Acerca da heterogeneidade, Maingueneau (1997) menciona que tal adjetivação poderá representar uma depreciação dos objetos. Contudo, no discurso, a heterogeneidade poderá representar uma relação profunda do interior com o exterior.
O entendimento de Pêcheux bem como o de Foucault é que não existe um discurso de origem absoluta, haja vista que cada enunciado traz um já dito. Com isso, a AD destitui o sujeito falante da posição central, do local de produtor de sentidos, para integrá-lo ao funcionamento dos enunciados. Nesta perspectiva, esses teóricos não raro são responsabilizados pela morte do sujeito.
/.../ todo discurso manifesto repousaria secretamente sobre um já dito; e que este já-dito não seria simplesmente uma frase já pronunciada, um texto já escrito, mas um “jamais dito”, um discurso sem corpo, uma voz tão silenciosa quanto um sopro, uma escrita que não é senão o vazio de um próprio rastro (FOUCAULT, 2005, p. 28).
Maingueneau (op. cit.) distingue dois tipos de heterogeneidade enunciativa – a
heterogeneidade mostrada e a heterogeneidade constitutiva. No entendimento do autor,
a heterogeneidade mostrada é recuperável, tendo em vista que se manifesta explicitamente na materialidade lingüística. Vale salientar, porém, que a heterogeneidade mostrada vai além da citação direta, podendo também não ser marcada, como é o caso da utilização da ironia. Inclusive o autor considera como tarefa perigosa proceder-se com uma classificação da heterogeneidade mostrada. Porém, algumas abordagens lingüísticas poderão revelar a heterogeneidade enunciativa do discurso, como a polifonia, por exemplo.
A heterogeneidade constitutiva, por sua vez, não é marcada na superfície do enunciado. No entanto, a AD poderá formular hipóteses e recuperá-la.
Maingueneau (op. cit.) também menciona que apesar dos discursos diretos e indiretos serem as manifestações mais clássicas da heterogeneidade enunciativa, essa
90 não está unicamente associada à presença dos sujeitos diversos na constituição do enunciado. A heterogeneidade enunciativa poderá resultar da construção de níveis distintos pelo locutor, ao longo do discurso, comenta a autora.
Tendo em vista a presença de outras vozes nos discursos, vindas de discursos pré-existentes, Orlandi (2002) alerta para a distinção existente entre o interdiscurso e o intertexto. Na avaliação da autora, conforme já especificado anteriormente, fazem parte do interdiscurso as formulações elaboradas por outros e já esquecidas quanto as suas origens. No entanto, tais formulações ainda determinam aquilo que está sendo dito. Nesta perspectiva, são as palavras do outro, as quais já haviam feito sentido em outras circunstâncias, que emergem como uma voz sem nome e fazem sentido em minhas palavras. Na concepção de Courtine, mencionada por Orlandi (op. cit.), no interdiscurso
fala uma voz sem nome (p. 34).
Em relação à intertextualidade, caracteriza-se através da relação de um texto com outro, previamente produzido. A presença do outro no texto poderá estar sendo reconhecida ou não. Assim a intertextualidade é explícita quando a fonte da memória é recuperada, seja através do relato, das citações de referência, dos resumos, etc. Cardoso (2003) considera que, entre o discurso citado e o que cita, poderá ocorrer uma ambigüidade, do tipo que aquilo que digo é verdade, porque é o outro quem diz. Assim, o discurso citado poderá funcionar como uma proteção ao discurso presente.
... não só não somos inteiramente responsáveis pelas representações que acreditamos fazer nos textos que produzimos, como também nem sequer somos os únicos responsáveis pelas que ali aparecem (PINTO, 2002, p. 30). Ainda segundo Cardoso (op. cit.), a intertextualidade é implícita quando o interlocutor recupera a fonte na memória e constrói o sentido do texto. A autora também menciona que a intertextualidade implícita ocorre através das alusões, paródias, de certas paráfrases, certas ironias, etc.
Conforme pontuado anteriormente, Orlandi (2002) considera que fazem parte do interdiscurso as formulações elaboradas e já esquecidas, porém, ainda determinam aquilo que dizemos. Nesta perspectiva, a palavra para fazer sentido, faz-se necessário que ela já tenha feito sentido, sendo essa voz sem nome retomada através das minhas palavras.
Tendo em vista que na voz de um sujeito manifestam-se as vozes de outros sujeitos, Bakhtin (2006) considera que o discurso não é monológico, sendo o
91 dialogismo constitutivo de sentidos no mesmo23. Nesta perspectiva, na voz de um
sujeito também se encontram presentes as vozes de outros sujeitos, independentemente do fato de que aquele que fala seja consciente ou não. Ainda, segundo Bakhtin (op cit), quando estas vozes se interceptam, as mesmas tecem-se polifonicamente. Com isso, há uma polifonia inscrita no enunciado, a qual, na AD, é denominada de interdiscurso.
Bezerra (2005) discute o conceito de polifonia em Bakhtin. Nos comentários do autor, o mencionado conceito se expressa no gênero romanesco e representa a realidade inconclusa e em constante processo de formação. Nessa perspectiva, os personagens estão em constante evolução. Enquanto isso, o monologismo está associado ao autoritarismo ao acabamento, ao dogmatismo, a indiscutibilidade das verdades conduzidas por um discurso. Nesta perspectiva ocorre o apagamento dos universos individuais dos personagens, haja vista que não se permite a expressão da consciência autônoma do outro. Assim, os personagens são sempre sujeitados aos horizontes de criação do autor.
Segundo Pêcheux (1983) através de manobras discursivas de re-calçamento como os esquecimentos, o locutor procura anular as heterogeneidades do discurso. Pêcheux (op. cit.) reporta-se ao esquecimento número um e ao esquecimento número dois.
No esquecimento número um, o inconsciente é afetado pela ideologia e dá a ilusão ao sujeito que ele é a origem do que diz, criador absoluto do seu discurso. Isso porque o mesmo apaga inconscientemente qualquer elemento que o remeta ao exterior da sua formação discursiva. Trata-se de uma zona inacessível ao sujeito, sendo o lugar constitutivo da subjetividade. Acerca deste esquecimento, Orlandi (2002) assinala:
... ele é a instância do inconsciente e resulta do modo pelo qual somos afetados pela ideologia. Por esse esquecimento temos a ilusão de ser a origem do que dizemos quando, na realidade, retomamos sentidos pré-existentes (p.35).
O esquecimento número dois, por sua vez, relaciona-se com a ordem da enunciação, onde, ao longo do dizer, o locutor vai criando famílias parafrásticas. É a operação de seleção lingüística que todo falante faz entre o que é dito e o que deixa de se dito – o não-dito. Nestas, os dizeres poderiam ser ditos de outras maneiras, porém, no interior da formação discursiva que o domina, elege algumas formas e seqüências que se
23 O caráter dialógico das interações discursivas também é incorporado por Freire, notadamente na obra Extensão ou Comunicação?
92 encontram em relação de paráfrase e esquece outras. Como não é consciente desse processo, mantém a ilusão de ser a origem do próprio dizer (PÊCHEUX, 1983).
As famílias parafrásticas são formadas, por exemplo, quando o sujeito é requerido a voltar ao discurso para explicar sobre o que diz e aprofundar especificidades do que pensa. Poderá, então, ocorrer a reformulação do que pensa e diz, sendo que as paráfrases são utilizadas.
Os esquecimentos estão também relacionados com a memória discursiva, as quais, segundo Foucault (2005), são “enunciados que não são mais admitidos nem
discutidos, /.../ em relação aos quais se estabelecem laços de filiação, de gênese, de transformação, de continuidade e de descontinuidade histórica” (p. 32).