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Tentando repensar o percurso histórico da educação até a formação da instituição de Educação Infantil, estudamos os fatos relevantes e os nomes dos principais influenciadores e suas contribuições para esta construção, a partir de levantamentos bibliográficos e pesquisas documentais sobre essa temática.

Destacaremos aquilo que interessa a defesa de nossa tese.

Ao mesmo tempo em que a infância é ressignificada a partir do século XVIII e início do XIX, as crianças são brutalizadas e exploradas, ou seja, durante uma época da história da humanidade houve a concepção de que a criança era de natureza perversa, passando depois a compreendê-la como pura, ingênua.

Com a evolução da instituição escolar, começam a se preocupar com as idades dos alunos, então, por conta da formação moral, além da instrucional, surge a necessidade de separá-los, apresentando de certa forma, um reconhecimento da especificidade da infância. Azevedo (2013, p. 36) argumenta que “o atendimento institucional em classes por idade preocupava-se em proteger os jovens das tentações do mundo dos adultos com a intenção de mantê-los puros e inocentes”. A escolarização das crianças implica na moralização dos homens.

Ao passar pela transformação de uma sociedade agrário-mercantil para urbano-manufatureira, os países europeus, em meio a conflitos e guerras entre as nações, vitimando muitas crianças à pobreza, abandono e maus-tratos, levam à organização de serviços de atendimento a crianças pequenas abandonadas.

Graças a essa evolução a criança sai do antigo anonimato, aparecendo assim o “sentido de proteção” e, consequentemente, instituições de atendimento infantil preocupadas em oferecer à criança cuidados de higiene, alimentação e saúde, responsabilizando-se pelo seu bem-estar durante o período em que são deixadas pelos pais, visto que nesta época muitas são as mulheres que também saem de seus lares, para trabalhar principalmente em fábricas com o intuito de contribuir com a subsistência da família.

De acordo com Gomes10 (1986), as instituições para educação

sistemática de crianças, na Europa, datam da segunda metade do

século XVIII e, sobretudo, do século XIX. A “Educação Infantil” ou “jardim de infância” nasceu da Revolução Industrial. Atribuiu-se a Jean-Frédéric Oberlin11 [...] a criação da primeira instituição para

educação da infância, os chamados asilos ou escola maternal. (AZEVEDO, 2013, p. 41)

Daí em diante, muitos países europeus iniciaram seu processo de atendimento a crianças menores de 6 anos de idade, inclusive, alguns deles particulares, sendo depois gradualmente assumidos pelo Estado. O primeiro país a reconhecer legalmente a existência dos “jardins de infância” foi a Áustria, no ano de

1872, denominados de kindergartens por Friedrich Fröbel em 183712. Essas

instituições criadas na Inglaterra, França, Itália, Suíça, a própria Áustria, surgiram com objetivos assistencialistas, tendo a concepção romântica de criança, ou seja, vista e tratada como um ser frágil, que precisava ser cuidado por adultos.

Esses pioneiros da Educação Infantil agiam segundo o ideário dos movimentos religiosos da época, “acreditavam que, como as crianças nasciam sob o pecado, cabia à família e, na falta dela, à sociedade corrigi-las desde pequenas” (OLIVEIRA, 2007, p. 60). O fato é que tais pioneiros contribuíram para diminuir os índices de mortalidade infantil.

A trajetória brasileira em relação à criança sofreu grandes influências dos europeus, principalmente através dos portugueses por meio dos missionários jesuítas, em meados do século XVI.

A exploração de outros continentes por europeus, causada pela Revolução Industrial, implica em novas exigências educacionais, gerando condições para a formulação de um pensamento pedagógico para a era moderna. Oliveira (2007, p. 62) ressalta:

A discussão sobre a escolaridade obrigatória, que se intensificou em vários países europeus nos séculos XVIII e XIX, enfatizou a importância da educação para o desenvolvimento social. Nesse momento, a criança passou a ser o centro do interesse educativo dos adultos: começou a ser vista como sujeito de necessidades e objeto de expectativas e cuidados, situada em um período de preparação

11 Jean-Frédéric Oberlin (1740-1826), pastor protestante de Ban-de-la-Roche, nos Vosges,

entre a Alsácia e a Lorena.

12 Duas autoras de referência base deste estudo divergiram quanto a esta data. Azevedo

(2013, p. 42) nos informa que foi em 1840 e Oliveira (2007, p. 67) menciona que foi em 1837. Optamos pela data de 1837, porque embora neste parágrafo da dissertação nos reportamos à obra de Azevedo, outras fontes informam 1837.

para o ingresso no mundo dos adultos, o que tornava a escola (pelo menos para os que podiam freqüentá-la) um instrumento fundamental.

Para Oliveira (2007, p. 62), isso não ocorria com as crianças mais pobres, “alguns setores das elites políticas dos países europeus sustentavam que não seria correto para a sociedade como um todo que se educassem as crianças pobres, para as quais era proposto apenas o aprendizado de uma ocupação e da piedade”. Em oposição, temos alguns reformadores protestantes que defendiam a educação como um direito universal.

Mesmo com ênfases específicas, as propostas educacionais de Comênio, Rousseau, Pestalozzi, Decroly, Fröbel e Montessori reconhecem que as crianças tinham necessidades próprias e características diferentes das dos adultos. O educador e bispo13 checo Comênio (1592-1670)14 elaborou um plano de escola maternal em 1637 e priorizou bons recursos materiais pedagógicos e atividades diferentes, que hoje chamamos de extraescolares, pois vão além dos “muros da escola”, como por exemplo: os passeios; o filósofo genebrino Rousseau (1712-1778) criou uma proposta de ensino de combate ao preconceito e autoritarismo, condições para posteriores discussões sobre a brincadeira infantil e uma aprendizagem por meio de atividades práticas, priorizando a emoção sobre a razão, a curiosidade e a liberdade; o pedagogo suíço Pestalozzi (1746-1827) influenciou com suas ideias de liberdade e espiritualidade e enfatizou o desenvolvimento afetivo das crianças desde o nascimento, contribuindo na formação do caráter infantil e o educador alemão

Fröbel (1782-1852) recebeu influências teóricas e ideológicas do liberalismo e

nacionalismo, preconizou uma autoeducação pelo jogo e criou os jardins de infância, como já salientamos.

Referindo-se a Fröbel sobre os jardins de infância, vejamos algo muito curioso que Oliveira (2007, p. 67) elencou:

Os jardins-de-infância divergiam tanto das casas assistenciais existentes da época, por incluírem uma dimensão pedagógica, quanto da escola, que demonstrava ter, segundo o autor, constante

13 Bispo protestante.

14 Além das datas referentes aos fatos históricos, também consideramos relevante

especificar entre parênteses as datas de nascimento e falecimento dos principais influenciadores da educação, para que os leitores possam se localizar, traçando um paralelo, na trajetória da história da infância e da educação.

preocupação com a moldagem das crianças, praticada de uma perspectiva exterior.

Fröbel influenciou não somente os alemães15, mas ingleses, americanos, italianos e outros povos. Haja vista, um casal de alemães refugiados criou em 1858 o primeiro jardim de infância americano, porém, o idioma utilizado era o alemão. Somente dois anos depois, a educadora norte-americana Elizabeth Peabody criou em Boston o primeiro jardim de infância de língua inglesa. E por volta de 1894, realizaram algumas experiências educacionais para crianças pequenas no Brasil e em outros países latinos.

Oliveira traz em sua obra Educação Infantil: fundamentos e métodos (2007) muitas outras informações importantes e interessantes sobre as teorias desses autores, que deram os primeiros passos na construção de ideias e práticas de Educação Infantil, estabelecendo as bases para um sistema de ensino mais centrado na criança. A princípio seus modelos atenderam crianças pobres, depois filhos da classe média e alta.

Na segunda metade do século XIX, estendendo-se ao século XX, temos outros grandes influenciadores, dentre eles dois médicos. O belga Decroly (1871- 1932) desenvolveu trabalho com crianças excepcionais e elaborou uma metodologia de ensino embasada no interesse da criança, um ensino voltado para o intelecto e defendeu a formação de turmas homogêneas. Já a psiquiatra italiana Montessori (1870-1952) desenvolveu trabalho com crianças que apresentavam deficiência intelectual e era a favor do uso de materiais apropriados como recursos educacionais, adequados à exploração sensorial pelas crianças. Criou instrumentos elaborados para a educação motora, dos sentidos e da inteligência como: letras móveis; contadores (ábacos) e diminuição do tamanho do mobiliário e dos objetos domésticos a serem utilizados para brincar na casinha de boneca.

Após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), ideias a respeito da infância, segundo Oliveira (2007, p. 76), “como fase de valor positivo e de respeito à natureza” impulsionaram o movimento escolanovista que

teve consequências importantes para os sistemas educacionais e a mentalidade dos professores, pois pregava como princípios básicos

15 Por volta de 1851, o governo alemão mandou fechar os jardins de infância. Suas ideias foram proibidas na Alemanha, nesta época.

de uma escola renovada a valorização dos interesses e necessidades da criança, a defesa da ideia do desenvolvimento natural, a ênfase no caráter lúdico das atividades infantis e a crítica à escola tradicional. (AZEVEDO, 2013, p. 43)

No campo da psicologia, autores como Vygotsky (1896-1934), Wallon (1879- 1962), Piaget (1896-1980) e outros ofereciam novas maneiras de compreender e promover o desenvolvimento das crianças pequenas.

Os psicanalistas interacionistas, Vygotsky e Wallon, consideravam que o comportamento infantil deveria ser interpretado. Para Vygotsky, “a criança é introduzida na cultura por parceiros mais experientes” e Wallon “destacava o valor

da afetividade na diferenciação que cada criança aprende a fazer entre si mesma e os outros” (OLIVEIRA, 2007, p. 76). A autora enfatiza que ambos trouxeram grandes contribuições ao conhecimento sobre a forma de a criança ser e modificar-se, ainda relata que atualmente eles vêm exercendo significativa influência entre os estudiosos da área de Educação Infantil.

As pesquisas de Piaget e seus colaboradores também revolucionaram conceitos sobre a criança. Seus objetivos consistem na formação de sujeitos autônomos, privilegia a interdisciplinaridade dos conteúdos, opondo-se ao modelo tradicional e estabelecem a passagem da criança por meio de estágios de desenvolvimento.

Grandes são as discussões em torno das teorias de Vygotsky e Piaget, e muitos são os embates entre os educadores vygotskyanos e piagetianos, pois é possível constatar suas convergências e divergências, dividindo assim a opinião dos profissionais da educação. No entanto, não é o objetivo de nossa pesquisa optar entre uma das duas teorias, mas de apenas apresentar os conceitos e as contribuições relevantes de tais teóricos, que hoje são um dos maiores influenciadores da educação.

Outro protagonista é o educador Freinet (1896-1966), defensor da extrapolação dos limites da sala de aula e da integração às experiências vividas em seu meio social. Enfatizou as atividades cooperativas, manuais e intelectuais. Interessante que embora não trabalhou diretamente com crianças pequenas, impactou práticas didáticas em creches e pré-escolas em vários países.

O período pós-Segunda Guerra Mundial (1939-1945) traz o reconhecimento de que a criança possui direitos, expressos na Declaração Universal dos Direitos da

Criança, promulgada em 1959 pela Organização das Nações Unidas (ONU), criada em 1945.

Oliveira informa: “em países como os Estados Unidos, a educação infantil combinou períodos de expansão e retraimento, em virtude de posições socialmente defendidas em face da mulher, até recentemente confinada no ambiente doméstico [...]” (2007, p. 78), depois complementa que

quando os movimentos feministas, cada vez mais atuantes no decorrer do século XX, passaram a reivindicar creches para possibilitar igualdade de oportunidades de trabalho para as mães, receberam pouco respaldo dos especialistas em desenvolvimento infantil e em psiquiatria, os quais [...] se posicionavam contra a precoce separação entre a mãe e a criança. (OLIVEIRA, 2007, p. 80)

Logo vieram mais descobertas científicas relevantes sobre o desenvolvimento infantil que abalaram as práticas familiares e as creches e pré-escolas, tendo como principais influenciadores e ações: o construtivismo de Kamii, a psicogênese da língua escrita de Ferreiro e os estudos psicológicos e psicolinguísticos com bebês de Trevarthen e Bruner. Também contribuíram para a educação dos pequenos, alguns sociólogos e antropólogos que elaboraram concepções e práticas educativas inovadoras.

Como retrata Oliveira (2007, p. 81):

A atual etapa reconhece o direito de toda criança à infância. Trata-a como “sujeito social” ou “ator pedagógico” desde cedo, agente construtor de conhecimentos e sujeito de autodeterminação, ser ativo na busca do conhecimento, da fantasia e da criatividade, que possui grande capacidade cognitiva e de sociabilidade [...].

Hoje, os sistemas de Educação Infantil de diferentes países divergem quanto ao(s): percentual de crianças atendidas nas diversas faixas etárias16 que a compõem; níveis de investimentos feitos, conforme as políticas públicas aplicadas; princípios pedagógicos defendidos; objetivos educacionais propostos; às formas de organização (espaços, horários, rotina); à formação inicial e continuada dos profissionais dessa área e suas práticas educativas e o estabelecimento dos critérios mínimos de qualidade oferecidos às crianças por meio de avaliações específicas.

16 Podem ocorrer distinções quanto à faixa etária da Educação Infantil de um país ao outro,

Concordamos com Oliveira ao afirmar que “o debate não está mais centrado em se deve haver investimento na área de educação infantil, mas em por que e para

quem ela existe e como organizá-la para oferecer serviços de qualidade” (2007, p.

82, grifo da autora).

Também consideramos que toda a trajetória, todas essas questões que envolvem a Educação Infantil levam a grandes desafios e essenciais tomadas de decisões para essa inicial e importante etapa da vida humana. Muitos dos desafios já foram vencidos e resultados significativos foram obtidos, mas sempre haverão novos desafios, visto que a humanidade traça seus rumos mediante os avanços, e porque não dizer, até retrocessos em relação às perspectivas do século XXI.

A partir desta primeira retrospectiva, a seguir colocamos o Brasil no cenário da Educação Infantil, tentando estabelecer uma trajetória histórica diante da Educação do país.