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mahrum bırakma

3.3. Özgürlükten mahrum bırakma

Embora o papel social da maternidade ser percebido como algo sublime por mulheres que vivenciam a experiência pela primeira vez (mulheres primíparas) – como “um acontecimento transbordado de felicidade” (SCARTON et al., 2015, p. 144), envolvendo sentimentos e sensações de “dedicação, amor e cuidado com o filho” (RODRIGUES et at.,

2013, p. 8) –, o processo da maternidade acarreta, para a mulher primípara, “sentimentos conflituosos que ampliam sua vulnerabilidade emocional, tanto na gestação como durante todo o processo de amamentação” (ALMEIDA, et al., 2010, p. 20). Estes sentimentos, que se relacionam com “solidão, vazio, arrependimento e incapacidade de ser mãe e cuidar do filho” (ARAÚJO et al., 2010, p. 72), provêm tanto das mudanças em suas vidas, “no seu cotidiano, no lazer, nas relações sociais, escolares e familiares” (SOUZA et al., 2011, p. 274) como dos eventos ou situações estressantes que apresentam riscos possíveis à saúde pessoal e do bebê.

Diante disso, verificamos que a maternidade pode ser considerada um período de transição no universo feminino, uma vez que envolve mudanças significativas e/ou reorganizações nas diversas dimensões da experiência de vida. Desde o momento em que se tem acesso a um exame de Beta HCG positivo, quer seja planejado ou não, emergem-se pensamentos e sentimentos conflituosos sobre os significados do que é ser mãe, do que é a maternidade, do que é gerar um filho, do que é constituir uma família e seus percalços. Ana Borges (2005), em seu trabalho acerca das significações durante a transição para a maternidade, enfatiza aspectos de como as mulheres experimentam e significam esta trajetória. Para o autor, a transição está relacionada, dentre tantos outros aspectos, na compreensão por parte da mulher de uma condição de não mãe para a condição de mãe, que agora tudo muda, seu corpo, sua mente, seus sentimentos e comportamentos, suas prioridades, suas relações sociais, sua vida como um todo, quiçá sua identidade. Dessa maneira vai sendo delineado o processo vitalício, com impactos vitalícios (CLEMENS; CULSHING, 2010), denominado maternidade.

Após essa fase impactante do “positivo”, outras celeumas a serem superadas surgem, desde dúvidas e incertezas de ordem pragmática, até os desdobramentos e mudanças corporais, subjetivas e sociais. Neste ponto, a fim de destacarmos as principais incertezas inerentes ao contexto vivenciado por mulheres primíparas sem nos distanciarmos da realidade que envolve o caso estudado nesta pesquisa, adiantamos, desde já, a Tabela 1 construída por alguns depoimentos obtidos a partir das entrevistas semiestruturadas, a qual apresenta uma relação entre alguns eventos estressantes, emoções e incertezas experimentadas pelos sujeitos.

Tabela 1: Eventos estressantes, emoções e incertezas.

Eventos estressantes Emoções/Incertezas

A experiência de um parto laborioso. Eu tive um parto normal que

não foi bem sucedido. A minha filha teve uma hipóxia ao nascer. Medo da minha filha apresentar sequelas neurológicas em seu desenvolvimento. A contração de uma infecção urinária no decorrer da gestação. Medo do bebê nascer antes da hora por conta da minha infecção urinária.

Os primeiros meses de vida da minha filha. Ela chorava incessantemente e os médicos não tinham explicação.

Medo de estar acontecendo alguma coisa estranha, física ou psicológica, com a minha filha.

No pós-parto, devido à instabilidade hormonal, eu tive uma crise de ansiedade que fez acabar o meu leite. Eu fiquei sem amamentar. Em seguida, eu descobri que a minha bebê era alérgica a leite.

Medo e dúvidas de como eu iria alimentar a bebê.

Quando eu descobri que era necessário fazer uma inseminação artificial para engravidar e a descoberta de uma trombofilia.

Incerteza de não conseguir engravidar e de perder o bebê, caso engravidasse, devido a trombofilia.

A descoberta da gravidez. Eu não imaginava ser capaz de

engravidar por conta da idade e por problemas de saúde no passado. Dúvidas sobre o que fazer e como fazer para que a gestação fosse bem sucedida. Em uma ultrassom eu recebi a notícia de que o bebê estava sem

líquido amniótico e que era preciso fazer a cesariana de urgência. Eu fiquei com medo devido a urgência do caso. No parto, o pediatra da urgência diagnosticou o meu filho como

prematuro e que isso poderia ocasionar problemas neurológicos. Medo do meu filho apresentar sequelas neurológicas em seu desenvolvimento. Perceber um sangramento na 12ª semana de gestação e descobrir

que estava com a placenta prévia na 17ª semana. Muito medo e incerteza do que iria acontecer com a minha bebê. Na 22ª semana, ao fazer a ultrassom, eu descobri que o meu bebê

tinha um grau de “restrição de crescimento intrauterino”. Ele nasceu com 31 semanas e foi diagnosticado como “Bebê Pig”.

Muita incerteza sobre o bem estar do bebê porque os médicos diziam que a meta era fazer com que a gestação chegasse a 32 semanas. O normal são 40.

No início da minha gestação eu senti cólicas muito intensas. Muito medo de perder o bebê ao sentir as cólicas. Eu tive um sangramento muito forte no início da gestação. Muito medo de perder o bebê.

A descoberta da gravidez. Eu não queria e não esperava. Fiquei muito triste e comecei a chorar. Eu engravidei bem acima do peso. A minha médica disse que eu

não podia mais engordar porque já estava no início da obesidade. Fiquei com dúvidas sobre isso. Fonte: Dados da pesquisa, 2016.

Sandra de Cássia Silva (2012) aponta que estas tensões e ambivalências vivenciadas nessa fase de transição são fatores primordiais para o processo de ressignificações, bem como práticas idiossincráticas e menos emolduradas nos modelos dominantes da cultura. Dentre essas práticas, destacamos a busca por informações por meio de alguns métodos alternativos e convenientes, para além da família ou de consultas médicas (BRASHERS et al., 2002), a exemplo dos recursos midiáticos e/ou da internet, em especial, os de natureza colaborativa.

A reboque dos dispositivos de comunicação móveis, os recursos da web propiciam, cada vez mais, o agrupamento de pessoas desconhecidas (ou pouco conhecidas) motivadas pelo enfrentamento coletivo das incertezas que emergem de um determinado contexto de vida a fim de construir saberes para a tomada de decisão. Este fenômeno informacional, que nos dois últimos anos vem chamando atenção do noticiário brasileiro (a exemplo dos casos de mães que se agrupam no WhatsApp para enfrentar as incertezas da microcefalia), desvela o que compreendemos neste estudo por “resiliência informacional em redes sociais virtuais”.

Assim, a fim de explorarmos a fundo a estrutura do processo da resiliência informacional no contexto das práticas colaborativas mediadas pelos espaços virtuais, buscamos um caso de estudo que envolvesse um contexto de vida não familiar (desconhecido, estranho, incomum) e que, ao mesmo tempo, envolvesse as práticas informacionais colaborativas em espaços virtuais. Ou seja, que representasse o fenômeno informacional em questão a fim de abranger o problema. Nesse caminho, encontramos um grupo de mulheres primíparas (conectadas pelo WhatsApp) que, a nosso modo de ver, está relacionado com o que Clemens e Cushing (2010) entende por “contexto profundamente significativo e intensamente pessoal” e, ao mesmo tempo, com o que Brashers et al., (2002) compreende como “contexto de saúde”, uma vez que, se tratando de uma mudança no mínimo social e fisiológica, envolve experiências não familiares que geram emoções e incertezas. O encontro com o grupo se deu após uma experiência pessoal em um curso para pais e mães inexperientes – promovido por uma instituição privada da cidade de João Pessoa, PB – voltado à orientação sobre cuidados com bebês recém-nascidos. Nessa ocasião, conhecemos uma participante do grupo “Mamães de plantão”, a qual, após conhecer a proposta da pesquisa, facilitou a nossa inserção no campo, agindo como uma intermediária importante entre nós, pesquisador, e sujeitos da pesquisa.

No que se refere ao campo, as participantes do grupo foram atraídas nos encontros sociais cotidianos (em espaços online ou off-line) e organizadas por meio do WhatsApp a fim de enfrentarem as incertezas do contexto não familiar, desconhecido, estranho e incomum. A respeito do WhatsApp, que nos últimos anos vem ganhando aceitação de várias gerações de usuários no Brasil e em todo o mundo, este se configura em um formato de aplicativo de mensagens instantâneas e chamadas de voz, disponível para dispositivos de comunicação móveis (smartfones, tablets e outros), que permite a troca de mensagens de texto, vídeos, áudios e imagens em tempo real e de forma gratuita dentro de grupos específicos formados por inúmeros participantes selecionados e contatados ao alcance das mãos. Assim, o aplicativo corresponde a um espaço sociotécnico conveniente e alternativo para o encontro coletivo.

O grupo estudado, denominado Mamães de Plantão, existe desde meados do ano de 2014 e, até o presente momento, envolve 42 mulheres primíparas com diferentes histórias de vida em torno da concepção da gravidez, assim como diferentes experiências de vida ao longo de todo o processo da maternidade. No período da coleta dos dados, entre novembro de 2015 e março de 2016, o grupo esteve constituído por 25 participantes. Dentro deste universo, abordamos 15 sujeitos de pesquisa conforme a disponibilidade e a conveniência para a entrevista e, principalmente, a qualidade das informações obtidas em cada depoimento frente ao problema delimitado. Consideramos, neste ínterim, como critério de determinação dos

sujeitos da pesquisa, a originalidade ou a recorrência das informações obtidas. Nesse sentido, seguindo a orientação de Minayo (2004) sobre a amostragem em pesquisa qualitativa, a quantidade dos sujeitos foi determinada de acordo com o grau de saturação dos dados obtidos no decorrer da realização de entrevistas.

Em uma das oportunidades de coleta dos dados, especificamente durante uma observação direta realizada em um dos encontros sociais promovidos pelo grupo (no mês de janeiro de 2016), foi possível fazer o registro de algumas imagens do grupo em interação para além dos espaços virtuais disponibilizados pela plataforma WhatsApp, conforme a seguir:

Figura 2: Imagens do grupo em interação.

Fonte: Próprio autor.

Nessa ocasião, foi possível apreender aspectos da realidade social do contexto vivenciado e, principalmente, associar os dados até então coletados nas entrevistas com os aspectos apreendidos nas interações sociais entre os sujeitos (permitindo a compreensão ampliada do material discursivo). Nesse sentido, constatamos que o grupo, mesmo sendo constituído em sua maioria de conexões de laços fracos, apresenta fortes sentimentos de solidariedade compartilhada, comprometimento, afetividade, respeito mútuo, entre outros, importantes para as práticas de busca, compartilhamento e intermediação de informações.