2.3. HİZMET İÇİ EĞİTİM
2.3.5. Öğretmenlere Yönelik Hizmet İçi Eğitim
No final da década de sessenta, o economista Celso Furtado, ao analisar os problemas da economia brasileira no ensaio “Um projeto para o Brasil” (1966), alertava os militares dirigentes para a permanência dos graves estrangulamentos na estrutura do país. De onde a necessidade de se elaborar uma estratégia de planejamento, de forma a introduzir o país para um “verdadeiro ciclo virtuoso de crescimento econômico”. Acreditando na possibilidade do Estado realizar um projeto garantidor de desenvolvimento sustentável, com adoção de medidas para além do simples desdobramento das preexistentes, o Projeto prega as necessidades de Reforma Agrária, formação de capital humano (cientistas e pesquisadores) e tecnologia independente, fatores indispensáveis para o rompimento do ciclo de concentração de renda e capital. Ou seja, se a concentração espacial maximiza as economias de aglomeração em um país, o aumento isolado das indústrias de bens de capital no sistema produtivo, caso não se estimule complementaridade entre as produções regionais, criam-se entraves estruturais, em especial entre aquelas regiões “de oferta mais inelástica”, como o caso das áreas produtoras de matérias-primas, que apresentam degradação em termos de intercambio. Neste caso, afirma, “é grande a probabilidade de que a poupança gerada de todas elas tenda a inverter-se na mais desenvolvida, pelo simples fato de aí as economias externas são maiores”. (Furtado. Um projeto para o Brasil. Op.cit. p. 51).
Se esta explicação é verdadeira, então qual o resultado deste processo sobre as relações de trabalho? Para Furtado esta concentração provoca um custo marginal desnecessário e insuportável, já que, por um lado, a espacialidade dessas relações reflete a mobilidade de pessoas que se vêm atraídas para as regiões mais desenvolvidas, aumentando a tendência de queda dos níveis salariais em função da oferta de mão-de-obra. Por outro lado, criam-se diferenciais fiscais das regiões produtoras em detrimento das regiões consumidoras, refletindo a espacialização da concentração de renda, com impacto sobretudo nas regiões de predomínio de recursos naturais e mão-de-obra subutilizada ou ociosa. Outro problema da concentração de renda, afirma, diz respeito a um problema de demanda global, provocado pela ortodoxia das
decisões econômicas adotadas pelos tecnocratas responsáveis que tomam decisões baseadas apenas na produção e nos investimentos, em detrimento de um padrão de distribuição de renda. (Idem. Idem. pp.52-7). Vale a pena recordar o que escreve:
“A hipótese de base, ponto de origem das principais diretrizes esboçadas, é a seguinte: existe no sistema econômico deste país uma deformação estrutural que
se traduz no perfil da demanda global. Essa deformação é responsável pela lenta
penetração do progresso tecnológico em nossa economia e pela escassa difusão dos frutos dos aumentos de produtividade. Em outras palavras em razão de certas particularidades estruturais, a economia brasileira não está em condição de beneficiar-se na forma que lhe corresponde – tidos em conta os seus recursos naturais, a dimensão de sua população e o nível de desenvolvimento já alcançado – desse instrumento responsável pela rápida transformação do mundo atual, que é a tecnologia moderna”. (Id. Id. p.15. Grifos nosso).
Conclui o raciocínio referindo-se à vinculação existente entre os diversos setores da sociedade brasileira, articulados com a questão social da desigualdade e da pobreza, a pressão da demanda e a incapacidade de poupança e investimento interno:
“Demais a referida deformação se traduz, no plano social, por uma extremada concentração dos benefícios do progresso técnico ali onde ele ocorre. Veremos que existe um processo causal circular entre a forma como se assimila a tecnologia moderna e a concentração de renda, o que exige, se se pretende romper o ciclo vicioso, que se concentre a pressão sobre um dos elos da cadeia. [...]. A segunda idéia básica, que se articula com a primeira, é que a estrutura
agrária [...] constitui uma segunda face deformada do sistema econômico deste país. Assinala-se o incomensurável desperdício de mão-de-obra e a baixa
eficiência no uso do capital [....] na presente organização da agricultura brasileira.
Sugere-se que o problema seja atacado mediante um esforço visando à elevação a prazo curto, do nível de vida do terço inferior da população rural, cuja extrema miséria e insuficiência alimentar são em si mesmas sérios obstáculos à elevação da produtividade em grande parte do setor agrícola. Sugere-se [...] um ataque ao
latifúndio nas frentes pioneiras e nas regiões já beneficiadas pelo moderno sistema de transportes. Sem um ataque direto ao latifúndio, a deformação
profunda que existe nessa face do sistema econômico não será eliminada”. (Id. Id. pp.15-6. Grifos nosso).61
Entretanto, o período militar tem sido equivocadamente considerado de cunho "desenvolvimentista”. Como demonstrado pelo economista Wilson Cano, em Soberania e política econômica na América Latina (2000), o padrão „industrializante‟ do Brasil no período militar foi negativo para o país e tem por saldo o aumento da carga tributária sobre os consumidores, como medida de financiamento dos gastos públicos federais; o estabelecimento de nova política do trabalho através da redução da estabilidade empregatícia, substituída em 1967 pelo Fundo de Garantia de Serviço (FGTS), que suprimiu os direitos à estabilidade adquirida62; criação de novos ajustes fiscais; implementação do 13º salário, como medida de reajuste salarial via repasse do „resíduo inflacionário‟, com cálculo de média do salário-base anual, medida que ajudou a corroer o salário médio real dos trabalhadores e manteve baixo as médias de consumo e a capacidade de poupança; desaceleração do emprego e aumento da migração dos campos para as cidades; deterioração do ensino público e expansão do ensino privado; enfraquecimento das pequenas e médias empresas e das empresas estatais lucrativas dos setores siderúrgicos e de minérios (Cia. Siderúrgica Nacional, COSIPA, Petrobrás e Vale do Rio Doce) que nos anos oitenta - governo João Batista Figueiredo/Ministério Delfim Neto – foram contingenciadas a atuarem com preços fixos e tomarem empréstimos no exterior para financiar o Tesouro Nacional destituído de crédito externo,63 e para permitir o governo praticar uma política de contenção da inflação. (Cano. Id. pp. 182-4). O resultado social foi o agravamento da distribuição de renda: a renda apropriada pelos 20% da população mais pobre caiu de 3,9% para 3,4%, de 1960 a 1970, enquanto a dos 10% mais ricos subia de 39,6% para 46,7%. (Id. Id. p.187).
Estávamos longe do sentido de “desenvolvimento” indicado por Furtado, para quem “...desenvolvimento não é uma simples questão de aumento de oferta de bens ou de acumulação de capital, possui ele um sentido, é um conjunto de respostas a um projeto de autotransformação de uma coletividade humana”. “o
61 A análise hoje clássica, de Celso Furtado, permanece atual, como indicam os estudos recentes.
62 O FGTS garantia o governo financiar políticas habitacionais no país, com os recursos do próprio pecúlio do fundo dos trabalhadores.
63 Trata-se, aqui, da crise da dívida externa brasileira, aumentada em conseqüência dos juros, spreeds e senhoriagens exigidas pelos banqueiros internacionais, após a crise do petróleo de 1974.
sentido do desenvolvimento decorrerá do projeto de autotransformação que se crie na coletividade, ou nos grupos que nela exerçam uma atividade política. O fator dinâmico não será jamais condição suficiente para o desenvolvimento.” (Furtado. Id. pp.19-20). Na década de oitenta, tanto no Brasil como na Argentina, a confluência entre ditadura militar, hiperinflação e endividamento externo foram fatores importantes para o avanço do neoliberalismo. Se o peronismo e seu espectro permitiram o desenvolvimento de um movimento operário forte na Argentina, o avanço do neoliberalismo desestruturou este espaço de resistência, através da adoção de um modelo de privatizações irrestrito, que provocou brutal transferência de renda e de patrimônio nacional, desmobilizando e desarticulando os sistemas de proteção social (inclusive algumas conquistas socialmente mais avançadas do que no Brasil) e abolindo os direitos sociais.
No caso brasileiro, a desestruturação do modelo econômico, dos anos setenta, e a abertura econômica ocorreram de forma mais lenta, freando a possibilidade de recuperação do crescimento e impedindo que a cidadania social fosse além de sua formalização e reatividade. Nesse aspecto, o Movimento pela Redemocratização do país, a partir das Diretas Já (1983) e a Campanha de apoio à disputa presidencial de Tancredo Neves, que possibilitou a derrota do candidato do regime militar (Paulo Maluf) na votação do Colégio Eleitoral, contribuiram para a mobilização de milhares de pessoas, que foram às ruas em todo o país, exigindo abertura política, eleições diretas e cidadania social.64 De fato, a palavra chave do processo de redemocratização do país – “cidadania social” - forjou as bases da Constituição de 1988, a “Carta Cidadã”, denominação empregada pelo Presidente da Câmara, deputado Ulisses Guimarães, quando de sua aclamação no Congresso Nacional.
O conceito de “cidadania social”, impulsionado pelas idéias de participação popular e poder local no Brasil, repousa no ideal de realização democrático de uma “política de unidade”, em que todos os eleitos e eleitores independem de posição partidária. Igualmente as idéias de descentralização da gestão municipal por um Conselho deliberativo (poder de decisão das cidades) se forjam a partir
64 O primeiro comício que marcou o lançamento nacional da Campanha Presidencial de Tancredo Neves foi realizado em Curitiba no dia 12/01/1084 e reuniu 30.000 pessoas. Daí por diante dezenas de comícios foram realizados por todo o país. O último deles, no dia 16/04/1984, reuniu cerca de 1,5 milhão de pessoas no Vale do Anhangabaú, em São Paulo.
das idéias de “Democracia” e “Estado representativo”, como promotores da construção da “cidadania social”, incluindo nestas propostas a garantia do salário mínimo, a idéia de dever do Estado na proteção do adolescente, do idoso e do consumidor, e direito ao acesso universal e igualitário à saúde. (Artigo 196). (CÂMARA DOS DEPUTADOS. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF. 1988). A estes princípios inalienáveis de direito social, firmados pela Constituição do Brasil, acrescenta-se a erradicação do analfabetismo e universalização do atendimento escolar, melhoria da qualidade de ensino, formação para o trabalho e promoção humanística, cientifica e tecnológica do país (artigo 214).
Os princípios de soberania popular encontram-se expressos no Artigo 14: “A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos, e no exercício da lei, mediante plebiscito, referendo, iniciativa popular”. Artigo 6º: “São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição [...]”.
O artigo 29 prevê, sem regulamentar, a Lei Orgânica das Cidades, com “cooperação das associações representativas no planejamento municipal” (§ X) e “iniciativa popular de projetos de lei de interesse específico do Município, da cidade ou de bairros, através de manifestação de, pelo menos, cinco por cento do eleitorado” (§ XI). Também, o artigo 204 sobre ações governamentais, avança na “descentralização político-administrativo, cabendo a coordenação e as normas gerais à esfera federal e a coordenação e a execução dos respectivos programas às esferas estadual e municipal, bem como a entidades beneficentes e de assistência social” (§ I) e “participação da população, por meio de organizações representativas, na formulação das políticas e no controle das ações em todos os níveis” (§ II). (Constituição da República Federativa do Brasil. DF, 1988).
Apesar da Carta expressar os maiores anseios dos cidadãos brasileiros, os direitos sociais fundamentais, contidos nos artigos e incisos da Constituição, jamais foram plenamente regulamentados. O que facilitou os contínuos ajustes e mesmo revogações de direitos consolidados ocorridos nas duas últimas décadas. Desde a redemocratização, dos anos quarenta, discutia-se no Brasil a necessidade de se avançar para além da democracia formal e se implantar, a
nível municipal, uma gestão democrática participativa da população. Os anos setenta assistiram expressivos debates acerca do funcionamento do regime federalista brasileiro.65 Assim, as discussões sobre as possibilidades de se forjar no Brasil uma democracia baseada em relações institucionais descentralizadas, com horizontalidade nas relações políticas e decisórias dos municípios, antecede a fundação do PT ou as discussões sobre uma terceira via de desenvolvimento (iniciativa do PSDB, liderado por Fernando Henrique Cardoso).
Sem embargo, se a implantação de bandeiras como “Orçamento Participativo”, “Plano Diretor”, “poder local”, “descentralização de poder”, se devem em grande medida à centralidade das agendas petistas de governo, as primeiras experiências de participação popular e exercício de poder político organizativo e negociador com setores amplos da sociedade, surgiram no bojo da resistência à ditadura militar. Estas experiências serviram de base para a implantação do modelo participativo da denominada „sociedade civil organizada‟. São, deste período, as experiências administrativas de gestão e participação popular de poder local desenvolvidas por Prefeituras dos Municípios de Piracicaba (SP), Lajes (SC) e localidades do Rio Grande do Sul, que serviram de modelo para forjar as diretrizes do Programa do PT, relativo ao Poder Local Participativo, Orçamento Participativo e Plano Diretor, aplicadas em diversas municipalidades petistas, nos anos 90. Entretanto, as experiências locais mais conhecidas, Piracicaba-SP e Lages-SC, tiveram origem em experiências mais remotas dos anos cinqüenta, surgidas da necessidade dos Prefeitos de alguns municípios lidarem com a questão da pobreza urbana66, inaugurando os debates
65 A respeito, a tese de doutorado do jurista Victor Nunes Leal, Coronelismo, Enxada e Voto. Estudo do
Municipalismo no Brasil, de 1946, reeditada em 1975 pela Editora Alfa-Omega, São Paulo, já refletia esta
temática. De mesmo a repercussão das mudanças introduzidas no ICMs, prejudicando Estados e Municípios, divulgada por livros de editoras, como a Brasiliense, que publicava os discursos de lideranças parlamentares do MDB, sobre estas e outras questões, e denúncias polêmicas, a exemplo de Sem ódio e Sem medo, do líder de oposição Marcos Freire, em pleno regime da repressão militar.
66 Trata-se das experiências associativas do Rio Grande do Sul: a FRACAB (Federação das Associações Locais do Rio Grande do Sul), fundada nos anos 1950, e a Liga Inter-Bairros Reivindicatória e Assessora (Liga Intra-Bairros) nos anos 60, em Porto Alegre, serviram de modelo para o PDT-Partido Democrático Trabalhista de Leonel Brizola, que encampou em sua agenda a defesa do direito deliberativo e associativo do poder local, como importante coadjuvante para as administrações das municipalidades. (Carta de Lisboa, 17/06/1979). Mas somente com as gestões petistas de Belo Horizonte, Ribeirão Preto, Porto Alegre e Distrito Federal, o projeto de descentralização pode ser concretizado e repercutiu em maior dimensão.
sobre a urgência de uma Reforma Urbana que incluísse o problema da “habitação como interesse social”.67
A Lei Federal nº 6766, de 19 de dezembro de 1979, previa em seu Estatuto a necessidade do Distrito Federal, dos Estados e Municípios adequarem suas políticas de parcelamento e aproveitamento do solo urbano às peculiaridades das necessidades regionais e locais. É significativo o exemplo do Plano Local de Desenvolvimento Integrado de Piracicaba, conhecido como Plano Guedes, de 1975, que estabelecia as diretrizes para um crescimento físico-territorial compatível com práticas de planejamento urbano e de gestão local. O Plano, elaborado pelo engenheiro e planejador Enildo Pessoa, a partir da experiência de Planejamento realizada pela Prefeitura de Campinas, gestão Orestes Quércia, ressalta a necessidade em se pensar metas e instrumentalização geradoras de renda e emprego, com ênfase no amplo processo de uma „cidade democrática‟, de orientação democrática-política e com participação popular.68 Portanto, se o marco de consolidação das experiências de governança urbana e orçamento participativo, posteriormente desenvolvido pelas Prefeituras de Belo Horizonte, Porto Alegre e São Paulo, situa-se nos anos 90, estes modelos foram fruto de experiências anteriores.69 O mesmo vale para as idéias de participação descentralizada, aberta aos diferentes segmentos da sociedade.