O Código Penal Português prevê em seu 11º (décimo-primeiro) artigo a responsabilidade das pessoas singulares e coletivas e, assim como a Lei de Crimes ambientais, prevê a possibilidade de responsabilização da pessoa coletiva independente de seu representante, desde que o representante não tenha agido contra a vontade da empresa.
36 Ainda, prevê que a multa deve ser solidariamente imposta à pessoa jurídica e aos seus administradores. Prevê também a responsabilidade do patrimônio pessoal de cada associado para o pagamento da multa, caso não haja bens suficientes para a satisfação por parte da pessoa jurídica.
Assim, é possível perceber que a responsabilidade penal das pessoas coletivas já é prevista no código penal português, com ressalvas justas à aplicação, tais como a execução por parte da pessoa física em contraordem da pessoa jurídica ou que apenas tenha agido com interesse de proveito próprio.
Ressalta-se a previsão do Código Penal comentado de que não são todos os crimes possíveis de serem cometidos por pessoas jurídicas, justificando o disposto no primeiro inciso do artigo. Como exposto por Lopes da Rocha45, é necessário que a conduta da pessoa física
seja compatível com a representação e nos limites da representação desta em relação à pessoa jurídica. Assim, estaria excluída a responsabilidade no caso de o agente ter atuado além de seus poderes ou contra interesses da pessoa coletiva.
No Direito Penal de Portugal, as penas aplicáveis às pessoas jurídicas são: perda de bens, multa, caução de boa conduta, privação temporária de direito de participar em licitações, interdição temporária do exercício de certas atividades e profissões, privação do direito de participar de feiras, encerramento definitivo do estabelecimento e interdição dos contratos com a administração pública.
3.3.2 Grã-Bretanha
Na Grã-Bretanha, o Direito se baseia na Common Law, dificultando uma mudança mais célere na interpretação do Direito Penal, mas não dificultou a responsabilidade penal das corporações.
A primeira sentença penal de que se tem notícia no Direito Inglês que envolva uma pessoa jurídica é o caso da empresa The Birmingham and Gloucester Railway46. Na
ocasião, a empresa foi condenada a ter uma ponte de sua propriedade destruída por
45 ROCHA, Manuel António Lopes da. A responsabilidade penal das pessoas coletivas – novas perspectivas.
Vol 1, Coimbra Editora, 1998. Disponível em:
https://estudogeral.sib.uc.pt/bitstream/10316/34768/1/Crit%C3%A9rios%20da%20Responsabilidade%20Penal% 20das%20Pessoas%20Coletivas.pdf. Acessado em 19/02/2018.
46 INGLATERRA. The Law of Railways. Disponível em:
https://books.google.com.br/books?id=ifBiAAAAcAAJ&pg=PA419&lpg=PA419&dq=Reg+v.+The+Birmingha m+%26+Gloucester+Queen%27s+bench&source= – Acessado em 19/02/2018.
37 desobediência a uma ordem judicial. O objeto da ação era uma ponte construída sobre uma rua que se considerava prejudicada pela construção, mas a empresa se recusou em demolir a obra.
Apesar de conter uma sanção civil, ressalta-se que o procedimento utilizado na ação é de natureza processual penal e que a desobediência foi considerada crime, o que ocasiona a responsabilidade formalmente penal.
A partir desse processo, deu-se início à possibilidade de responsabilidade penal da pessoa jurídica na Grã-Bretanha. Atualmente, é possível a responsabilidade por condutas negligentes ou omissivas nos casos de crimes contra meio-ambiente, trabalho, saúde pública, segurança e economia.47
3.3.4 Holanda
No Direito Penal Holandês, é possível a responsabilidade penal da pessoa coletiva. Conforme o artigo 51 do código, os fatos puníveis podem ser cometidos por pessoas físicas e jurídicas. Se um fato punível for praticado por uma pessoa jurídica, o procedimento penal pode ser instaurado, e as penas e medidas previstas na lei podem ser aplicadas contra a pessoa jurídica e contra as pessoas físicas que ordenaram o ato.48
No entanto, a Holanda tem a peculiaridade em concentrar a penalização na pessoa jurídica, incluindo a pessoa física apenas como consequência. Portanto, é possível a penalização exclusiva da pessoa jurídica para a Corte Suprema da Holanda.49
3.3.5 Alemanha
No caso alemão, vigora o princípio da impossibilidade de as pessoas coletivas cometerem delitos. No entanto, adota-se um direito administrativo penal da pessoa jurídica.
47 AMORIM, Manoel Carpena. Responsabilidade Penal da Pessoa Jurídica. Revista da EMERJ, v.3, 2010.
Disponível em: http://www.emerj.tjrj.jus.br/revistaemerj_online/edicoes/revista10/revista10_23.pdf. Acessado em 19/02/2018.
48 ROCHA, João Carlos de Carvalho. Política nacional do meio ambiente. 25 anos da Lei. Edição 6.
Disponível em:
https://books.google.com.br/books?id=3xthMaGBENUC&pg=PA391&lpg=PA391&dq=artigo+51+c%C3%B3d igo+penal+holandes&source=bl&ots=C5k6upy1fV&sig=egPljyp7gIhM1rfQc8mkU9uTU_w&hl=pt-
BR&sa=X&ved=0ahUKEwiztqPL5LLZAhULGpAKHUo2B8QQ6AEIWzAE#v=onepage&q=artigo%2051%20 c%C3%B3digo%20penal%20holandes&f=false. Acessado em: 19/02/2018.
49 RIBEIRO, Lúcio Ronaldo Pereira. Da responsabilidade penal da pessoa jurídica. Revista dos Tribunais. V.
38 São aplicadas multas administrativas, como sanções às contravenções cometidas pelas entidades, sendo apenas necessário o comportamento antijurídico, independente de culpa. Na parte processual, a acusação é feita pela Administração e não pelo Ministério Público, vigorando o princípio da oportunidade, o que mostra que o processo pertence, de fato, à alçada do Direito Administrativo.
O artigo 30 do Código Penal Alemão prescreve a aplicação de uma multa contra a pessoa jurídica se seus órgãos tiverem cometido delitos ou contravenções, sendo a multa proporcional ao benefício, no entanto, essa sanção é possível apenas quando a pessoa física também for considerada culpada.50
Ainda quanto às sanções, a autoridade administrativa pode impor pena de confisco e repetição de indébito quando os delitos cometidos se referirem aos preços das mercadorias, como no caso de praticar preços abusivos.
Nos seus artigos 8º e 10º, o código contempla o confisco da pessoa jurídica no caso de superávit, ou seja, diferença entre o lucro obtido e o lucro permitido. Ressalta-se que na Alemanha, o Estado tem a regulação de preços e da percepção de honorários, constituindodelinquência econômica qualquer cobrança divergente do prescrito.
3.3.6 França
O Código Penal Francês adota a responsabilidade penal das pessoas jurídicas por ato de seus representantes ou próprios.
Na Seção 02 do Título III, o código prevê as penas aplicáveis às pessoas jurídicas, nele chamadas de “pessoas morais”. Como exemplo, são citadas as penas de multa e penas privativas ou restritivas de direito.51
O código penal em comento tem se demonstrado o mais viável a ser estudado como exemplo de uma responsabilidade penal da pessoa jurídica. Uma análise pormenorizada se faz necessária para melhor compreensão dos artigos, mas está longe da alçadado presente trabalho.
50 Op. Cit.
51 FRANÇA. Code Pénal. Disponível em:
https://www.legifrance.gouv.fr/affichCode.do;jsessionid=C2D5B2D4E715A4FC2549188B8B636FAC.tplgfr41s _2?idSectionTA=LEGISCTA000006181734&cidTexte=LEGITEXT000006070719&dateTexte=20180220. Acessado em 19/02/2018.
39 Por derradeiro, algumas penas previstas neste código para as infrações de maior gravidade, como os crimes contra a humanidade, tráfico de drogas e o terrorismo, são a dissolução da sociedade, bem como o confisco de bens e o fechamento de um ou de vários estabelecimentos da empresa que cometer a infração, os quais são exemplos de punições eficazes para inibir e interromper a continuidade delitiva de grandes corporações.
Dessa forma, essas penas são as mais eficazes para a repressão das pessoas jurídicas de grandes proporções, como é o atual problema da macro-criminalidade, encontrado em todo o mundo, no qual as pessoas jurídicas são utilizadas como escudo dos delitos dos seus representantes.
40
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante das reflexões trazidas no presente trabalho – que não tem a pretensão de examinar por completo a problema da responsabilidade penal da pessoa jurídica, nem teria como fazê-lo – a conclusão inevitável é pela necessidade de uma reinterpretação das tradicionais correntes do direito penal.
Conforme visto nos capítulos anteriores, a responsabilização de pessoas jurídicas, por si só, não é uma novidade do direito, mas remonta ao direito romano e decorre, aliás, da própria idéia de personalidade jurídica. Se a responsabilidade é consequência do dever jurídico, e este decorre da personalidade jurídica - a capacidade de titularizar direitos e deveres - então o reconhecimento da personalidade jurídica a entes coletivos implica como consequência a possibilidade de sua responsabilização.
No entanto, no âmbito especificamente penal, surge um problema que decorre da teoria do crime e dos conceitos básicos de conduta, vontade, dolo e culpabilidade, que são pressupostos para a aplicação da pena. Conforme demonstrado no capítulo primeiro - que analisou a teoria causal, a teoria social e a teoria finalista do crime - a formulação tradicional do direito penal é aplicável exclusivamente aos atos humanos individuais e voluntários.
Por outro lado, a sanção penal não pode ocorrer sem a culpa, e esta dificilmente pode ser percebida em uma pessoa jurídica, pois pressupõem elementos - conhecimento da ilicitude, livre-arbítrio para determinar a própria conduta, etc - que somente um ser humano concreto pode possuir, como discutido no capítulo primeiro, onde foram expostas as teorias psicológica, psicológico-normativa e normativa pura.
Assim, do ponto de vista subjetivo - do autor dos crimes - não há espaço para a responsabilização de pessoas jurídicas. Do ponto de vista objetivo, porém - os bens jurídicos gravemente lesados e o nexo de causalidade pelo qual sofrem a lesão - surgem diversas situações em que o centro da situação delitiva é ocupado por uma pessoa jurídica, ou um de seus departamentos, às vezes constituído unicamente para o cometimento dos ilícitos (como é o caso do célebre "setor de propina" da Odebrecht, empresa investigada pela Operação "Lava Jato" da Polícia Federal).
Situações como essas têm provocado reflexões jurídicas extensas acerca dos limites da teoria penal clássica e da necessidade de uma punição mais grave do que a civil ou administrativa - isto é, de caráter criminal - às empresas que se dedicam à prática sistemática de crimes. Surgiram várias alternativas à responsabilização penal, examinadas no primeiro
41 capítulo, como a responsabilização civil subsidiária, as medidas de segurança, sanções administrativas, medidas mistas (sem incluir, evidentemente, responsabilização penal exclusiva dos dirigentes e dos administradores, que jamais entrou em discussão), mas todas elas se revelaram insatisfatórias diante da possibilidade de mudança dos conceitos fundamentais da teoria do crime e da culpa.
Diante do impasse teórico, tentou-se analisar, à luz do direito positivo, os métodos legalmente reconhecidos de responsabilização da pessoa jurídica, primeiro no ordenamento brasileiro - representado, neste assunto, pela Constituição Federal e pela Lei de crimes ambientais - e, depois, no direito estrangeiro. Com esta análise, ficou claro que os conceitos teóricos tradicionais do direito penal não precisam necessariamente ser abandonados, mas sim reinterpretados para possibilitar a punição de pessoas jurídicas.
Com efeito, a pessoa jurídica não tem, certamente, uma vontade individual, mas pode-se falar que há sim uma vontade institucional, expressa pelos representantes designados no seu estatuto, e esta vontade institucional é livre e consciente como a vontade individual, podendo, por conseguinte, visar a um fim ilícito e, com isso, tornar-se merecedora de repressão penal. A função preventiva da pena - outro obstáculo comumente suscitado contra a responsabilização de pessoas jurídicas - não fica prejudicada por esta. Embora a pessoa jurídica não seja capaz de se "arrepender" como uma pessoa física, a sanção penal privativa de liberdade é capaz de inibir crimes mesmo na continuidade de funcionamento da pessoa jurídica, pois os novos diretores e representantes constituídos após a punição daqueles que praticaram crimes temerão igual destino se, como esses últimos, ousarem se esconder por trás da ficção jurídica para violar a lei penal.
Dentro dessa perspectiva, a modificação do atual sistema criminológico, dando maior destaque aos crimes de grandes proporções e que se utilizam de personalidades jurídicas, é necessária para um maior e mais efetivo combate aos agentes infratores, bem como para a dar à sociedade uma resposta segura acerca do sistema punitivo do Estado, cuja confiança perante a população precisa ser recuperada.
A imputação de sanções às pessoas jurídicas significa, assim, um avanço no sistema penal brasileiro que vai ao encontro das prementes necessidades contemporâneas.
É certo que o sistema atual é ainda ineficaz frente à criminalidade corporativa e, por mais que existam divergências quanto ao princípio da impossibilidade de as pessoas jurídicas delinquirem, é fato que praticamente todos os países aceitam como necessária a previsão de medidas punitivas para as corporações. Existem dificuldades doutrinárias muito
42 discutidas que impedem os contrários à tese da imputação penal às pessoas jurídicas de adotarem a tese oposta.
Contudo, também é certo que não será apenas a previsão de responsabilidade penal das pessoas jurídicas suficiente para a solução do problema da macro-criminalidade, mas é certo que é um importante instrumento de combate a esse quadro, e os sucessos identificados em alguns países, notadamente a França, dão crédito a essa afirmação.
Assim, dentro da realidade contemporânea jurídico-penal atual, a inércia legislativa mostra-se prejudicial à sociedade, dando maiores liberdades aos agentes delinquentes para continuarem suas infrações, utilizando-se de corporações para escaparem de uma efetiva punição estatal, o que torna necessária uma reinterpretação doutrinária da teoria do crime já consolidada na legislação e na jurisprudência a fim de incentivar que os legisladores e magistrados ampliem a punibilidade das pessoas jurídicas a fim de acompanhar a crescente complexidade da criminalidade macro-econômicano país.
43
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44 BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal: Centro Gráfico, 1988. 292 p.
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