BÖLÜM 1: YENĠ SAĞIN KURAMSAL ÇERÇEVESĠ
2.1. Ġngiltere
Em todos os discursos sobre as práticas dos professores, há declarações alusivas ao livro didático como referência essencial para as aulas de Ciências, como nos relatos a seguir:
Aqui nós temos um livro que a gente se baseia para dar a matéria. Quando dá, tem aula prática. Tem aula expositiva, discussão, vídeo. (SF6)
Nós seguimos o livro didático adotado pela escola. É bom porque se ganha tempo e os conteúdos já estão selecionados. Praticamente utilizo o livro em todas as minhas aulas. (SF3)
Eu sigo o livro. É raro o dia que eu não utilizo o livro didático. Acho mais fácil para mim e para os alunos também. Eles lêem, fazem um resumo e depois fazem os exercícios. Quando dá, eu intercalo com alguma aula prática. (SM10)
Neste sentido, considero importante esta discussão na análise dos discursos dos professores, porque o livro didático apareceu como um dado muito freqüente e constitui veículo de imagens e de informações, que, embora não imponham, contribuem para a construção ou para a manutenção das representações sociais de corpo humano, seja dos professores, seja dos alunos.
Assim, sublinho a seguir algumas considerações básicas sobre o estudo do corpo humano desenvolvido de maneira geral nos livros didáticos e, que, de alguma maneira, correlacionam com o discurso dos docentes sobre suas práticas.
No que diz respeito ao estudo do corpo humano, os livros apresentam, de maneira geral, uma ênfase na informação. Privilegia-se o estudo de um corpo humano dissecado, cujas partes estão associadas às respectivas funções. Essas referências se apresentam na
grande maioria dos livros didáticos, que, conforme Rabello (1999), já remetem a um estudo
fragmentado de corpo humano, contemplando essencialmente sua constituição biológica.
O conceito de corpo humano nos livros é apresentado intimamente associado aos níveis de organização biológica, ou seja, o corpo humano é definido com base em sua constituição. Células, tecidos, órgãos e sistemas formam o corpo e cumprem funções específicas realizadas com um mínimo de participação de sensibilidade e de afetividade, apenas reagindo a estímulos exteriores. Embora os autores dos livros didáticos acenem para a integração entre os sistemas, não são explicitadas estas inter-relações, o que reforça o conceito de corpo humano como somatória de todas as suas partes.
O desempenho das funções orgânicas é apresentado como fator essencial ao perfeito funcionamento do corpo humano. Os autores não fazem referências às condições ambientais, emocionais, psicológicas, sociais que interferem sobremaneira no desempenho e equilíbrio dessas funções. Da mesma forma, as condições de sobrevivência do corpo humano recaem exclusivamente sobre a harmonia dos seus aspectos orgânicos, não se vinculando à dependência de outros corpos humanos, de outros seres vivos, do ambiente, bem como das relações que o corpo estabelece consigo mesmo.
E é nessa a seqüência lógica que os professores descrevem o desenvolvimento de suas aulas sobre corpo humano:
Eu começo pelas células, depois tecido, órgãos, sistemas. É importante que os alunos saibam que um corpo sadio depende do perfeito desempenho das funções fisiológicas. (SF3)
Eu sempre inicio pelos níveis de organização do corpo humano: células, tecido, órgãos, sistemas. Depois, começo a descrever a função de cada sistema, buscando sempre relacionar com as questões de higiene, de doenças. (SM8)
As células são sempre as primeiras unidades, a serem estudadas. Depois que o aluno, compreende o que é uma célula, eu avanço, em direção aos tecidos, órgãos, sistemas. Depois, passo para o estudo detalhado de cada sistema. (SF2)
Quanto às agressões ao corpo humano, as referências recaem basicamente sobre as dos agentes patogênicos, ignorando que, por exemplo, o preconceito, a exclusão social, a
fome, entre outros, também não constituam agressões que possam igualmente comprometer as atividades orgânicas do corpo humano e a sua existência. Esta é uma questão declarada no depoimento do professor (SM9):
É importante acrescentar as doenças, no estudo do corpo humano. O nosso sistema imunológico desempenha uma função imprescindível na manutenção da saúde orgânica.
No que se refere às analogias, os autores dos livros didáticos, em sua maioria, alijam do corpo humano a sua dimensão humana: suas emoções, suas reações, sua sensibilidade, o que reforça que o corpo existe para executar funções que lhe garantam a sobrevivência física. Tudo parece girar em torno de funções, de produção, de divisão de trabalho, de controle de qualidade, de hierarquia, o que pode contribuir para a construção de concepções errôneas. Essas analogias são, não raro, aproveitadas como recursos pelos professores, para aproximarem os alunos dos conceitos, da organização do corpo humano:
Eu sempre procuro usar comparações. Por exemplo: o coração é uma bomba que funciona ininterruptamente. O cérebro é como o gerente de uma grande empresa, os rins, funcionam como os lixeiros do nosso organismo. (SF5)
As comparações ajudam os alunos a terem uma idéia da importância do órgão. Por exemplo, quando se fala em cérebro, peço, para que pensem no presidente de uma indústria, nada pode ser resolvido, sem passar por ele. Quando se fala em sistema nervoso periférico (nervos), peço que pensem numa rede elétrica, que transmite energia de um ponto a outro. (SM8)
Essas comparações podem gerar sérias implicações que vão além do processo ensino-aprendizagem, como esclarece Pretto (1985:66):
Os livros ao colocarem o corpo humano como fábrica ou máquina, o cérebro como chefe e os órgãos como operários, passam aos estudantes uma concepção hierárquico-funcionalista do corpo humano, estando aberto o caminho para compreendermos dessa mesma forma as relações sociais.
Não se nega a importância do uso das analogias como instrumentos que permitem a criação de modelos para a compreensão de assuntos muito complexos. Importa, sobretudo, o uso criterioso deste instrumento para se alcançar o objetivo pretendido. Rabello (1999: 62) afirma que a utilização das analogias, quando necessária,
requer por parte dos professores e dos materiais instrucionais, o domínio dos dois conteúdos a serem comparados e que é de fundamental importância o estabelecimento do que não é semelhante entre os dois conteúdos.
Quanto a essa observação feita pela autora, não identifiquei, nos discursos dos professores sobre suas práticas, referências às diferenças entre os modelos apresentados ( indústria, máquina ) e o conteúdo em estudo ( o corpo humano).
Por exemplo, numa indústria ou numa máquina, o trabalho é puramente mecânico, destituído de sentimentos e emoções, obedecendo a uma hierarquia de funções, e as peças são facilmente repostas, não recebendo interferências do meio. No entanto, não é mencionado nos depoimentos o que difere o trabalho do corpo do de uma máquina, pois todos os órgãos contribuem igualmente para a harmonia física, o que implica a importância de todos eles, num trabalho conjunto.
Além disto, nem todos os órgãos podem ser repostos e, quando um é afetado, seja por fatores internos ou externos; emoções ou mudanças climáticas; toda a harmonia orgânica fica também comprometida.
Não se explicita também que a harmonia orgânica, embora controlada bioquimicamente, pode ser alterada devido a fatores externos- angústias ou ansiedades- comprometendo o bem-estar físico, emocional, psicológico, bem como podem gerar problemas físicos reais que alteram o perfeito funcionamento do organismo.
Certamente, a utilização do livro didático está inserida num plano mais amplo de discussão, que envolve políticas educacionais, preparação dos professores, entre outros. Todavia, é indiscutível que o livro didático de Ciências encontra uma profunda receptividade junto aos professores, porque, numa seqüência lógica e/ou didática, fornece a eles, segundo seus próprios depoimentos, a seleção e o desenvolvimento de conteúdos relevantes, julgados como adequados à série e ao currículo escolar.
No entanto, na grande maioria dos livros didáticos, o conteúdo é apresentado por meio do encadeamento de uma série de conceitos, numa seqüência lógica nem sempre explicitada e, principalmente, destituída da história da produção desses conhecimentos. Os professores acabam transformando-se em transmissores dos conteúdos ali veiculados, e os utilizam para também se resguardarem das possíveis situações que poderiam expô-lo. Assim é que justificam tenho que cumprir o programa do livro...
Compete ao professor utilizá-lo criteriosa e criticamente, uma vez que ele apresenta uma excessiva padronização dos conteúdos, bem como uma série de afirmativas que tendem a gerar interpretações equivocadas, e, principalmente, um forte apelo à supremacia do homem, como ser biológico, sobre o meio e os outros seres vivos.
Dificilmente, alunos e professores conseguirão, pelo estudo proposto nesses livros didáticos, entender a si mesmos, como uma unidade em integração consigo, com os outros seres humanos, com os outros seres vivos e com o seu próprio meio. Os livros didáticos tendem a apresentar um corpo internamente isolado de si mesmo e igualmente isolado dos outros. Um corpo que apenas se mostra como organicamente se constitui, como se isto bastasse para conhecê-lo.