Assim como o Museu Paraense Emílio Goeldi, a origem do Museu Paulista está vinculada a uma iniciativa particular. No fim do século XIX, o Coronel Joaquim Sertório mantinha uma coleção aberta ao público no Largo Municipal. Apesar da falta de organização científica, a coleção possuía objetos de diferentes seções, como zoologia, antropologia, etnologia, mineralogia e botânica. Em 1890, o Museu Sertório – como era conhecido – foi oferecido ao governo do Estado e acrescido de outra coleção particular, a coleção Pessanha (LOPES, 2009). A partir de 1894, o Museu Paulista se tornaria uma instituição autônoma e seria dirigido nos primeiros 22 anos pelo zoólogo alemão Hermann Von Ihering.
O ideal de museu projetado por Ihering era o de uma dimensão continental, buscando parcerias com instituições sul-americanas. Acompanhando o que vinha sendo desenvolvido nos demais museus brasileiros, também foram instituídas conferências científicas e a publicação de uma revista. Para o diretor, o novo museu imprimia a importância “para o implemento das Ciências Naturais no país, em virtude da inexistência de universidades ou mesmo de escolas que formassem professores de História Natural.” (LOPES, 2009, p. 271).
Entretanto, não é possível desvincular o Museu Paulista do edifício que o abriga. O Monumento do Ipiranga, palácio construído na década de 1880 para demarcar o local onde teria sido proclamada a independência brasileira, materializava não só a homenagem à independência, mas também um ideal de nação. Após 1889, o local foi absorvendo novos ideais da República, metamorfoseando-se “em poderoso recurso na difusão de uma nova leitura da história nacional, o que impingiu feições peculiares à memória da independência.” (OLIVEIRA, 2002, p. 74). Em 1893, o
edifício foi apropriado para abrigar o Museu Paulista, cuja inauguração oficial foi em 1895, e, mesmo com o direcionamento para o campo das ciências naturais,
não impediu que coleções de insetos, peixes e répteis, por exemplo, convivessem com a presença impactante da tela de Pedro Américo e com salas destinadas à apresentação de ‘objetos históricos’ atribuídos a vultos renomados, como José de Anchieta e Martim Afonso de Souza. Além disso, a ênfase na história natural não colidia com as características de lugar privilegiado para a celebração da memória nacional. (OLIVEIRA, 2002, p. 75).
Grande parte do acervo do Museu Paulista foi composta por meio da compra, e não de doações. Em geral, o privilégio era para coleções de zoologia, e Ihering era favorável à separação entre as coleções para exposição e aquelas para estudo. Para Schwarcz (2005), o Museu Paulista viria a ser aquele com maior caráter científico entre os museus brasileiros da época.
Em 1917, o historiador Affonso Tunay assumiu a direção do museu e iria transformar seus direcionamentos. Certamente,
essa nova nomeação foi bastante calculada pelo governo do estado de São Paulo, dada a aproximação da comemoração do centenário da Independência brasileira, em 1922. A principal tarefa de Taunay era preparar o Monumento do Ipiranga para as festas centenárias, mas sua atuação na diretoria do museu vai muito mais longe, tendo inúmeros desdobramentos durante os 29 anos de gestão. (BREFE, 2005, p. 21).
Inicialmente, o novo diretor, apesar de manter as principais características de estudo e pesquisa das Ciências Naturais, já buscava identificar as falhas, como os objetos históricos colecionados aleatoriamente, sem lugar de destaque.
Aos poucos, usufruindo de seus conhecimentos historiográficos, Taunay traçou intervenções estéticas e museográficas que direcionavam o museu para uma reorganização dos acervos e áreas expositivas que privilegiavam os fatos históricos, adequando visivelmente o museu ao lugar onde o edifício estava construído. Além disso, Taunay reuniu
documentos inéditos para a pesquisa da história de São Paulo e do Brasil, além de enriquecer a biblioteca do instituto com uma coleção brasiliana e criar uma nova revista, os Anais do Museu Paulista, na qual publicaria fontes e trabalhos inéditos – principalmente de sua lavra – de interesse para a história nacional e paulista. (BREFE, 2005, p. 22, grifos do autor).
A nova organização do museu contava, ainda, com as coleções de zoologia e botânica, subordinadas a especialistas da área, e as coleções de história eram incrementadas ano a ano, sendo que, em 1992, a seção de História foi oficialmente criada pelo governo do Estado.
Diante dessa prioridade aos objetos históricos, Taunay defendia a transferência das coleções de botânica e zoologia para outro edifício, sendo que, em 1927, a coleção botânica é destinada à criação do Instituto Biológico, e, posteriormente, em 1939, todo o acervo zoológico é encaminhado ao Departamento de Zoologia da Secretaria da Agricultura de São Paulo. Em 1941, esse acervo foi destinado ao primeiro prédio projetado para ser um museu e passou a constituir o Museu Zoologia (hoje vinculado à USP). Dessa forma, o Museu Paulista vai abandonando o caráter enciclopédico, e “a história começou a adquirir pouco a pouco um estatuto epistemológico, de modo que o museu tornou-se paulatinamente um lugar de estudo e de exposição de uma dada vertente da história do Brasil.” (BREFE, 2005, p. 59-60). O museu passou a se dedicar à construção de uma exposição histórica nas concepções modernas, ilustrando hábitos dos homens e valorizando o solo paulista diante dos acontecimentos históricos relevantes para o País.
Uma das principais características de Taunay foi buscar, em novas fontes, documentos que tratassem da história do País. Posteriormente, sua proposta expositiva era classificar e ordenar esses documentos em séries temáticas e cronológicas, incluindo outros objetos e associando, principalmente, às séries pictóricas que mandou produzir (BREFE, 2005), que ficariam marcadas como elementos essenciais do seu projeto para o Museu Paulista. Observa-se que a visualidade histórica estava alinhada ao valor pedagógico que a imagem transmite. Então, para Brefe (2005, p. 84), o museu parecia estar “em sintonia com os padrões de seu tempo, em que o caráter pedagógico, aliado ao comemorativo, são dois elementos básicos que definem o papel social do museu e sua utilização pública.”
O fim da gestão de Taunay esteve associado a falta de recursos financeiros e de profissionais, mas marcou o cumprimento da função do Museu Paulista como um memorial da nação e ampliando-o como fonte de informação histórica. Teixeira (2008) ressalta que as gestões após Taunay atenderam a interesses econômicos ou políticos e mantiveram a essência do museu. Entre as atividades mais significativas, a autora destaca o aumento das coleções, a divulgação da antropologia no Brasil e intercâmbios acadêmicos.
Em 1963, o Museu Paulista foi incorporado à Universidade de São Paulo, e suas coleções de arqueologia e etnologia foram transferidas para o Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade em 1989.
Na década de 90, o museu passou por reformas e, a partir do ano 2000, dedicou-se cada vez mais a integrar pesquisa, exposição e difusão cultural, editando publicações, promovendo cursos e ampliando as atividades educativas.
3 A MEDIAÇÃO NO MUSEU
As coleções museológicas são formadas por objetos deslocados de seu contexto original e que, diante de uma organização expográfica, passam a ter novos sentidos. Para o público, o contato com a exposição é um exercício de descoberta e oportunidade para a produção de conhecimento.
Entretanto, a relação entre o visitante e a exposição é sempre mediada, isto é, o contato do visitante com o objeto passa por diferentes formas de mediação, seja pela ação humana ou por outros tipos de dispositivos. A escolha de cada forma de mediar será pertinente com as características e objetivos institucionais de cada museu e requer um conhecimento multidisciplinar.