D. KONUYLA İLGİLİ ÇALIŞMALAR
6) Ömer en-Nesefî
Buscando manter os efeitos típicos da Comédia Antiga descritos na Parte I, fiz escolhas de tradução que os mantivessem em português. De maneira análoga àquela com que procedi frente ao registro da elocução aristofânica (reproduzindo tanto sua proximidade com a língua comum como sua variedade) e aos insultos, traduzi as expressões e trocadilhos gregos por equivalentes brasileiros que parecessem mais naturais em nossa língua, almejando mais o efeito de familiariedade e proximidade com a língua real do que a fidelidade à construção grega. Procedimentos importantes de adaptação foram:
a) nomes com significado. Tomem-se como exemplo os seguintes versos (21-24):
εἶτ’ οὐχ ὕβρις ταῦτ’ ἐστὶ καὶ πολλὴ τρυφή, ὅτ’ ἐγὼ μὲν ὢν Διόνυσος υἱὸς Σταμνίου αὐτὸς βαδίζω καὶ πονῶ, τοῦτον δ’ ὀχῶ, ἵνα μὴ ταλαιπωροῖτο μηδ’ ἄχθος φέροι;
Diz se isso não é folga e uma falta de limite! Eu, Dioniso em pessoa, o próprio filho de Alambíquias,
Padecendo andando a pé, e esse aqui montando o burro
Pra não sentir canseirinha e não carregar um pesinho! No original, Stamnías é um nome inventado a partir do substantivo stamnós, jarra de vinho, inserido como um elemento surpresa no lugar de hyiòs Diós, “filho de Zeus”, que, além de esperado, seria uma proclamação mais eficiente da própria nobreza. A graça também está no fato de a jarra derramar o vinho (Dioniso) e, de certa maneira, gerá-lo. Traduzir o nome por Estâmnias simplesmente não diria nada ao leitor e “Jarra-de-Vinho” excluiria um trocadilho com o que poderia ser um nome próprio grego real. Optei por fazer o que Adriane da Silva Duarte faz com um personagem de sua tradução de Lisístrata: utilizei um nome que para o leitor brasileiro pareceria grego, mas que, ao mesmo tempo, lembraria uma palavra do português. Como vimos, ela traduziu Kinesías (que tem relação com o verbo kinéo, que, em seu primeiro sentido é mover, mas que também significava “foder”, “trepar”) por “Trepásio”. Traduzi Estâmnias por “Alambíquias”, porque o alambique tem o mesmo papel de "progenitor" da bebida alcoólica que o stamnós. Procedi assim com os outros nomes com significado, excetuando-se Xântias ("ruivo"), que traduzi por Ferrugem, um apelido comum em português, que geraria maior sensação de familiaridade no leitor brasileiro.
b) Quanto aos nomes de personalidades e lugares mitológicos, quando havia variantes, usei as que fossem mais familiares ao público geral. Dessa maneira, por exemplo, a expressão “ir para o
Inferno” é muito mais viva e significativa para nós do que a tradução literal “ir para o Hades”. Assim, em vez de “Héracles”, usei “Hércules”, em lugar de “Hades”, “Inferno” etc.
c) Não raro adicionei informações em rubricas ou no próprio texto, para tornar clara uma referência demasiado obscura. O objetivo era oferecer ao leitor uma noção geral do que era a pessoa ou evento em específico, sem que fosse necessário consultar as notas, o que interromperia o fluxo de leitura e prejudicaria o efeito do texto. Alguns exemplos abaixo (vv. 55; 33-34 )
Ἡρακλῆς: πόθος; πόσος τις;
Διόνυσος: μικρὸς ἡλίκος Μόλων
οἴμοι κακοδαίμων· τί γὰρ ἐγὼ οὐκ ἐναυμάχουν;
ἦ τἄν σε κωκύειν ἂν ἐκέλευον μακρά.
Hércules: Qual o tamanho da paixão?
Dioniso: (faz um gesto amplo com as mãos) Do tamanhinho do Mólon Ai, desgraça! Se eu tivesse ido pra lutar no mar,
Co’ a alforria, eu te mandava um “pau no cu” dos mais sinceros!
No primeiro caso, indica-se ao leitor por meio da rubrica e do diminutivo irônico "tamanhinho" que Mólon era alguém conhecido por sua altura, no segundo, adiciona-se ao texto a implicação de lutar no "mar": receber a alforria, que é apenas pressuposta no original. Só evitamos o procedimento quando isso tornaria os versos explicativos e didáticos demais, afetando o andamento e o efeito do texto.
d) Não troquei referências à Grécia do tempo por referências generalizantes ou modernas, o que deturparia o caráter da Comédia Antiga, profundamente ligada a seu contexto político-social original. Por mais que isso afete o sentimento de familiaridade, dá ao texto certa "cor local", criando a impressão de que aquela cultura, embora estranha ao leitor, é algo muito próximo e familiar para o povo retratado. Analogamente, quando lemos Grande Sertão: Veredas e Macunaíma, apesar de não entendermos muitas das palavras e referências, temos a impressão de que elas são próprias e íntimas das populações representadas.
e) No grego ático coloquial, era comum invocar os deuses para afirmar, negar ou mostrar surpresa. Embora o uso soe estranho aos ouvidos modernos, foi necessário mantê-lo, pois, como vimos, os nomes dos deuses colaboram para a construção da rede de significados da peça. Isso também contribuiu para dar ao texto cor local, pois poderia criar sensação de que estamos diante de um costume "tipicamente grego", semelhante à que temos quando lemos em Asterix um gaulês exclamar: "Por Tutatis!" e um romano: "Por Júpiter!".
f) Para o contemporâneo de Aristófanes havia uma comicidade inerente em um coro de rãs. O animal era comum e considerado baixo (cf. a Batracomiomaquia), inapropriado a cantos elevados. No entanto, a rã é um animal não muito próximo de nossa cultura, que é mais acostumada a outros animais aparentados: sapos e pererecas. Dessa maneira, substituí tanto o título da peça como o nome das personagens por “pererecas”, que além de nos ser mais familiar, tem a sonoridade e o sentido (pela associação com a vagina) mais cômicos. Apesar de bátrakhos não ter uma relação com o órgão genital feminino, considerei que a associação contribui grandemente para o efeito da peça sem trair seu espírito, uma vez que insinuações obscenas são comuns em Aristófanes. No entanto, para não dificultar a identificação da obra, coloquei o novo título como alternativa ao original: “As Rãs ou As Pererecas”.
g) No enfrentamento entre Ésquilo e Eurípides, tive que alterar um elemento nas referências e paródias do primeiro poeta: as palavras compostas. Em grego, a composição é um procedimento gramatical comum, apesar de seu uso extensivo ser um ornato; não se pode dizer o mesmo em português, em que é rara e gera grande estranhamento. Como os compostos são considerados marca do estilo antiquado de Ésquilo, eu o substituí por um equivalente em português: o excesso de palavras elevadas.
h) Por fim, também com o objetivo de tornar o texto acessível, resolvi compor um prefácio que explicasse brevemente o contexto e apresentasse as principais personalidades mencionadas ao longo da peça. Dessa maneira, o leitor será mais capaz de entender referências feitas à sociedade da época e lembrar desse contexto durante a leitura por meio das indicações sutis que adicionei ao texto. Evidentemente, não prescindi das notas, empregadas para esclarecer eventuais dúvidas do leitor e dar informações mais detalhadas.
3. Tradução
“As Rãs” ou “As Pererecas” Prefácio
Apresento breve descrição dos acontecimentos importantes no período da comédia. Em negrito estão as pessoas, fatos e lugares citados na peça.
Foi apresentada no festival das Leneias, no ano 405 a.C. Já era o vigésimo sétimo ano da Guerra do Peloponeso, travada entre Atenas e Esparta (os aliados mais importantes dos espartanos eram Corinto e Tebas). Enquanto os peloponésios eram mais poderosos nas batalhas terrestres, a força de Atenas era sua frota, cujos marinheiros provinham sobretudo das classes mais pobres. Por um lado, a frota garantia o domínio militar sobre os aliados, que pagavam tributos a Atenas; por outro, era a base da democracia ateniense, pois, sendo essenciais para o poderio da cidade, os mais pobres conseguiam assegurar seu predomínio político.
No ano anterior, morrera o tragediógrafo Eurípides, conhecido por seu tratamento pouco usual dos mitos, sua agudeza no uso das palavras e pela influência que recebeu das novas ideias filosóficas. Quase na mesma época, morrera o tragediógrafo Sófocles, considerado de temperamento muito pacífico; ele e Eurípides eram considerados os melhores tragediógrafos dos tempos recentes. Entre 456 e 455 a.C. já havia morrido o poeta Ésquilo, famoso por peças de elocução grandiosa e matéria grave e até então considerado o maior tragediógrafo que já existira; o poeta vivera no período mais glorioso de Atenas, em que a cidade venceu a invasão persa e estabeleceu seu domínio sobre o Mar Egeu.
Em 411 a. C., houve uma tentativa de golpe oligárquico em Atenas, que tinha entre seus líderes Frínico e Terâmenes (o qual, ao fim, ficou ao lado dos partidários da democracia). Os golpistas tinham por objetivo retirar os direitos políticos dos cidadãos mais pobres. Depois de um curto sucesso inicial, foram destituídos, e os envolvidos perderam o direito à cidadania.
Entre os chamados demagogos, líderes das camadas populares, destacaram-se Cleão, Hipérbolo (já mortos no época da peça), Cleofonte e Arquedemo. Eram infames entre as classes mais ricas, acusados de usar a oratória para enganar o povo em prol de seus objetivos pessoais. Em geral, eram contra qualquer acordo de paz com os peloponésios e ferozes opositores dos simpatizantes da oligarquia (e, portanto, contrários a devolver a cidadania aos coloboradores do golpe oligárquico).
Na época da peça, Atenas havia sofrido um desastre militar na Sicília, em que perdera grande parte de seus navios e soldados. A cidade tentava resistir com suas últimas forças. Os espartanos e aliados invadiram as cercanias de Atenas, impedindo os inimigos de extrair prata das minas da região e consequentemente de cunhar sua valiosa moeda, que passou a ser feita do ouro das
oferendas colocadas na acrópole e, principalmente, do bronze folheado a prata. Devido à escassez de recursos, ambos os lados da guerra tentavam conseguir financiamento junto aos persas.
Além disso, em 406 a. C. houve a batalha naval de Arginusas, em que Atenas teve inesperada e importante vitória contra Esparta. Deu-se a cidadania ateniense a todos os escravos, que foram alforriados. No entanto, após a batalha, ocorreu uma tempestade, que impediu que os corpos dos mortos e os possíveis sobreviventes fossem resgatados. Isso fez com que os trierarcas (comandantes dos navios) fossem acusados de negligência, mas um deles, o já citado Terâmenes, conseguiu transferir a responsabilidade para os generais, que foram condenados à morte (entre os quais Erasínides). No ano seguinte à apresentação d'As Rãs, Atenas sofreria a derrrota final e capitularia, perdendo o império marítimo e sofrendo um novo golpe oligárquico (que logo mais seria derrubado por um novo ressurgimento da democracia).
Edição e notas
Empreguei a edição do texto grego mais recente, estabelecida em 2007 por N. G. Wilson. A numeração dos versos diz respeito a essa edição. Cotejei com as edições comentadas de Stanford (1958) e Dover (1993) e com artigos a respeito de trechos específicos, de modo que, quando a leitura de outro editor me parecia mais adequada, afastei-me do texto de Wilson. A maior parte das notas são baseadas nos comentários de Dover, algumas nos de Stanford; mencionei as páginas dessas obras somente quando julguei que poderia interessar ao leitor consultar os trechos. As notas que partiram de outros textos são referidas a seus autores, com devida marcação de ano (se necessário) e página.
Observação sobre a recitação
Segundo os princípios rítmicos com que se concebeu a tradução, sempre que não há vírgula, ponto ou qualquer intervalo natural depois de um verso, deve-se efetuar pausa somente se o verso seguinte começar por letra maiúscula (excetuando-se os nomes próprios). Caso contrário deve-se continuar a leitura como se não houvesse divisão entre os versos. Exemplo:
Esta é uma ação de um sujeito [sem pausa] que tem juízo, intelecto e [sem pausa]
muitos anos de mar. [pausa ] Sempre mais pronto a voltar-se ao [sem pausa]
lado do barco que ven- [sem pausa] ce que ser qual figura [pausa] Pintada e nunca mudar. [pausa]
AS PERERECAS