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Somos nossa memória, somos esse quimérico museu de formas inconstantes, esse monte de espelhos partidos.

Jorge Luis Borges

No decorrer desta dissertação foi possível acompanhar a mudança de pensamento de um conhecimento fechado e circular para um conhecimento aberto e multidirecional. Nesse sentido, as obras de Jorge Luis Borges e Peter Greenaway foram essenciais para se compreender essa mudança de perspectiva e solidificar uma ideia de inclassificável ligada às noções de metamorfose e virtualização. A partir da potencialidade de um mundo estruturado em rede, tornou-se viável a concepção de outros critérios para classificar e ordenar o universo, sendo esses essencialmente perecíveis e transitórios. Não existe mais um modelo de mundo ideal, que se fundamente na totalização do saber. A análise das obras desses autores mostra que só é possível apreender o mundo contemporâneo por meio de critérios fluidos e mutáveis.

Apesar das semelhanças visíveis entre as obras de Borges e Greenaway, há também uma série de diferenças que não foram exploradas neste trabalho por não fazerem parte do objetivo do mesmo. Uma das principais distinções que identificamos diz respeito à ideia de infinito. Borges parece se interessar pela infinitude para desvendar o funcionamento do mundo, investigando, em ―O idioma analítico de John Wilkins‖, por exemplo, como a necessidade do homem de classificar e ordenar tudo se insere no esquema divino. Uma língua que se oferece como acabada e suficiente é um desafio ao aspecto infinito do próprio universo e das mudanças inerentes ao tempo. Para Borges, existe um questionamento ligado à natureza das coisas. Isso também vai refletir em seu trabalho como tradutor, incorporando textos distintos para mediar o diálogo entre o mundo e a literatura.

Já para Greenaway, o desejo de subverter a ideia de totalização está mais centrado na atualização da arte cinematográfica. O que percebemos é que seu principal objetivo ao trabalhar a noção de infinito é revelar o aspecto ilusório do próprio cinema, quebrando o estatuto da ficção e o pacto com o espectador. No final do filme A última tempestade, Próspero afirma que essa história pode ser contada infinitamente e de todas as maneiras possíveis, perpetuando a obra de Shakespeare. Greenaway parece se preocupar, o tempo todo, em mostrar como tudo não passa de ficção. O simulacro é desvendado e aponta, de forma

irônica, para uma ―representação da representação‖. Talvez, por isso, a noção de infinito seja fundamental para a sobrevivência da arte.

No entanto, o trabalho de tradução em ambos se torna uma via de diálogo constante para a virtualização do texto. Por meio da noção de inclassificável, eles compõem uma rede de referências que problematizam os textos homenageados. Além disso, tanto Borges quanto Greenaway trabalham com a simulação e a constante mistura entre os papéis de leitor e autor. Eles antecipam, mesmo que precariamente, a ideia de interatividade, desmantelando o comportamento passivo do leitor e do espectador. Por meio de estratégias hipertextuais, convidam o leitor a participar da tradução e construção do texto. As obras desses autores se articulam de forma enciclopédica – tendo como referência o modelo de produção do conhecimento virtual –, pois são remodeladas e reconstruídas a partir da contribuição de cada leitor.

Essa ideia de tradução está diretamente ligada ao virtual, permitindo o contato entre as mais diversas linguagens na contemporaneidade. O conceito de texto em Borges e Greenaway nos permite pensar a concepção artística hoje como uma produção híbrida, aberta a todas as possibilidades. Não existe mais uma classificação fechada e definitiva da arte. Ao contrário, a criação se tornou o lugar da convergência, da justaposição. Para Arlindo Machado, não por acaso a contemporaneidade tem sido marcada pela sinestesia. Para ele, no movimento de fusão entre as mídias, ―a música é visual, a escultura é líquida ou gasosa, o vídeo é processual, a literatura é hipermídia, o teatro é virtual, o cinema é eletrônico e a televisão é digital‖ (MACHADO, 2007, p. 72). Tudo se mistura, como se a arte também fosse uma enorme enciclopédia, convocando a colaboração constante do outro e incorporando todas as formas de linguagem em um só lugar.

Dessa forma, percebemos um processo de ressignificação do caráter enciclopédico, em que a ordem dos saberes abandona a estrutura hierárquica do conteúdo para dar lugar à simultaneidade. Não existe uma ordem de relevância ou distinção entre os saberes. Ao contrário, as enciclopédias virtuais se abrem para qualquer tipo de conhecimento, sem julgamento de valor. Na rede, podemos encontrar informações sobre eventos científicos e sobre as celebridades da moda, por exemplo. Tudo na mesma plataforma, no mesmo topos. E esse saber está sendo recriado a todo o momento por várias pessoas, que se encontram em lugares e tempos diferentes. Esse arquivo do ―conhecimento‖ ou da ―informação‖ é renovado e ampliado a cada novo acesso, alterando, permanentemente, os contornos da enciclopédia.

Esse processo de escrita colaborativa é também um recurso muito utilizado em blogs, grupos virtuais e comunidades de relacionamento. Com a diminuição das fronteiras entre as pessoas pela web, é possível criar uma rede de textos, imagens, sons, vídeos etc. em que o trânsito de informações coloca a linguagem em movimento. Essa mudança de perspectiva contribui para uma aproximação entre linguagens diferentes, incentivando as misturas semióticas. É possível pensar que a textualidade, no ambiente virtual, pode ser experimentada como nos filmes de Peter Greenaway, em que a abertura de janelas e a colagem de elementos diversos favorecem uma narrativa não-linear e repleta de interações. Além disso, a articulação entre vários signos, como no caso da Wikipédia, retoma as discussões sobre a impossibilidade de uma língua universal, visto que sua estrutura acompanha a dinamização da linguagem, inclusive incorporando, de acordo com o contexto inserido, os neologismos e as expressões culturais.

No entanto, apesar de se configurar como um espaço inclassificável, por abarcar qualquer tipo de conteúdo sem discriminação, o que percebemos é que as enciclopédias virtuais também criam seus próprios sistemas de classificação. No intuito de contemplar alguns usuários mais frequentes, a Wikipédia cria classes hierárquicas para a produção, edição e disseminação dos verbetes. Por meio da licença, que regulamenta as relações entre a enciclopédia e os usuários, ela mantém, mesmo que disfarçadamente, uma noção de autoria. Isso pode influir negativamente sobre seu discurso democrático, em que a informação deve ser livre e utilizada por todos.

Outro ponto importante é a extinção da noção de circularidade, de completude. Apesar da ilusão de abarcar todo o conhecimento humano, justamente por sua capacidade ilimitada para o armazenamento de informações, a rede virtual se alarga em direção ao infinito, ao permanente estado de incompletude. Voltando ao Aleph (2003a) de Borges, a Wikipédia seria uma espécie de ponto de convergência entre vários elementos distintos. Ela poderia ser compreendida a partir da visão de Daneri, como um espaço aberto e dinâmico, que se estenderia ao infinito.

No entanto, essa imagem nos provoca um desconforto em relação à memória. Nesse ambiente de coisas fluidas e dinâmicas, em que tudo pode ser registrado e indexado, como podemos apreender a construção da memória? Pensando na capacidade de Funes de acumular tudo, o universo virtual seria uma forma de não esquecer, de guardar cada detalhe, de recensear toda a experiência humana. Isso pode gerar um paradoxo. Como podemos construir uma memória sob o signo do inclassificável? Ao mesmo tempo em que tudo é

arquivado, a noção de inclassificável traz uma provocação, pois revela o caráter transitório das coisas. Então, que tipo de memória está sendo moldada quando tudo é tão instantâneo e acelerado? Além disso, como falar em ―memória‖ quando não existem seleção, critérios ou a dualidade do próprio esquecimento?

Hoje, o que identificamos é uma necessidade de captar e acumular textos e imagens como garantia de organização e manutenção de uma memória. O espaço virtual se apresenta como um grande arquivo que reúne uma miscelânea de vivências. E isso também passa pela construção da identidade. As redes sociais se tornaram uma ferramenta para a manutenção da história que cada um pretende contar. Esse ―arquivo memorialístico virtual‖ se apresenta como uma parte fundamental da existência, uma espécie de enciclopédia do humano que abarca vários elementos vindos de lugares e temporalidades distintas. Nesse arquivo virtual em que se processa a memória, também se fundamenta a construção do sujeito e de seu lugar no mundo. E essa identidade é mutável, volátil, está em constante modificação. Tudo isso acontece na fronteira entre o público e o privado. É nesse local que se configura a troca, que se perde a autoria, que se desmancha a antiga noção de privacidade. Cada um cria seu próprio avatar, configurando-se como uma nova forma de sociabilidade.

Dessa maneira, é necessário ter uma visão cautelosa do universo virtual. A produção e assimilação do conhecimento em rede é uma maneira ágil e eficaz de responder às necessidades da nossa época. As pessoas estão conectadas o tempo todo. Entretanto, a credibilidade desse saber também deve ser problematizada, passando inclusive pela reformulação dos processos educacionais. Pensando nos problemas enumerados por Surowiecki (2004) e Duguid (2010), a Wikipédia poderia perder sua função enciclopédica, pois não seria um círculo do conhecimento, mas de informações aleatórias, uma espécie de ―museu de tudo‖, estigmatizado como Funes: ―eu sozinho tenho mais lembranças que terão tido todos os homens desde que o mundo é mundo [...] Minha memória, senhor, é como um monte de lixo‖ (BORGES, 2007b, p. 105).

De maneira geral, a web trouxe uma facilidade de acesso a todo tipo de informação, permitindo uma abertura e uma via de diálogo entre os mais diferentes campos. Essa estrutura enciclopédica transdisciplinar e intermidiática é apenas um dos caminhos para se pensar a construção do conhecimento na contemporaneidade, pois se trata de um tema volátil, que está em constante transformação, constante estado de devir.

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