da linha. Tem-se aqui um dado relevante, pois, conforme observado no capítulo 3, o mecanismo de concepção da forma condicionado apenas pela leitura linear pode denunciar uma provável práxis centrada no ambiente de terceiridade, excluindo um olhar mais intenso sobre o espaço e fortificado pela valoração da escrita.
Tais divergências entre a existência de comportamento interessado e outro desinteressado na linguagem visual não serão tomadas como variáveis dependentes pois a pesquisa não dispõe de controle sobre as referidas, dada a pressuposição de que a motivação decorre de grande influência contextual: projetos pedagógicos, estímulos emocionais, vivência cultural, entre outros, que deste modo iriam além do enfoque do tratamento perceptivo.