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II. 8.6.2005 Coğrafya Müfredat Programı

II.14. Ölçme ve Değerlendirme

Os CRAS são os principais agentes que mediam a interlocução entre os beneficiários e o PBF. Mesmo com a burocratização sistematizada e o controle do MDS, por meio do Censo SUAS e do cadastro, por exemplo, são os agentes sociais no CRAS que efetivamente executam a política. Daí advém a importância de compreender a dinâmica de atuação dos agentes que fazem parte desse órgão. Embora o CRAS Sebastian Theodoro Filho atendesse toda a Zona Sul, a sua estrutura funcional era pequena. O centro contava com uma diretora que coordenava e administrava as demandas que cabiam ao CRAS, quatro assistentes sociais que executavam diversas tarefas (tais como atender e acompanhar a população assistida), dois funcionários responsáveis pelo cadastro das famílias, uma pedagoga, uma psicóloga e duas funcionárias que auxiliavam na recepção e no funcionamento do centro.

A partir do conhecimento mais aprofundado da dinâmica dos atendimentos e das demandas da população atendida no CRAS, os contornos de um “campo

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Quando o cadastro federal foi expandido e modificado, além do Governo Federal, estados e municípios também passaram a adotá-lo para fins de seus programas e serviços sociais. Como o programa “Cartão Família Carioca”, programa de transferência de renda do município do Rio de Janeiro, que funciona como um complemento ao PBF, famílias cadastradas e com renda per capita de até R$ 108 podem se candidatar ao benefício complementar, mas devem cumprir as condicionalidades do PBF. Há, também, o programa do governo do estado do Rio de Janeiro “Renda Melhor” (com fim previsto para setembro de 2016). Das famílias acompanhadas na pesquisa, nenhuma recebeu os benefícios do “Cartão Família Carioca” e/ou do “Renda Melhor”.

social”56, tornaram-se mais evidentes. O “campo”, nos termos de Bourdieu (2007;

1983), serve como instrumento que permite localizar os agentes sociais em posições relativas percebidas em um espaço social em que ocorrem relações invisíveis. Para o autor, a sociedade, de um ponto de vista espacial, é constituída de variados campos, isto é, de mundos sociais relativamente autônomos (religioso, político, artístico, científico, filosófico, artístico etc.). Nesse sentido, caracterizar os campos como autônomos implica considerar que neles há um modo próprio de atuação, o que implica, também, a ideia de que a atuação do agente no campo é estruturada e estruturante. Isso significa que, nos campos, identificam-se espaços de relações nos quais as posições dos agentes se encontram a priori fixadas. Os agentes realizam suas práticas no interior de um campo, adquirindo interesses, construindo estratégias e fazendo escolhas delineadas pelo habitus internalizado durante sua trajetória e ligado à sua origem social de vida. O habitus pressupõe, assim, que a narrativa do agente é relacionalmente determinada no campo e sustentada com base em sua história passada, que orienta o perfil e a ação posterior da trajetória do indivíduo, ou seja, seu habitus, definindo o repertório de decisões para a ação.

No cotidiano do CRAS, eram executadas atividades técnicas e burocráticas, que incluíam preenchimento de relatórios e de ofícios em respostas a demandas da área social. Ou seja, havia uma burocracia, às vezes protocolar, que precisava ser atendida sob pena de haver alguma punição ao CRAS ou ao funcionário. Tal questão, por vezes, denotava a existência de um “controle” e de cobranças por resultados por parte da SMDS e do gestor federal do PBF. O Censo SUAS, apresentado anteriormente, é um exemplo de um instrumento que consiste em uma

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Independentemente de sua especificidade, os campos possuem leis gerais invariáveis e propriedades particulares que se expressam como funções variáveis secundárias. Um campo limita- se, entre outros aspectos, pela definição dos objetos de disputas e dos interesses específicos do próprio campo(BOURDIEU, 1983).

forma de controle, ainda que no discurso “oficial” este tenha sido apresentado como uma ferramenta de auxílio ao trabalho dos profissionais, no caso das assistentes sociais.

Ao analisar o “campo” na área social, percebemos que os agentes que trabalham no CRAS, ainda que submetidos à gestão federal do PBF, ocupam uma posição essencial na execução do programa. Entre os agentes do CRAS, as assistentes sociais são as principais mediadoras entre o PBF e os beneficiários, uma vez que efetuam a triagem das famílias com o perfil socioeconômico adequado para receber o benefício do PBF, acompanhando-as após esse processo. Portanto, elas são profissionais centrais para que essa política social seja efetuada e estão entre os funcionários que, por meio do seu capital57 cultural, originário da formação

acadêmica, sentem-se e são legitimados para falar e atuar sobre a área social. A formação acadêmica mostra-se fundamental para as assistentes, pois a área social é permeada por pessoas que são voluntárias e que desempenham atividades em ONGs e instituições de caridades, auxiliando os segmentos mais pobres da população. Adquirir a distinção de suas atividades por meio da formação superior e do reconhecimento da profissão obtido via regulamentação da profissão torna-se essencial para elas58.

57Os tipos de capitais são aqui entendidos com base na concepção de Bourdieu (2012; 2007), para quem o conceito, em todas as suas manifestações, constitui a “chave” para dar conta da estrutura, do funcionamento e da classificação do mundo social. O capital consiste, assim, em “toda energia (ou poder) social suscetível, mas também toda energia que pode ser utilizada nas competições sociais”, podendo ser de ordem tanto material quanto simbólica (BOURDIEU, 2012, p. 66).

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A primeira lei de regulamentação da profissão de assistente social no Brasil é de 1957 (Lei nº. 3.257). Posteriormente, em 1993, foi substituída pela Lei n.º 8.662, que estabelece no artigo 2º que somente poderão exercer a profissão de Assistente Social: I - os possuidores de diploma em curso de graduação em Serviço Social, oficialmente reconhecido, expedido por estabelecimento de ensino superior existente no país, devidamente registrado no órgão competente; II - os possuidores de diploma de curso superior em Serviço Social, em nível de graduação ou equivalente, expedido por estabelecimento de ensino sediado em países estrangeiros, conveniado ou não com o governo brasileiro, desde que devidamente revalidado e registrado em órgão competente no Brasil; III - os agentes sociais, qualquer que seja sua denominação com funções nos vários órgãos públicos,

Outro fator que reforça sua posição e atuação no “campo” da área social é o fato de serem funcionárias concursadas do município, pois, como algumas mencionaram: “os governos passam, mas a assistência social precisa continuar” e “nós somos preparadas para atuar diretamente com as pessoas, foram anos de estudo e prática com a população assistida pelos programas”; “quando uma administração acaba e outra é eleita, somos nós que continuamos aqui fazendo funcionar. Como assistentes lidamos diretamente com a população independente de quem esteja governando o município”.

Desde o início desta pesquisa, a centralidade da gestão do PBF pelo Governo Federal causava algumas reclamações por parte das assistentes, uma vez que as demandas urgentes, como desbloqueio do benefício, dependiam do MDS. Após discussões e disputas em fóruns e reuniões nos Conselhos de Assistências Sociais, foi permitido às assistentes sociais o desbloqueio dos benefícios59, uma demanda

bastante frequente no CRAS. Juntamente com a possibilidade de desbloquear os benefícios, as assistentes passaram a ter mais trabalho, pois deveriam acompanhar a família para a qual o PBF era desbloqueado por três meses e escrever, ao final desse período, um relatório sobre o acompanhamento realizado. Uma das beneficiárias que teve seu benefício desbloqueado comentou com a assistente social, primeiramente surpresa: “Não precisa esperar desbloquear? Mesmo? [...] Tá podendo [...] agora tá poderosa, gostei de ver”. Nessa ocasião, a assistente social esboçou um leve sorriso e respondeu: “Por enquanto sim, mas você precisa voltar aqui no mês que vem; senão pode bloquear”. A “ameaça” do possível bloqueio,

segundo o disposto no artigo 14 e seu parágrafo único da Lei n.º 1.889, de 13 de junho de 1953. Parágrafo único. O exercício da profissão de Assistente Social requer prévio registro nos Conselhos Regionais que tenham jurisdição sobre a área de atuação do interessado nos termos desta lei (CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL, 2016)

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embora fictícia, é uma estratégia usada pela assistente social para que a beneficiária retorne, de modo que o acompanhamento da família possa ser efetuado. A possibilidade de desbloquear o benefício empoderou as assistentes perante os beneficiários, permitindo que o vínculo entre as partes se fortalecesse, assim como reforçou a posição delas no “campo”.

Além das assistentes sociais, os funcionários responsáveis pelos cadastramentos e pela atualização dos dados dos beneficiários dos programas sociais também ocupavam uma posição relevante. Esses funcionários nem sempre possuíam curso superior, mas sentiam-se legitimados no “campo” da área social, uma vez que receberam um treinamento da SMDS, órgão que era responsável por transmitir as instruções referentes aos programas e ao cadastro. Além disso, seu capital social era fortalecido pelo resultado da experiência em lidar diretamente com os beneficiários do PBF e pela importância que o cadastro tem na estrutura do PBF. Portanto, as chances que os agentes têm de acumular ou de reproduzir capital social dependem de sua posição dentro do sistema de estratificação.

As assistentes identificavam o perfil da família para ingressar no programa, mas era o cadastrador que incluía as pessoas no cadastro e verificava se a documentação solicitada estava correta. Contudo, apesar do treinamento e da existência de critérios estabelecidos pela Lei n.º 10.836, de 09 de janeiro de 2004, para o acesso das famílias ao PBF, havia, às vezes, os funcionários que julgavam pela aparência se os beneficiários eram ou não “merecedores”. Segundo um funcionário do cadastro, “tem mulheres que não precisam, dá para ver, [usam] roupa boa, celular novo, claro que essa não precisa. Tem gente muito mais pobre; às vezes eu pergunto: precisa mesmo?”. Esse julgamento pela aparência não era compartilhado por parte das assistentes sociais pesquisadas.

Entre os funcionários do CRAS, as assistentes sociais e os cadastradores eram os agentes sociais mais visíveis que compunham no âmbito municipal, na “ponta” do atendimento à população, o campo das políticas sociais, em que o PBF é um dos objetos de disputa. Entretanto, havia outros atores que também faziam parte do “campo” da área social no que se refere ao PBF. Estes lidavam com a “carência” das famílias, e alguns possuíam vínculos ou participavam da Associação dos Moradores, visto que residiam na favela há bastante tempo, o que possibilitava a construção de redes60 e relações sociais bastante densas.

Na favela pesquisada, esses atores sociais estabeleciam “pontes” entre os moradores e a SMDS. Cabe lembrar que o ingresso em algumas favelas até pouco tempo era bastante restrito. Mesmo com a criação das UPPs, que facilitaram a circulação no local, ainda era necessário o auxílio de moradores que pudessem estabelecer o contato entre os moradores e o Estado, função que era desempenhada pelo gestor municipal. A Associação de Moradores colaborava muitas vezes, indicando as famílias em situação de pobreza que poderiam receber o benefício. Indicavam o local de residência, assim como acompanhavam as assistentes sociais nas visitas, pois havia locais de difícil acesso em que somente um “nativo” sabia chegar.

Ao descrever o caminho para chegar às famílias do PBF, é possível compreender como cada um dos agentes envolvidos com o programa demarca seus espaços a partir do local de atuação (CRAS ou favela), quais objetos e interesses

60 Marques (2010), em sua obra “Redes Sociais: segregação e pobreza”, descreve e analisa, na cidade de São Paulo, a importância da sociabilidade para a compreensão das condições da pobreza urbana no que tange ao acesso a bens e serviços (obtidos via mercado) e ao “provimento” aos indivíduos de elementos oriundos de trocas e apoio social. O estudo de Marques sobre as redes e suas diversidades ajuda a compreender a heterogeneidade das situações sociais, mesmo entre a população mais pobre, que ainda é produzida pelos efeitos complexos dos “diversos atributos e processos, como escolaridade, idade, sexo” (2010, p. 121), além das decisões e estratégias ao longo da vida que influenciam eventos e dinâmicas que estão acima do controle dos indivíduos.

estão em disputa e quais são os códigos apropriados à competição. Bourdieu (1983), quando discorre sobre o conceito de campo, salienta que a luta entre esses antagonistas pressupõe um acordo mínimo sobre o que merece ser disputado, produzindo a crença no valor dessa disputa. Ainda segundo o autor, a estrutura do campo é um estado da relação de força entre os agentes ou as instituições engajadas na luta ou, se preferirmos, da distribuição do capital específico que, acumulado no curso das lutas anteriores, orienta as suas estratégias. Dentro dessa relação de força, os agentes que monopolizam o capital específico, mais ou menos completamente, tendem a estratégias que visam à manutenção da ordem estabelecida, agindo, frequentemente, com intransigência em relação às mudanças. Inversamente, os agentes que possuem menor volume de capital tendem a estratégias de subversão e rompimento, respeitando certos limites. Todos os agentes engajados em determinado campo possuem certos interesses comuns. Entre estes, o principal consiste na existência do próprio campo.

No caso das assistentes sociais e dos cadastradores, fica evidente o espaço e o papel por eles desempenhado, já que são fundamentais para o funcionamento e a execução do PBF, ainda que tenham distintas atribuições.

Ao analisarmos a estrutura do PBF, como será mostrado posteriormente, os agentes na “ponta” são os intermediários para que as pessoas possam ter acesso ao benefício e aos demais programas sociais. Porém, até chegarmos à execução do PBF na “ponta”, existe um sistema que se inicia na gestão federal, que articula e coordenada todas as partes do programa.

2 SISTEMA DE PROTEÇÃO SOCIAL, PROGRAMAS SOCIAIS E O BOLSA

Benzer Belgeler